Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

O garoto da bicicleta

Se você ainda não viu “O Garoto da Bicicleta”, filme dos irmãos Dardenne que estreou esta semana, siga o meu conselho. Fuja. Fuja de bicicleta, de carro ou patinete, mas fuja.

Não é que seja o pior filme do mundo, mas concentra muitas das características que mais me desagradam no cinema francês. Há muito tempo parece prevalecer ali uma pretensão ao “cinema de arte” que não passa disso, uma pretensão.

Assim, aborda-se um tema sério (no caso, a rejeição de um pré-adolescente pelo pai, e sua dificuldade de relacionar-se com uma pretendente a mãe adotiva). Não se concede final feliz. A maior parte do tempo o filme transcorre sem música. Procura-se evitar qualquer obviedade nos sentimentos e na forma narrativa.

Tudo isso é uma maneira de fugir, claro, do cinema comercial mais explícito. Mas isso não faz de um filme uma obra de arte.

Principalmente porque, em vez de fazer outra coisa que não seja cinema sentimental, a preocupação dos autores é reprimir a sentimentalidade sem colocar nada no lugar. Reprime-se a obviedade dos personagens sem colocar nada no lugar também.

Tudo soa falso no filme, porque as reações dos personagens (que não podem ser explícitas, claras, evidentes) são ocultadas apenas, são anuladas –sem que com isso sua psicologia se torne mais complexa, mais ambígua, mais rica de nuances. Os personagens atuam, na verdade, de forma mecânica, sem razão oculta, muito menos razão aparente.

Um exemplo banal. Numa sala de espera do médico, o menino problemático sai correndo e se agarra numa mulher que está na fila de espera.

A mulher perde o equilíbrio e cai como uma tora, sem esboçar nenhuma reação. As pessoas em volta continuam sentadas no lugar. Os cuidadores do menino, que querem levá-lo de volta ao orfanato, só fazem repetir sem parar o nome dele, chamando-o insistentemente, sem ao menos perguntar o que aconteceu ou o que ele está sentindo.

Pode ser que na França as pessoas sejam mesmo mais secas e não gostem de criança, mas parece impossível que tudo ocorra desse jeito, sem que em nenhum momento do filme apareça um diálogo um pouco mais revelador sobre os sentimentos dos personagens. Em tese, a estética da coisa recomendaria que os personagens não “se expliquem a si mesmos”. Está certo. Mas em “O Garoto da Bicicleta” esse mandamento de sutileza parece servir apenas de pretexto para as carências do roteirista.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h55

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Brasil natural

Fotos de sete reservas naturais brasileiras (Pantanal, Fernando de Noronha, Lençóis Maranhenses, Chapada Diamantina, Monte Roraima, Foz do Iguaçu e Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul) podem ser vistas no livro Brasil Natural, do fotógrafo Valdemir Cunha. Está sendo lançado na Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho 915-SP, amanhã, 22/11, a partir das 18h30.

Aqui vai uma foto do lugar-clichê por excelência, as Cataratas do Iguaçu. A variedade das cores da água, o contraste entre a torrente e os habitantes do ar, e não sei que rumor ressoando a partir da própria imagem, dão à foto um valor além do que seria de esperar em tema tão batido.

 


Escrito por Marcelo Coelho às 13h27

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games do passado

         Na exposição “Game On”, em cartaz no Museu da Imagem e do Som, o visitante pode brincar com os jogos eletrônicos mais avançados (há um que dispensa qualquer botão ou controle, funcionando só com os gestos da mão captados por uma câmera).

         E também com os mais antigos. Incluíram até o único joguinho eletrônico que conheci no meu tempo, aquele pingue-pongue em preto e branco que se adaptava à televisão.

         O desafio consistia unicamente em girar um volantezinho de modo a rebater com uma “raquete” (uma barra branca vertical na tela) a bola (um quadradinho branco) que se deslocava da esquerda para a direita, e da direita para a esquerda, invariavelmente.

         Surpresa: meus dois filhos, de 7 e 9 anos, e um amiguinho deles, acharam bastante difícil esse jogo.

         Adoraram, também, alguns dos mais antigos, como os pacmans e congêneres.

         Pelo jeito, a evolução de muitos games se deu mais no acabamento visual do que no tipo de atividade que exigem do jogador. Não sei que jogo de trinta anos atrás se parece com um novo, que vi meu filho jogando no computador outro dia: o bonequinho tem de percorrer um labirinto, evitando chocar-se com os inimigos (caranguejos, robozinhos) que encontra pelo caminho.

         A exposição está dividida em jogos “clássicos”, jogos americanos, jogos europeus, jogos japoneses.

         Há algumas imagens,e muito som.

         O forte de “Game On” não é informar o espectador sobre o contexto cultural, visual e técnico dos joguinhos.

         É fazer com que ele se divirta jogando jogos de todas as épocas.

         “Obrigado por me trazer a este PARAíSO!”, disse-me meu filho menor.

         Boa dica para um feriado chuvoso.

         A entrada para crianças custa apenas R$ 5, e não há limite de tempo para jogar.

         Bem melhor do que os “Playlands” e congêneres dos shopping centers.

         Fui no sábado, um dia depois da abertura.

         O grande perigo é que a exposição fique superlotada rapidinho. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h06

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lazer britânico

Simon Roberts é um fotógrafo que tem se dedicado a retratar principalmente o lazer do povo inglês: suas praias sem sol, seus gramados úmidos, pontilhados de gente. O senso de isolamento individual, de reserva, de distância persiste mesmo em fotos onde os compatriotas de Roberts estão aglomerados e se divertem. No blog http://we-english.co.uk há muitas amostras dessas fotos.

Funcionam melhor em grande formato, mas aqui vão alguns exemplos.

 

 

 

 

Começa dia 11, no Centro Cultural Britânico, uma exposição que traz o trabalho de Roberts ao lado das fotos do brasileiro Iatã Cannabrava. A mostra “Perception” fica  até 25 de fevereiro no Espaço David Ford do Centro Brasileiro Britânico, na Rua Ferreira de Araújo, 741, Pinheiros, telefone 3095-4466. De segunda a sexta-feira, das 10 às 19 horas. Sábados, domingos e feriados, das 10 às 16 horas. Entrada franca. Estacionamento R$ 10,00 (1a hora) e R$ 5,00 (2a hora).

Escrito por Marcelo Coelho às 22h39

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poemas de Tranströmer

Traduzo, conforme prometido e adiado, alguns poemas de Tomas Tranströmer, prêmio Nobel deste ano, a partir da versão em inglês

 

 

de CARTÕES-POSTAIS NEGROS

 

                   II

 

No meio do caminho da sua vida, a morte aparece

e toma as medidas do seu corpo. Esquecemos

a visita. A vida continua. Mas alguém está costurando

                   o terno em silêncio.

 

 

de A CONGREGAÇÃO DISPERSA

 

                   2

 

Dentro da igreja: abóbadas e colunas

brancas como gesso, como a bandagem de gesso

em volta do braço quebrado da fé.

 

 

 

ABRIL E SILÊNCIO

 

 

A primavera se estende desolada.

O fosso escuro como veludo

se arrasta do meu lado

sem reflexos.

 

A única coisa que brilha

são flores amarelas.

 

Sou levado dentro da minha sombra

como um violino

no seu estojo negro.

 

A única coisa que eu quero dizer

brilha fora de alcance

como a prataria

numa casa de penhores.

 

 

KYRIE

 

 

Por vezes minha vida abre de repente os olhos no escuro.

Pressinto multidões que se empurram cegamente

excitadas, pelas ruas, na direção de algum milagre

enquanto permaneço aqui sem ninguém me ver.

 

 

É como uma criança que adormece amedrontada

ouvindo as pesadas batidas do seu coração

por muito, muito tempo até que a manhã enfie a luz na fechadura

e se abram as portas da escuridão.

 

 

HOMEM QUE DESPERTA COM UMA CANÇÃO NO TELHADO

 

Manhã. Chuva de maio. A cidade ainda está silenciosa

como a cabana de um pastor. Ruas silenciosas. E no

céu o motor de um avião ronca verde-azulado.

         A janela está aberta.

 

O sonho do homem que dorme estendido

torna-se de súbito transparente. Ele vira, começa

a apalpar em busca da ferramenta de sua consciência

         quase no espaço.

 

 

ATRAVESSANDO A RUA

 

 

Um vento frio bate em meus olhos, e dois ou três sóis

dançam no caleidoscópio das lágrimas, enquanto eu atravesso

a rua que conheço tão bem,

onde o verão da Groenlândia cintila nas poças de neve.

 

A vida populosa das ruas gira ao meu redor;

não evoca nada nem deseja nada.

muito abaixo do tráfego, bem fundo na terra,

a floresta que não nasceu aguarda, ainda, por mil anos.

 

É como se a rua pudesse me ver.

Sua vista é tão fraca que até o sol

é uma bola cinza de lã no espaço negro.

Mas por um instante ela me ilumina. Ela me vê.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h08

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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