Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

O consumismo, segundo Bauman (7)

Nesse tipo de críticas ao consumismo, como o feito por Bauman, não está em jogo o fenômeno do consumismo em si. Esse tipo de críticas nada mais faz do que atualizar a crítica a um velho conhecido nosso, o prazer. O prazer é efêmero, o prazer é enganoso, o prazer não preenche o vazio da existência... É fácil perceber que, embora tudo isso tenha muito de verdadeiro, há muito de moralista nisso também.

 

Não acredito, pessoalmente, numa crítica social que se volte para a expectativa, para a promessa, de que a maioria das pessoas vá se converter a um comportamento de austeridade, de parcimônia, de menos prazer. Há momentos em que isso é possível, sob a forma de alguma inspiração religiosa, de renúncia ao mundo material. De Calvino ao Talebã, esse tipo de coisa, a meu ver, tende a se auto-anular depois de um tempo.

 

Evidentemente, como todo prazer, o da comida, o da bebida, o do jogo, o do sexo, o do consumo pode conhecer distorções patológicas. O indivíduo pode se viciar em consumo, se meter numa espiral de dívidas no cartão de crédito, sem ter como pagar. Esse tipo de comportamento entra, sem dúvida, no capítulo das dependências, das adições, e pode ser relativamente novo na história. Mas até disso eu desconfio. Qualquer romance do século 19 mostra personagens muito mais endividados por causa de gastos supérfluos do que hoje em dia. Madame Bovary, a personagem de Flaubert, se mata por causa das dívidas que contraiu comprando quinquilharias. Lucien de Rubempré, nas Ilusões Perdidas de Balzac, tem  o mesmo problema –até por que as roupas, o status, o padrão de consumo na Paris do século 19 eram uma condição de inserção social e de sucesso talvez maiores do que para a maioria dos profissionais de hoje em dia.

 

Qual a diferença dessa situação para a sociedade de consumo de hoje? O que a torna uma novidade histórica, não é o fato do consumo, nem do “consumismo”. É o fato de que nossa sociedade, mais do que nunca, não é uma sociedade “de consumo”. É uma sociedade de produção. Os meios tecnológicos para a produção em massa se tornaram tão eficientes, tão “racionais” no sentido estritamente econômico do termo, que simplesmente as coisas ficaram baratas demais. O consumismo existe, em primeiro lugar, porque se tornou muito mais possível consumir. O problema parece ser, em primeiro lugar, o de agregar valor simbólico ao que, materialmente, é baratíssimo: uma marca se torna mais cara simplesmente porque foi planejada para ser mais cara, sem que necessariamente o custo material de sua produção seja elevado. O outro problema, a meu ver, está no campo da distribuição dos bens produzidos. Sobram bens baratos, que se precisa empurrar para consumidores saciados e insaciáveis, numa parte do mundo, enquanto em outras partes do mundo a oferta de bens continua a ser terrivelmente escassa, a miséria predomina. 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h29

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voltaire de souza

Mais uma crônica que saiu recentemente no jornal "Agora".

 

 

 

TAÇA VAZIA

 

 

Gols. Glórias. Campeonatos.

Para Getúlio, tudo isso era parte do passado.

A barriga. O cigarro. A cerveja.

--Fui um craque. O rei Getúlio.

Na fila do SUS, seu sorriso era triste.

--Hoje, espero aqui no banco.

O médico se chamava dr. Marco Aurélio.

--E aquele gol na Libertadores, hein?

Getúlio mal se lembrava.

--Se pelo menos eu tivesse um plano de saúde...

O dr. Marco Aurélio arranjou um quarto melhor para o ídolo.

--Com uma condição. Você tem de parar de beber.

Getúlio fechou os olhos.

Sonhou com a taça do seu primeiro campeonato.

--O Mirim de Sorocaba.

Ele levou a taça aos lábios secos.

Dentro, o líquido tinha um sabor amargo.

A taça caiu de suas mãos cansadas.

Depois disso, Getúlio não bebeu mais.

A boca, como o gol, por vezes se fecha.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h26

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O consumismo, segundo Bauman (6)

Os críticos da sociedade de consumo, como Bauman, reagem diante dessa diversificação dos tipos de consumidor (ver post anterior) afirmando que, na sociedade contemporânea, o próprio indivíduo passa a ser um produto –passa a “se vender”, no mercado das relações pessoais disponíveis na internet, e assume rótulos, usa rótulos de marcas na própria camisa, é ele próprio uma mercadoria à venda.

 

Não nego que isso aconteça. Mas acho, novamente, que não se pode ser excessivamente apocalíptico nessa avaliação. Se em algum momento o ser humano se transformou em “mercadoria”, para valer, não foi agora, na sociedade de consumo contemporânea. Nem preciso falar na escravidão. Mas basta pensar de que modo, no século 19 por exemplo,funcionavam os casamentos arranjados entre famílias burguesas e aristocráticas, para se ter ideia do que significa uma “mercadoria” –a noiva, empetecada, embalada como um presente, com tudo o que isso significava de gasto em superfluidade e em artigos da moda, era muito mais “mercadoria” do que a patricinha hoje em dia que passa o tempo entre o shopping e o facebook. O próprio operário, condenado a ser “apenas” operário, é mais “produto” do que o jovem de classe baixa de hoje.

 

Isso não significa que a posse de bens de consumo, para fins de prestígio, não tenha um peso desproporcional na sociedade de hoje, e que muitos jovens pobres, por exemplo, se dediquem ao tráfico para obter bens supérfluos que, por sua vez, lhes rendem belas namoradas, que serão também descartadas... Esta é evidentemente uma patologia do nosso tempo, e há também outra patologia, a de que o bem procurado pelo consumidor perde imediatamente o seu valor, o seu interesse, o seu significado assim que é comprado.

 

Muitas vezes, possuir o objeto não é tão importante quanto comprá-lo. A pessoa compra e esquece de usar, não usa. Certamente, não está em jogo aqui uma estrutura de personalidade em que o “ter” é mais importante do que o “ser”. Muitas vezes, não interessa “ter”, interessa “comprar”. O sujeito é menos o acumulador de coisas dentro de casa do que o gastador de dinheiro fora de casa. Seu problema é mais a prodigalidade do que a retenção. Você pode sair para comprar, sei lá, uma raquete de tênis. Mas o seu lazer não é jogar tênis. Seu lazer é ir ao shopping e comprar raquetes.

 

Minha impressão, entretanto, é que nada disso é especialmente novo na experiência humana. Ao contrário, e eu penso num livro como “A Parte Maldita”, de Georges Bataille, por exemplo, o gasto inútil, o gasto suntuário, o desperdício, a produção de excedente sem sentido, feito para ser destruído, é tão velho como a construção de pirâmides, ou como os grandes banquetes dos índios do noroeste americano, os famosos “potlatchs”. É especificamente humano, aliás, o comportamento de não se contentar com o estritamente necessário para a sobrevivência física. 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h17

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O consumismo, segundo Bauman (5)

É claro que a insatisfação, na sociedade contemporânea, não é apenas um estado natural do ser vivo. Ela é criada, e todas as técnicas da publicidade são empregadas para criar no indivíduo necessidades das quais ele não se dava conta. É óbvio que a “liberdade de escolha” do consumidor é duplamente ilusória.

 

Primeiro, porque não há grande escolha a ser feita entre produtos que, como as marcas de carro por exemplo, terminam sendo extremamente parecidos, por força das próprias leis da concorrência; todos têm de atender basicamente a uma série de características técnicas, de desempenho, de segurança etc., que são comuns.

 

Segundo, porque o marketing dispõe atualmente de técnicas muito sutis para tornar desejável, isto é, agradável, o produto que se coloca no mercado. Todo um ramo da neurociência, aliás, se dedica a determinar com precisão que tipo de cor, de formato, de textura, em que ambiente e para que tipo de consumidor, é o mais vendável. O nome de uma marca, o próprio cheiro da loja, a disposição do produto no balcão, o cálculo do preço conveniente para cada público-alvo, tudo é calculado, sem que o consumidor saiba minimamente o que está se passando dentro dele no momento da escolha.

 

Não poderia ser mais assustador, é claro. Mas acontece que isso vem acompanhado de uma extrema diversificação, também, do tipo de consumidor. A tribo dos punks consome coisas que uma tribo mauricinha não consome –e o que temos,no caso, não é a simples satisfação (impossível) da necessidade (inexistente) por um produto (enganoso). O produto vendido, no caso, atende a outra necessidade, que não é a simples necessidade humana “natural” de se proteger do frio ou colocar alguma coisa nos pés.

 

O produto é uma forma de autoexpressão, de dizer quem eu sou, e com quem prefiro me relacionar, em torno de que preferências, de que valores. Há mesmo os produtos para os anticonsumistas, os produtos naturais ou reciclados –e não sei de maior ironia do que ver um produto reciclado, supostamente mais benéfico para a manutenção dos recursos do planeta, custando mais caro do que o produto não-reciclado...

 

Seja como for, a atitude do consumista não se esgota na relação, satisfatória ou insatisfatória, que ele tem com o produto consumido. O produto consumido é meio de expressão, é um intermediário nas relações de pessoa para pessoa.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 17h14

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voltaire de souza

Outra peça do cronista, publicada há dias no jornal "Agora".

 

OLHOS AZUIS

 

 

Fadas. Castelos. Fantasias.

As crianças vivem num mundo mágico.

Aos oito anos, Tatiane gostava de brincar de princesa.

--Meus sapatinhos de cristal...

Ela ajustava com cuidado a fivela da sandália.

--Minha tiara...

As amigas admiravam.

--Deixa eu pôr na minha cabeça um pouquinho?

--Só um pouquinho. É minha.

A maior novidade ainda estava para ser descoberta.

--Minha lente de contato colorida.

Ela agora tinha olhos azuis.

--Sou uma princesa de verdade.

As amigas pressionaram.

--Tatiane. Mostra onde você arranjou.

Uma hora depois, o pânico tomou conta de uma rua comercial da Vila Mariana.

A gangue das meninas atacava mais uma vez. Liderada por Tatiane.

Da fantasia para a realidade, o passo é pequeno.

Por vezes, cabe num sapatinho de criança.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h41

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eterna insatisfação

Por falar nas promessas insatisfeitas do consumismo, eis um bonito quadro, intitulado "Enchanting Depths".

 

Parece ter sido pintado aí por 1860, mas seu autor é Jeremy Lipking, americano nascido em 1975. A obra está à venda na Arcadia Gallery, de Nova York.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h37

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O consumismo, segundo Bauman (4)

         Passo a outro exemplo dos argumentos de Bauman sobre o consumismo. Ele afirma, sem dúvida com razão, que a publicidade promete satisfazer o consumidor, promete “felicidade”, mas que essa promessa é enganosa. O consumidor nunca está satisfeito, e sempre terá de voltar ao local de consumo para comprar mais.

 

A promessa de satisfação só permanece sedutora enquanto o desejo continua insatisfeito; mais importante ainda, quando o cliente não está plenamente “satisfeito” . ... é exatamente a não-satisfação dos desejos e a convicção inquebrantável,a toda hora renovada e reforçada, de que cada tentativa de satisfazê-los fracassou no todo ou em parte que constituem os verdadeiros volantes da economia voltada para o consumidor.

 

Novamente, isso tem muito de verdade, parece ser verdade... mas também não é verdade. Penso em alguns exemplos.

 

O consumidor compra, digamos, um CD dos Beatles e um pacote de amendoim. Voltará ao mercado, dali a alguns dias, para comprar outro CD dos Beatles e outro pacote de amendoim. Isso significa que não ficou satisfeito com o primeiro CD e com o primeiro pacote de amendoim? Acho que, ao contrário, ficou satisfeito –o que não o impede de querer mais.

 

Observo, de resto, que há aqui uma continuidade nos seus gostos –uma expressão, ou uma constituição, de suas preferências, de seu temperamento, de sua identidade –como pessoa, ou, se quisermos, como consumidor—que contrasta com a ideia de que tudo é movente, líquido e descartável no comportamento contemporâneo.

 

Há fidelidades, identidades, grupos de interação e sociabilidade em torno do consumo, de maneira especialmente intensa hoje em dia; e só se pode dizer que isso tudo se baseia em “insatisfação” se estivermos dispostos a reconhecer, também, que quem está insatisfeito está vivo, e que quem está plenamente satisfeito está, na verdade, morto, ou em algum estado de êxtase místico.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 00h26

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O consumismo, segundo Bauman (3)

 

         Continuo a criticar o diagnóstico de Bauman sobre o “descartável” e o “durável” (ver posts anteriores). Certamente, os casamentos não duram tanto quanto duravam no século 19. Certamente, muitas relações hoje em dia se caracterizam por sua curta duração.

         Mas há uma série de fenômenos que também contrabalançam essa tendência. O aumento na expectativa de vida, por exemplo: as relações entre pais e filhos, para falar no mais óbvio, se caracterizam por uma durabilidade muito maior hoje em dia –passam por uma série de fases, de distanciamentos, de reaproximações, etc., que não podiam conhecer cem anos atrás.

         O fenômeno amplamente apontado dos jovens que não saem da casa dos pais antes dos trinta anos: isso pode ser até muito ruim, mas nada tem a ver com o suposto predomínio do “descartável” na nossa cultura. Por outro lado, um fenômeno também recorrente é o caso dos relacionamentos que acabam, mas nunca acabam de fato –como se exatamente a impossibilidade de jogar com o “descartável”, a recusa ao “descartável”, surgisse de forma especialmente sofrida nos dias de hoje.

         Ou seja, para lembrar uma palavra antiga, a “dialética”, eu acho muito difícil caracterizar de modo unívoco uma época, o espírito de uma época, contrastando com um passado em que tudo era diferente. Se há movimento do passado para cá, e do momento atual para o próximo, é porque estão em jogo tendências contraditórias, e nenhum quadro da sociedade baseado nas características mais visíveis do “consumismo” vai ser fiel à realidade se não identificar os focos de tensão que podem nascer do próprio fenômeno do consumismo.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h20

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voltaire de souza

Crônica publicada há algum tempo no "Agora".

 

 

MEMÓRIAS DE CHUMBO

 

 

Dor. Tristeza. Confusão.

A família do doutor Salústio lamentava a perda.

O derrame colhera o banqueiro aos 75 anos.

Velório tradicional. Na mansão da família.

--Quando é o enterro?

Ninguém sabia. Greve dos coveiros.

A viúva se chamava dona Alda.

--Fosse no tempo dos militares...

Ela tinha saudade dos anos de chumbo.

--Os coveiros trabalhavam direitinho.

Uma mosca pousou no nariz do cadáver.

--Me passa o inseticida, Renatinho.

O filho achava desrespeito.

Chamaram o jardineiro e outros empregados da mansão.

--Enterra aqui mesmo. Lá debaixo da goiabeira.

Pás. Enxadas. A surpresa macabra.

Várias ossadas ocupavam o lugar.

--Ah, tinha esquecido. Uns subversivos daquele tempo. O Salústio não dava moleza.

A memória, por vezes, faz greve também.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h05

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O consumismo, segundo Bauman (2)

 

         É fácil reconhecer nas teses de Zygmunt Bauman (ver post anterior) muito do que se diz sobre o consumismo contemporâneo, e um diagnóstico mais ou menos claro, mais ou menos acertado, da situação atual. Mas vou detalhar um pouco mais em detalhe esse diagnóstico, colocando minhas dúvidas e críticas a respeito.

 

         Tomo, então, a primeira tese. Bauman chega a falar de uma “revolução consumista” no século 20, se comparada com a sociedade do século 19, a “sociedade de produtores”, ou, como ele diz, a “fase sólida da modernidade”, em oposição ao que ele chama de “mundo líquido”. Diz que na sociedade de produtores, nessa fase sólida, o que predominava era o desejo...

 

De um ambiente confiável, ordenado, regular, e, como prova disso, duradouro, resistente ao tempo e seguro. (...) A satisfação parecia de fato residir, acima de tudo, na promessa de segurança a longo prazo, não no desfrute imediato de prazeres. Apenas bens de fato duráveis, resistentes e imunes ao tempo poderiam oferecer a segurança desejada. (...) No começo do século 20 o “consumo ostensivo” portava um significado bem distinto do atual: consistia na exibição pública de riqueza com ênfase em sua solidez e durabilidade, não em uma demonstração da facilidade com que prazeres imediatos podem ser extraídos de riquezas adquiridas, sendo pronta e plenamente utilizadas.

 

Quem lê essa descrição tende a concordar. Imagina uma sala de estar do século 19, com móveis pesadíssimos, estátuas de bronze, etc., imagina o contraste, por exemplo, entre um livro antigo, com encadernação de couro, e um livro de bolso que despenca enquanto a gente está lendo.

 

         Mas me parece que essa descrição é muito parcial, e tem, como sempre ocorre nesse tipo de crítica, um certo aspecto nostálgico.

         Basta abrir qualquer revista mais cara, e mesmo os jornais estrangeiros, para ver que bens de consumo duráveis continuam sendo consumidos e desejados loucamente –relógios de luxo, tipo Cartier, Audemars Piguet, etc., e joias continuam movimentando uma indústria “consumista” tão sólida, ou tão líquida, quanto a que existia no século 19. A diferença é que, em vez de um relógio caríssimo, o consumista de hoje tem cinco, ou dez.

         Outro exemplo: o desejo, e a realização do desejo, de casa própria é igual, ou maior, do que no começo do século 20 –e uma das maiores fontes de dinamismo (e de crise) no mundo contemporâneo é o mercado imobiliário.

         Pensando melhor, o que mudou foi o tipo de bens duráveis oferecidos. A televisão, em 1950, era uma só, era pesada, parecia um móvel, e esperava-se que durasse bastante tempo; era sem dúvida um investimento que a família fazia, como um carro.

         Ocorre simplesmente que os aparelhos ficaram mais baratos. Como os livros, que eram bens duráveis, e se tornaram menos duráveis, simplesmente porque foi possível contar com um público consumidor maior, um maior número de leitores do que existiam no século 18, por exemplo, e isso permitiu uma produção em massa, com o decorrente barateamento de custos.

         Por outro lado, a imensa variedade de produtos “descartáveis” do século 19, o interesse das pessoas da época por ninharias, por objetos sem valor, provavelmente era grande também. Simplesmente, esses produtos, porque não eram duráveis, não duraram até hoje... e existiam em menor quantidade, porque havia menos pessoas em condições de consumir.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h45

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O consumismo, segundo Bauman

         Estive na semana passada em Ribeirão Preto, no congresso da Sociedade Brasileira de Psicanálise. O tema do congresso era “Prazer- Limites e Realidade”. Dei uma palestra sobre consumismo, e ponho alguns trechos dela aqui, sem alterar demais o tom coloquial que empreguei no texto.

         Encaminhei a palestra me baseando no livro de Zygmunt Bauman, “Vida para Consumo” que já andei comentando aqui.

         Bauman é um autor muito citado, está bastante na moda, mas eu confesso que senti certa desconfiança diante das suas teorias dele. Seu livro talvez sirva como um exemplo de uma série de opiniões generalizadas que se tem sobre o consumismo, opiniões críticas, certamente, mas que eu gostaria de questionar.

         Faço então um pequeno resumo, um sumário das “teses” usuais sobre consumismo, tal como elas são mais ou menos repetidas por Bauman, para em seguida questioná-las um pouco.

         Primeira tese: em algum momento do século 20, instaurou-se uma cultura de consumo desenfreado, de modo que a antiga sociedade industrial, do século 19, por assim dizer virou de cabeça para baixo. O que antes era “vida para a produção” se transformou em “vida para o consumo”.

         Assim, na sociedade contemporânea, o descartável toma o lugar do durável. Qualquer objeto que pareça insatisfatório pode ser jogado fora e substituído por outro. Isso vale tanto na máquina fotográfica digital, que quebra e não adianta consertar, como para a própria mão de obra, que é descartável, terceirizada, etc.

         E isso se estende também para as relações afetivas, em que um namoro, um casamento, duram pouquíssimo, e não vale muito a pena insistir na sua manutenção. Você procura, num companheiro, apenas a satisfação imediata, e elimina completamente o lado da dedicação, da devoção, da construção comum. Você se torna consumidor, e não produtor, de um relacionamento.

         Segunda tese: o predomínio do imediato, do consumível, do descartável, desqualifica a nossa própria experiência, que passa a ser ligada apenas ao imediato das sensações, não havendo tempo para a reflexão, para a digestão das informações, das sensações que temos.

         Com isso, no mundo do consumismo, o princípio do prazer toma o lugar do princípio da realidade; ninguém adia para amanhã a satisfação que pode obter         hoje.

         Terceira tese: ao mesmo tempo, a desqualificação da experiência faz com que, naturalmente, nenhuma experiência, mesmo de prazer, seja satisfatória. E a insatisfação leva a que se procurem, infinitamente, novos produtos, novas coisas que prometam trazer a satisfação, que sempre se promete mas nunca se cumpre.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h40

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Piscinão de Ramos em Nova York

O fotógrafo brasileiro Júlio Bittencourt expõe, de 21 de setembro até janeiro do ano que vem, na 1500 Gallery, em Nova York, as suas imagens do Piscinão de Ramos. Cores metálicas, duras, além do sol e da sombra, dão uma poesia irreal a um lugar que, por si só, já é um desafio à noção que usualmente temos da realidade carioca.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h18

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cem anos do Municipal

O Teatro Municipal de São Paulo está completando cem anos, restaurado e em boa forma. Neste domingo, às 19h30, a TV Cultura mostra um documentário sobre a história do teatro.

 

Impressiona a quantidade de imagens de época, de fotos dos grandes cantores, maestros, atores, bailarinos que apareceram pelo Municipal. O difícil de um documentário desses é não se perder na mera quantidade de fatos e documentos preciosos à disposição.

 

Ressinto-me, nesse aspecto, da velocidade com que foram mostrados. Por vezes, mal dá tempo de ver as fotos das cantoras, os cartazes das óperas. Seria um bom tema, talvez, para um livro-álbum, que não haveria de ser pequeno.

 

Cada freqüentador do Municipal, aliás, teria o seu particular. Se puxo pela memória, eu que não sou muito de ir a teatro nem a concerto, encontro uma boa dezena de espetáculos “históricos” que assisti por lá.

 

O documentário da Cultura descobriu, entretanto, um fio condutor e interpretativo que o afasta do memorialismo cultural –por mais fascinante que este possa ser.

 

Dos tempos em que foi construído, para orgulho e desfrute da classe rica, até hoje, o que o documentário mostra é um processo de crescente democratização. Lá pelo final do programa, não vemos mais os cafeicultores de casaca, mas os pais e parentes dos garotos da favela Heliópolis, cuja orquestra sinfônica ocupa o palco num concerto; o maestro Roberto Tibiriçá dá um depoimento emocionado, claro, a respeito da ocasião.

 

Primeiro abalo na vocação antiquada-operística-burguesa do Municipal, houve a semana de 22 (mas poderiam ter cortado a aparição do bom ator Paschoal da Conceição, encarnando um “Mário de Andrade” pretensioso e cabotino além da conta nas escadarias recém-restauradas).

 

A Semana de 22 foi, entretanto, um capítulo, entre outros, do processo de “abertura” do Municipal. O documentário mostra diversos momentos em que o luxuoso teatro abrigou manifestações contra o regime militar.

 

E dá o devido valor a Sábato Magaldi, que em meados da década de 70, como secretário da Cultura do município, enfrentou vários trancos e pressões da linha dura. Garantiu que no Teatro Municipal fosse realizado o festival internacional de teatro organizado por Ruth Escobar, que a ditadura queria proibir.

 

Aguentou as críticas à semana de poesia que aconteceu na mesma época: um poeta adolescente tirou a roupa no palco e fez xixi ali mesmo...

 

Lembro da cena: no teatro lotado, cheio de rumores (porque em qualquer recital de poesia algo de “subversivo” sempre podia acontecer, e o medo de que houvesse gente do Dops por ali não era injustificado), o rapaz parecia ou drogado ou agente provocador; um poeta mais velho acabou se atracando com ele, tirando-o do palco à força. Nessa hora achei mais prudente sair da plateia; já imaginava, medrosamente, todo mundo preso.

 

Felizmente, havia naquela época gente mais corajosa do que eu. E o Municipal continuou a sediar protestos, além de espetáculos inovadores. Antunes Filho conta suas experiências a esse respeito.

 

Envolvem, aliás, mais um episódio de democracia e popularização. Tanto Antunes Filho quanto Eva Wilma agradecem, retrospectivamente, ao funcionário que, depois de recolhidos os ingressos dos espectadores, permitia aos jovens sem dinheiro que eles eram entrar de graça... O funcionário da bilheteria fazia o que o poder público deveria ter sempre feito.  

Escrito por Marcelo Coelho às 12h08

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Vida para consumo

Devo fazer no final desta semana uma palestra sobre consumismo, em Ribeirão Preto, e por isso andei meio longe aqui do blog. Não que esteja lendo grande coisa: na verdade estou numa enrolação tremenda.

Estou acabando de ler o livro de Zygmunt Bauman, “Vida para Consumo”, mas não consigo tirar muita coisa dali.

O livro é cheio de generalidades, repetições e colagens de citações, sempre precedidas de “o arguto X disse que...”

É daqueles livros em que um diagnóstico extremamente “grave” da situação atual (pós-moderna, contemporânea, ou, como prefere o autor, “líquida”) poderia ser contrabalançado por inúmeros exemplos em direção contrária. O diagnóstico pode não ser incorreto, mas se baseia antes em metáforas do que em correlações causais.

No fim, o que falta no livro, como em tantas obras de crítica cultural produzidas em série, é dialética. Retrata-se uma situação estanque, absolutamente diferente do que ocorria “no passado”, sem ver de que maneira uma coisa veio a dar na outra, e quais as contradições do presente, seu potencial de crise e transformação.

Valeria dar exemplos, mas acho que só vou ter tempo de fazer isso quando estiver escrevendo o texto da palestra...

Escrito por Marcelo Coelho às 02h26

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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