Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

doutor Morte

Estou assistindo a um filme, meio documentário, meio ficção, sobre Jack Kevorkian, o “Doutor Morte”, que morreu há algumas semanas.

O ator do filme  é Al Pacino, o que prejudica sua imparcialidade.

Tendemos a ver a luta de Kevorkian pela dignidade do suicídio como um grande espetáculo de massas; e Kevorkian foi o primeiro a tornar essa opção individual em problema público.

O filme mostra bem o momento em que Kevorkian ultrapassou os próprios limites. Deixou de apresentar uma máquina, pela qual o paciente acionava a máquina do próprio suicídio, para injetar ele próprio a substância letal que daria fim aos sofrimentos do paciente.

O carisma de Al Pacino diminui a violência dessa decisão.

O filme, em todo caso, mostra a mistura de racionalidade e loucura do seu protagonista.

É correto (concluo) ajudar no suicídio de alguém que sofre. É bárbaro, entretanto, injetar uma solução mortal nas veias de alguém, que mesmo sofrendo, mesmo pedindo, não nos dá certeza de querer morrer.

Evidentemente, o dr. Kevorkian levou longe demais sua identificação entre a morte e ausência de sofrimento.

Simpatizo com seu delírio. Era delírio assassino, com certeza. Era serviço humanitário também. Matar friamente pode ser sinal de piedade. O difícil é achar pessoas capazes de conciliar as duas coisas.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h18

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

erro de um terrorista

Arlene Clemesha, que é professora de história e cultura árabe na USP, escreveu um artigo bonito sobre o terrorista norueguês Anders Breivik, que matou dezenas de compatriotas seus para protestar contra a “conspiração islâmica” .

 Cito um trecho:

 

Uma comparação histórica é tão reveladora quanto alarmante. Se substituirmos a expressão fantasiosa da "aliança marxista-islâmica" pela velha expressão igualmente imaginativa de "aliança marxista-judaica", teríamos a impressão de estar revivendo os anos 1930, quando o nazismo culpava os judeus de se aliarem ao marxismo para tentar dominar a Europa e o mundo.

 

 

Mas há uma diferença, e nisso reside o erro do terrorista.

 

Se ele tivesse tanto ódio assim dos árabes, o melhor a fazer seria alistar-se numa tropa de mercenários, desses contratados pelos Estados Unidos, e matar muçulmanos à vontade no Iraque.

Escrito por Marcelo Coelho às 11h31

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O futuro dos tabloides

Vejo com prazer as dificuldades por que anda passando o sr. Murdoch, magnata dos tabloides de escândalo, depois da revelação dos métodos infames utilizados por jornalistas de seu “News of the World”.

 

Naturalmente, nem ele nem a editora do jornal “sabiam” que os repórteres grampeavam ligações telefônicas, manipularam o celular de uma menina seqüestrada etc.

 

Mas a questão não é essa.

 

É o quanto Murdoch pressionava a editora, e a editora pressionava seus subordinados, para ter “furos” desse tipo e alcançar maior tiragem. Conforme o terrorismo interno por mais sucesso, mais notícia, mais escândalo, fazer uso desses recursos passa naturalmente a ser considerado “inevitável”, e depois “desejável”, na cultura do jornal.

 

Dito isso, e por mais que agora muitos políticos queiram se vingar de Murdoch, o escândalo não mudará grande coisa.

Logo Murdoch abrirá outro jornal do mesmo gênero. E os que existem continuarão atrás da baixaria de sempre.

 

Isso porque esse tipo de jornalismo se funda, afinal, no enorme ressentimento que está na base de qualquer sociedade de classes. Quem está por baixo sempre irá adorar quando algum rico, famoso ou nobre der seus escorregões na vida. Primeiro, por inveja mesmo. Segundo, porque o escorregão não deixa de ser prova de um igualitarismo fundamental na condição humana.

Em todo caso, alguns escândalos com celebridades não são de todo ruins de conhecer. Não foi pouca coisa quando um dos herdeiros do trono britânico apareceu vestido de nazista numa festa à fantasia, anos atrás. A cretinice do jovem príncipe, quando se pensa nos milhares de mortos civis com o bombardeio de Hitler sobre Londres, teria passado despercebida não fosse a sede dos tabloides para mostrar o pior de cada pessoa.

 

Foto de 2005

Escrito por Marcelo Coelho às 02h10

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

No artigo desta semana para a Ilustrada, fiz a defesa da escrita à mão, que vários Estados nos EUA já deixaram de tornar obrigatória nas escolas. Considera-se que aprender digitação no computador já dá conta do recado. Aqui vai um trecho.

Quantas decepções, e quantas surpresas felizes, não nos revela a caligrafia de uma pessoa? Fulano, em geral sério e ponderado, tem a assinatura de um pateta do pré-primário. O síndico, figura minuciosa e intolerante, derrama sobre o papel uma escrita frouxa, emotiva, sentimental.

         Generosidade e avareza, sofisticação e simploriedade, constância e frivolidade, tudo está na letra de uma pessoa, como está na sua voz ou no seu rosto –desde que a gente saiba ler.

         O mais bonito, na minha opinião, é que na letra cursiva se reúnem, em tese, o individual e o universal. Cada pessoa pode ter lá suas idiossincrasias: escreve o “n” como se fosse um “u”, não se dá ao trabalho de fazer direitinho o corte do “t”, mistura o “g” com o “y” e o “q”, mas não importa. A menos que o sujeito seja um garranchista irremediável, acabamos entendendo o que escreveu.

         Tenho prazer, aliás, decifrar letras moderadamente ilegíveis. Existe um jogo entre a regra geral, a caligrafia das professoras do primário, e as variantes que ao longo da vida cada pessoa adota em sua escrita.

         Moral da história: somos todos iguais, mas cada um de nós é diferente.

         Outra moral da história: entre minha comodidade caligráfica e a necessidade de ser entendido por quem me lê, está em jogo o respeito pelo outro e a expressão de quem eu sou.

No final do artigo, imaginei a possibilidade de um programa de computador que imitasse cada caligrafia individual.

Leitores me avisaram que esse recurso já existe: procure em http://www.yourfonts.com/

Achei o processo todo meio trabalhoso, mas também é querer demais.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h58

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Voltaire de Souza

Algumas crônicas recentes.

 

 

 

VELHA NOVELA

 

 

Magia. Mistério. Emoção.

Sucessos do passado voltam às telas da TV.

“O Astro” virou minissérie.

O coração de dona Evanda ainda batia pelo Herculano Quintanilha.

--Esse ator novo aí é bom, mas...

O suspiro veio do fundo da alma da sexagenária.

--Que saudades do Francisco Cuoco.

Um número de magia.

A bela assistente do mago era serrada ao meio.

Partia-se dolorosamente o coração de dona Evanda.

--O Francisco Cuoco... o Rodrigo Lombardi...

O marido de dona Evanda reparou no olhar fixo da mulher.

--Vem cá, Evanda... me faz aquela massagem.

O sr. Felício sofria de tendinite e dores lombares.

O inverno. O edredom. Os astros.

Felício e Evanda voltaram à paixão dos anos 70.

Em poucos minutos Evanda estava levitando de prazer.

O casamento é uma longa novela. Surgem sempre surpresas nos capítulos finais.

 

 

 

 

A COPA E O COPO

 

 

Pênaltis. Derrotas. Emoções.

O futebol ainda é uma grande paixão.

E agora, com os telões de alta definição, o bicho pega.

O Bar Copa & Cozinha tinha promoção especial.

Pague um chope e beba outro grátis.

Em dias de jogo da Seleção, outra vantagem aguardava o consumidor.

Cada gol que o Brasil levar, uma dose de cachaça.

O cálice da coragem. O alívio da amargura.

Jogo difícil na Copa América.

Renato e seus amigos alternavam otimismo e desespero. Chope e cachaça.

Ali perto, a quadrilha do Sardinha planejava um arrastão.

--Aqui... na esquina... vai estacionando.

O juiz do jogo deu cartão amarelo para um craque brasileiro.

Renato deu o grito.

--Ladrão! Ladrão! Vai se f...

Não completou a frase. Sardinha pensou que era com ele.

O tiro do 38 matou Renato no peito. Um outro foi de graça na omoplata.

Balas, por vezes, são como cachaça. Não é preciso esperar a segunda dose.

 

 

DELÍRIOS DE UM PEDÓFILO

 

 

Sem-vergonhice. Abuso. Indecência.

No país da Copa, o turismo sexual ainda é uma realidade.

O sr. Furbanti era um italiano com muito dinheiro no bolso.

E ideias podres na cabeça.

--Bambine. Io gosto delle brasiliane.

No calçadão de Copacabana, ele puxava papo.

--Vene cá, belezzura...

A menor carente Jênifer sorriu quando ele mostrou as notas de dólar.

Ao longe, a mãe de rua Dinalva fazia que não com a cabeça.

--Pede mais grana, Jênifer. Pede mais.

Um PM apareceu. Jênifer se afastou um pouco.

Furbanti trazia no bolso algumas balinhas de hortelã.

No nervosismo, as balinhas caíram pela calçada.

O maníaco se abaixou para pegar suas armas de sedução.

Foi nesse momento que o bueiro explodiu.

Fato que anda acontecendo muito no Rio.

A tampa de bueiro caiu como uma pizza de metal no cérebro fervente de Furbanti.

Provando que, mesmo para um pedófilo, por vezes o buraco é mais embaixo.

 

 

 

 

JOGO DISPUTADO

 

 

Beleza. Charme. Desempenho.

No futebol feminino, a goleira da seleção americana chama a atenção.

Sérgio Carlos fumava um cigarro.

--Isso sim é que mulher boa de bola.

Era grande a sua decepção com o selecionado nacional.

--Não jogam nada. E são umas trubufas.

Pode ser muito cruel a alma de um torcedor decepcionado.

A mulher de Sérgio Carlos se chamava Cynira.

--Isso é jeito de falar? E você aí, com essa barriga?

Cynira arrancou o controle remoto das mãos do marido.

O avanço de Sérgio Carlos em cima do aparelho foi brutal.

A mesinha do lado da poltrona se desequilibrou.

A última garrafa de cerveja de Sérgio Carlos ia cair no carpete recém-lavado.

O salto espetacular de Cynira pegou a garrafa em pleno voo.

Mais calmo, o casal vive momentos de carinho e reconciliação.

--Você é a minha maior goleira, Cynira.

--Fala mais, Sérgio Carlos... adoro quando você parte para o ataque.

O casamento é como futebol. Às vezes, o empate é um excelente resultado.

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h32

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Inutilidades domésticas

Se você não sabe o que dar de presente no Dia dos Pais, ou simplesmente está com vontade de gastar dinheiro sem saber bem no quê, experimente visitar o site Coisas Geniais

 

Lá estão à venda artigos espantosos, e provavelmente sem utilidade nenhuma, como por exemplo o baralho gigante (R$ 119,00):

 

 

Ou a forminha para gelo imitando barbatanas de tubarão (“apenas” R$ 65,00):

 

 

 

Para os mais carinhosos, há uma fazenda de formigas bastante psicodélica. Custa R$ 256,00, mas imagino que você tenha de cuidar sozinho da alimentação delas.

 

 

Mais carinho ainda? Experimente o guarda-chuva de casal, por R$ 188,00:

 

 

 

É o caso em que o indubitavelmente “genial” sem dúvida sairia beneficiado com um mínimo de burrice.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h24

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Cenas de um casamento

 
 

Cenas de um casamento

No dia 7 de setembro de 1841, o poeta Heinrich Heine (ver post anterior) travou um duelo com o comerciante Salomon Strauss, cuja condição de marido traído havia satirizado no ano anterior.

Heine “saiu-se com um tiro de raspão na coxa direita e casado com Augustine Crescence Mitrat, a bela e jovem grisette que ele havia na Passage des Panoramas (Paris) em 1834. Vivia com ela, desde então, num relacionamento ardente e conturbado que ele resolveu oficializar, uma semana antes do duelo, para assegurá-la financeiramente, na eventualidade de sua morte”.

Continuo a citação do posfácio a Heine-Hein?, notável antologia dos textos do poeta alemão.

 

Filha de uma camponesa mãe-solteira que a enviou adolescente à capital para trabalhar na sapataria de uma tia, Crescence era uma mulher simplória, temperamental, gastadeira e sem a menor vocação doméstica –um “Vesúvio do lar”, segundo Heine (...) Ela não desconfiava da ascendência judaica do companheiro e nem tinha noção exata de sua fama literária, o que era motivo de riso para os amigos de Heine, mas muito o enternecia: “Ela me ama da forma mais pessoal, e a crítica não tem nada a ver com isso!” Seu inseparável bichinho de estimação, o papagaio Cocotte, era alvo constante do ciúme e irritação de Heine, que, sofrendo de hipersensibilidade auditiva, chegou a atentar contra a vida do pássaro, para em seguida lhe comprar outro. Mathilde sobreviveria ao marido 27 anos, vindo a falecer, sem nunca ter se casado novamente, em 1883, no dia da morte do marido, e cercada por 60 papagaios.

 

Sessenta papagaios por um poeta; a conta é alta. Não sei se Mathilde deixou de casar-se novamente por fidelidade ao marido, ou se a quantidade de papagaios assustou os possíveis pretendentes. Mas não duvido de sua fidelidade aos papagaios.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h37

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

um poeta e a América

Os Estados Unidos?

Uma “imensa penitenciária da liberdade”, dizia o poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856), em 1830.

, continua ele, não há príncipes nem nobres, todos os homens são iguais, são um único caipira... Com exceção, é claro, de alguns milhões que têm a pele negra ou marrom, e são tratados como cachorros.

(...) Ao mesmo tempo, esses americanos têm o seu cristianismo em grande conta, e são os mais ávidos freqüentadores de igrejas. Tal hipocrisia aprenderam com os ingleses que, aliás, lhes deixaram suas piores qualidades. A utilidade mundana é, no fundo, a sua religião, e o dinheiro é o seu Deus, seu Deus único e todo-poderoso. Naturalmente que um coração nobre poderá lamuriar-se em silêncio contra o egoísmo e a injustiça generalizados. Mas se quiser de fato combatê-los, espera-o um martírio que ultrapassa todos os conceitos europeus.

Creio que foi em Nova York, onde um pregador evangélico indignou-se tanto com a judiação dos homens de cor, que, desafiando o cruel preconceito, casou sua própria filha com um negro. Tão logo esse ato verdadeiramente cristão tornou-se público, o povo invadiu a casa do pregador, que somente através da fuga evitou a sua morte; a casa, porém, foi arrasada, e a filha, a pobre vítima, caiu nas garras do populacho, para satisfazer-lhe a fúria. She was lynched, isto é, foi completamente despida, banhada em piche, rolada sobre os edredons rasgados e, nessa viscosa cobertura de penas, humilhada e arrastada por toda a cidade...

Ó liberdade, és um sonho ruim!

 

Claro que esse tipo de racismo foi vencido nos Estados Unidos. O que chama a atenção, hoje mais do que nunca, é que graças a uma conquista recente –a luta pelos plenos direitos dos negros começou há meio século--, parece que toda a história americana se torna uma espécie de modelo para o mundo. Como eles venceram dois totalitarismos, o nazista e o stalinista, a identificação dos Estados Unidos com o “Bem” parece percorrer os dois lados do espectro político americano. A maioria dos democratas, assim como os republicanos mais direitistas, identifica a liberdade e a democracia como uma coisa “inerentemente” americana, um fio sem interrupções que começou com os fundadores, Washington, Hamilton etc, e continua até hoje; seria só questão de voltar aos princípios puros de 1776 para corrigir os males atuais... Uma história até certo ponto bonita, mas até certo ponto imaginária também.

 

O trecho de Heine está numa antologia que ando lendo nos últimos dias, “Heine Hein?”, que comentarei mais tarde.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h01

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Museus de ciência, museus de ignorância

 
 

Museus de ciência, museus de ignorância

Deve ser a quinta ou a sexta vez que visito o Catavento, museu de ciência localizado no antigo Palácio das Indústrias, em São Paulo. Meu filho de sete anos adora o lugar, e não está sozinho: neste domingo, havia gente de todos os lados.

A seção preferida do meu filho é a relativa à Física, onde não faltam maquinetas e maquinolas para os visitantes mexerem à vontade.

Você gira uma manivela, e a energia que você gerou acende uma lampadazinha.

Você pedala uma bicicleta, e a energia que você gerou acende outra lampadazinha.

Você gira outra manivela, e não acontece nada.

Você gira mais uma manivela, e acontece algo que você não entendeu direito.

Não importa: com toda evidência, o prazer está em girar manivelas.

Meu filho, pelo menos, vai de uma manivela a outra, sem se interessar minimamente pelo resultado da experiência.

Há uma série de outras experiências do mesmo gênero.

Envolvem, por exemplo, você apertar botões que acendem luzes numa casa em miniatura.

Ou girar cápsulas de vidro com líquido dentro.

Ou levantar pesos e deixá-los cair.

Ou mexer com ímãs numa espécie de pebolim de limalha de ferro.

Ou encostar a mão num globo de metal (este é sem dúvida o preferido do público) e deixar o seu cabelo espetar-se por força da eletricidade.

Tudo muito divertido, mas será que tem alguma coisa a ver com ciência?

Como já visitei várias vezes o lugar, procurei ler um pouco mais os textos explicativos ao lado de cada experimento, enquanto com o outro olho acompanhava as correrias do meu filho entre uma manivela e outra.

Há coisas terríveis ali. Fala-se, por exemplo, das equações de Maxwell, “as mais belas de toda a Física”, que são expostas ali com aquele “S” comprido que imagino ser o símbolo de alguma integral ou diferencial... Imagino o entusiasmo de quem fez o cartaz, mas lamento o fato de que para 99, 999% (mais a integral dessa porcentagem) aquilo tudo é apenas uma manivela.

E que prazer das pessoas em girarem manivelas! Não consigo imaginar parque de diversões menos colorido, mais decepcionante, do que aquela seção do Catavento.

Ao mesmo tempo, os visitantes experimentam ali alguma espécie de catarse.

Não há como entender, do ponto de vista científico, a maior parte das coisas expostas ali.

A catarse não é intelectual; talvez não seja propriamente física, porque numa academia de ginástica há bastantes roldanas e polias para gastar a energia dos interessados.

Acho que a catarse se relaciona com uma nostalgia muito específica: a do trabalho manual.

A sensação de ligar esforço físico a produtividade desapareceu da vida contemporânea, mesmo no cotidiano da classe C. O trabalho se faz no telefone, no computador, na caixa registradora.

O trabalho “industrial”, nos moldes de Chaplin em “Tempos Modernos”, talvez esteja se transformando numa relíquia.

Não é absurdo, assim, que em nome da ciência e do esclarecimento de conceitos como a da conservação da energia ou do eletromagnetismo, o Palácio das Indústrias atraia visitantes interessados apenas em mexer com manivelas.

Talvez fosse interessante, do ponto de vista de um museu da ciência, fazer também uma seção dedicada à tecnologia industrial.

Como se faz um tecido? Um copo de vidro? Uma capota de automóvel?

Um museu da tecnologia, ao lado de um museu da ciência (melhor explicado) seria bem interessante.

Meu filho de sete anos, passando pelas fumaças de Cubatão, interessou-se em saber o que se produzia ali.

Não soube responder direito.

É estranho que um ser humano, em São Paulo, em 2011, aos 52 anos, nunca tenha entrado numa fábrica. Falta de cultura geral, falta de uma cultura que não é apenas científica.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h17

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Pais e filhos | PermalinkPermalink #

Paisagens de Hopper

 
 

Paisagens de Hopper

A pintura realista do americano Edward Hopper é lembrada, em geral, pelas cenas de desolação urbana –gatos pingados de madrugada numa lanchonete de esquina, a entrada soturna de um cinema poeira— ou pelas igualmente solitárias figuras de mulheres tomando sol na varanda de algum bangalô nada acolhedor.

Algumas paisagens de Hopper vão mais longe, entretanto, e eliminam a figura humana de uma vez. “O Maine de Edward Hopper” é o título de uma exposição que vai de meados de julho até outubro no Bowdoin College Museum of Art, em Brunswick, cidade daquele Estado no extremo norte dos EUA. O catálogo da exposição pode ser encomendado aqui http://store.bowdoin.edu/collections/art-museum/products/edward-hoppers-maine, e contém imagens como estas:

 

 

 

“Casa do Capitão Upton” (1927), que não parece menos mal-assombrada por ser de dia. Gosto da impressão de vento que há nas nuvens –a única coisa que parece quebrar a imobilidade da visão.

 

 

 

 

“Estrada no Maine” (1914), elege a mais desinteressante vista que se poderia imaginar para que o jogo entre sombra e luz do sol se exponha na crueza da realidade mais banal –e, ao mesmo tempo, a escuridão da rocha à direita surge quase como um estudo psicológico; a paisagem, aqui, parece “pensar”, sem ninguém por perto.

 

 

“The Dories, Ogunquit” (1914) é sem dúvida mais alegre e pitoresca, com seus barquinhos brancos sobre um azul maravilhoso. Mas lá está de novo, agora à esquerda, uma pedra visivelmente mal intencionada –e a parte mais rasa do mar se turva num roxo de algas, de lama e de granito.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h57

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Em cartaz | PermalinkPermalink #

A escola de Voltaire de Souza

O cronista do "Agora" possui um concorrente, Voltaire de Abreu, cujas crônicas podem ser encontradas no site http://www.corrosivocoletivo.blogspot.com/

Escrito por Marcelo Coelho às 14h53

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Fiasco verde

Todos perdem com a saída de Marina Silva do Partido Verde. O PV, em primeiro lugar, confirma sua vocação de partido menor, nas mãos de figuras como Sarney Filho e do tal José Luiz Penna, que desperdiçaram os milhões de votos dados a Marina nas eleições presidenciais. Nunca o PV terá outro candidato presidencial dessa representatividade, dessa qualidade, dessa história.

Perde Marina Silva, também, porque sua saída do PV é praticamente a confissão de que sua candidatura tinha um forte componente de personalismo e imediatismo, tendo entrado no partido apenas como um grande nome eleitoral, sem nenhuma avaliação, ou com avaliação errada, do lugar em que se metia. Usou o partido como poderia usar qualquer outra legenda, das inúmeras que existem de aluguel por aí.

Tendo perdido nas disputas internas do PV, sai de campo; então, estava lá só para disputar a eleição? Ou para canalizar, em participação política organizada, os eventuais simpatizantes de seu nome e de sua causa?

O episódio é melancólico também pelo que confirma do caráter puramente eleitoral da política brasileira. Tanto Marina e seus adeptos quanto Penna e seus adeptos desprezaram o interesse, a adesão, dos eleitores –terminada a eleição, agradeceram os votos que receberam e foram para casa, certos de que os eleitores também fariam o mesmo.

E os eleitores, mais uma vez, se veem incapazes ou sem disposição para ser algo mais do que simples eleitores; ou seja, algo que se parecesse mais com cidadãos.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h35

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Flip ao vivo

É possível ver palestras da Flip pelo site da cpfl. Luís Felipe Pondé e Miguel Nicollelis debatem "o humano além do humano" agora, quinta, às 19h30. Claude Lanzmann e Márcio Seligmann-Silva discutem "a ética da representação" na sexta, às 19h30.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h11

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

glória e declínio dos carecas

No artigo para a "ilustrada" desta quarta-feira, comento a moda da calvície masculina. Alguns trechos.

Antigamente, eles não eram tantos. No cinema, apenas Yul Brinner exibia, com voluntarismo quase obsceno, o brilho branco de uma careca que parecia combinar com a intensidade feroz, sensual e tártara dos seus olhos escuros.

         De uma hora para outra, os carecas surgiram em toda parte. Compreendo o motivo. Homens relativamente moços, sem rugas, não se conformaram com o avanço das entradas na testa, com a devastação atômica no epicentro do cocoruto. Optaram então por raspar tudo. Por que disfarçar a calvície com meias-perucas ou os penteados tipo “coberturas zetaflex –a solução para quem não tem garagem”?

         Melhor radicalizar; esquecer o problema; desprezar o cabelo que, afinal de contas, já não se tem. Há um ganho de masculinidade nisso, e não apenas porque o exemplo de Yul Brinner volta novamente à nossa cabeça (epa!).

         Mas também porque, na cabeça nua, parecem desaparecer o medo às convenções, o cuidado com a própria aparência, o recurso ao disfarce. O careca é um indiferente. Sabe que seu charme com as mulheres não depende de cabelos encaracolados, de franjinhas, de penteados e ares adolescentes; seu charme está, na verdade, alhures.

         Com certeza, todo o raciocínio não sobrevive a uma análise mais detida. O careca não está sendo mais natural e despojado ao abandonar seus últimos fios de cabelo.

         Há que raspá-los periodicamente. Há ainda (suprema humilhação) que passar filtros solares na epiderme, infantilmente frágil, que receberá os raios perpendiculares do sol.

Um dos benefícios trazidos por Neymar ao presente estado de coisas do país está no fato de inaugurar a moda, sempre flexível a muitas variações, comprimentos, cores e texturas, do penacho capilar.

         Seria errado qualificar esse tipo de cabelo como “moicano” simplesmente. Seria ainda bélico demais se se resumisse a isso. É uma espécie de crina, de estandarte flamejante e livre, conciliando os parietais raspados da moda anterior com algo de potro, de tauromáquico, de aimoré. No quadro atual, já vale por um avanço civilizatório.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h28

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

uma cantada de Sartre

 
 

uma cantada de Sartre

Estou terminando de ler “A Lebre da Patagônia”, autobiografia de Claude Lanzmann, que já citei em post anterior.

Lanzmann foi amigo de Jean-Paul Sartre e viveu praticamente casado com Simone de Beauvoir durante sete ou oito anos, num tipo de relacionamento que não excluiu a convivência, já não mais sexual, entre Sartre e Simone.

Para “boucler la boucle”, como dizem os franceses, Sartre se interessou pela irmã de Lanzmann, a atriz Évelyne Rey.

Eis como Lanzmann descreve o primeiro encontro entre os dois, após a representação de uma peça de Sartre da qual Évelyne era uma das principais atrizes. (Lanzmann e Simone se cutucavam durante a representação, adivinhando o que se passaria no jantar depois da peça).

 

Sartre tinha tudo o que era preciso para seduzir Évelyne, ele a elogiava por razões articuladas, encaixadas, aferrolhadas umas às outras. Ver em ação essa formidável máquina de pensar, aquelas bielas e pistões lubrificados aumentando de potência até o regime máximo, deixava o interlocutor pasmo de admiração, ainda mais se o objetivo dessa lógica irrefutável e apaixonada era elogiar o interlocutor. Os inimigos de Sartre caçoaram de sua feiura, do seu estrabismo, caricaturaram-no como um sapo, gnomo, criatura imunda e maléfica, sei lá que mais... Eu via nele uma beleza, um encanto poderoso, gostava da energia extrema de sua atitude, da sua coragem física e, acima de tudo, daquela voz de aço temperado, encarnação de uma inteligência sem réplica. Portanto não me espantei quando minhas previsões se verificaram e minha irmã começou a amá-lo. Ele, por sua vez, amou-a loucamente.

 

Sem dúvida, Lanzmann amou Sartre do mesmo modo, pelas mesmas razões que ele atribui ao amor que sua irmã teve pelo filósofo. Sem sexo, evidentemente –o que é prova que o aspecto físico do amor é em última análise secundário.

 

Sartre e Evelyne Rey

Escrito por Marcelo Coelho às 01h37

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Mário Chamie

A TV Cultura ainda estava começando (lá por 1970). O poeta Mário Chamie tinha um programa semanal, a que eu assistia absolutamente siderado. Ele ficava de pé à frente de uma grande tela, que passava videotapes de absolutamente qualquer coisa. Uma briga num jogo de futebol, um trecho de filme, uma acrobacia de avião, não importa. O desafio, a que Mário Chamie respondia com grande brilho, era falar sobre aquilo. Ele ia falando, a imagem na tela mudava, e ele relacionava uma coisa com a outra. No final do programa ele resumia, relacionando todas as cenas que tinham sido transmitidas.

Para o adolescente que eu era na época, Mário Chamie revelava o poder da inteligência pura, capaz de tirar ideias a partir do nada, de “esquentar” como um motor a partir dos estímulos mais triviais. Foi o que descobri, algum tempo depois, lendo os ensaios de Paul Valéry: também começam, muitas vezes, de uma frase abstrata e pouco promissora, para em seguida, como num espetáculo de ginástica olímpica, desenvolverem os mais vertiginosos movimentos.

Muito tempo mais tarde, conheci pessoalmente Mário Chamie; numa viagem, fiz a ele a pergunta que sempre queria ter feito. Afinal, aquelas imagens no programa da TV Cultura apareciam por acaso, ou se tratava de uma seleção feita por ele previamente? Ele respondeu o que eu já, no fundo, sabia: eram totalmente desconhecidas, ele entrava no estúdio sem ter a menor ideia daquilo sobre o que teria de improvisar ao vivo.

Tendo estado com ele em algumas ocasiões, e naquela viagem de escritores e jornalistas de que participei, surpreendia-me em Mário Chamie a extrema cortesia, eu diria mesmo a deferência exagerada, que ele tinha com as outras pessoas: era sempre o último a passar pela porta, tinha sempre o máximo equilíbrio entre ouvir o que os outros diziam e expor seus comentários, suas opiniões.

Ao mesmo tempo, escreveu um livro de “poemas de escárnio”, contra os seus desafetos no mundo literário, que era de uma violência incrível.

Foi, como se sabe, secretário da cultura de Paulo Maluf, ao mesmo tempo em que um volume de poemas seus, publicado lá por 1974 se não me engano, consistia em elaborada defesa da democracia contra a ditadura.

Suas primeiras obras, como “Lavra lavra”, inseriam-se no clima dos anos 1960 –luta contra o latifúndio, ligas camponesas...

Sua erudição era impressionante, e sempre quis ter podido comentar mais detidamente um livro que Chamie escreveu sobre a carta de Pero Vaz e os primeiros tempos da colonização –com os reflexos que aquele período teve sobre os poetas modernistas.

Há um CD de Mario Chamie declamando seus próprios poemas, feito pelo Instituto Moreira Salles. O virtuosismo verbal daqueles textos, a bem dizer, me incomodava: era tão perfeito o jogo das paranomásias e aliterações, com pequenas alterações numa vogal ou numa consoante modificando a cada momento o sentido das sentenças, que tudo me parecia perigosamente próximo de um trava-línguas. Assim como seus arquiinimigos, os poetas concretos, Chamie corria o risco, a meu ver, de insistir demais no trocadilho como sinal de “função poética” e “rigor formal”.

Em resumo, Chamie tinha contradições a mais não poder. Não tive proximidade suficiente com sua obra ou sua pessoa para entendê-las a fundo. Mas sua inteligência, desde aqueles programas da TV Cultura, sempre me causou a maior admiração. Uma admiração daquelas que, recolhida em silêncio, traz boas pontadas de inveja também.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h33

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O concurso Tchaikovsky

 
 

O concurso Tchaikovsky

Depois de anos de declínio (ouço dizer que professores de candidatos faziam parte do júri), o concurso Tchaikovsky (prêmios para piano, violino, violoncelo e canto) retomou plena força em 2011, sob a direção do maestro Valery Gergiev. Foi aquele concurso que, em 1958, plena guerra fria, teve Van Cliburn como vencedor.

Uma das medidas para aumentar a transparência e a publicidade do concurso tomadas por Gergiev foi de transmitir tudo pela internet. Está neste link. É só dar o email e fazer uma senha, tudo é grátis.

Em tempo: o vencedor do prêmio de piano foi um russo.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h39

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | música | PermalinkPermalink #

testemunhos de guerra

 
 

testemunhos de guerra

Num artigo sobre a literatura inspirada pela guerra de 1914-1918, publicado domingo na “Ilustríssima”, mencionei um livro recém-lançado no Brasil. Trata-se de “Vozes Esquecidas da Primeira Guerra Mundial”, de Max Arthur. Reúne depoimentos de soldados e oficiais que testemunharam, para o Arquivo de Som do Museu Imperial da Guerra, suas experiências no front.

 

Alguns trechos.

 

Os ratos costumavam roer nossa ração à noite. Furavam qualquer coisa em que a acondicionássemos, a menos que fosse em um recipiente de metal. Mas os ataques de gás acabaram com eles. Certa vez, vimos dúzias e dúzias se arrastando de barriga pelo chão. Enfiávamos a ponta do pé embaixo deles e os jogávamos para dentro da vala. Apesar do gás, dois cisnes viviam na vala e subiram no parapeito sem aparentar nenhuma seqüela.

 

(artilheiro Leonard Ounsworth, 124ª. Bateria de Campanha Pesada)

 

 

Os franceses tiravam as camisetas à noite e passavam a bainha perto da chama da vela que tínhamos nos abrigos, o que produzia uma série de estalidos. Matavam os piolhos assim e os tiravam da camisa. Achamos muito divertido vê-los fazer isso; estávamos livres de pragas a essa altura e não sabíamos o que eram piolhos. Na manhã seguinte, porém, estávamos cheios deles. Ficamos infestados de piolhos e passamos a ter a mesma distração dos franceses em seu problema com essa praga.

 

(soldado Murray, da 2ª. Divisão americana)

 

[Um poema descrevendo a matança de piolhos à luz de candeias, de Isaac Rosenberg, é talvez uma das imagens mais poderosas de toda a guerra.]

 

Estávamos recebendo novos recrutas de Londres, e certo dia nos enviaram dois jovens, entre 16 e 17 anos. Fazia apenas duas semanas que estavam conosco quando, de repente, tivemos de fazer um ataque.

 

Os dois jovens, quando souberam que faríamos esse ataque, caíram literalmente em choro convulsivo. (...) Quando nos lançamos ao ataque, nós os perdemos de vista, mas o fato é que eles já haviam debandado e foram pegos pela polícia militar a cerca de 4 ou 5 quilômetros de onde os combates estavam sendo travados.

 

Os dois jovens foram trazidos e postos bem no fim da formação, perto do oficial. Seus quepes foram tirados, e todas as insígnias do regimento foram arrancadas. (...)

 

Como os dois jovens haviam sido do meu pelotão, decidimos fazer um sorteio. Aqueles que fossem sorteados –quatro deles—sabiam o que teriam de fazer às 8h da manhã seguinte.

 

Na manhã seguinte, os dois jovens foram levados para um pátio vendados. Cada um dos quatro homens do meu pelotão que iriam fuzilá-los recebeu suas balas. Divididos em dois pares, disseram-lhes que que cada qual deveria atirar em um dos rapazes. Um teria de atirar na cabeça, outro no coração. Portanto, tudo indicava que seriam mortos instantaneamente, como de fato foram.

 

(soldado William Holmes, 12º. Batalhão, Regimento de Londres)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h28

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Livros | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.

free stats