Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Safatle, os católicos e eu mesmo

...e depois de todas estas críticas ao artigo dele, vai aqui o meu fraterno abraço ao Vladimir Safatle. Motivo: estávamos um perto do outro na Sala São Paulo, esta noite, durante as comemorações dos 90 anos da Folha.

Tudo ia muito bem enquanto líderes de diversas religiões faziam seus discursos. O xeique, a monja, o rabino, a mãe-de-santo, o espírita, o pastor. Sintoma do “desajuste comunicacional” que tanto prejudica a Igreja Católica, tudo piorou bastante quando falou o representante do arcebispo. Em vez de dar uma breve bênção ou fazer um comentário rápido sobre a divergência e a liberdade de discussão (qualidades dos seus antecessores), o católico engrenou um verdadeiro sermão, e terminou fazendo o que, naquele contexto, me pareceu uma violência simbólica.

Pediu a todos os preentes que se levantassem das cadeiras e se unissem na oração do Pai Nosso. Ora, a situação não era de missa. Ele não podia pedir nossa adesão. Claro que, por constrangimento, todo mundo se levanta. Me parece significativo que só a Igreja Católica ainda queira, digamos assim, angariar apoio no meio de uma festividade leiga. Só faltava passar a sacolinha.

Fiquei bravamente sentado na cadeira, e, vou logo dizendo, não é tão fácil assim. Quando todo mundo se levanta, parece que você está apenas criando caso por prazer, e vem a dúvida de se não está errada a sua atitude. Olhei para os lados: lá estava o Vladimir Safatle, sentado também. Foi um grande alívio.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h18

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Egiptologia à solta

Enquanto isso, sai traduzido no “Estado” de hoje um artigo de Thomas Friedman para o New York Times, que é uma pérola de otimismo sobre o futuro egípcio.

Vamos aos exemplos.

 

Alguns temem que o exército egípcio possa sufocar ainda no berço este movimento pela democracia no país. Pessoalmente, acho que o exército tem um pouco de medo da juventude da Praça Tahrir, que demonstrou tamanha destreza no uso do twitter.

 

Será?

 

O movimento democrático que saiu da Praça Tahrir é como um tigre que passou os últimos 30 anos vivendo numa cela minúscula (...) se um político tentar montar no tigre para satisfazer os seus próprios interesses estreitos, e não pelo benefício do Egito, ele também será devorado pela fera.

 

Mas como ele sabe?

 

Faz pouco tempo que o Irã fez uma declaração pedindo aos jovens de Tahrir que promovessem uma “revolução islâmica”, e ninguém menos do que a própria Irmandade Muçulmana mandou Teerã não interferir, pois o movimento democrático deles é pan-egípcio, incluindo cristãos e muçulmanos.

 

Friedman provavelmente quis escrever “multirreligioso” ou “ecumênico”, mas saiu “pan-egípcio”, o que não significa rigorosamente nada nesse contexto. Mas o pior é o seu uso do “pois”. A Irmandade Muçulmana mandou Teerã não interferir, pois o movimento democrático deles etc... Podemos também honestamente pensar que a Irmandade Muçulmana disse para Teerã não interferir, pois pegaria mal essa interferência. Mas isso nada prova sobre o instinto democrático ou “pan egípcio” da Irmandade Muçulmana, que pode simplesmente estar mentindo, se preservando, ou não dizendo tudo o que gostaria de dizer.

 

Um pouco antes, Thomas Friedman se estendia liricamente no que ele imagina ser o que dizem os manifestantes egípcios.

 

Agora estamos experimentando a democracia. Mas não uma democracia importada da Grã Bretanha e nem entregue pelos americanos –será uma democracia concebida, gestada e nascida na Praça Tahrir.

 

A democracia, tal como qualquer cidadão civilizado a entende, foi concebida, gestada e nascida na Grécia. É de lá que americanos e britânicos a “importaram”. Não há democracia “autenticamente brasileira”, autenticamente egípcia, autenticamente cubana. Sei muito bem aonde isso conduz.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h08

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Safatle e o Egito (3)

Por fim, cabe ainda questionar outro aspecto do artigo de Vladimir Safatle (ver posts anteriores). O de que, como diz o título, “o século 21 começa” agora.

 

Diz Safatle: “Um fato como o 11 de setembro nunca poderia servir de marco para uma época, já que ele era um contra-acontecimento que serviu apenas para realimentar os piores preconceitos, medos e arcaísmos que deveriam ter sido há muito ultrapassados. Durante esses dez últimos anos, vivemos em um tempo morto e suspenso”.

 

Bem, mas o fato de que o 11 de setembro alimentou muita coisa ruim (islamofobia, por exemplo), não o torna mais ou menos importante, nem menos definidor de uma era. Será que, para Safatle, só eventos “legais”, alvissareiros, são capazes de definir as características de uma época, de um século?

 

Para ele, o século 21 começa agora com um fato “verdadeiro”, e não com o “contra-acontecimento” que foi o 11 de setembro. Esse fato “verdadeiro” , “que tem a força de inaugurar uma nova época”, “são as revoltas no mundo árabe”.

 

Não sabemos que nova época será esta. Se for a de uma expansão do fundamentalismo para o Egito, a “nova época” começou no século 20, com o aiatolá Khomeini.

 

Se for a da democratização e laicização do mundo árabe, tenho a observar apenas o seguinte: que isso, sendo naturalmente excelente notícia, só se torna notícia importantíssima, “epochal”, como querem os alemães, em função de uma circunstância anterior. A saber, os atentados de 11 de setembro. A democratização dos países árabes teria a importância relativa da democratização dos países mediterrâneos na década de 70 (Espanha, Portugal, Grécia), não fosse o componente absolutamente desestabilizador para o Ocidente que o mundo muçulmano representou, especialmente, a partir de 2001.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h50

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Safatle e o Egito (2)

O artigo de Vladimir Safatle sobre o Egito, na Folha de hoje, tem outros problemas, a meu ver, que não comentei no post anterior.

Muito interessante o que ele conta sobre os ex-escravos do Haiti cantando a Marselhesa para os soldados franceses de Napoleão, encarregados de esmagar o seu levante. Mas achei estranhamente “hegeliana”, no sentido de que põe a história de novo de ponta-cabeça (apesar de toda a crítica de Marx), a sua interpretação sobre o acontecimento.

“Esse pequeno fato histórico nos ensino o que acontece quando uma ideia encontra o seu próprio tempo”, diz Safatle. “Ela estava presente em vários lugares, à espera do melhor momento para dizer o seu nome”. Quando isso ocorre, diz Safatle, “um momento histórico se abre impulsionado pela efetivação de exigências de universalidade”.

As ideias, vagando por aí, encarnam-se em algum lugar quando chega “o melhor momento” para se efetivarem. Mais Hegel, impossível. E, se a democracia não vingou no Irã de 1979, certamente é porque aquela ideia não estava ainda no seu melhor momento de efetivar-se em suas condições de universalidade...

Será, que mal pergunte, que as ideias da Marselhesa estavam num bom momento de se efetivarem no Haiti de 1801?

Safatle comemora a revolução no Egito como sinal, nas palavras do sociólogo Olivier Roy, da ascensão de uma “geração pós-islâmica”. Pode ser. Pode ser que seja apenas uma geração pré-haitiana também.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h28

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Safatle e o Egito

         Nessa questão do Egito, estou mais para João Pereira Coutinho do que para Vladimir Safatle. Ambos publicaram artigos sobre o tema na edição de hoje da Folha; falo um pouco disso também amanhã na Ilustrada.

         Coutinho invoca Burke, que é pau para toda obra sempre que se quer deixar tudo como está; mas sem dúvida o paralelo dos acontecimentos do Egito com a celebrada revolução iraniana de 1979 está na ordem do dia, e não vi nenhuma garantia real de que a democracia não sofra, no Egito, o que sofreu depois da derrubada do xá Reza Pahlevi.

         Safatle considera esse tipo de opinião sinal de “desespero” dos analistas que pretendem ler os fatos de hoje “através de esquemas e dicotomias velhos de mais de 30 anos”, e que “não estão preparados para enxergar o novo”.

         Ele cita uma pesquisa segundo a qual 84% dos jovens egípcios dizem querer democracia. Isso, para Safatle, é uma prova de novidade “que só o preconceito xenófobo de alguns é incapaz de enxergar”.

         Mas não será preconceito imaginar que, na Teerã de 1979, os jovens eram menos democratas?

         Acabo de ler “Persépolis”, de Marjane Satrapi, romance em quadrinhos mostrando o quanto eram ocidentalizados, democratas, libertários os jovens que, como ela, celebraram a queda do xá. Houve a volta dos exilados, a festa dos que estavam nas masmorras da ditadura. Surgem os relatos das torturas praticadas pela polícia do xá. Até que um belo dia eliminam-se as escolas bilíngües, as garotas da classe média urbana são obrigadas a usar véu, as professoras que recitavam patacoadas a favor do xá começam a recitar patacoadas a favor da revolução islâmica. A pré-adolescente de “Persépolis”, e seus pais, fazem o que podem para consumir tênis de grife, discos de Michael Jackson, posters do Iron Maiden, hamburgeres, batom e milk-shake. A juventude de Teerã encontrava na lanchonete “Kansas”  o seu refúgio. Até que a intimidação, a violência, o assassinato, a tortura foram demais, e tornaram impossível a manutenção do sonho democrático.

         Espero que isso não aconteça no Egito. Mas não é nenhum preconceito nem xenofobia notar que o fundamentalismo islâmico cresceu, e não diminuiu, de 1979 para cá.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h08

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entrevista literária

A revista virtual centopeia, de Florianópolis, fez uma entrevista sobre "Patópolis"; já é uma rima; confira no link que vai aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h08

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multidões, homens-placa

De 16 de abril a 8 de maio, no Centro Cultural de Embu das Artes, a artista plástica Raffaella Pezzilli estará apresentando uma exposição intitulada "Multidões". Ela leu meu artigo sobre "homens-placa" na Ilustrada desta última quarta-feira, e mandou algumas imagens de seus trabalhos.

 

 

 

Demorei para ver o "homem-placa", ou "homem-seta" aqui... Nada que ilustrasse melhor, então, a ideia de "invisibilidade" que mencionei no artigo; aqui vai um trecho do que escrevi.

Uma cabeleira cor-de-rosa ou verde, um nariz de palhaço, luvas de Mickey gigantescas, pouco importa. Eis que surge numa esquina, e replica-se em outras dez, o personagem mais solitário do verão paulistano, o homem-placa das novas incorporações imobiliárias.

         Digo homem-placa, não porque ele seja vítima do velho sistema de ficar ensanduichado entre duas tábuas de madeira anunciando remédios ou espetáculos de teatro, nem porque, numa versão mais recente, amarrem-lhe ao corpo um meio colete de plástico amarelo para avisar que se compra ouro ali por perto.

         Ele é homem-placa porque sua função é mostrar, a cada encruzilhada mais importante do caminho, a direção certa para o novo prédio de apartamentos que está sendo lançado.

         Pelo que sei, estão proibidos os cartazes, mesmo temporários, do que quer que seja na cidade. Ao menos, não vejo mais as duas tábuas, sem homem-sanduíche dentro, que indicavam nas calçadas os edifícios recém-construídos.

         Durante uma época, a prática foi encostar carros velhíssimos, verdadeiras sucatas, numa vaga de esquina, colocando o anúncio do prédio em cima da capota. O efeito era ruim, sem dúvida.

         Como acreditar no luxo e na distinção do edifício Duvalier, com seu espaço gourmet e seu depósito de vinho individual, se todo o sonho estava montado em cima de um Opala 74 cor de tijolo com dois pneus no chão?

         Eliminaram-se os carros-placa, assim como já pertencem ao passado os grandes lançamentos performáticos do mercado imobiliário. A coisa tinha, cerca de dez anos atrás, proporções teatrais.

         Determinado prédio homenageava a Nova York eterna: mocinhas eram contratadas para se fantasiarem de Estátua da Liberdade, com o rosto pintado de verde, a tocha de plástico numa mão, o folheto colorido na outra.

         Ou então era o Tio Sam, eram Marilyns e Kennedys, que ocupavam a avenida Brasil, a Nove de Julho, as ruas do Itaim.

         Passo agora pela Lapa, pela Vila Leopoldina. Há muitos prédios ainda a construir por ali; bairros ainda baixos, de ruas ortogonais e planas, sem nenhuma sombra por perto, vão ganhando seus edifícios.

         Mas quanto cansaço! Talvez tenha ficado tão aquecido o mercado imobiliário que já não há mais imaginação para as grandes operações de marketing.

         Talvez o delirante teatro imobiliário das ruas fosse consequência de uma época de vacas magras, em que era preciso chamar a atenção do cliente a todo custo.

         Talvez a mão de obra para esse tipo de promoção tenha ficado cara demais; as mocinhas que distribuíam prospectos já se formaram em Administração de Empresas ou Relações Internacionais. Sobra o pessoal mais de baixo ainda, incapaz, provavelmente, de contato direto com o público, nem que seja para entregar um papel pela janela.

         Esses homens e mulheres-placa não se comparam sequer ao guardador de carros, que precisa impor certa presença ao cliente incauto.

         Estão ali graças à sua inexistência social. Só que sua função, paradoxalmente, é a de serem vistos; um cabelo azul, um gesto repetitivo apontando o caminho, já bastam.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h09

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museus virtuais

Quem se diverte com o "Google Earth" pode agora aproveitar o "Google art", que oferece passeios virtuais aos principais museus do mundo, do Hermitage de São Petersburgo ao Frick de Nova York. O link é este aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h26

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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