Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

ano do coelho

Pelo horóscopo chinês, começa dia 3 de fevereiro o ano deste animal. Nada de espetacular se espera, segundo um mestre, cujas opiniões leio neste release:

Ano do Coelho

 Para os chineses, o ano 4709 começa oficialmente às 0h do dia 3 de fevereiro e ele será regido pelo coelho. Para o especialista no zodíaco chinês, Mestre I Ming, o ano do coelho será um ano maleável. “2011 será um período de colheita para quem se esforçou no ano passado. O mundo terá mais compreensão e ajudará os menos favorecidos. A economia mundial passará por incertezas e não chegará à sua recuperação total. O Brasil terá um bom destaque no palco político mundial, embora a sua economia cresça menos se comparado com 2010. Por sorte, o mundo sofrerá menos com a ira da natureza. No campo pessoal, para crescer, os indivíduos precisarão estudar, confiar no que faz e atuar com rigor”, prevê o especialista.

Gosto desse "prevê o especialista".

Escrito por Marcelo Coelho às 12h49

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elitismo é isso aí

 
 

elitismo é isso aí

Eis o que um compositor escreveu a seu patrocinador, um banqueiro que era também príncipe:

 

[louvemos] os tempos mais belos, e infelizmente passados, em que um príncipe aparecia como protetor de um artista, mostrando à plebe que a arte, um assunto de príncipes, está além do julgamento do povo comum.

 

Trata-se de uma carta de Arnold Schoenberg, escrita em 1924, para o príncipe Egon von Furstenberg, que dava dinheiro para um festival de música contemporânea.

 

O mesmo Schoenberg entusiasmara-se com o início da Guerra de 1914, que serviria, no seu entender, para impor uma lição aos entusiastas de Bizet, de Stravinsky e de Ravel:

 

Reduziremos, agora, esses defensores do kitsch à escravidão e lhes ensinaremos a venerar o espírito germânico e o Deus alemão.

 

A primeira citação eu tiro da monumental História da Música Ocidental, de Richard Taruskin, e a segunda de O Resto é Ruído, de Alex Ross.

 

Claro que as opiniões políticas de um compositor não validam ou invalidam a qualidade de sua música. Mas então seria o caso de não condenar –como se faz alegremente nos meios “avançados”—a música de Carl Orff ou a maneira de reger de Herbert von Karajan.

 

O fato é que o “progressista” Schoenberg, sempre adorado pela esquerda nos passos do que escreveu Theodor Adorno, sai-se um bocado mal nesses dois livros, que refletem um grande esforço “revisionista” no que diz respeito à história musical do século 20.

 

Não se trata mais, como se fazia até os anos 1970, de defender um progresso linear na música, privilegiando sempre quem representasse a vanguarda mais radical. Quanto mais “modernistista”, mais de vanguarda, melhor –o critério de qualidade se tornava fácil de seguir, inclusive para quem não fosse músico ou para quem fosse totalmente surdo; é o que, em matéria de poesia, se viu na influência dos concretistas –que também davam suas opiniões sobre “Música radical”, “música de invenção”, etc. Leonard Bernstein, um esquerdista, era assim “de direita” porque ainda escrevia alguma coisa tonal. Felizmente esse patrulhamento vai sumindo.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h42

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Belas Artes (2)

Um simpático artigo de lembranças sobre o velho cinema está disponível neste link . Não seria má ideia, aliás, juntar vários textos desse tipo num livro, que abarcasse as diversas gerações que passaram por lá.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h42

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a questão do Belas Artes

Não acho das mais simples a ideia do tombamento do cine Belas Artes. Que eu saiba, pode-se recorrer ao tombamento quando o que interessa é preservar um prédio histórico. A construção se salva, mas ninguém pode garantir o modo como será utilizada.

No caso do Belas Artes, interessa manter duas coisas: um cinema de boa qualidade e a sua localização específica. Tombar o prédio, que em si não tem valor nem mesmo nostálgico, não resolve o problema. Ao mesmo tempo, desistir do prédio e recriar o Belas Artes em outro lugar, ainda que na mesma região, não tem a mesma graça.

O Belas Artes já passou por duas ou três reformas, depois de ameaças de fechamento semelhantes.

Na minha opinião, salvar o Belas Artes como está, e onde está, envolveria uma operação urbana maior e mais dispendiosa.

O antigo bar Riviera, que ficava em frente do Belas Artes, é um sintoma do problema que deveria ser resolvido. Foi um ponto de encontro histórico da boemia paulistana. Fechou. Do mesmo modo fecharam outros bares daquele lado da Consolação, enquanto do outro lado o Belas Artes resistiu ao lado de uma Casas Pernambucanas, e de uma sequência interminável de lojas de luminárias. Ligando o cinema ao bar Riviera, uma passagem subterrânea que sempre vai mal das pernas; consertam, renovam, mas depois entra em decadência de novo.

A calçada do Belas Artes é estreita demais para o público normal de um cinema.

Não há estacionamento por perto. Uma vez fiquei num, de um hotel ali do lado, e nunca vi caos igual.

Todo o eixo cultural daquela região se orienta no sentido oposto: a Livraria Cultura no Conjunto Nacional, o Espaço Unibanco, os lugares do Baixo Augusta, vão deixando o Belas Artes “de costas”, voltado para o vale do Pacaembu, meio abandonado e pendurado na calçada da Consolação.

Para torná-lo novamente um espaço culturalmente vivo, não basta desapropriar ou tombar o prédio. O ideal seria fazer daquela ligação entre Consolação e Paulista uma espécie de esplanada, se possível virando a entrada principal do Belas Artes para o lado da Paulista, e diminuindo ao máximo a circulação de carros naquele começo da Consolação...

Se é possível, não sei, mas o declínio do Belas Artes é também conseqüência de um declínio no seu uso; é a própria freguesia que vai mudando de lugar também.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h27

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embalagens antigas

 
 

embalagens antigas

Uma exposição simpática vai começar dia 20 de janeiro, no Museu do Ipiranga. Seu tema: papéis de bala e embalagens de chocolate. São parte de uma coleção de 5266 itens, doada por Egydio Colombo Filho ao museu, em 2003. Alguns exemplos, dos mais clássicos:

 

 

 

 

 

 

 

A exposição fica em cartaz de 20 de janeiro a 20 de março, de terça a domingo, das 9 às 17hs. Mais informações em www.mp.usp.br

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h25

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Chuva de ferro e plástico

Para continuar no assunto carros, vai aqui o começo do meu artigo desta quarta-feira na "Ilustrada".

No começo, tudo parece uma chuva de jujubas ou pétalas de plástico. Mas o significado do anúncio se esclarece logo em seguida: o que cai do céu são automóveis zero quilômetro.

        

A trilha sonora não dá ideia nenhuma do baque, mas imagina-se bem o que seriam as ruas de uma cidade se carros como aqueles despencassem sem aviso da estratosfera.

        

Nenhuma menção à ecologia ou à aventura nessa peça comercial. Fantasias de um rally africano, ou de um mundo em que flores nascessem de escapamentos, não parecem convir ao “público alvo” do anúncio.

        

 A delicadeza do início –origamis  transparentes pairando sobre a paisagem cinza— dá lugar ao peso da vendagem pura, quase assassina, desses meteoritos da felicidade popular.

        

Não sei se o anúncio foi feito no Brasil, mas parece corresponder bem à época que vivemos por aqui. Índices “robustos” de consumo, taxas “sólidas” de investimento, o estilo “firme” de Dilma e sua chegada ao Planalto parecem de fato trazer certa glorificação do pesado, do que baixou lá de cima.

        

Dizendo melhor, e sem tomar tudo num sentido negativo, o espírito do momento bem que poderia ser resumido pelo lema “sai de baixo”.

        

Sair de baixo, afinal, é o que muitos milhões de brasileiros conseguiram nesses anos, e isso não foi invenção da mídia, nem criação do PT, nem mérito apenas de Lula ou deles mesmos, nem simplesmente efeito retardado (e ponha-se retardado nisso) dos anos FHC.

         Foi tudo ao mesmo tempo, se quisermos; na verdade o debate se encontra tão partidarizado a esse respeito que fico quieto.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h51

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A inspeção veicular

         Depois de muita negligência, atraso e esquecimento, passei.

         Passei no teste da inspeção veicular nesta tarde –apesar de ter chegado ao misterioso centro fiscalizatório (que parece estar localizado num lugar inexistente) com parte da carroceria arrastando pelo chão. É o para-choque do carro que descolou há alguns dias –mas esse é assunto para outra vez.

         Compartilho da indignação de um leitor, reclamando contra a instituição em carta publicada nesta segunda-feira na Folha. Estabelecem a tal inspeção, cobrando (parece que depois devolvem) em vez de premiar quem tem o carro em ordem.

         Bom, talvez seja mesmo importante impedir que carros fumacentos andem soltos por aí.

         Mas fazer uma lei para que todos os carros do país sejam inspecionados todos os anos... A estrutura e o profissionalismo do local é impressionante. Acho que nem nos Laboratórios Fleury é maior a sensação de que tudo está organizado e que você não precisa ficar pedindo informações a esmo. Se é disso que se trata quando falam em “Parcerias Público-Privadas”, a coisa é de dar medo.

         Vale a pena reparar nas pessoas que estão à sua frente na fila. Basta receberem o tal certificado, que é visível a felicidade em cada rosto. Senti o mesmo, com bons motivos. A irritação de se submeter à exigência burocrática desaparece com a sensação do dever cumprido, e com as palavras de “parabéns” do inspetor, voltamos à felicidade infantil de quem passa de ano com boa nota.

         Ninguém mais se revolta com a imposição legal: o Estado me dá um certificado, uma medalha... Escapei; por que vou lutar contra a novidade?

         Talvez seja assim com toda estrutura estatal opressiva, que realmente funcione: eles não intimidam você pelo mero terror, mas pelo fato de ser possível escapar desse terror. A obediência é premiada, no mínimo com o alívio de não ser punido. Os puníveis são uma minoria de desajustados. Se se revoltam, é porque não tinham o motor em ordem.

         Da entrada para a saída do centro de inspeção veicular, você muda. Passa de cidadão revoltado para soldado do esforço público antipoluição. Ganha só um plastiquinho adesivo na frente do pára-brisa. Imagine num estado totalitário real, onde te dão prêmios, uniformes, fitas, distintivos, honrarias.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h37

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literatura engajada (2)

Continuo transcrevendo o primeiro capítulo de Some Versions of Pastoral, de William Empson (ver post anterior).

A Elegia escrita num cemitério campestre, de Gray, é um estranho caso de poesia com ideias políticas latentes:

 

         Full many a gem of purest ray serene

         The dark, unfathomed caves of ocean bear:

         Full many a flower is born to blush unseen

         And waste its sweetness on the desert air.

 

 

[Muita joia do mais puro e sereno raio

As cavernas escuras e inexploradas do mar escondem:

Muita flor nasceu para corar sem ser vista

E gastar sua doçura no ar deserto]

 

o que isso significa, como o contexto deixa claro, é que a Inglaterra no século XVIII não tinha nenhum sistema de bolsas ou de carrière ouverte à tous talents [carreira aberta a todos os talentos, ie, sem distinção de classe ou nascimento].

 

Isto é enunciado com patetismo, mas o leitor é colocado num estado de espírito em que não se sente com a menor vontade de alterar a situação. (É verdade que a sociedade de Gray,  diferentemente de  uma  possível sociedade mecanizada, baseava-se necessariamente em trabalho manual, mas poderia ter empregado uma pessoa de especial habilidade sem consideração a respeito de sua origem social). Comparando a organização social com a Natureza, o poeta a faz parecer inevitável, o que não era, e lhe dá uma dignidade não merecida.

 

Além disso, uma joia não se importa de ficar numa caverna e flores podem preferir não ser colhidas; nós sentimos que o ser humano é como uma flor, vivendo pouco, sendo natural e valioso em si,  e isso traz a perstidigitação mental de achar que ele viveria melhor sem novas oportunidades. A sugestão sexual de “blush” (corar) traz a ideia cristã de que a virgindade é boa em si, e que portanto toda renúncia é boa; isso pode nos levar a sentir que é uma sorte para o pobre coitado se a sociedade o mantém ignorado e obscuro.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h00

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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