Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

gravações russas

 
 

gravações russas

 

Ainda sobre Stravinsky. É tão raro um lançamento de música clássica no Brasil, que qualquer um mereceria elogios. Mas vai bem além disso o que fez o selo Biscoito Fino, com a caixa intitulada Acervo Russo.

São quatro CDs de música de Stravinsky, com gravações recuperadas da GostelRadio de Moscou. Muita coisa foge do conhecido:

In memoriam T.S. Eliot, com o Coro de Câmara da URSS, boa gravação ao vivo de 1974, direção de Gennady Rozhdestvensky.

Mouvements, para piano e orquestra, com Sviatoslav Richter, gravação excelente, em estéreo.

Quatro canções camponesas russas, coro feminino e trompas sob a direção de Rozhdestvensky.

Duas suítes para pequena orquestra (?)

E também Petrushka, com regência de Mravinsky,

Além de muito mais coisa.

Escrito por Marcelo Coelho às 05h08

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Stravinsky fala de Rachmaninov

 
 

Stravinsky fala de Rachmaninov

Stravinsky, em suas “Conversas” de 1959, lembra-se de Rachmaninov.

 

A última vez em que eu vi aquele homem assustador, ele apareceu na minha casa em Hollywood trazendo de presente para mim um pote de mel. Eu não era especialmente amigo de Rachmaninov naquele tempo; ninguém era, eu acho: relações sociais com um homem do temperamento de Rachmaninov exigem mais perseverança do que sou capaz: ele só estava me trazendo mel.

... Algumas pessoas adquirem um tipo de imortalidade simplesmente graças à  completude com que possuem ou deixam de possuir alguma qualidade ou característica. A totalidade imortalizadora de Rachmaninov era seu mau humor. Ele era um mau humor de um metro e noventa de altura.

Suponho que minhas conversas com ele, ou melhor, com a mulher dele, pois ele ficava sempre em silêncio, eram típicas:

Sra. Rachmaninov: Qual é a primeira coisa que o senhor faz quando acorda de manhã? [Isso poderia ter sido indiscreto, mas não se você visse a maneira com que ela perguntava]

Eu: Durante quinze minutos eu faço exercícios que um ginasta húngaro me ensinou, ou melhor, eu fazia até saber que o húngaro morreu muito moço, e muito de repente, e depois eu tomo uma ducha.

Sra. Rachmaninov: Está vendo, Serge, Stravinsky toma ducha. Que extraordinário. Você continua dizendo que tem medo de tomar ducha? E você ouviu ele dizer que faz exercício? O que é que você acha disso? Que vergonha, você nem faz uma caminhada.

Rachmaninov: (Silêncio)

 

...Quando eu penso nele, acho que o seu silêncio surge como um contraste nobre em comparação com os auto-elogios que são o único assunto dos intérpretes e da maioria dos outros músicos. E ele era o único pianista que eu vi que não fazia caretas. É uma grande coisa.

Escrito por Marcelo Coelho às 04h29

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Paula Rego

 
 

Paula Rego

A pintora portuguesa Paula Rego tem sua primeira retrospectiva no Brasil. Fica na Pinacoteca do Estado até meados de junho. A artista vive na Inglaterra há cerca de 50 anos, virou "dame" (o equivalente a "sir") do Império Britânico. Seu estilo é próximo do realismo de Lucian Freud, e pode-se notar sua influência sobre artistas mais recentes, como Jake e Dinos Chapman (bonecos hermafroditas, crianças xifópagas nuas penduradas de cabeça para baixo). Paula Rego ilustrou rimas e contos infantis, mas seus quadros e gravuras (uma série sobre aborto, cenas de asilo, de guerra, de violência sexual doméstica) tendem a ser para maiores de 18 anos. Escrevo sobre ela no artigo desta quarta-feira, dia 30. Duas das pinturas (pastéis de grande formato, na verdade) de que mais gostei na exposição. Uma é a "mulher-cachorro", outra é Branca de Neve depois de ter comido a maçã envenenada.

 

do site http://library.thinkquest.org/17016/frames.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 00h52

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para andar de ônibus

Posso estar chovendo no molhado, mas uma coisa que desestimula bastante a classe média-alta a tentar, pelo menos uma vez, andar de ônibus é o puro desconhecimento. Não tenho ideia de que ônibus pegar para ir da minha casa à avenida Paulista, por exemplo. E tenho vergonha de perguntar. Descobri (mas aí que entra o meu medo de estar chovendo no molhado) que o site da sptrans ajuda os que têm esse meu tipo de problema. É colocar os dados e eles explicam o trajeto, a linha, etc. Só falta dizer se a gente entra pela porta da frente ou pela de trás. Antes isso era simples, e como tantas outras coisas mais, ficou complicado, enquanto com a idade a gente emburrece.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h34

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lentidão

Andei tendo algumas dificuldades para postar aqui. Na maioria, culpa minha. Mas a lentidão do "upload" por aqui está exasperante. Peço desculpas, em todo caso.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h24

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estrelas de Hollywood

Para quem se referiu, depois da morte de Elizabeth Taylor, ao fim do "star system" de Hollywood, eis aqui um blog muito bem ilustrado, útil para matar saudades:

http://www.ofalcaomaltes.blogspot.com/

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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doce tormento

Gosto muito de música clássica, mas confesso que Claudio Monteverdi não é minha praia. As fanfarras do "Orfeo" parece que se repetem em duzentas outras músicas do autor, e toda vez que ouço já vou mudando de canal.

Mas um novo CD de Magdalena Kozena traz, de Monteverdi, "Se dolce è il tormento". Achei muito bonito, e uma boa alternativa para quem já anda meio cansado do "Lascia ch'io pianga" que se ouve sempre por aí. Parece um pouco música folclórica brasileira até. Experimente, com o problema da gravação de um concerto ao vivo:

http://www.youtube.com/watch?v=vFVdhA-WeTE

A versão do contra-tenor Phillipe Jaroussky é mais pura, mas menos dramática:

http://www.youtube.com/watch?v=n0D6wqoO-0E&feature=related

Escrito por Marcelo Coelho às 00h02

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Schnitzler e seu tradutor

 
 

Schnitzler e seu tradutor

         Marcelo Backes está prestando um grande serviço ao traduzir, com notas e prefácios, obras escolhidas do austríaco Arthur Schnitzler. Há bastante tempo saíram, pela Companhia das Letras, os “Contos de Amor e Morte” do autor; o título parece vago, mas corresponde a uma intuição profunda.

         Na pena do médico, conquistador inveterado e amigo de Freud que foi Schnitzler, isso significa mais “Eros e Tanatos” do que uma simples junção melodramática de, digamos, paixão e tuberculose, ou ciúme e punhalada. Veio depois o sucesso de “Eyes Wide Shut”, o filme de Kubrick baseado em “Traumnovelle”, romance-sonho, também lançado em português pela Companhia das Letras.

         Resenhei rapidamente para a Ilustrada “O médico das termas”, uma novela curta, e o longo romance “O caminho para a liberdade”, de tom mais autobiográfico. O anti-semitismo em Viena na virada do século 20, discussões entre sionismo e assimilação, perpassam todo o livro, em que Schnitzler, que era judeu, encarna-se na figura de um barão compositor, às voltas com uma vocação artística meio irresolvida e com ainda mais irresolvidos compromissos com belas moças de classe média –com as quais era possível ter filhos, mas não obrigatoriamente casar.

         O romance demora para ganhar vigor narrativo, pelo menos enquanto o amor e a arte estão em jogo; só quando a morte aparece (e com que força ela se impõe e é esquecida!) é que o romance se impõe plenamente, e o título do “caminho para a liberdade” (do artista, fora do casamento) se justifica em sua profunda ironia.

         Não tive espaço na resenha para falar da tradução. Backes nasceu no Brasil, estudou na Alemanha, é ficcionista, crítico polêmico e foi “translator in residence” na Academia Europeia de Tradutores. O currículo é humilhante, mas a tradução não está à altura de todas essas qualificações.

         Volta e meia, por exemplo, Backes traduz mal uma maneira alemã de enfatizar as perguntas na conversa coloquial. O equivalente ao nosso “não é?”, do inglês “isn’t it?”, do francês “n’est-ce pas?, é “oder?” em alemão. Fica muito estranho, assim, ler em português um personagem perguntar “Mas não se trata de algo sério, ou...?”, quando o natural seria escrever. “Mas não se trata de algo sério, não é mesmo?”. Ou, se quisermos: “Mas não é nada sério, é?”

         As notas no final do livro também levam a mal-entendidos. Backes explica a expressão “Qui vive”, que é francesa, do seguinte modo: “Em latim, no original: “quem vive”. A expressão “se manter sempre no qui vive” significa o mesmo que estar sempre atento”. Não. O “qui vive” significa, em francês, “viva quem?” E era assim que, durante a Revolução de 1789, os partidários da República interpelavam as pessoas na rua. Se alguém desse a resposta errada, por exemplo “Viva o Rei!”, era  executado na hora. E vice-versa, se o “qui vive?” fosse pronunciado por um grupo de monarquistas. Ou seja, o “qui vive” era uma forma de obrigar os passantes a pronunciar suas convicções políticas, pagando se fosse o caso o preço por tê-las enunciado.

         É com essa pergunta, aliás, que se dá o desfecho de “A Morte de Danton”, de Büchner, que um especialista em literatura alemã deveria conhecer.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h10

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pintura e receptividade

Aqui vai um trecho de As anotações sobre pintura do Monge Abóbora-Amarga, tratado místico e estético escrito por Shitao no século 17, agora lançado no Brasil pela Unicamp.

 

O Único Traço de Pincel abarca a universalidade dos seres. A pintura resulta da recepção da tinta; a tinta, da recepção do pincel; o pincel, da recepção da mão; a mão, da recepção do espírito.

...Portanto, o mais importante para o homem é saber venerar: pois aquele que é incapaz de venerar os dons de suas percepções desperdiça-se lamentavelmente a si mesmo, assim como aquele que recebeu o dom da pintura, mas nega-se a recriar, reduz-se à impotência.

Comentei o livro no artigo desta quarta-feira para a Ilustrada. Para assinantes do uol, o link é este.

 

"Margem do rio com pessegueiros em flor", de Shitao (1642-1707)

Escrito por Marcelo Coelho às 19h30

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Billy Budd

Para quem ficou curioso com relação à ópera Billy Budd, de Benjamin Britten, comentada no artigo desta quarta-feira, vai aqui um dos trechos que considero mais bonitos. O rapaz já foi condenado à morte, por ter golpeado fatalmente um tirânico superior no seu navio. A música de Britten é muito evocativa sempre que se trata de mar, especialmente os mares cinzentos e cheios de névoa da Inglaterra.

A névoa, aliás, tem um papel importante na ópera. O comandante do navio, que é um homem justo e tem simpatias pelo novato Billy Budd, pede a todo momento que as névoas se dissipem, de modo a que ele cumpra sua missão militar --atacar os franceses. Mas tudo se recobre de invisibilidade. O navio estaca, do mesmo modo que o marinheiro Budd, por ser gago, não consegue se livrar das acusações injustas de que é vítima.

Uma permanente sensação de imperfeição do destino --como se o próprio verbo de Deus, pouco antes de encerrado o trabalho da criação, tivesse se interrompido-- cerca toda a história da ópera, baseada na novela de Herman Melville.

Por que, afinal, o mais entusiástico, o mais fiel, o mais perfeito dos marinheiros teria de ser condenado à morte?

Ao velho capitão Vere, não resta nada a fazer exceto aplicar a lei.

Regras rígidas contra emoções intensas, leis claras contra sensações nebulosas (entre as quais, no libreto de E.M. Forster e na música de Britten, a homossexualidade está mais do que próxima), os temas de Billy Budd são bastante amplos --e encontram, no símbolo da gagueira do protagonista, uma tradução muito particular: o hiato entre sentimento e expressão, entre forma e verdade, entre comunicável e incomunicável, está todo representado nessa imperfeição física e psicológica. 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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fotografia espanhola

 
 

fotografia espanhola

Maider López ("Praia de Itzurun 4") está entre os 28 artistas que participam da mostra "Dez Anos de Fotografia Espanhola", no Instituto Cervantes.

A exposição vai de 4 de março a 9 de abril. 

O endereço é av. Paulista, 2439 - Metrô Consolação

Tel. 11 3897-9609

Horário de Funcionamento do Instituto Cervantes:

segunda-feira, das 14h às 20h,

terça-feira a sexta-feira, das 8h às 20h,

sábados, das 9h às 15h.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h28

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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