Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Vive la différence

Não me arrisco a nenhum julgamento sobre o caso Carrefour/Pão de Açúcar, do ponto de vista econômico, mas tenho a expressar uma preocupação de consumidor.

 

Desde que o grupo francês Casino passou a deter parte das ações do Pão de Açúcar, as coisas melhoraram muito.

 

A mostarda é ótima, as bolachinhas são imperdíveis, há geleias e compotas sensacionais. Há poucos dias um colega da Folha fez, por coincidência, o elogio dos biscoitos champanhe da Casino.

 

Vê-se, pelo nome, pela embalagem e pela quantidade dos produtos oferecidos, que a marca “Casino” não é uma coisa chique. Apenas está adequada aos padrões de consumo da clientela francesa e da concorrência europeia, coisa que nunca foi comparável ao que o Pão de Açúcar, ou qualquer outro supermercado por aqui (inclusive o francês Carrefour) tinha de enfrentar.

 

Pois bem, a concretizar-se a fusão Carrefour-Pão de Açúcar, os produtos Casino vão sair da jogada.

 

Fiquei contente ao saber que o sr. Casino, pelo que vejo justamente irritado com o drible que levou de Abílio Diniz, resolveu comprar uma tonelada de ações do Pão de Açúcar para impedir o negócio.

 

Torço pelo sr. Casino, ou melhor, pelas bolachinhas “fourrées” de pera e abricó que tínhamos à disposição. Après ça, le déluge.

Escrito por Marcelo Coelho às 20h23

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cinismo chinês

As autoridades de Pequim finalmente libertaram o artista plástico Ai Weiwei. Conhecido por suas críticas ao regime, e pelo nada bonito, a meu ver, estádio olímpico do "ninho de pássaro", Weiwei ficou meses na cadeia por supostos crimes de sonegação fiscal.

Se se tratava apenas de sonegação fiscal, é muito estranho que o governo chinês só tenha concordado em libertá-lo se ele se comprometer a passar "pelo menos um ano" sem publicar comentários anti-ditadura na internet...

O governo passa o recibo de que prendeu Weiwei por razões políticas, e não tributárias.

Claro que toda ditadura está pouquíssimo preocupada com a coerência de seus argumentos. O fato de que goste de apresentá-los, de dar pretextos e desculpas à opressão, não é sinal de que "precise de disfarces". É apenas mais uma demonstração de força. Podemos não apenas dobrar uma pessoa, mas dobrar qualquer lógica, qualquer argumento --porque nossa força é capaz de tudo.

Escrito por Marcelo Coelho às 14h37

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Meia-noite em Paris

 
 

Meia-noite em Paris

O novo filme de Woody Allen é uma grande pedida para o feriado. Veja o trailer. Escrevi sobre o filme na "Ilustrada" desta quarta-feira (assinantes podem ler aqui). Vai um trecho:

         Gil Pender é um boboca de Pasadena, Califórnia, prestes a casar com uma patricinha autoritária. Os dois estão em Paris. A patricinha faz compras. Ele passeia pelas ruas da cidade; adora Paris quando chove, e sonha com a época de ouro da cidade.

         A saber, os anos 20, quando escritores e artistas como Hemingway, Scott Fitzgerald, Picasso e Dalí se entregavam ao jazz, ao inconsciente, à bebida e às trepidações da modernidade.

         Gil Pender escreve roteiros para Hollywood, ganha um bom dinheiro, mas sua fantasia é ser romancista. Ou melhor, ter sido romancista, em Paris, por volta de 1925.

         Magicamente, numa noite de bebedeira, seu desejo se realiza. Uma limusine amarela aparece, e o tímido Gil, um verdadeiro prodígio de falta de assunto, é convidado a entrar. Zelda e Scott Fitzgerald estão no carro. Ele está nos anos 20.

         Esse é o ponto de partida do último filme de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”, que entrou em cartaz na semana passada.

         (...) Convidado a participar de uma daquelas festas dos “anos loucos”, Gil encontra Luís Buñuel –e resolve meter sua colher na obra futura do cineasta. Diz ter uma excelente ideia para um filme: imagine-se que um grupo de pessoas, numa reunião elegante, repentinamente se torna incapaz de sair da sala. E passará vários dias nessa prisão imaginária e inexplicável.

         Quarenta anos antes de filmar “O Anjo Exterminador”, Buñuel vai demorar para entender o que há de interessante nessa ideia.

         “Meia Noite em Paris” parece brincar com um tema parecido. Não estamos incapacitados de sair de uma sala por nenhum feitiço. Mas, se o espaço não nos aprisiona, estamos contudo presos ao nosso próprio tempo. Na plenitude da velhice, Woody Allen nos diz que temos só uma vida para viver –a nossa. “Meia Noite em Paris” ajuda a melhorá-la um pouco.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h29

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consultas populares

Num artigo para a “Ilustrada”, algumas semanas atrás, defendi a realização de plebiscitos e referendos populares via internet, como um possível caminho para o futuro; certamente, a democracia representativa vai dando sinais de obsolescência com a disseminação dos meios digitais.

O sistema dos referendos a todo custo teve efeitos ruins, entretanto, na Califórnia. Um leitor do blog me mandou o link para uma extensa reportagem da revista “The Economist”, que vincula a péssima situação financeira daquele estado americano ao abuso das iniciativas populares.

O que, sem ser assinante da revista, me foi permitido ler valeu a pena. Mas há particularidades evitáveis no contra-exemplo californiano.

Em primeiro lugar, o resultado dos referendos, na Califórnia, não pode ser alterado por lei. E não há garantia nenhuma de que, numa mesma cédula de consulta popular, iniciativas contraditórias estejam sendo postas sob votação. De modo que não existe nenhum filtro posterior avaliando a racionalidade do que foi aprovado pela maioria.

Em segundo lugar, na Califórnia vale a regra de que um aumento de impostos só pode ser aprovado por 2/3 dos deputados locais. Naturalmente, a minoria parlamentar nega essa prerrogativa. Combinando-se isto a referendos que sempre tendem a aumentar as despesas do Estado, o resultado é a bancarrota fiscal.

Em terceiro lugar, como é comum nos Estados Unidos, surgem empresas para tudo. Os referendos a favor disto ou daquilo dependem, para serem postos em votação, de um número mínimo de assinaturas dos cidadãos. Aparecem então firmas especializadas em obter assinaturas para qualquer referendo que seja. Simpáticos funcionários dessas firmas abordam os cidadãos parados numa fila qualquer, pedem-lhes a assinatura, e lá vai a proposta de referendo para as cédulas de votação. O dinheiro compra tudo, até um sistema teoricamente ultrademocrático e igualitário.

Entre as aberrações californianas e uma democratização maior, via internet, das decisões políticas no Brasil há de qualquer modo uma distância. A questão é saber que tipo de limites se podem impor aos plebiscitos populares. O fato é que o Congresso, não só no Brasil mas em outros países, parece não ter limites em seus poderes, que só com muito otimismo se poderia dizer que são delegados pelo conjunto dos eleitores.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h12

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King fu Panda 2

 
 

King fu Panda 2

Por falta de tempo, acabo escrevendo sobre os filmes infantis que vejo com meus filhos. "Kung fu Panda 2", que seria menos chato se não seguisse estritamente a lógica de um videogame em muitas cenas de luta e perseguição, foi o tema do meu artigo de quarta-feira. O texto saiu meio ideológico-político demais, mas acho que o assunto justificava. Eis um trecho.

         Salvar o mundo, na maioria dos filmes de ficção científica, era sinônimo de evitar a destruição de Nova York e, digamos, Kansas City.

         O problema é outro em “King Fu Panda 2”, animação da DreamWorks que tenta (sem sucesso) reproduzir a simpática fórmula do filme original.

         “É preciso salvar a China”: a frase, com variantes, é frequentemente pronunciada pelo herói atrapalhado e comilão, um panda que passara de ajudante de cozinha a mestre supremo das artes marciais na animação anterior.

         Mas salvar a China do quê? Logo no início do filme, suaves e caprichadas silhuetas de papel recortado e colorido dão lugar a uma paisagem de perigo.

Fundições de metal, onde trabalham lobos de couraça, cobrem de fumaça negra o ambiente. É como se estivéssemos na Inglaterra vitoriana, com mais de um toque totalitário: o pesadelo fabril do capitalismo selvagem se adiciona à opressão política.

         É que um pavão malvado descobriu um uso militar para a pólvora, antes empregada apenas na confecção de fogos de artifício. Prepara canhões monstruosos, contra os quais os poderes tradicionais do kung fu são de pouca ajuda.

O artigo completo pode ser lido pelos assinantes do UOL neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h45

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A portuguesa

 
 

A portuguesa

Para quem gosta de Scarlatti e Couperin, há outros compositores de peças para cravo, da mesma época, que mereceriam ser mais conhecidos. Os Forqueray, pai e filho, foram compositores. Jean-Baptiste (1699-1782) publicou arranjos para cravo das composições do pai, Antoine (1671-1745), acrescentando peças escritas por ele próprio.

Como no caso de Scarlatti, mas talvez com ainda maior radicalidade, essas pequenas composições não têm medo de dissonâncias quase selvagens para a época, a que o timbre particular do instrumento dá uma deliciosa (para o meu gosto) adstringência. É como morder uma fruta que "pega" na boca, e ainda assim é gostosa. Ouça "La Portugaise", da suíte no.1, em ré menor. Faz parte de um CD duplo de Michael Borgstede, que recebeu destaque na última edição da revista francesa "Diapason".

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h13

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voltaire de souza

Três crônicas recentemente publicadas no jornal "Agora".

 

FAÍSCAS NO AR

 

 

Protesto. Revolta. Insubordinação.

No Rio de Janeiro, o clima é quente.

Bombeiros querem aumento salarial.

A população é solidária.

Mais de vinte mil pessoas fizeram passeata.

A bela estudante Eliana participava do movimento.

--É boca no trombone.

Um moreno alto e forte se aproximou.

Seu nome era Gonçalves.

--Obrigado pela força. He he...

--Que é isso... imagina.

As primeiras faíscas do amor começaram a crepitar.

No Motel Niagara, Eliana se espantou ao ver a anatomia do rapaz.

--E você ainda quer aumento?

Gonçalves achou melhor confessar a verdade.

--Nunca fui bombeiro... mas quero apagar teu fogo.

--Não interessa se é bombeiro. O que interessa é o estado da mangueira.

Palavras são como o vento. Por vezes, nelas está o sopro que incendeia a floresta.

 

 

VULCÃO ADORMECIDO

 

 

Apagões. Crise. Escuridão.

O fornecimento de energia elétrica anda muito irregular.

Noite de frio nos altos da Cantareira.

--Liga o aquecedor, Paulo Vítor...

Míriam estava assistindo TV.

--E vem aqui pertinho, Paulo Vítor...

O velho aquecedor Clímax Bomtempo sobrecarregou a rede elétrica.

As sombras da noite tomaram conta da casa entre as árvores.

Paulo Vítor pegou o isqueiro.

--Acender um baseado... legal...

O vinho. A maconha. O aconchego.

Suaves carícias se trocaram num prelúdio em tom menor.

--Hum, Paulo Vítor... estou com uma preguiiiiçaa...

O sono venceu o erotismo.

A luz voltou às duas da manhã. Notícias sobre o vulcão chileno.

--Olha só... que legaaal... a fumaceeira toda...

O casamento, por vezes, é como o continente latino-americano.

O excesso de fumaça dificulta as decolagens no Cone Sul.

 

 

 

A CURVA DO S

 

Dinheiro. Prestígio. Bons empregos.

Falar corretamente o português pode ser a chave do sucesso profissional.

Taciana era uma bela jovem. Estagiária num escritório de advocacia.

Ela treinava diante do espelho

--Ade-vo-ga-cia. Não. Háád-vôôk-acíya.

O blazer de veludo preto. O salto alto. A pastinha.

--Bom dia, doutor Clodoaldo...

--Bom dia, Taciana...

Rolava um clima entre os dois. Clodoaldo conversava com os colegas.

--Essa Taciana. Talentosa. Preparada.

No Motel Vestíbulus, Clodoaldo e Taciana deram andamento ao processo.

Ondas de prazer tomaram conta do corpo da estagiária.

Um grito sincero veio das profundezas do seu ser.

--Vai, Crodoááárdo... Beija as minha orêia.

O dr. Clodoaldo parou na hora.

--Opa. Opa. Baixou o nível vocabular. Uma pena.

O bilhete azul deixou Taciana na rua.

Falar errado, você pode. Mas tem de ser com a pessoa certa.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h54

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Ministério da Pesca

Pelo que vejo, o Ministério da Pesca é uma espécie de canto de castigo, lugar de exílio. Ideli Salvatti foi içada desse lugar para um cargo político que, a meu ver, não está à altura de sua tosca militância.

Mas é especialmente humilhante, da parte do ex-ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, aceitar agora o lugar da Pesca.

Ele poderia ter um gesto digno, e dizer com todas as letras:

“Não, se se trata de um castigo, deixo o Ministério da Pesca para o companheiro Palocci”.

Palocci aceitaria, com um sorriso nos lábios.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h15

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Guerra e leitão assado

Estou lendo “Nada de novo no front ocidental”, de Erich Maria Remarque. O clássico pacifista sobre a Primeira Guerra Mundial, adaptado para o cinema em 1930, está longe de ser um dramalhão lacrimoso.

Ao contrário, tem o frescor, a limpidez, e eu diria a inocência, dos grandes clássicos.

Sem dúvida, não se trata de um romance “profundo”. Narrado sempre no presente, acompanha a experiência de Paul, um jovem de 19 anos, nas trincheiras da Primeira Guerra.

Apesar de todo o caos que aquela guerra significou, de toda ausência de lógica que havia em cada ação militar, o romance mantém uma ordem arquitetônica muito clara, do mesmo modo que Paul, afinal de contas, mantém a cabeça no lugar, apesar de todo o medo e desespero que sente.

Sinal disso é a simetria entre duas cenas, a primeira logo no começo do livro, e a outra já quando tudo se aproxima do final.

Remarque descreve duas refeições copiosas.

A primeira é contada pelo narrador, Paul, com astuta inocência.

Hoje estamos felizes, diz ele, assim que o leitor abre o livro. É que o pelotão conseguiu doses extras de feijão, bacon, salsicha. Melhor ainda: cigarros em dobro! O cozinheiro no começo resmungou; mas depois serviu todo o pelotão à vontade.

Alguns parágrafos depois, o narrador –e Remarque—explicam a razão de tanta fartura.

A organização do Exército tinha previsto rações para 160 pessoas. Mas só a metade tinha voltado viva do ataque ao inimigo.

Logo, os sobreviventes podiam se empanturrar.

Aqui, a ironia literária prevalece. Ou seja, há inocência nos personagens, e desencanto por parte do escritor.

No final do livro, essa distinção já é mais complicada.

Paul e seus colegas são encarregados de evacuar uma cidadezinha francesa. Quando chegam, os habitantes já foram embora. Mas o pelotão tem a sorte de encontrar dois leitões ainda vivos, além de boas reservas de comida nas casas abandonadas.

Matam os leitões, descascam as batatas, consomem conhaque e charutos de boa marca, que os habitantes do lugar tinham deixado na correria.

Acontece que, enquanto desfrutavam desses prazeres de alta classe, a cidadezinha foi sendo bombardeada pelo próprio exército alemão.

Paul e seus camaradas têm de correr desesperadamente até os abrigos mais próximos, segurando nos braços o leitão e os mantimentos.

Acabam se empanturrando do mesmo jeito.

Entre uma cena e outra, o acréscimo é de cinismo e de desencanto.

No começo do livro, a comida era festejada numa espécie de inocência: aquela que admite a morte dos compatriotas, um pouco sem saber, na busca do essencial para a alimentação de cada um.

No final do livro, a comida é um luxo nada inocente: trata-se de uma pilhagem, feita às custas da fome das famílias do inimigo, em pleno conhecimento de causa, enquanto os próprios compatriotas de Paul e do pelotão sofrem com a escassez de mantimentos.

Já é o “cada um por si”, enquanto na primeira cena o valor predominante é “o que sobrar é nosso”. Evidentemente, uma coisa estava contida na outra.

Não é de espantar que, depois do segundo banquete, os soldados do romance encontrem um triste fim.

Esse moralismo “em particular”, “em microscópio”, não anula a grandeza moral do romance como um todo.

Em microscópio, poderíamos pensar que a morte do pelotão oportunista, amolecido depois de duas semanas de comilança a pretexto de “guardar a cidadela inimiga”, foi consequência merecida de sua lassitude moral.

Em macroscópio, contudo –e esta acho ser a perspectiva de Remarque--, o que se vê é o declínio moral do personagem.

Plenamente justificado, aliás: na primeira cena, vencia a fome, diante da morte consumada dos outros candidatos à ração. Na segunda cena, vence a fome, diante do fato de que tanto inimigos quanto compatriotas nada sabem da existência dos leitões.

Declínio moral, mesmo assim. Perdoável, mesmo assim.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h05

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Belezas de Paris

Vivendo e aprendendo. Durante anos e anos eu ouvi “inocentemente”, e com prazer, uma canção de Poulenc sobre versos de Apollinaire, muito curtinhos, que pareciam apenas ironizar o fascínio de qualquer provinciano pela capital, Paris.

O poema, em poucos versos, diz apenas: “Ah, que coisa linda/ Largar uma terra besta/ Por Paris/ Paris tão bela!” Na música de Poulenc, imitando a cançoneta popular, tudo já é suficientemente irônico.

Mas foi só lendo sobre a Primeira Guerra Mundial que essa ironia fez sentido. Na raiva dos acordes do piano, na falsa doçura da melodia, o que se vê é o sentimento do soldado no front, quando algum companheiro consegue licença para voltar uns dias à capital. E, também, o fato de que a vida em Paris continuava boa, a despeito dos horrores vividos nas trincheiras.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h24

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língua de gato

Pela foto, eu diria que se trata de uma Greta Garbo com os cabelos pintados de louro:

Mas é a cantora francesa Irène Joachim (1913-2001), neta do grande violinista UOL Busca Joseph Joachim, o amigo de Brahms. Participou de filmes com Jean Gabin, fez um disco histórico de "Pelléas et Mélisande", de Debussy, e sua voz pode ser avaliada aqui, no "Bestiaire" de Francis Poulenc. É incrível o calor, a proximidade dessa gravação, que parece acariciar o ouvido, apesar da asperezas de língua de gato.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h06

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Mais CQC

No mesmo artigo de quarta-feira, referi-me ao blog "Escreva Lola Escreva", que está em polêmica aberta com os humoristas do CQC, não por causa da piada antissemita de Danilo Gentilli, mas pelo que disse Rafinha Bastos a respeito do "mamaço".

Seus comentários são o que se poderia prever: algo do tipo "o ruim é que as que querem mostrar os seios são umas medonhas, tiram logo o moxibão daquele sutiã 58, ra ra!" O apresentador do programa, Marcelo Tas, assinalou que ninguém é contra a amamentação, etc. O problema não está em ter ou não ter dito algo contra a amamentação (pelo que vi é em torno disso que se dá a polêmica entre Tas e Lola Aronovitch, a blogueira).

O que mais me chamou a atenção, em todas aquelas piadas sobre seios monstruosos amamentando, é o quanto de pavor masculino inconsciente havia ali. O chamado "apreciador" de seios bonitos parece mais preocupado, na verdade, com seu medo do que com seu prazer. Leia o post, veja o diálogo e tire suas próprias conclusões aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h03

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Reforçando minha fase "politicamente correta" (melhor isso do que o "fascismo-tendência" comum hoje em dia), falei no artigo de quarta-feira sobre a "Marcha das Vagabundas". Aqui vai um trecho.

Vi na internet várias fotos da chamada “Marcha das Vagabundas”, ou “Marcha das Vadias” (qual será o correto?), ocorrida sábado passado em São Paulo.

         Ali, aconteceu uma coisa rara. Slogans criativos e frases que, a mim pelo menos, fizeram pensar.

         O movimento afirma o direito de as mulheres se vestirem de modo “provocante” (e o termo já assume agora conotações machistas para mim), sem terem de passar por constrangimentos ou coisa pior.

         Eis o que dizia um dos cartazes da marcha: “acredite ou não, minha saia curta não tem NADA a ver com você”.

         A ficha caiu, não sem alguns arranhões internos, no meu cérebro de meia-idade.

         Nada a ver comigo? Nada mesmo? Rememorei brevemente várias das saias curtas que vi ao longo da vida. E era verdade: por mais que eu quisesse, não queriam nada comigo. Fui ignorado, fui desprezado na maior parte das vezes; confesso que frequentemente tomei isso como ofensa pessoal.

         Minha reação, na teoria pelo menos, foi reagir como todo machista padrão. “Se elas se vestem assim, como é que não querem que eu me interesse?”

         Mas a ficha, ao cair, deu sua resposta a essa questão. Há muitas razões, fiquei pensando, para uma mulher usar uma minissaia espetacular. Pode estar se mostrando linda para o namorado, para ela mesma, ou para o mundo –o mundo em geral...

         Acontece que o “machão”, ou, arrisco-me a dizer, a maioria dos homens, sente-se pessoalmente interpelado pela minissaia da mulher belíssima. “É comigo”, pensa ele. “Afinal, não sou o centro do mundo?”

Assinantes do uol podem ler o texto completo aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h48

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Preencha o formulário

Não há dia, praticamente, que a gente não tenha algum formulário para preencher.

 

Da receita de antibiótico ao cadastro de um crediário, escrever o nome, o RG e o telefone naqueles espacinhos é uma das pequenas chateações do cotidiano, felizmente rápida e indolor.

 

O que eu não sabia é que os formulários tiveram pela primeira vez seu uso generalizado durante a Primeira Guerra Mundial.

 

É o que leio em The Great War and Modern Memory, de Paul Fussell.

 

Às vezes, os soldados estavam cansados demais, ou feridos demais, para dar notícias aos familiares.

 

Os ingleses (mas é bem possível que os alemães tenham inventado isso antes) criaram então uma espécie de cartão postal, em que o soldado simplesmente tinha de eliminar as alternativas que não cabiam no caso.

 

“Querido (s) pais (irmão) (irmã), estou bem (estou no hospital) (doente/ferido) e estou (passando bem/esperando ter alta rapidamente). Recebi (a carta do dia.../o telegrama/a encomenda...).

 

E assim por diante.

 

Eis uma das muitas razões pelas quais, segundo a frase famosa de Walter Benjamin, “os soldados voltavam mudos da Primeira Guerra”. A frase, aliás, é empregada com excessiva facilidade, mas isso é assunto para outra vez.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h43

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Cantar e atuar

Uma conversa entre dois atores, Alan Arkin e Madeline Kahn, relatada nas memórias de Arkin que acabam de ser publicadas, traz considerações semelhantes às do post anterior.

 

Madeline Kahn conta que, quando ela era criança, ouvir ou tocar música não lhe pareciam o bastante. Eu queria, diz, “ser a música”.

 

Alan Arkin guardou esse comentário, e usa-o para caracterizar o trabalho de um bom ator. A boa atuação, para Arkin, ocorre “quando você é a música”.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h01

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Cantar ou dançar

 
 

Cantar ou dançar

A grande divisão na música não é aquela, que se geralmente pensa, entre a música clássica e a música popular.

Antes disso, há uma diferença mais básica, que é entre dançar e cantar, dançar e ouvir.

Aprendi isso vendo o volume 9 de uma série de documentários sobre o jazz, que está saindo semanalmente nas bancas pela Duetto Editorial.

Esse volume está dedicado aos anos 1945-1949, e conta os inícios do Be-Bop, com Dizzy Gilllespie e Charlie Parker.

Ao mesmo tempo, mostra o início da popularidade de Frank Sinatra.

No começo, ele era apenas o “crooner” da orquestra de Tommy Dorsey. A saber, uma orquestra que funcionava, em última análise, para embalar bailinhos de casais pelas voltas de 1940.

Repentinamente, a voz do cantor passou a interessar mais do que o som da orquestra. A popularidade de Frank Sinatra significou, por dizer assim, a emancipação da canção popular frente à obrigação orquestral de dar fundo musical à dança.

No sentido oposto, as orquestras de jazz se tornaram mais específicas, tendendo a desistir da dança, e concentrando-se no aspecto puramente instrumental da música para ser ouvida.

Numa palavra, tornaram-se “clássicas”: é o mesmo processo pelo qual a música de dança nos séculos 16 e 17 (gavotas, minuetos, rigaudons) se tornaram música abstrata, apenas a ser ouvida, com Bach e Rameau, no século 18.

A dança, esta uma hipótese apenas, conduziu ao erudito –e não é por acaso a lembrança de que o marco da música moderna no século 20, “A sagração da primavera”, de Stravinsky, foi uma obra de balé.

Enquanto a música cantada, simetricamente, resultou em ópera –a menos erudita das formas tradicionais da música ocidental--, passando daí à opereta, ao musical, ao canção comercial.

Quem dança, ouve. Quem canta, consome.

Voltamos assim à distinção entre música clássica e música erudita.

Não é à toa que, nascendo das orquestras de dança dos anos 1940, a forma mais erudita do jazz surgiu, o be-bop, e daí o cool. Não é possível dançar segundo Charlie Parker, ou segundo Miles Davis. Mas sua carícia instrumental tem raízes na música das bandas feitas para dançar.

Não é à toa que, nascendo das mesmas orquestras de dança dos anos 1940, cantores como Frank Sinatra abriram caminho a Elvis Presley, aos Beatles e aos cantores pop em geral. Impõem, pela letra do que cantam, a escuta, a atitude passiva do ouvinte, em vez da atitude ativa de quem dança.

O paradoxo é que, da atitude passiva do ouvinte, nasceu a mais vigorosa música de dança do século 20.

E que, da atitude ativa da dança, sempre nasceu a mais exigente música do século 20, aquela feita para ser simplesmente ouvida.

Ou seja: ouvir como quem dança, eis a receita da música sofisticada. Dançar sem escutar, eis a receita da música menos sofisticada que conhecemos hoje. Entre as duas, cantar. Cantar como quem ouve, eis o segredo do “lied” erudito, de Schubert a Schumann a Poulenc e Debussy. Cantar como quem dança, eis o segredo de Billie Holliday e Ella Fitzgerald a João Gilberto e Amy Winehouse.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h54

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Ironia pop

Achei que, com a morte do famoso Dr. Kevorkian, patriarca do suicídio assistido, fosse de interesse o livro de Kurt Vonnegut Jr., que saiu pela Record em 2007.

O problema é que “Deus o abençoe, Dr. Kevorkian”, não é o ensaio de humor negro sobre paradoxos da eutanásia que se poderia esperar de Vonnegut.

Resume-se a uma série de diálogos imaginários com almas do outro mundo, que o narrador teria conseguido encontrar graças às experiências de “quase-morte” propiciadas pela máquina de Kevorkian.

Os diálogos são curtíssimos, trazendo à cena personagens por vezes tão óbvias que se tornam intratáveis (Shakespeare, Hitler, Newton), e outras vezes tão obscuras que são francamente desinteressantes, como por exemplo Roberta Gorsuch Burke, casada por 72 anos com um almirante responsável pelo desenvolvimento do programa nuclear da marinha americana.

Vonnegut baseia-se em necrológios publicados na imprensa e naquilo que geralmente se sabe a respeito de personagens históricas famosíssimas. Assim, Newton é encontrado no outro mundo procurando investigar de que material, se madeira ou gesso, são feitos os corredores que levam às portas do Céu.

Uma ironia pop toma conta do livro, em que certamente parece inteligente a Vonnegut contar a história de um cidadão que morreu tentando salvar seu cachorrinho dos ataques de um pitbull. Entrevistado, o morto não se arrepende: melhor morrer assim do que inutilmente na guerra do Vietnã.

Com tiradas desse tipo, espalhadas ao longo de curtíssimos perfis, o livro poderia ser infinito: qualquer coisa vale a pena sob critérios tão fluidos. Felizmente, “Deus o abençoe, Dr. Kevorkian”, tem apenas 75 páginas.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h16

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Não errei, erramos

Eu estava errado ao admitir dois erros, num post abaixo. Não escrevi "Lawrence Sterne", nem "Tristam Shandy" (o certo é "Laurence", e "Tristram") em algum momento do passado. Isso saiu na mesma página de uma matéria minha, mas em outro texto, de outro autor. Um leitor irritado com minhas críticas à incorreção política resolveu reclamar dessas incorreções de grafia. Errei mesmo, entretanto, ao chamar o filme "De olhos bem fechados" de "De olhos bem abertos". Conclusão: todos erram, eu, o leitor, o autor do outro texto, provavelmente Kubrick, quem sabe Sterne, sem falar do tradutor para o português do título do filme, que em inglês é "Eyes Wide Shut", ou seja, alguma coisa como "Olhos escancaradamente fechados".

Escrito por Marcelo Coelho às 17h26

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Explicar coisa nenhuma

Começo a achar engraçada a fraseologia que acompanha os escândalos da República, de que é exemplo perfeito e acabado o caso Palocci.

 

Só se fala em “explicações”. Palocci deve “explicações”, “precisa explicar” o seu enriquecimento etc.

 

Para mim, isso tem muito jeito de eufemismo.

 

Se ele tivesse “explicações”, já teria dado.

 

Argumenta que “não pode” explicar porque os seus contratos de consultoria tinham cláusula de “confidencialidade”.

 

Ou seja, foram feitos de modo a não permitir “explicações”.

 

O ministro não tem que explicar nada. Tem de se demitir. Tinham aliás, de demiti-lo, desde o começo.

 

Em todo caso, é sempre possível “explicar” o enriquecimento pelo sistema, universalmente adotado, das “palestras”.

 

Palocci poderia ter proferido palestras de inegável interesse. Algumas sugestões.

 

Para a associação dos síndicos do Jardim Paulista: “Opções estratégicas no momento de escolher zeladores e porteiros. Relato de uma experiência”.

 

Para a escola de aperfeiçoamento dos nutricionistas da rede pública: “Um toque de verde. Vantagem do molho de tomate com ervilha na merenda escolar.”

 

Para a associação Médicos em Prol da Reforma Tributária: “Dinheiro limpo: como evitar a contaminação bacteriológica ao receber remuneração sem recibo”.

 

Para o centro de memória do PT: “Do trotskismo à picaretagem: relato de uma trajetória de sucesso”.

 

Pague-se um milhão por palestra desse tipo, e tudo estará explicado.  

Observação: não estou cobrando nada por estas sugestões. É consultoria grátis.

Escrito por Marcelo Coelho às 10h20

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crise na representação política

Com a internet e a rapidez das apurações eleitorais, fica me parecendo cada vez mais arcaico o sistema de que temos de votar num conjunto de senhores e senhoras que vão se reunir e decidir por nós, quando na prática (e no limite) poderíamos votar nós mesmos sobre, pelo menos, os pontos mais claramente polêmicos de uma legislação.

Esse, em poucas palavras, o argumento do artigo de hoje na “Ilustrada”, que eu acho que ficou meio espichado demais. Assinantes podem lê-lo aqui.

Claro que nunca sou radical nessas coisas. O Congresso, tanto o plenário como as comissões, sempre serão um filtro institucional importante para evitar o plebiscitarismo via internet. Mas que, no futuro, será possível recorrer com mais freqüência a consultas populares, me parece certo –e não há dúvida de que a representação política clássica, não apenas no Brasil, está em crise há muito tempo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h47

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Mais um politicamente correto

Com um "punch" invejável, Marcelo Rubens Paiva escreveu no site do Estadão sobre "a moda do reaça". Cito o começo:

A onda agora é ser bem REAÇA.

Se é humorista, e uma piada ultrapassa o limite do bom gosto, diz ser adepto do politicamente incorreto.

Que babaca agora é fazer censura contra intolerância.

Podemos zoar com judeu, gay, falar palavrão. É isso, que se foda, viva a liberdade!

Se alguém defende a Marcha da Maconha, faz apologia, é vagabundo.

Se defende a descriminalização do aborto, é contra a vida.

Se aplaude a iniciativa da aprovação da união homossexual, quer enviadar o Brasil todo- país que se orgulha de ser bem macho, bem família!

Se defende a punição de torturadores, é porque pactua com terroristas que só queriam implodir o estado de direito e instituir a ditadura do proletariado.

Deu, né?

O artigo dele está neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h17

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O relógio, o filme

Das 14h15 às 14h20, muita coisa pode acontecer. Uma reunião de executivos japoneses; um carro recusa dar carona a James Bond; Laurel e Hardy são levados a uma delegacia de polícia; Robert de Niro briga com seus comandados.

Tudo isso, e muito mais, foi colecionado por Christian Marclay, artista de vanguarda cujo filme “The Clock” (“O Relógio”) causa discussão pelas galerias de arte onde é exibido.

A ideia é justamente essa: cenas e mais cenas, tiradas dos filmes mais variados da história, com um único critério –o de que relógios, ou alusões à hora exata, apareçam diante do espectador.

Tudo é apresentado em tempo real, de modo que “The Clock” tem 24 horas de duração.

A cinefilia chega a um delírio obsessivo, é certo.

Mas o bonito, o poético da coisa está no fato de que entre um minuto e outro enormes distâncias, geográficas, históricas, estéticas, são vencidas. Uma sensação de fugacidade completa se pode depreender das poucas imagens disponíveis no youtube.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h39

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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