Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

um bom "erramos"...

... foi publicado há tempos pelo jornal inglês The Guardian. Aqui vai:

"Yesterday was Wednesday, despite an assertion that it was once again Tuesday".

Uma pequena lista das correções desse jornal, algumas pouco ou nada inteligíveis para quem não mora na Inglaterra, pode ser encontrada em The Anglo Files, livro da jornalista americana Sarah Lyall. Ela se casou com um britânico e relata, nem sempre de ótimo humor, as experiências absurdas por que passou na Inglaterra. Há um capítulo inteiro sobre os jornalistas, com foco no jantar anual de distribuição de prêmios para a categoria: cenas lamentáveis se sucedem, mas não tantas quanto as que se passam na Câmara dos Lordes. Deprimida com a gagazice, o machismo e a bobajada dos debates, a autora respirou aliviada ao ver que, no guarda-volumes reservado aos parlamentares, todo cabide tinha aquela fita vermelha, com um nó, que é símbolo da campanha de solidariedade aos portadores do HIV. Comentou com uma amiga: "Bem, pelo menos nisso eles são avançados". Ledo engano, explicou a amiga. Aquela fita vermelha no cabide serve para os lordes pendurarem a espada --está ali há alguns séculos pelo menos.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h20

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incorreções e correções

A ombudsman me encaminha a carta de um leitor, cobrando três "Erramos". Escrevi de modo incorreto o nome de um filme de Kubrick (é "De Olhos Bem Fechados", e não "Bem Abertos"). Bobeei me referindo a Laurence Sterne como "Lawrence" Sterne, e para piorar disse que o personagem criado pelo autor é "Tristam", e não "Tristram" Shandy.

Não sei se esses erros foram cometidos aqui no blog ou na "Ilustrada"; fizeram um levantamento nos arquivos do jornal e parece que escapei da detecção. Em todo caso, ficam aqui as desculpas pelos erros.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h41

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voltaire de souza (2)

Outra crônica publicada no jornal "Agora".

 

ENTERRANDO O PASSADO

 

Amor. Ódio. Assassinato.

O coração humano tem profundezas insondáveis.

O dr. Tanatelli era um respeitado consultor financeiro.

Seu passado, entretanto, guardava graves segredos.

--Eliana... Eliana... me desculpa.

Uma bela e jovem colega de escritório.

Um jantar numa churrascaria. Uma esticada ao Motel Nesta Noite.

Ciúmes. Chantagens. Traições.

Três balas. O corpo de Eliana sumiu no Tietê. Em março de 1992.

Toda noite, Tanatelli recebia a lúgubre visita.

--Meu amooor... siiinto a tuua faaalta... veem... veeem...

A culpa corroia aquele coração de idoso. Veio a decisão.

--Eu me entrego à polícia. Eu confesso tudo.

Ele parou o Audi na delegacia. O sargento Maurílio estava na porta.

Tanatelli abraçou o policial num delírio de paixão.

--Meu amor... Eu cheguei... Eu vim para te encontrar.

Maurílio e Tanatelli agora conversam com mais calma no Bar Misteryus.

A culpa demora para passar. Mas uma noite bem dormida pode ser uma boa ajuda.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h15

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voltaire de souza

Uma crônica recente publicada no jornal "Agora".

 

 

SERVIÇO IMPECÁVEL

 

 

Recursos. Processos. Enrolações.

Com bons advogados, assassinos ficam muito tempo longe da prisão.

O dr. Saavedra era um bem-sucedido profissional. E conversava com seu cliente.

--Cerquilho, conseguimos mais uma vitória.

Aos sessenta e nova anos, Cerquilho aparentava desânimo.

--Hahn.. e daí?

--Sua prisão foi adiada novamente.

Lágrimas vieram aos olhos de Cerquilho.

--Sabe... é que no fundo... estou arrependido.

Cerquilho tinha matado a namorada quinze anos atrás.

As mãos que seguraram o 38 agora tremiam convulsivamente.

--O fantasma dela me persegue... não tenho a paz.

Ele começou a gritar.

--Prendam-me. Prendam-me, pelo amor de Deus.

Saavedra ficou ferido em seu orgulho profissional.

Tirou da gaveta um velho revólver. E fuzilou o cliente ali mesmo.

--Assim ele sossega. E aprende a não atrapalhar os meus serviços.

A prisão, por vezes, não é o único caminho para se chegar finalmente à paz.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h12

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voltaire de souza

Uma crônica recente publicada no jornal "Agora".

 

 

SERVIÇO IMPECÁVEL

 

 

Recursos. Processos. Enrolações.

Com bons advogados, assassinos ficam muito tempo longe da prisão.

O dr. Saavedra era um bem-sucedido profissional. E conversava com seu cliente.

--Cerquilho, conseguimos mais uma vitória.

Aos sessenta e nova anos, Cerquilho aparentava desânimo.

--Hahn.. e daí?

--Sua prisão foi adiada novamente.

Lágrimas vieram aos olhos de Cerquilho.

--Sabe... é que no fundo... estou arrependido.

Cerquilho tinha matado a namorada quinze anos atrás.

As mãos que seguraram o 38 agora tremiam convulsivamente.

--O fantasma dela me persegue... não tenho a paz.

Ele começou a gritar.

--Prendam-me. Prendam-me, pelo amor de Deus.

Saavedra ficou ferido em seu orgulho profissional.

Tirou da gaveta um velho revólver. E fuzilou o cliente ali mesmo.

--Assim ele sossega. E aprende a não atrapalhar os meus serviços.

A prisão, por vezes, não é o único caminho para se chegar finalmente à paz.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h11

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cinema, aspirinas e urubus

Falo hoje sobre o filme "Cinema, Aspirinas e Urubus", na Cinemateca, num evento para psicanalistas.

Aqui vai o texto.

Eu agradeço o convite feito para falar de “Cinema, Aspirinas e Urubus”, ainda mais pelo fato de que a minha formação é de sociólogo, porque sem dúvida esse filme tem uma inspiração muito mais sociológica do que psicanalítica. Não quero dizer que o filme se furte a interpretações psicanalíticas –ainda está para ser inventado o filme que consiga essa proeza.

Mas quando eu digo que este filme é muito mais sociológico do que psicológico, eu estou ressaltando na verdade um dos maiores defeitos do filme.

Para mim, o maior defeito de “Cinema, Aspirinas e Urubus” está no fato de que o relacionamento entre os dois personagens –o nordestino Ranulfo e o alemão Johann—não adquire muita profundidade, porque Ranulfo é um excelente personagem –e deu prêmios a seu intérprete—mas Johann não é. Simplesmente não é um personagem interessante, não tem maiores contradições nem grandes mistérios. Sabemos que ele é contra a guerra, gosta de se embrenhar pelo Brasil, mas ele é principalmente uma pessoa vitimada e regida pelas circunstâncias, que são as da guerra da Alemanha contra os aliados, nos quais se inclui o Brasil.

Quando pensamos nas circunstâncias de Ranulfo e na personalidade de Ranulfo, a riqueza é muito maior.

De qualquer modo, o filme impõe, o tempo todo, dualidades e comparações.A estrutura, a composição das situações, é sempre feita em pares. Isso facilita um bocado o trabalho do intérprete, do comentador. Mas também traz o risco de que os meus comentários sejam meio óbvios. Em todo caso, é o que vou tentar evitar.

Começo, então, identificando algumas das muitas dualidades, dos muitos pares, que compõem o filme.

Claro que a mais evidente é a que separa, e une, o alemão e o brasileiro. Mas eu vou deixar essa dualidade um pouco mais para a frente. Vamos pegar as cenas iniciais do filme.

Tudo começa com uma imagem de ofuscamento total –a tela está praticamente branca com o excesso de luz. Aos poucos, a luz diminui e podemos ver o rosto de Johann dirigindo o caminhão. Algum tempinho depois, nós vemos Johann de costas, recortado contra o interior absolutamente escuro do caminhão, com a paisagem se desenrolando na frente dele, sendo vista através dos vidros da frente.  Então Johann desloca o rádio que está atrás dele, fazendo sombra, e escondendo a cena dos olhos do espectador.

Bem, essa passagem do ofuscamento à sombra, e essa imagem de alguém de costas, no escuro, com uma cena clara à sua frente, é para mim uma imagem do próprio cinema –da projeção de um filme sobre a tela.

Lembro aqui um diálogo que aparece mais tarde, entre Johann e Ranulfo. Johann está explicando para Ranulfo como funciona a máquina de projeção. É preciso primeiro ligar o motor, depois acender a luz. Se você acender a luz sem ligar o motor, o filme não roda, e a lâmpada do projetor termina queimando o filme.

Essa ameaça –a do filme “queimar”, pela ofuscação de uma lâmpada, ou do sol, a não ser que você continue rodando, continue se deslocando, é essencial, a meu ver, para a estrutura do filme.

Você não pode ficar parado. Isso é verdadeiro para Johann, e é verdadeiro para Ranulfo.

Basta ver, para entrar numa segunda dualidade (num segundo item da nossa lista de dualidades), o contraste entre Ranulfo e os outros personagens que Johann encontra na estrada, antes de dar carona para Ranulfo.

Primeiro, ele dá carona a um homem de espingarda, que ouve o pio de um passarinho e pede para Johann para o caminhão. Dá dois tiros, quer caçar o pássaro que ouviu, e não sabemos mais dele. O outro homem, a quem Johann pede informações, recusa o pedido de carona: vai ficar por ali mesmo, não está indo a lugar nenhum.

Ranulfo quer ir para o Rio, para o lugar de onde Johann estava vindo. Como eu disse, mais adiante eu falo dos dois. Mas o contraste aqui é entre ficar no mesmo lugar e sair do lugar onde se está. O tema do movimento, contra a ideia de uma lâmpada, ou de um sol, que fica acesa e queima o filme, porque o filme não sai do lugar, está presente aí –é, em última análise, o cinema, que pressupõe movimento a partir da própria origem etimológica do nome. E movimento, para falar como sociólogo, é modernidade; Ranulfo quer a modernidade, é curioso, faz perguntas, não quer ficar onde sempre esteve.

Ao mesmo tempo, e eu entro aqui numa terceira dualidade –na lista que eu preparei—existe o contraste entre dois artefatos técnicos, o cinema e o aparelho de rádio. Não é por acaso, acho eu, que naquela cena bem do começo do filme que eu estava descrevendo, Johann desloca o aparelho de rádio para o centro do campo visual do espectador, impedindo que ele continue a ver a paisagem. Tínhamos antes, quando a câmera filma Johann de costas dirigindo o carro, uma imagem parecida com a de alguém que está vendo um filme, com outro espectador à sua frente. A paisagem que a gente vê pelo vidro da frente do caminhão é como um filme, enquanto o primeiro plano está numa escuridão completa. O aparelho de rádio, então, vem tapar a nossa vista.

Essa é a dualidade, a terceira dualidade, que eu queria destacar. O rádio transmite notícias da segunda guerra mundial. O rádio, apesar das músicas que também estamos ouvindo, é responsável pela realidade. Enquanto isso, o cinema, em especial o cinema que Johann exibe para os habitantes do sertão, é ilusório, publicitário, serve para vender aspirina.

Depois de falar do “cinema”, falo agora das “aspirinas”, para seguir a sequência do título, e para entrar numa quarta dualidade.

Johann passa por maus bocados em sua viagem pelo sertão. Primeiro é picado por um marimbondo, depois leva uma picada de cobra –e a aspirina não serve para coisa nenhuma. Uma habitante local prepara uma mezinha, uma espécie de chá, para ele melhorar, e ainda fala da ajuda que um terço, ou rosário, pode dar.

A aspirina não serve nem para curar a ressaca dos personagens.

Nesse sentido, ela é tão ilusória quanto o cinema.

Mas é um sinal de modernidade também, claro.

Para fazer um corte em direção ao final do filme, não é por acaso que numa das últimas cenas nós vemos Johann pintando de verde o caminhão, para disfarçar o fato de que é um representante da Bayer. Ele tem de negar a própria modernidade (e termina se engajando na campanha dos “soldados da borracha”.) Johann não tem outra alternativa além de se internar na selva.

Enquanto isso, as alternativas de Ranulfo ficam mais claras.

Se me permitem uma interpretação de sociólogo, o que está em jogo nesse filme é o preço, o modo, a forma como o Brasil entra na modernidade.

Quando vemos Johann entrando no trem que o leva à Amazônia, é impossível não pensar nos trens que levavam os judeus para Auschwitz.

Um Auschwitz mais tranquilo, com guardas mais respeitosos, mais polidos, mas um Auschwitz mesmo assim. O filme inteiro, aliás, parte de uma situação de isolamento e liberdade para uma situação de aglomeramento e escravidão.

É exatamente entre esses dois extremos que Ranulfo trata de levar a vida.

Pensando nos dois, e chegando à dualidade básica do filme, entre Johann e Ranulfo, tanto um como outro rejeitam o próprio país. Johann rejeita a Alemanha, pela fuga, pelo deslocamento espacial. Ranulfo também se desloca espacialmente, não quer ficar eternamente onde nasceu. Mas sua rejeição está nas vísceras, desde o começo. Ele detesta tudo que lhe prenda à pátria. Enquanto Johann, a sua relação com a Alemanha, com a ideia da Alemanha, não fica explorada pelo filme.

Desde as primeiras cenas em que Ranulfo aparece, entretanto, está claro o fato de que ele detesta o Brasil.

Johann lhe oferece cigarros. Ele pergunta: “nacional ou importado?” Johann diz que é nacional. Mesmo quando a gente sabe que Ranulfo não fuma, a resposta é decisiva: ele rejeita o cigarro tanto pelo fato de que ele não fuma, quanto pelo fato de que o cigarro é nacional.

Vale a pena relembrar a quantidade de frases em que Ranulfo declara seu desprezo pela própria terra. “Lugar que não presta demora para acabar”, diz ele, quando Johann fala alguma coisa sobre a imensidão do Brasil. “No Brasil nem guerra chega”: é o comentário de Ranulfo enquanto ele e Johann comem num lugar qualquer, enquanto um velho sertanejo, assistindo à refeição, dá uma versão positiva dos fatos: “Nosso Brasil é bom demais, calmo...”

Não, responderia Ranulfo, é calmo por ser ruim demais.

No fundo, Ranulfo está à beira de um conflito que nunca acontece.

A contradição de Ranulfo está no fato de buscar o conflito e de evitá-lo ao mesmo tempo.

Não será exagero de sociólogo, imagino, dizer que essa é contradição que os sociólogos atribuem à classe pobre no Brasil.

Ranulfo e o aspirante a empresário, o sr. Claudionor, quase brigam mais tarde no filme. Mas o conflito não acontece.

Do mesmo modo, o espectador fica sem saber de que modo se resolve o conflito entre Ranulfo e Johann quando surge alguma rivalidade sexual entre os dois. Diante de Joselina, a caronista vivida por Hermila Guedes, os dois se sentem atraídos. Mas acho, pessoalmente, que não fica claro se Ranulfo a conquistou ou não.  Do mesmo modo, a mulher de Claudionor, que chama Ranulfo para ver as estrelas num telescópio, está empenhada em seduzir o protagonista do filme, mas não é evidente que tenha obtido sucesso: o filme faz um corte, e o que vemos é Ranulfo e Johann num bordel, Johann mais romântico, e Ranulfo mais picaresco.

De qualquer modo, o conflito entre Ranulfo e Johann é muito menos sexual (eles rivalizam, mas isso não tem conseqüência dramática) do que econômico.

Desde o começo, Ranulfo está interessado em tomar posse dos meios à disposição de Johann. Ele começa se dispondo a desligar o rádio. Depois, aprende a usar o projetor. Depois, aprende a guiar o caminhão. Vemos, no final do filme, Ranulfo tomando conta, tomando posse do caminhão.

O que isso significa, do ponto de vista sociológico? Apenas que a mudança social, no Brasil, depende da absorção de modelos técnicos estrangeiros (o rádio, o cinema, o caminhão), sem que as relações sociais devam mudar em função disso.

Desde o começo, por exemplo, Ranulfo assume um papel de proprietário. Expulsa as crianças que queriam subir na carroceira do caminhão, reclama da  sujeira que a na boleia do caminhão. De certo modo, ele é mais germânico do que Johann. Ao mesmo tempo, é brasileiramente oportunista.

Apresentá-lo como vencedor, no final do filme, me parece uma atitude acrítica e superficial. É o elogio do oportunismo, mas podemos imaginar, mesmo nos termos propostos pelo roteiro, que algum guarda de estrada questionasse os papéis de Ranulfo. Roubou o caminhão? Onde estão seus documentos?

Eis de que modo o final de “Cinema, Aspirinas e Urubus” é conciliador, favorável a um certo espírito de “brasilidade”. O oportunismo de Ranulfo sai vencedor. Podemos dizer que é uma vitória merecida, se pensarmos que o alemão Johann se encaminha rumo à morte, à selva, à barbárie. Enquanto Ranulfo se apropria da modernidade, sem ser moderno ele mesmo. Nesse sentido, não temos simpatia pelo protagonista; muito menos pelo alemão Johann –e nisso, a meu ver, está a dificuldade, o problema do filme.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h28

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Barbara e seus cachorros

Barbara Gancia brindou-me hoje com um artigo na página C2, cheio de elogios legais, a respeito de minhas críticas à piada de Danilo Gentilli sobre Auschwitz.

“Sei bem de sua integridade, ouço tudo o que ele tem a dizer sobre cinema, livros, arte, urbanismo... enfim, para mim ele pode abordar uma miríade infinita de assuntos a que eu presto atenção e ainda anoto e sublinho”.

Obrigado, Barbara!

Aí vem o reparo.

“Nestes 28 anos na “Folha”, não me lembro de uma só coluna do Marcelo Coelho que tenha me feito rir. Donde concluo que o senso de humor não seja exatamente a sua especialidade”.

Bom, não sei, acho que já escrevi coisas engraçadas, mas não sou a pessoa mais autorizada para afirmar isso.

É uma questão muito pessoal, essa de humor.

Há quem prefira rir com Danilo Gentilli do que não rir com um artigo meu.

Pessoalmente, não sei se é para ser engraçada a menção que Barbara Gancia faz aos seus cachorros.

Marcelo Coelho, segundo Barbara, “é o tipo de pessoa a quem eu entregaria tranquilamente meus dois cães para passar o mês de julho fazendo trekking nos Andes”.

Puxa, eu sou totalmente incapaz de fazer trekking nos Andes. Mas ela podia mandar Danilo Gentilli cuidar dos seus cães (serão dobermans?) enquanto aproveita as férias de julho para fazer uma visita a Auschwitz. Há exposições instrutivas lá.

 

No final do artigo, ela recomenda que eu veja de novo “O Povo contra Larry Flint”. Lembro-me bem do filme, gostei.

É um elogio à luta do dono da revista “Hustler” pela liberdade de expressão.

Caímos na velha conversa.

Marcelo Coelho detesta o que Danilo Gentilli falou sobre os judeus de Higienópolis. Acha que Danilo Gentilli não deveria ter feito aquela piada imbecil.

Logo, Marcelo Coelho é contra a liberdade de expressão.

Logo, Marcelo Coelho acha que alguém devia impor censura prévia a Danilo Gentilli.

Não estou defendendo a censura prévia a Danilo Gentilli.

Estou dizendo que ele fez uma piada idiota.

Ou será que estão querendo me impedir de dizer isso?

Estão querendo me censurar?

Claro que não. Simplesmente estão apelando para o princípio da liberdade de expressão quando não é isso o que está em debate.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h10

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"Isso até eu pintava"

“Qualquer criança poderia ter pintado isso”. A reação é frequente diante de pinturas abstratas, em especial, digamos, as de Pollock ou de Cy Twombly.

Mas não é bem assim.

Pesquisa realizada no Canadá mostra que mesmo os leigos sabem a diferença, se tiverem de comparar a obra de um artista moderno com a de uma criança.

Claro que a pesquisa pode ter sido “manipulada” desde o início: depende dos quadros escolhidos para a comparação.

Veja a reportagem completa (em inglês) aqui. O exemplo usado na ilustração, certamente, não é dos melhores: é fácil, acho, ver qual dos dois quadros foi feito por uma criança.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h54

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O DOI-CODI na página 3

         Pérsio Arida escreveu, num longo artigo para a revista “Piauí”, sobre o período em que foi preso e torturado pelo regime militar.

         O coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI de 1970 a 1974, contesta seu artigo, na “Folha” de hoje.

         Arida, segundo Ustra, “narra a sua transferência para o DOI do Rio, local onde eu o teria enviado. Afirma que lá, onde ficou três semanas, foi barbaramente torturado. Eu contesto isso e posso afirmar, com datas, documentos e nomes retirados do processo 2889, arquivado no Superior Tribunal Militar, que, no meu comando, essa viagem nunca existiu”.

         E arremata: Arida não foi apenas “um garoto estúpido nas mãos de péssimos elementos”, como afirmava a sentença de sua absolvição, mas “é também um mentiroso”.

         Observo que se as “provas” de que ele está mentindo estão nos dados de um processo arquivado no Superior Tribunal Militar, elas valem pouquíssimo.

         Em que processo, conduzido em plena ditadura, seria oficialmente registrada uma operação clandestina de seqüestro e tortura de preso político?

         Não nego (porque virou moda me acusarem disso) o direito de Ustra escrever o que quiser e publicar onde o aceitarem. Mas o texto do responsável pelo DOI-CODI poderia, quem sabe, aparecer como carta à revista “Piauí”, ou, em caso de recusa por parte dessa revista, no “Painel do Leitor”.

         Esse tipo de texto, na minha opinião, não cabe na página 3 da Folha, a “Tendências/Debates”. É nauseante.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h45

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O kit anti-homofobia

         Vi os três filmes que fariam parte, segundo se noticia, do kit “Escola Sem Homofobia”, do Ministério da Educação. “Fariam”, porque cedendo a pressões a presidente Dilma Rousseff resolveu suspender o projeto.

         Achei os filmes bonitos, delicados, amorosos. O último, especialmente, sobre um garoto que se sente melhor como travesti, comoveu-me um bocado.

         O primeiro, um bocado longo, conta em desenhos a amizade entre dois meninos, o modo como são chamados de gays pelos colegas de escola, e o beijo que um deles dá no primo do amigo.

         Um rápido corte, e o menino está sozinho, na cama, preocupado com a própria sexualidade. “Será que eu sou gay?” Mas, na classe, ele se interessa também por uma menina. Conclui que não há nada de errado em gostar de pessoas de ambos os sexos.

         O outro filme fala de duas amigas que ficaram de mãos dadas numa festa, do namoro que começa, e das piadas que circulam na internet sobre o relacionamento.

         Falam-se pelo telefone; combinam de “enfrentar juntas essa barra”. As imagens seguintes mostram as expressões faciais dos colegas da escola, de espanto, constrangimento ou aceitação.

         Concordo que não se trata apenas de uma campanha “contra a homofobia”. No seguinte sentido: não se demonizam os homofóbicos. Não se exige deles que reprimam, em silêncio, sua reprovação em nome da tolerância.

         A ideia é diferente. Os filmes não são anti-homofobia, mas sim pró-homofilia. Ou seja, não se trata de dizer que se deve respeitar “os diferentes”, mas sim que se deve ver, nos “diferentes”, o que têm de igual a nós.

         São pessoas inicialmente em dúvida sobre o próprio desejo, que o descobrem e se aceitam a si mesmos como são.

         Eis uma coisa que diz respeito a todo ser humano, heterossexual, bissexual, homossexual ou qualquer outra coisa.

         Os filmes privilegiam não o “inimigo” a ser combatido, a saber o homófobo, mas sim o amigo, o semelhante, o irmão, seja travesti, homossexual ou bi. Visam a conquistar nossa simpatia pelo outro, não nossa antipatia pelos que não gostam do outro.

         Nesse sentido, não vejo como de uma perspectiva religiosa mais ampla se possa condenar esses filmes: eles falam de amor, de compreensão, de simpatia. Não de uma tolerância forçada, que se quer extrair dos outros de forma demonizadora, fazendo dos homofóbicos de hoje os párias da sociedade civilizada. Infelizmente, muitos homofóbicos parecem só se sentir bem nesse papel.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h13

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Preciosidade em leilão

Os nostálgicos e os sonhadores não se esquecem deste belo objeto, que será leiloado no dia 4 de junho.

 

 

...Trata-se da garrafa de "Jeannie é um Gênio", que pertence à coleção de Larry Hagman, o afortunado Major Nelson do seriado. A peça tem valor estimado em 2 mil dólares, naturalmente sem garantias quanto ao que se esconde em seu interior. Lances podem ser feitos online no site da Julien's Auctions, Beverly Hills.

Escrito por Marcelo Coelho às 16h43

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De "Dumbo" à ararinha-azul

 
 

De "Dumbo" à ararinha-azul

No artigo de hoje para a "Ilustrada", escrevo sobre "Rio", a animação de Carlos Saldanha. Aqui vai um trecho:

A maior novidade de “Rio”, comparado aos clássicos da Disney, não deve ser menosprezada. Muitos desenhos animados (“Bambi”, “Mogli”, por exemplo) simbolizavam, acima de tudo, o desafio do crescimento e, com este, a ameaça que mais assombra toda criança: a morte dos pais.

         Voar, para Dumbo, era crescer. Para o protagonista de “Rio”, que reencontra a natureza brasileira depois de anos nas mãos de uma jovem livreira de Minnesota, aprender a voar é a metáfora, não muito disfarçada, da capacidade de se acasalar.

         Defender a sobrevivência de uma espécie ameaçada, como toda criança sabe, exige atividade sexual. No filme, o casal de ararinhas passa boa parte do tempo unido pelas patas com uma correntinha de metal.

         Só desamarrados poderão se amar de fato. O fantasma do incesto, da endogamia, tem de ser esconjurado para que os dois possam de fato namorar. Os humanos do filme, um ornitólogo brasileiro e a livreira americana, também têm um futuro de miscigenação pela frente.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h53

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arte dos capistas

 
 

arte dos capistas

Para quem aprecia boas capas de livro, há um blog dedicado ao tema, o sobrecapas. Foi de lá que tirei a ilustração do post anterior.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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um dia em 1956

Para a edição número 30 mil da Folha, escrevi uma crônica como se ela estivesse sendo publicada no número 10 mil, de 30 de novembro de 1956.

Naquele dia, morria o pintor Santa Rosa, que ilustrou muitos livros de Graciliano Ramos, Manuel Bandeira e companhia. Foi de repente, durante uma viagem à Índia, e Drummond escreveria um poema sobre ele.

 

capa baseada em gravura de Santa Rosa

 

Também saíam notícias de uma conferência de Pablo Neruda em São Paulo.

O escândalo do momento eram as facilidades encontradas pelos deputados federais para importar carros e uísque pelo câmbio oficial. Na linguagem jornalística da época, falava-se do “uísque a meio dólar”.

As tropas inglesas, metidas na enroscada de Suez (tinham tentado reagir à nacionalização do canal por Nasser) agora tinham de se virar para organizar a retirada.

As Olimpíadas de Melbourne chegavam ao fim.

Tavares de Miranda estava no começo, escrevendo profusamente sobre a morte de uma senhora da sociedade.

Havia também um anúncio convidando os interessados a candidatar-se para algum cargo de redator na Folha.

O link para essa edição, que vale a pena espiar, está aqui.

 

Não deu jeito de juntar tudo isso numa mesma crônica, mas fiz a mistura que se segue, procurando imitar a linguagem da época, especialista nas inversões da ordem das palavras na frase.

 

 Deseja o leitor abraçar a carreira jornalística? Pois busque, nas páginas desta edição das “Folhas”, o “reclame” tentador. Recebem-se inscrições para o “Concurso de Redatores” até dia 5 de dezembro. Pede-se ao candidato que decline, numa página manuscrita, o campo de interesses de sua afinidade.

 

Esportes, quem sabe? Não recomendo. Pouco o Brasil tem a oferecer de notável nessa área. Sem surpresa, registramos o malogro das cores verde-amarelas em Melbourne. Já se despovoa a cidade-sede das Olimpíadas, e exceção feita ao glorioso Adhemar Ferreira da Silva, ouro no salto triplo, medalha nenhuma conquistamos. As esperanças que tínhamos no cestobol –ontem mesmo a Bulgária dizimou-as.

 

Perguntará o aspirante a jornalista: e o futebol? Não se dedicam páginas e páginas nos diários aos feitos de Luisinho e de Jair? A seção esportiva não reservaria, tal como o gramado do Pacaembu, caminho largo para as evoluções de um novo “crack”?

 

Sem me fazer dono de nenhuma bola de cristal (a de couro não é meu forte tampouco), responderia que não. Como toda paixão que não é correspondida, a do brasileiro pelo futebol há de arrefecer-se no futuro.

 

Nossa maior oportunidade de empolgar a Taça Jules Rimet, perdemo-la --em 1950. Da França, em 38, voltamos com o terceiro lugar. E que futebolistas, nos dias que correm, são páreo para os Leônidas, os Domingos da Guia daqueles tempos?

 

De mais a mais, o progresso da indústria e da lavoura logo haverá de destituir o futebol das atenções gerais. Avenidas asfaltadas rasgarão as várzeas onde, hoje, a meninada maltrapilha gazeteia a escola para correr atrás de uma bola de meia; e quem sabe, daqui a alguns anos, ocorra com o Brasil o que sucede a todo homem feito: lembrar-se-á do futebol como de um brinquedo da infância, largado por fim em prol dos afazeres da idade adulta.

 

Deveria o aspirante a jornalista entregar-se então às páginas financeiras? Ao registro dos embarques e desembarques no porto de Santos, dos altos e baixos da Bolsa de Chicago? Quererá assinalar, porventura, a importância do soja no futuro da nutrição humana?

 

Não o acompanharei nessa lida. A numeralha de que se atulham os  boletins comerciais, para dali sobrevasar até os discursos do presidente Kubitschek, não é matéria de jornalismo, mas de calculadoras elétricas. Bem cedo os repórteres desse setor serão substituídos por teletipos automáticos, não lhes cabendo mais que o encargo da “mise en page”.

 

A política? Que o candidato a jornalista apanhe uma edição das “Folhas” de há trinta anos. É reproduzi-la, substituindo os nomes, e estará feita a reportagem. Deputados federais tiram proveito do câmbio oficial para importar automóveis de luxo –lê-se a notícia em 1956, terá sido a mesma em 1926... Os Bugattis, os Isotta-Fraschinis de ontem transmudam-se nos Packards e nos Cadillacs de hoje. O que, aliás, não foi melhoramento de monta.

 

Que eu me faça cronista, então!, reage o moço. Cronista? Mas a crônica, meu rapaz, está morta, e estas linhas, um morto as escreveu.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h45

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blogs para aprender idiomas

Uma lista dos cem mais visitados, do francês ao japonês, pode ser encontrada aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h57

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Incômodos da classe média

 
 

Incômodos da classe média

O espanhol Manuel Chávez Nogales (1897-1944) é considerado um dos maiores jornalistas do século 20 em seu país.

Exilado em Paris, por conta da Guerra Civil, ele presenciou a derrocada dos franceses diante dos exércitos de Hitler.

La agonía de Francia” é um misto de análise e reportagem que ele escreveu nessa época. O livro foi publicado em Montevidéu, em 1941, e só no ano passado foi reeditado na Espanha.

A atitude de conformismo, de inação, de fatalismo dos franceses diante da ameaça alemã é descrita em tons de amargura, mas a que não falta certo sentido de humor nos detalhes.

 

 

Diante do teste da guerra, a burguesia francesa média e a pequena burguesia não valeram mais do que a alta burguesia capitalista e os intelectuais.

A guerra não foi para elas mais do que um desconforto. Não lhes era pedido heroísmo nem espírito de sacrifício. Pediam-lhes apenas que suportassem com resignação e de bom grado alguns incômodos secundários.

Na França a gente burguesa clamava pela paz a qualquer preço simplesmente porque era desagradável andar pelas ruas no escuro, porque tinha sido reduzido o serviço de ônibus, porque haviam sido suprimidos os aperitivos três dias por semana, porque estavam proibidos os chocolates de luxo, porque não podiam jogar nas corridas de cachorros, porque não se podia dançar nos cabarés e porque no cinema tinham de agüentar os noticiários de guerra e as marchas militares.

 

A massa popular francesa dos últimos tempos estava formada unicamente pela soma de todos esses egoísmos individuais levada ao paroxismo, ao absurdo, pelo qual seria mais fácil e menos perigoso arrancar do povo suas liberdades seculares ou sua dignidade de cidadãos do que tirar-lhe uma linha de ônibus.

 

O automobilista que se vê obrigado a permanecer quinze minutos imobilizado entre quatro filas de carros num engarrafamento adquire imediatamente a convicção de que o Estado que o governa fracassou em sua missão essencial, e que nesse momento não lhe importa a mínima sua significação ideológica ou seu destino histórico; o que quer, nervosamente, angustiosamente, é que as rodas do seu carro possam seguir rodando.

 

Cito esse exemplo do motorista porque nas últimas horas da França essa foi a imagem mais forte e impressionante que me ficou de toda a catástrofe.

Enquanto na estrada de Paris a Tours cem mil carros embolados andavam lentamente, desviando, empurrando-se, e continuando atolados nos acostamentos com a morosidade e a confusão terrível dos grandes êxodos, os primeiros destacamentos alemães que entravam em Paris estavam formados por guardas de trânsito que se puseram tranquilamente a regular a circulação. Paris foi conquistado pelo apito e pelo cassetete.

O último automóvel fugitivo que saía de Paris teve que desviar sua rota na porta de Saint Cloud porque um guarda de trânsito hitlerista manobrando os sinais luminosos do tráfego havia acendido a luz vermelha para dar passagem aos carros de assalto da primeira divisão motorizada alemã que entrava para invadir Paris.  

França, 1940, no momento que foi chamado "o êxodo".

Escrito por Marcelo Coelho às 18h09

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Tesouros de Yale

Está digitalizado e disponível ao público o acervo de arte, documentos, fósseis e objetos da Universidade de Yale. Pesquisar no sistema de busca pode ser complicado, mas de qualquer modo você topa com surpresas incríveis mesmo quando não encontra o que quer. Eis o resultado de um passeio por lá:

(um barco pesqueiro de Emil Nolde...)

 

(uma gravura de Rembrandt...)

(a Place Pigalle à noite, segundo Bonnard...)

e uma foto russa da Segunda Guerra.

Muito mais pode ser encontrado aqui.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h40

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PM na USP?

É possível que, para um setor de opinião, a presença de policiais militares na USP evoque o passado autoritário. A necessidade de segurança, por outro lado, é visível no campus, e tornou-se dramática depois do assassinato de um estudante da FEA.

 

O problema que não está sendo abordado, todavia, é outro:

 

Como a PM vai proceder diante do consumo e da venda de maconha no campus?

 

Esta é a questão que atravessa, de modo oculto, todo o debate.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h57

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serviços confidenciais

É engraçada a justificativa feita pelo ministro Palocci para não divulgar quem pagou pelos seus serviços de consultoria. Diz que há uma “cláusula de confidencialidade” que o impede de esclarecer o que foi feito, para quem foi feito, e o quanto valeu o que se fez.

Mas o escândalo é exatamente esse.

Não há “confidencialidade” que se possa admitir nas atividades de consultoria de uma pessoa pública como ele.

A conclusão a tirar é que, em vez de confidenciais, os serviços merecem ser chamados de inconfessáveis.

Escrito por Marcelo Coelho às 08h06

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arte e inundação

Thomas Hart Benton (1889-1975) foi professor de Jackson Pollock, mas sua estética não tinha nada a ver com abstracionismo. Muralista cheio de convicções políticas, Benton parece estar no meio caminho entre o expressionismo engajado de Georg Grosz e a ilustração “pop”. Certamente a pintura naif pode se inspirar em alguns de seus quadros, como este “O Twist”, de 1964.

 

 

 

 

Alguns anos antes, a cena musical era outra, como prova este mural feito em Nova York nos anos 30.

 

 

 

 

“Vítimas da enchente”, de 1951, é um quadro inspirado por uma tragédia no Mississipi, que Benton reproduziu em cartões postais para distribuir às autoridades de Washington, numa campanha de fundos para a recuperação das áreas atingidas.

 

 

 

 

O quadro acaba de ser vendido num leilão por U$ 1,8 milhão. As estimativas iniciais oscilavam entre U$ 800 mil e 1,2 milhão.

Os recentes desastres no Mississipi deram, provavelmente, mais atualidade e interesse comercial ao quadro.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h29

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Todo mundo fala errado

A ironia de todo esse escândalo em torno do  “falar errado” é que as pessoas escandalizadas... também falam errado.

O senador José Sarney é um dos que reagem diante do tal livro didático que afirma ser permitido, NA LINGUAGEM FALADA, suprimir o “s” nos plurais. O livro não disse que é certo ESCREVER “os livro”.

O senador Sarney, apesar de literato e membro da ABL, certamente não fala “Dê-me um cargo na Petrobras” em seus entendimentos políticos.

Na linguagem falada, o mais indicado numa situação dessas seria “Ô Fulano, como é quitá aquele assunto da Petrobrás? Tu falou coa mulhé? Me dá uma resposta, tá?”

Quem falasse corretamente, num diálogo desse tipo, seria vítima, não digo de preconceito, mas de justificadas dúvidas quanto à sinceridade do pleito.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 10h54

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Humor e incorreção política

Marcelo Zorzanelli é editor da revista Alfa, e escreveu na sexta-feira passada um artigo discutindo, sem o meu azedume, a questão do humor “politicamente incorreto”. É um texto muito interessante, porque ele é humorista também. Segue um trecho.

 

 

 

No mês passado, o programa Comédia MTV exibiu um esquete chamado Casa dos Autistas. Em obséquio aos leitores deste artigo, acho importante dizer que fui um dos redatores do Comédia MTV durante todo o ano de 2010. Ainda naquele ano, Casa dos Autistas era discutido em reuniões de criação de roteiro. O esquete foi descartado incontáveis vezes – e, lembro-me bem, Marcelo Adnet, astro do programa, era terminantemente contra sua execução – porque não havia nele qualquer graça além do trocadilho do nome. Eu fui contra. Pelo que me lembro, todos eram contra – era apenas uma ideia boba que ninguém achou que poderia vingar.

 

Mas o quadro foi produzido e foi ao ar. Confesso que não consegui ver mais do que dois minutos. Os atores, interpretando jovens com autismo, gritam, babam, olham para as paredes, fazem caras e bocas estranhas. Tudo dolorosamente sem graça. Meus ex-colegas perceberam o erro e se desculparam publicamente.

Há um decoro que deve permear toda e qualquer comunicação de massa: não se bate em quem está caído.  Não se bate em minorias, portadores de doenças, pessoas que sofrem. Por quê? Porque não se faz. Simplesmente, não se faz.

 

E, principalmente, não se faz quando é sem graça nenhuma.

A íntegra do artigo pode ser lida aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h09

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Palocci, outra sugestão

Se ele acabar demitido, não vejo grande perda para o governo. Eles poderão sempre nomear o Delúbio em seu lugar.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h52

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Uma sugestão a Palocci

Por que ele não chama os amigos da Caixa Econômica Federal e abre o próprio sigilo bancário?

Escrito por Marcelo Coelho às 14h20

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a moda do incorreto

Segue um trecho do artigo de hoje na Ilustrada:

Ser “politicamente incorreto”, no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer “incorreto” –e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.

         Não nego que o “politicamente correto”, em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica.

         Mas o “politicamente incorreto”, em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez.

         Reproduz preconceitos antiqüíssimos como se fossem novidades cintilantes. “Mulheres são burras!” “Ser contra a guerra é viadagem!” “Polícia tem de dar porrada!” “Bolsa família serve para engordar vagabundo!” “Nordestino é atrasado!” “Criança só endireita no couro!”

         Diz ou escreve tudo isso, e não disfarça um sorrisinho: “Viram como sou inteligente?”

         “Como sou verdadeiro?” “Como sou corajoso?” “Como sou trágico?” “Como sou politicamente incorreto?”

         O problema é que “politicamente incorreto”, na verdade, é um rótulo enganoso. Quem diz essas coisas não é, para falar com todas as letras, “politicamente incorreto”. Quem diz essas coisas é politicamente fascista.

         Só que a palavra “fascista”, hoje em dia, virou um termo... politicamente incorreto. Chegamos a um paradoxo, a uma contradição.

         O rótulo “politicamente incorreto” acaba sendo uma forma eufemística, bem-educada, aceitável (isto é, “politicamente correta”) de se dizer reacionário, direitista, fascistoide.

O artigo completo está aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h18

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Herzog e a "dignidade da morte"

Afirmando ser contra a exibição das fotos de Bin Laden morto, o cineasta Werner Herzog deu o exemplo das vítimas do 11 de setembro. Nos dois casos, mostrar cadáveres seria atentar contra “a dignidade da morte”.

Mas não se trata de um valor sacrossanto, a meu ver.

Será que Herzog seria contra mostrar as fotos das vítimas mortas de Auschwitz, por exemplo? Há cenas terríveis, como a de montanhas de corpos esquálidos sendo empurrados com uma escavadeira. A divulgação de um filme como esse não respeita a dignidade dos mortos, mas mostra ao menos a indignidade dos assassinos.

Um jovem aspirante a terrorista (não digo todos) talvez recuasse de horror diante da visão dos mortos num atentado a bomba, em vez de considerar abstrata e religiosamente a suposta grandeza de seu “sacrifício”.

Quem se empolga com os atos justiceiros de uma potência nuclear talvez deixasse de ver a política internacional em termos de bandido e mocinho.

Quem gostou da morte de Bin Laden, como eu, talvez pensasse mais a respeito ao ver a foto do terrorista.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h34

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Palavra e imagem

Em matéria de imagens e design, sou fanático pela legibilidade total. Quem acompanha os posts da série "pizzas e cia." haverá de entender do que estou falando. Fascina-me o cartaz com uma pizza desenhada e, embaixo, a legenda "pizza". O pote de biscoitos, que só nas histórias em quadrinho tem escrito na sua frente "Biscoitos". A escola que diz na fachada "Escola", etc.

O designer Peter Bristol sabe o quanto há de infantil nessa expectativa, e o quanto o uso da escrita, da legenda, no fundo é uma traição ao design: em tese, a comunicação pretendida por essa arte deveria ser exclusivamente visual, sem recurso a meios externos.

Ele resolveu o problema numa cômoda para quarto de crianças:

 

O espírito de brincadeira também está em outra criação de Bristol, a "cadeira quebrada",

que funciona perfeitamente. A explicação pode ser encontrada neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h13

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um novo fotógrafo na praça

Eis algumas fotos interessantes, tiradas ao rés-do-chão:

 

 

 

Foram tiradas pelo "fotógrafo" Cooper. Cooper é um gato. Passeia por Seattle com uma câmera digital presa no pescoço, e é uma das febres atuais na internet. Cópias (não assinadas) de seus trabalhos estão à venda neste site, onde informações sobre ele e seu culto estão à disposição.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h42

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Para melhorar o inglês

Toda pessoa que pretende aprender inglês usa bem mais, é claro, o dicionário Inglês-Português do que o seu inverso. Interessa mais saber o significado de uma expressão inglesa em português. Interessa menos saber como uma expressão em português poderia ser traduzida para o inglês.

Isso é sinal de que nossos primeiros passos no aprendizado de uma língua são passivos: primeiro ouvir e ler, depois falar e escrever.

O resultado é que, quando precisamos falar em inglês, embatucamos.

Recebi por e-mail um release com perguntas interessantes.

Como dizer em inglês, por exemplo, “sair de fininho”? Ou “jogar conversa fora”? Ou “fazer escândalo”?

As respostas, respectivamente, são: “to sneak away”, “to shoot the breeze”, e “to make a scene”.

Outras expressões desse tipo são explicadas, diz o release, em How do you say in English? , de José Roberto Igreja (Disal Editora).

No gênero, mas num nível mais básico, aproveitei bastante “Como dizer tudo em inglês”, de Ron Martinez (ed. Campus), que vem com um CD. São frases simples, mas que geralmente nos escapam na hora de falar. O livro é um sucesso em aeroportos, bastante merecido, acho eu.

Os mais pacientes (e malucos) podem tentar o curioso curso de Chris Moses, "Flow English", pagando na internet para baixar no computador uma série de historinhas bizarras ("O porquinho do basebol", "O inseto faminto", etc.) que são em seguida dissecadas por 40 minutos em perguntas óbvias que você deve responder sem hesitação, ao longo de várias semanas. O efeito, se não for enlouquecedor, é que você se acostuma a falar muito depressa em inglês. É quase um treinamento físico, dos músculos labiais e da língua. Destravar é exercitar, e uma língua, infelizmente, só se aprende pela repetição. Pela exaustão, na verdade.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h34

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Palocci em prédio nobre

Talvez tenha sido acertada a decisão do ministro Palocci, comprando um amplo escritório num prédio em zona valorizada de São Paulo.

Ali, pelo menos, não é preciso contratar caseiros.

E ele não precisa ter tanto contato com “gente diferenciada”.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h47

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O pianista Stephen Hough

 
 

O pianista Stephen Hough

Neste domingo, na Sala São Paulo, o pianista britânico Stephen Hough dá um recital só de sonatas, começando pela op 27 no. 2 de Beethoven ("Ao Luar") e terminando com a de Liszt, em si menor. Escrevi as notas para esse programa, que reproduzo mais abaixo. Mas o melhor é começar vendo Hough no youtube. Segue o trecho de uma "masterclass" com uma rapsódia húngara de Liszt, e é impressionante ver a diferença entre a facilidade do professor, a liberdade dele, e a aplicação não muito imaginativa da aluna:

Eis o que eu escrevi sobre o recital, que está disponível na revista mensal da Sala São Paulo, distribuída aos frequentadores do lugar.

“Eu vos convoco à vida, ó forças misteriosas!/Mergulhadas nas obscuras profundezas/ Do espírito criador, tímidas/ Sombras de vida, eu vos trago a audácia!”.

        

Estes versos, tirados de seu próprio “Poema do Êxtase”, serviram a Alexander Scriabin de epígrafe para sua Sonata no. 5, uma das peças desta apresentação. Mas poderia ser estendida a todo o recital de Stephen Hough a ideia, expressa com tanta ênfase por Scriabin, de uma passagem da “sombra” para a “audácia”.

        

Na “Sonata Quase uma Fantasia”, op. 27 no. 2, de Beethoven (1801), sempre se procurou algum tipo de “programa”, ou de “narrativa”. O primeiro movimento da peça, que começa ondulante e hipnótico, rendeu-lhe o título célebre –“Sonata ao Luar”. Mas se existe mesmo algo de um balanço de barco em lago noturno no “adagio sostenuto”, como explicar que em seguida apareça um “allegretto” bem brejeiro e matinal?

 

Fiquemos só com a música; por exemplo, o acorde de dó sustenido menor. Ele é gestado misteriosamente nas profundezas do primeiro movimento –e, como se fosse acumulando carga elétrica na memória do ouvinte, dispara relampejante no “presto agitato” final.

 

Do mistério à audácia, do lunar ao alucinado: um Scriabin –grande pianista, aliás— certamente interpretaria assim a sonata de Beethoven.

        

Antes de chegar a Scriabin, entretanto, o recital nos apresenta uma composição curta, também quase programática, do tcheco Leos Janácek. Homenageando um trabalhador morto em 1905, numa manifestação contra o domínio austríaco, esta peça em dois movimentos transpõe parcialmente, para a linguagem pianística, a preocupação presente nas grandes óperas do compositor, como Jenufa. Tratava-se de reproduzir os ritmos e acentos peculiares da linguagem falada nos cafés, nas ruas, nas conversas familiares.

 

É assim que ouvimos algo como uma interjeição rápida (cuidado, perigo!) interrrompendo, com insistência, a cantilena do movimento inicial. Cantilena calma e interjeição “urgente” serão conduzidas das sombras de mi bemol menor para um esperançoso sol maior. Mesmo assim, o primeiro movimento recebe seu título –“premonição”— do grito de alarme inicial, que será retrabalhado demoradamente, numa obsessividade sem saída, no segundo movimento, intitulado apenas –“morte”.

        

Já as duas sonatas de Scriabin não poderiam se movimentar de modo mais eufórico, diríamos mesmo maníaco. Na sonata no. 4, de 1903, uma ascensão rumo às estrelas é representada no “prestíssimo volando” do segundo e último movimento. “Giubiloso”, “con stravanganza”, “tumultuoso esaltato”, “con una ebbrezza fantastica”: as indicações do compositor pululam nas páginas das duas sonatas, altamente virtuosísticas em seus motivos alucinatórios. Mas na Sonata no. 5, de 1907, é como se o entusiasmo terminasse por faíscas e choques dolorosos. Composta num único movimento, a peça de Scriabin parece fraturar-se de alegria –e se os temas, que se alternam obsessivamente, atingem uma síntese, esta já parece se situar em outra dimensão, a do silêncio.

        

O jogo com o silêncio, a forma  “cíclica”, a obsessividade no uso de motivos curtos, retransformados como se estivessem dentro de um caleidoscópio descomunal, constituem algumas das originalidades da Sonata em si menor, de Liszt, de 1853. Mais uma vez, a forma clássica da sonata é aqui reinterpretada, traída e traduzida para um espírito romântico e quase programático. Dos graves e meditativos desenhos dos compassos iniciais, à súbita aparição do motivo principal da obra (que lembra, curiosamente, o gracioso tema do Allegretto do op. 27, só que cortado a faca, sulfuroso, desafiador) também vemos a gestação de um processo que vai do satânico ao luminoso, da profundeza à luz.

        

As cintilações estelares de Scriabin, o luar beethoveniano, os revérberos urbanos de Janacek convergem no clarão, por vezes teatral, de Liszt. Mas sua sonata, com justiça considerada um dos cumes da literatura pianística, aparece aqui como uma espécie de grande construção unificando as indicações, os presságios e os ardores das demais sonatas do recital, que se combinam e recortam a mais de um século de distância.  

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h49

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voltaire de souza

Mais uma crônica no "Agora SP":

 

 

CENAS QUENTES

 

 

Sexo. Prazer. Ousadia. O que é proibido excita o ser humano.

Rafael consumia filmes de pornografia.

Seu fornecedor se chamava Camelinho.

Especialista em DVDs piratas atuando perto do Largo 13.

--Pode levar. Esse aqui é quente. Video caseiro.

O preço estava acima da média.

--Mas você leva este aqui de brinde.

--“Pega no Trabuco”? Não é coisa de gay?

--Olha, é variado... mas o outro eu garanto.

A curiosidade acabou vencendo. Em casa, Rafael ligou a TV de plasma.

Imagens trêmulas. A escuridão de uma caverna.

--Essa gruta promete... he he.

Em vez de belas mulheres, apareceu um senhor de barba.

O turbante. A roupa branca. As palavras de ódio.

Eram cenas proibidas. Mas nada de sexo.

As últimas mensagens de Bin Laden. Vídeos caseiros de péssima qualidade.

Rafael pede o dinheiro de volta. Mas Camelinho já sumiu nos desertos da cidade.

O ódio pode ser, por vezes, mais quente do que o amor.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h24

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Matemática do racismo

Papelão o desse ministro dinamarquês, entrevistado hoje na Folha. Diz que não está impondo barreiras à imigração no seu país, que tudo é uma questão de controle aduaneiro, e depois raciocina:

 

“Os dinamarqueses não querem ver mudanças negativas, como mulheres vivendo sob opressão, casamentos forçados e violência –nas casas de apoio contra a violência doméstica, de 45% a 46% das mulheres não são de origem dinamarquesa”.

 

Se faço as contas direito, isso quer dizer que de 54% a 55% são.

 

E, se acabassem totalmente a imigração, 100% seriam.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h50

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A volta de Camille Paglia

Eis Camille Paglia de volta, depois de um tempo de relativa discrição. O furor de meados dos anos 80 passou. E suas opiniões trazem, a meu ver, o peso da idade.

 

“Não há mais nenhum artista importante no mundo”, diz ela na Ilustrada (aqui para assinantes do UOL). “Os jovens que cresceram neste mundo da web, o tipo de imagens que veem na tela não tem a mesma qualidade das imagens da história da arte, das pinturas a óleo. Hoje é a técnica do Photoshop, da arte digital. Nos impressionistas, como Monet ou Renoir, um bosque pode ter 30 tons diferentes de verde. Os jovens nunca viram isso, as sutilezas, as sombras das pinturas.”

 

É esquecer que antes da web “os jovens” viam TV e liam histórias em quadrinhos, cujas cores eram menos sofisticadas que as disponíveis no computador.

 

É esquecer que a maioria das pessoas nunca viu Renoir nem Monet nos museus.

A minoria culta que se interessou pelo impressionismo começou vendo as reproduções em livros. Piores do que o que se tem hoje na internet. Onde o acesso a detalhes das pinturas, em zoom, é maior do que o de quem se arriscar a pôr o nariz na tela do museu sob as barbas dos vigilantes.

 

É esquecer que “os jovens”, e as pessoas de todas as idades, vão muito mais a museus do que há 40 anos. Hoje, qualquer exposição importante tem filas quilométricas, e quem quiser evitá-las deve comprar ingressos com meses de antecedência. Pela net,aliás.

 

É a velha e pouco original tese de que hoje em dia nada mais vale a pena.

 

Quando ela tenta ser original, cai no verdadeiro absurdo. Não há muito de novo a dizer a favor ou contra o aborto, mas ela se sai com esta:

 

“Aceito o argumento da direita de que o aborto é assassinato. Mas digo: você está cometendo assassinato, mas tem o direito de fazê-lo”. Poupe-me.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h40

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carro a pique

Recebo uma foto interessante dos tempos do onça. Foi tirada no município de Santa Branca, no Vale do Paraíba:

Tive de diminuir um pouco para caber aqui, mas acho que é possível ver algumas das expressões no rosto da molecada --tão igualmente vestida como se fosse um uniforme da escola; mas não é escola, é o uniforme da infância interiorana. Um pedaço do carro parece ter-se separado do resto e cai na calçada. Alguns adultos vêm com uma alavanca para tirar o carro, que caiu num enorme buraco. Mais afastado, um senhor gordo observa. Seria o dono do carro? Homem capaz de trazer o "progresso" a Santa Branca, vê sua aventura acabar mal. O passado, ou o melhor, o presente daquela época, se vinga do futuro.

Imagino que Eduardo Kobra (ver post anterior) poderia bem usar essa imagem num painel para a cidade.

A foto faz parte de uma exposição na Câmara Municipal de Santa Branca, que abre na data dos 179 anos da cidade, dia 22 de maio, e vai até 30 de novembro. A mostra também homenageia o trabalho de Mairy Narvaes, que começou a fotografar aos 68 anos. Eis uma foto dela, que faz dupla com a anterior:

Aqui, são os barcos que parecem querer afundar, numa torrente congestionada à beira d'água.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h41

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Palanque e sangue frio

 
 

Palanque e sangue frio

Não sei nada a respeito do presidente americano Theodore Roosevelt (1858-1919), exceto que é um dos quatro rostos perpetuados em pedra no Monte Rushmore, e que esteve nas selvas brasileiras, já doente, numa expedição cheia de perigos,narrada em O Rio da Dúvida, de Candice Millard

        

Leio agora uma passagem que tira qualquer dúvida quanto à intrepidez do personagem. Roosevelt ia fazer um discurso eleitoral em Milwaukee; o ano era 1912. Como é comum nos Estados Unidos, um sujeito armado tentou assassiná-lo. Acertou perto do peito. Roosevelt, entretanto, parece não ter sentido nada. Subiu ao palanque e pediu silêncio.

 

         Esperando o público se aquietar, ele enfiou a mão no bolso do casaco para pegar o texto do discuro. O manuscrito de cinquenta páginas estava dobrado. Ele só notou que havia um furo nos papéis quando começou a ler. Por alguma razão, ver a dupla perfuração nos papéis chocou-o mais, aparentemente, do que o sangue em seus dedos. Ele hesitou, sem palavras por um momento, e depois tentou tirar um riso da plateia num tom de falsete humorístico: “Como vocês podem ver, eu ia fazer um discurso bem comprido”.

        

 

Só depois de terminá-lo consentiu em ir ao hospital, tirar a bala que se tinha alojado na costela. O tiro não foi fatal porque o discurso, além de uma caixa de óculos de metal no bolso do casaco grosso, receberam o primeiro impacto da bala.

 

Não é o único caso de pessoa salva pelo que trazia no bolso. Aí por volta de 1840, num duelo, certo fidalgo francês escapou de morrer porque tinha uma bolada de dinheiro no bolso da sobrecasaca. O poeta Heinrich Heine, exilado em Paris naquela época, fez o trocadilho célebre: "voilà de l'argent bien placé!" Algo como "um investimento bem posicionado!"

 

O trecho é do livro Colonel Roosevelt, de Edmund Morris, resenhado na New York Review of Books de 12 de maio.

 

Washington, Jefferson, Roosevelt e Lincoln no Monte Rushmore 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h35

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A arte urbana de Eduardo Kobra

Quem mora em São Paulo conhece os murais hiper-realistas e nostálgicos de Eduardo Kobra, como por exemplo estes aqui:

 

(av. Sumaré)

 

(praça Panamericana)

 

(av. Domingos de Morais)

(23 de Maio)

Mas há obras dele em várias outras cidades, como Santa Maria (RS):

E, agora, em Lyon, na França, que dizem ser "a capital europeia do muralismo". Lá, o artista entrega neste sábado um mural intitulado "Imigrantes". Mandaram-me fotos do trabalho quase concluído, como esta:

Impressiona sempre a tristeza dos rostos (ou sua indiferença), típica das fotos antigas nas quais ele se baseia, e ao mesmo tempo a incontrolável alegria que parece haver não só no artista que as reproduz, como também no fato de elas emergirem, cheias de vitalidade, na paisagem urbana. As ruas em volta, os carros, os passantes é que se tornam indiferentes, transitórios, quase tristes, enquanto a vida reaparece em preto e branco. Ou nas "cores de época", sempre mais puras, daquela imagem dos anos 40-50 do mural na Domingos de Morais.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h28

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O promotor contra o metrô

Leio no “Cotidiano” de hoje que o promotor Maurício Antonio Lopes resolveu tomar uma atitude no caso da nova estação do Metrô na esquina da rua Sergipe com a avenida Angélica.

Como se sabe, moradores da região protestaram contra a escolha do local, e decidiu-se mudar a estação para perto do Estádio do Pacaembu.

É muito mais lógico, acho eu. A Faap e o estádio por si mesmos justificariam um metrô ali, enquanto na avenida Angélica o que se facilita, no máximo, é o acesso à Praça Buenos Aires e ao restaurante Carlota, onde servem petit gateau de goiabada com queijo.

Mas o promotor Maurício está em dúvidas. Está inquieto. E agiu com rapidez. Pediu esclarecimentos ao secretário dos Transportes.

“Quero saber se ele cedeu a uma pressão da elite ou se a questão foi técnica”, declarou.

Como saber?

Desde quando o Ministério Público está capacitado para “interpretar”, sem nenhum indício empírico de transgressão à lei, os motivos de um governante?

Supondo, na pior das hipóteses, que a Prefeitura esteja cedendo às “pressões das elites”: isto é crime? Ou é questão apenas de uma visão política com a qual não concordamos?

E mesmo que fosse, será que o secretário não tem dezenas de argumentos técnicos, corretos ou não, para “explicar” ao promotor sua decisão?

Pouco importa. O promotor já terá tido seu momento de fama.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h46

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você é musical?

 
 

você é musical?

A estação de música clássica da BBC propõe um teste aos internautas, para medir sua musicalidade. É um pouco demorado, mas em alguns momentos bastante divertido de fazer.

Você tem de dizer, por exemplo, se a batida do compasso está certa numa série de exemplos musicais. Já sabia que ia me dar mal nesse item. Outro teste é ouvir uma melodia, e depois ouvir uma outra versão, dizendo se as notas são as mesmas ou se alguma coisa foi alterada. A rigor, foi a única coisa em que me saí bem.

Outras questões são genéricas demais: "você ouve música todo dia? Você toca algum instrumento? Já chorou ouvindo música?" Eles querem medir com isso não apenas a sua capacidade auditiva, mas o seu entusiasmo pela coisa. Nesse ponto, o teste é suspeito: pode ser que estejam medindo apenas a sua personalidade --se é emotiva e entusiasta, ou se é reticente e moderada. Como a pesquisa é conduzida por acadêmicos, talvez exista um objetivo secreto no teste: saber se há relação entre o seu pendor musical e o gosto que você tenha pela música. Um sujeito pouco talentoso pode achar a música essencial na sua vida --tanto quanto alguém que percebe na hora a falha de um baterista. Será?

Seja como for, senti-me injustiçado pelos resultados --os exemplos eram na maioria tirados da música popular, o que desnorteia o ouvinte de uma rádio clássica. E minha tendência era responder às perguntas gerais sem grandes efusões: não "adoro" todo tipo de música, não vou a shows, etc. Adoraria, entretanto, fazer mais testes "técnicos" que pudessem treinar mais o meu senso de ritmo e o ouvido para pequenas diferenças na harmonia de uma música.

Quem quiser tentar, pode clicar aqui

Escrito por Marcelo Coelho às 16h29

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voltaire de souza

Duas crônicas no jornal “Agora” comentam fatos recentes.

 

 

NOITE DAS ARÁBIAS

 

 

Beleza. Pompa. Glamur.

O casamento de Kate e William já passou.

Mas continua a inspirar os corações românticos.

Danielle conferia com o noivo os detalhes da sua boda.

--Mais flores? Será que dá? E o bolo? Queria maior.

A cerimônia seria realizada numa capela em Tamboré.

--Vamos lá de novo, Eduardo. Quero conferir uns detalhes.

O casal entrou naquele templo simples mas charmoso.

No altar, a imagem de Jesus Cristo mostrava o caminho da dor e da salvação.

Danielle fechou os olhos. Entrou num estado místico. Ouviu então uma voz.

--Dánuelua... Dánuelua...

O mártir de barba longa e olhos profundos dava um recado.

--Gancela o gasamendo... Uresbeita o minho morta...

Era o rosto de Osama Bin Laden. Pendurado na cruz.

Dalva está em tratamento psiquiátrico.

Eduardo aproveita o tempo de solteiro organizando com os amigos uma noite das Arábias.

A desgraça de alguns é sempre motivo de festa para outros.

 

 

REFÚGIO DE UM BÁRBARO

 

Amor. Carinho. Dedicação.

O instinto materno está presente em todos nós.

Dona Evanda dava um suspiro.

--Não tive sorte com o Wilsinho.

Há muitos anos o rapaz não dava notícia.

--Fez o curso de engenharia... depois...

Um emprego na Inglaterra. As cartas começaram a rarear.

--Parece que ele andou metido com exploração de petróleo...

O Dia das Mães chegou com um vento desagradável no Jardim Magnolli.

Logo cedo a campainha tocou.

Um senhor curvado. Longas barbas grisalhas.

A túnica branca. O turbante. O olhar negro e profundo.

--Mamãe... sou eu.

--Wilsinho?

--Psiu. Meu nome é outro. Xeique Assil Nubrink Hamais.

O rapaz tinha se envolvido no terrorismo islâmico.

Desistiu de tudo quando mataram o Bin Laden.

O coração de uma mãe será sempre o maior esconderijo.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h33

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Os blogs de antigamente

 
 

Os blogs de antigamente

Antes dos blogs, é claro, existiam os diários --que, como gênero literário, funcionam de modo melhor e diferente. Embora a forma seja semelhante, um é praticamente o oposto do outro. Um é escrito e lido imediatamente, enquanto o diário só se lê quando o conjunto já se formou, e o autor já não está mais atento às reações do público (embora, com certeza, muitas vezes já seja escrito com vistas a virar livro).

Em todo caso, era de prever que o interesse pelos diários do passado aumente com a voga dos blogs, e uma exposição em Nova York traz curiosidades valiosas sobre o tema. Pode-se acessar online (neste link) fac-similes de páginas dos diários de autores variadíssimos. Desde Charlotte Bronte, com sua caligrafia quase fenícia, aos caprichados arabescos do pirata Bartholomew Sharpe, passando por John Ruskin e Tennessee Williams. A transcrição aparece ao lado de cada trecho. Nada que, novamente, substitua a emoção do livro real em mãos, mas que é bonito, é.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h00

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Kindle, sim e não

 
 

Kindle, sim e não

Minhas reações não foram nem de entusiasmo nem de repúdio. O brinquedo serve para algumas situações, como viagens. É leve e cabe bem na mão. Como tem o dicionário incluído, qualquer palavra (quase qualquer palavra: as com hífen não aparecem) desconhecida em inglês tem sua definição ao alcance de alguns toques do cursor. Quem se dá mal com letrinhas pequenas pode aumentá-las até as dimensões de outdoor.

O Kindle ajuda jornalistas e apressados em geral, quando precisam ler algum livro da noite para o dia, sem esperar pelo correio.

Dito isto, ainda não é todo livro que tem sua versão para o Kindle. Coisas mais acadêmicas não adianta muito procurar: o melhor é encomendar pelas vias tradicionais. Livros razoavelmente comuns (no meu caso foi um romance de Hemingway) saem por um preço a meu ver injusto, quase 11 dólares.

Preferi pedir pelo correio; em sites de livros usados o preço é de menos de um dólar, e o frete é razoável.

O livro impresso ainda tem vantagens consideráveis. O Kindle apresenta todo livro com o mesmo tipo de letra, com o mesmo desenho de página, o que torna a leitura habitual uma coisa bem mais monótona.

Alguns livros que eu li no Kindle me parecem muito mal editados. Estou atrás de poemas sobre a Primeira Guerra Mundial. Um dos principais poetas dessa época, Wilfred Owen, tem uma edição eletrônica com grande número de poemas, mas sem notas, sem índice, e se nesses livros do Kindle existe qualquer menção ao número de páginas eu ainda não sei como conseguir. Mais do que isso, há erros tipográficos, algumas pontuações que faltam, e mesmo letras que escaparam do processo de digitalização.

Comprei também uma edição de uma peça de Shakespeare, cheia de notas, explicações, longos posfácios críticos e biográficos –mas no Kindle tudo acaba quase se transformando numa maçaroca, porque você não consegue pular as páginas que não vêm ao caso e chegar ao ponto que está procurando. Tive de ficar virando as páginas uma por uma até ler um posfácio que me interessava.

Desse modo, minha preferência pelo livro em papel não tem muito a ver com as nostalgias táteis e olfativas que sempre se invocam em detrimento do livro eletrônico.

Talvez o Ipad seja melhor do que o Kindle nos aspectos que mencionei. Dizem que a luz da tela cansa mais a vista. É mais caro. É maiorzão. Amigos têm os dois, o Kindle e o Ipad. Mas não estou com essa pressa toda.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h23

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Guerra, gás e cegueira

 
 

Guerra, gás e cegueira

Na Primeira Guerra Mundial, os ataques com gás começaram já em 1914, com os franceses usando gás lacrimogêneo contra os alemães. Seis meses depois, os alemães passaram a usar clorina, uma substância letal. Descobriu-se entretanto que urinar num lenço e cheirá-lo depois ajudava a neutralizar os seus efeitos. O gás mostarda veio depois, muito mais perigoso, atacando pulmões (a tosse rasgava-os) e também a pele e os olhos.

Leio a informação no excelente The Missing of the Somme (“Os Tombados na Batalha do Somme”), livro curto de Geoff Dyer, que é menos sobre a história da Primeira Guerra do que sobre a maneira com que é rememorada, nos monumentos, nos filmes e na literatura.

Geoff Dyer já teve publicado no Brasil um livro interessantíssimo e maravilhosamente escrito sobre fotografia (“O Instante Contínuo) e, depois de grande obra ensaística publicada na Inglaterra, começa a ser mais divulgado nos Estados Unidos, com a coletânea "Otherwise Known as The Human Condition". Em “The Missing of the Somme”, ele comenta um quadro famoso de UOL Busca John Singer Sargent, mostrando os soldados ingleses vitimados pelo gás mostarda.

 

 

[O quadro] mostra uma fila de dez homens caminhando juntos em meio à massa de outras vítimas de gás, espalhadas pelo chão a seu lado. Os olhos estão com bandagens e, como na “Parábola dos Cegos” de Brueghel, cada homem traz sua mão no ombro do que vai na frente. No meio do grupo um soldado se vira de costas para vomitar. Outro, perto do começo da fila, levanta seu pé, achando que há um degrau à sua frente (...)

Os soldados no primeiro plano estão dormindo ou descansando, apoiados uns nos outros. Um toma água no cantil. No céu há aviões onde deveria haver pássaros, voando ao acaso.

(...)

Em “Gassed” há pouco sofrimento. Ou melhor, o que há de sofrimento é sobrepujado pela compaixão do quadro. A despeito da figura que vomita, a cena não tem quase nada em comum com a visão do poeta Wilfred Owen de uma vítima do gás, cujo sangue vem “em gargarejos dos pulmões corroídos pela espuma”. O que Sargent pintou, em vez disso, é o acolhimento dos cegos: o conforto de depositar confiança em alguém, de ser conduzido com confiança a algum lugar. Ao mesmo tempo a própria luz parece restituir-lhes a visão, uma luz tão suave que conseguirá aliviar até mesmo os olhos arruinados pelo gás. A dor é barulhenta, clamorosa. No quadro de Sargent a tosse e o ardume são absorvidos pela tranquilidade da tarde.

 

 A avaliação é persuasiva, mas me pareceu excessivamente crítica. O quadro pode ser interpretado de outra forma, acho. Surge principalmente como alegoria da própria guerra, e daquela guerra em particular –onde massas de soldados eram conduzidas à morte sem saber por que nem como, numa estratégia que prolongava o impasse militar por anos a fio, cegamente.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h58

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hot design

Ganha um prêmio quem adivinhar o que é isto:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

... é um aquecedor, desenhado pela firma 5.5 Designers para uma firma francesa. Mais detalhes aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h39

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Máquinas de matar

Quando eu era criança, uma das editoras daquele tempo publicava a coleção “Terra Mar e Ar”, dedicada a livros de aventuras. Acho que os livros do Tarzan (há uns 15 pelo menos, entre eles “Tarzan contra os Homens-Formiga”, e o de título mais bonito, “Tarzan e os Homens de Pelucidar”) saíam nessa coleção. Companhia Editora Nacional, talvez.

Eu gostava mais da Editora Vecchi, que publicava os romances do verdadeiro e único ladrão de casaca, Arsène Lupin; a coleção, pelo que me lembro, se chamava “Os Audazes”, que eu gostava de ler “Os Adaúzes”.

Não importa. “Terra, mar e ar” são as palavras que compõem a sigla da Seal, cuja “equipe 6” foi o grupo de elite americano que matou Osama Bin Laden. Saiu outro dia uma descrição de como é o treinamento desses rapazes –coisa de fazer a Tropa de Elite do capitão Nascimento algo parecido com uma roda de samba especializada em velhos sucessos do Martinho da Vila.

São treinados para despencar 9 km de para-quedas, ou pára-quedas, com máscara de oxigênio, caindo em cima de um possível navio seqüestrado. Durante seis meses, dedicam-se a atividades de sabotagem submarina. Na chamada “semana do inferno”, dormem apenas quatro horas em cinco dias e meio. A porcentagem dos que “pedem para sair” nesse período é de 80%.

Em suma, são verdadeiras máquinas de guerra com forma humana. Imaginar que fossem entrar no reduto de Osama com disposição para pegá-lo vivo é uma ilusão. O governo americano parece querer enganar o público quando diz que tinha intenções de levar o terrorista preso em vez de matá-lo na hora. O diretor da CIA, Leon Panetta, disse por exemplo que a tropa tomou a decisão “numa fração de segundo”. Osama estava desarmado, admitiram, mas havia um rifle a seu alcance, e nessas condições teria sido preferível matá-lo antes de qualquer reação.

Francamente. Não eram oficiais de justiça com um mandado de investigação. Ninguém entra no esconderijo de um Osama, ou no bunker de um Hitler, batendo à porta e pedindo documentos. Foi um ato de guerra que, repito, não me deixa infeliz. Muito diferente de bombardear civis e matar milhares de crianças em nome de uma luta contra as armas de destruição de massa no Iraque, ou de entrar com tudo num navio levando suprimentos à faixa de Gaza. Não acho que tenha sido legal –e se em vez do Osama tivessem matado um velhote qualquer? Mas não lamento o sucesso da operação.

Evidentemente, os Estados Unidos não tinham nenhuma disposição de, com Osama vivo, levar adiante um julgamento de seus crimes durante meses. Uma coisa é julgar os criminosos de guerra em Nuremberg, depois de vencidos os alemães. Outra coisa seria levar Hitler preso em 1944, quando seus comandados ainda não tinham se rendido.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h04

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Para parar com o para

O fotógrafo Mario Rui Feliciani busca adeptos para uma causa que apoio totalmente. Ele acha que não se pode abolir o acento diferencial na palavra "pára", do verbo parar.

O acordo ortográfico decretou que temos de escrever "para" quando notamos ou pedimos a interrupção de qualquer coisa. Toda hora a falta de acento atrapalha a leitura da gente quando topamos com uma manchete de jornal.

"Acidente no túnel para o Rio de Janeiro", é o exemplo que ele dá.

Segue o texto completo de seu manifesto.

 

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) eliminou o acento agudo do verbo “parar” na terceira pessoa do singular, do presente do indicativo; e na segunda pessoa do singular, do imperativo afirmativo.

 

Pedimos a revisão da reforma e a manutenção desse acento diferencial, pois sua eliminação já está trazendo graves consequências para a língua.

 

As duas formas verbais “pára” e a preposição “para” são palavras de uso muito corrente e, se de idênticas as grafias, serão freqüentes as interpretações dúbias, tais como no exemplo abaixo, extraído de noticiário:

 

“Acidente em túnel para o Rio de Janeiro”

 

Nesse exemplo, ausente a diferenciação do acento, é impossível para o leitor saber se houve um acidente grave que prejudicou todo o trânsito da cidade ou se apenas ocorreu um acidente normal em um túnel que serve de acesso à cidade.

 

A se manter dubiedade tão flagrante, serão duas as implicações, igualmente desastrosas: as más interpretações, como descrito acima; e a escravização dos escritores mais cuidadosos, que sacrificarão o estilo de suas frases, alterando-as para evitar o mal-entendido.

 

 

 

Além disso, é notório que a forma verbal acentuada condiz com a ênfase que o povo brasileiro empresta à ordem de parar, seja ela ríspida ou carinhosa.

 

O brasileiro diz “pára!”. Usa, coloquialmente e com força, a segunda pessoa do singular do imperativo do verbo “parar”, mesmo nas frases construídas com o pronome de tratamento “você”. Esse uso, inexato do ponto de vista gramatical mais rigoroso, já se consolidou como forma afetuosa de nossa comunicação.

 

Os pais ralham com carinho diante das travessuras de seus filhos com um “pára” enfático. As namoradas se opõem aos avanços afoitos dos namorados com a mesma palavra ameaçadora, acentuada, acompanhada de sorriso.

 

 

 

Entendemos, em resumo, que as regras gramaticais generalizadoras não devem ser usadas com rigor, quando isso implica prejuízos de clareza e exatidão; ou quando desrespeita traços culturais acumulados durante muitos anos de uso da língua por todo o povo, seu verdadeiro dono.

 

 

 

Por tudo o que se disse, pleiteamos a revisão da reforma gramatical e a manutenção do acento diferencial nas formas citadas do verbo parar.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h15

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Clássicos na TV Cultura

 
 

Clássicos na TV Cultura

Durante muitos anos, toda vez que se queria transmitir filmes estrangeiros de música clássica na TV brasileira o programa era o mesmo. Pegava-se uma antiga (e excelente) coleção da qual faziam parte Karajan regendo a Nona Sinfonia de Beethoven, Rubinstein num concerto de Brahms (de bis um intermezzo), e naturalmente um daqueles concertos de Ano Novo em Viena, com valsas a mais não poder.

Depois de algumas semanas, o estoque se esgotava. Foi assim, se bem me lembro, com uma série da Globo que tinha Isaac Karabtchevsky como apresentador, mais ou menos repetida anos depois na Manchete com Salomão Schwartzmann, e reciclada não faz muito tempo, já não sei em que canal.

É verdade que a produção de DVDs de música clássica aumentou muito nos últimos anos, possibilitando bem maior variação de orquestras e de repertório.

A TV Cultura começa agora uma nova série, que foge muito do ramerrão: um documentário sobre Darius Milhaud ou Aarvo Pärt não se vê todo dia, por exemplo.

 Como é padrão na emissora, os horários são estranhos: sábado e domingo às 4 da tarde. Bem, será  que haverá transmissão direta dos concertos da Osesp, que são nesse horário? Seja como for, recebi a programação dos próximos meses, sujeita a alterações, e vou tentar adequar a minha agenda para ver o máximo possível.

Aqui vai.

                                                          

MAIO 

Sábado, 7/5, 16h: a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam. Maris Jansons, regente. Gustav Mahler / Sinfonia nr 2 “Ressureição”

Domingo, 8/5, 16h: O padre vermelho - documentário sobre A. Vivaldi. Produção ORF 

Sábado, 14/5, 16h: Camerata L’Arte Del Mondo - Divertimentos e Concertos de Mozart

Domingo, 15/5, 16h: Tchaikovsky: A Sinfonia Patética – documentário. Produção ARTE

Sábado, 21/5, 16h: Orquestra do Iluminismo (Orchestra of the Age of Enlightenment).Vladimir Jurowski, regente. Beethoven: Sinfonias nºs 4 e 7 e Abertura Coriolano

 Domingo, 22/5, 16h: Bolero, uma paixão - documentário sobre Ravel. Produção ARTE

Sábado, 28/5, 16h: Osesp - Richard Armstrong, regente, Stephen Hough, piano. Obras de Liszt e  Wagner

Domingo, 29/5, 16h: Filarmônica de Rotterdam, Valery Gergiev, regente. Mussorgsky / Ravel: Quadros de uma exposição. Ravel: Alborada Del Gracioso e La Valse

JUNHO

Sábado, 4/6, 16h: Reger não me cansa - documentário sobre a atividade do regente Valery Gergiev frente à Orquestra Filarmônica de Rotterdam

 Domingo, 5/6, 16h: O sistema - documentário sobre o ensino de música na Venezuela. Produção EuroArts

Sábado, 11/6, 16h: Orquestra Simon Bolivar. Claudio Abbado, regente. Anna Prohaska, soprano. Prokofiev / Suite Scitia op. 20 - Berg / Suite de ‘Lulu’. Tchaikovsky / Sinfonia no.6

 Domingo, 12/6, 16h: Darius Milhaud e sua música - Produção ARTE           

Sábado, 18/6, 16h: Osesp - Osmo Vanska, regente. Jaako Kuusisto, solista. Sibelius, Rautavaara,Tchaikovsky

Domingo, 19/6, 16h: Hector Berlioz: Sinfonia Fantástica - documentário realizado pelo maestro Michael Tilson Thomas e a Sinfônica de San Francisco. Produção APT

 Sábado, 25/6, 16h: 24 prelúdios para a fuga - documentário sobre Aarvo Pärt. Produção EUROARTS

Domingo, 26/6, 16h: Sinfônica de San Francisco. Michael Tilson Thomas, regente. Hector Berlioz: Sinfonia Fantástica

 

 

A soprano Anna Prohaska

Escrito por Marcelo Coelho às 00h31

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a cidade à espera da catástrofe

O fotógrafo Ciro Coelho (meu primo) vive na Califórnia, especializando-se em fotos de arquitetura. Vem regularmente a São Paulo, onde registrou, no verão passado, algumas imagens da cidade em preto e branco. Nuvens assumem um ar grandioso e trágico, como esponjas prontas a apagar a cidade inteira. Ou então são os prédios, na linha do horizonte, que já parecem ter algo de fantasmas.

 

Outras e estas fotos, em dimensões mais adequadas, podem ser vistas aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h16

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Tragam a cabeça de Bin Laden

Leio na internet que o governo americano continua deliberando sobre a conveniência de divulgar ou não a foto de Bin Laden morto. “Ela é horrível”, diz um porta-voz.

Não vejo outra resposta a não ser a de que eles têm obrigação de divulgar. A decisão de matar Bin Laden, a qual não me deixa nada infeliz, tem de ser assumida em todas as suas consequências.

Se o resultado foi muito feio, que o mundo inteiro saiba que não é bonito mesmo explodir a cabeça de um homem.

Se a foto diminuir a autoconfiança dos americanos depois de divulgado o sucesso da operação, tanto melhor; contribuirá para arrefecer o senso de irrealidade, de história em quadrinhos, de filme de matinê que acompanha essas ocasiões.

Se será usada pelos adversários como exemplo da “crueldade ianque”, é uma coisa sobre a qual ninguém tem controle. Pode-se imaginar que, não divulgando foto nenhuma, os inimigos dos EUA insistirão na tese de que Bin Laden continua vivo. De resto, os mártires costumam ser bonitos. Não conheço nenhum santo que seja feio. Uma foto monstruosa de Bin Laden morto é melhor do que a foto serena do terrorista posando de sábio numa almofada do deserto.

A tese de que “é contraproducente criar um mártir” nem sempre é verdadeira. Che Guevara, como mártir, inspira e ainda representa muito ódio aos americanos. Mas se tivesse continuado vivo e atuante, certamente teria dado mais trabalho do que centenas de milhares de fotos dele espalhadas pelo mundo.

E é possível que o próprio Cristo tivesse muito menor influência depois de morto, se seus discípulos não viessem com a notícia que ele ressuscitou –e que seu corpo não foi encontrado no túmulo.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h18

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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