Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Daniel Piza

         Levo um susto ao saber da morte de Daniel Piza, antigo colega da Folha e um dos principais nomes entre os jornalistas do “Estadão”. Escrevia sobre literatura, música e política, como eu costumo fazer, sua filha é colega do meu filho na mesma escola, acho que concordávamos numa grande quantidade de coisas.          Nossos papéis, ele no Estado e eu na Folha, eram bastante parecidos: ele morre de AVC aos 41 anos, e ao saber desse acontecimento tão súbito, tenho mais do que nunca a sensação de que poderia ter sido eu.

         Como não existem muitos “críticos culturais” falando sobre vários assuntos na imprensa, acho que existia, implicitamente, uma rivalidade entre nós. Mas nunca tive sua enorme capacidade de trabalho, sua dedicação de corpo e alma ao jornalismo, essa ambição de estar acompanhando tudo, opinando (corretamente) sobre tudo.

         Participamos de alguns debates, em geral sobre “jornalismo cultural” mesmo, e terminávamos sempre em completa concordância.

         Certamente, a maior influência sobre Daniel Piza foi a de Paulo Francis, com quem ele conviveu nos Estados Unidos. Acontece que Daniel Piza, por mais que estivesse numa profissão que exige certa pegada de polemista, tinha um equilíbrio político que Francis nunca teve, e embora fosse muito exigente nos seus gostos estéticos, mantinha uma compostura e uma tolerância muito maiores. Suas colunas dominicais no “Estado” tinham a virtude, assim, de ser sempre uma referência sobre o que de melhor anda acontecendo na cultura daqui e de fora, sem cair no provocacionismo que, cada vez mais, parece ser o pior e mais marcante legado de Francis sobre o jornalismo brasileiro.

         Morreu também este ano Christopher Hitchens, esse sim um provocador, um polemista inimitável. Lendo “Hitch-22”, suas memórias, dá para perceber o quanto de sofisticação, de humor, de inteligência existe nesse gênero de jornalismo político –e de que modo, a começar de Paulo Francis, essa tradição aqui no Brasil degringola em pura baixaria e vociferação grotesca.  

Escrito por Marcelo Coelho às 18h32

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retórica argentina

Falei no artigo de ontem para a Ilustrada de um livro de Rodolfo Walsh, "Essa Mulher". Relacionei seu estilo com o modo indireto de falar, presente em outros textos argentinos. Aqui vai um trecho do artigo, com links e correções embaixo.

 

 Num espírito diferente, um grupo de humoristas portenhos, Les Luthiers, tem um disco (são ótimos instrumentistas também) com paródias de vários gêneros musicais.

Compuseram um tango no qual, em vez de lamentar a infidelidade da mulher, o cantor extravasa as mágoas que tem da própria mãe.

"Por que fuistes, mamá?" põe em cena um típico malandro, que, como sempre, se considera impecável em seu comportamento.

A mãe dele não tinha motivos para abandonar o lar. Afinal, sua vida era boa. "Pouca roupa me lavavas", diz o malandro. De modo indireto, muita coisa é dita nesse verso.

Primeiro, que a mãe cuidava, naturalmente, das tarefas de casa. Depois, que ela não podia reclamar tanto assim do trabalho; não tinha de lavar muita roupa.

Talvez porque, sendo pobre, nosso herói não tivesse mesmo muitas roupas. Ou porque seus hábitos de higiene não fossem muito rigorosos. Quem sabe exista uma acusação implícita: a mãe era mais desleixada do que seria de desejar.

Note-se, por fim, que o rapaz abandonado não diz que dava presentes à mãe, que era carinhoso com ela. Sua falta de consideração é tão grande que ele só se lembra de não ter dado trabalho demais à pobre senhora. Na queixa do abandonado, percebe-se assim um bocado de ingratidão. Quanto mais o pilantra diz ter sido injusta a atitude da mãe, mais percebemos que era insuportável conviver com ele.

Algumas figuras da retórica clássica resumem esse jeito indireto de falar. Podemos pensar na elipse (uma palavra que se omite) ou na lítotes, quando se afirma uma coisa negando o seu contrário. Em vez de dizer, por exemplo, que fulano é um ladrão, limito-me a observar que fulano não é a pessoa mais honesta do mundo. 

Correção: O título do tango é "Por que te fuistes, mamá?"  

O video dos Luthiers, tirado de um concerto ao vivo, pode ser visto no youtube. Recomendo que se comece aí pelos 4 minutos e 30 da gravação, porque no começo há palhaçadas cênicas que podem funcionar na hora, mas se tornam cansativas na gravação.

 

O livro de Rodolfo Walsh pode ser comprado aqui.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h04

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Títulos infames

 
 

Títulos infames

O ano ainda não acabou, e portanto ainda há tempo para vencer o concurso de pior/melhor título de livro de 2011.

Eis um forte concorrente, na categoria de melhor título péssimo:

Dedos não brocham, de Alessandra Safra.

“coleção de textos que são armadilhas lascivas cheias de questões universais”, segundo o release.

Sugestões para o concurso são bem vindas.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h21

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A palmada e suas razões

 
 

A palmada e suas razões

Uma pessoa é contra, a outra imediatamente se mostra a favor. É a Lei da Palmada, como atesta o Painel do Leitor de hoje. Todos tem opinião sobre o assunto, e a divisão parece equilibrada entre os dois lados.

O que não vi, até agora, é alguma pesquisa científica sobre o assunto.

Não falo, é claro, dos que foram espancados sistematicamente na infância, casos que de todo modo já poderiam ser coibidos sem a nova lei.

Penso na tal “palmada pedagógica”, a “palmadinha” que, segundo muitos, não faz mal, e segundo outros tantos, deve ser abolida.

Uma pergunta a fazer ao entrevistado: o senhor acha que teve algum trauma por ter levado palmadas na infância?

Qual o histórico pessoal dos que são contra e dos que são a favor?

Outra pesquisa: você acha que dar uma “palmadinha” teve algum efeito sobre o comportamento dos seus filhos?

Discutem-se, principalmente, os valores, a moral, a ética desse gênero de castigo. Gostaria de saber qual a sua eficácia, afinal defendida pelos que consideram que ela “não tem nada de mais”. Se funciona, não traumatiza, é rara, etc., não vejo por que transformar isso numa questão de Estado.

Meu filho mais velho, quando tinha seus 3 anos, estava dando tapas na mãe com relativa frequência, e não estava imitando o comportamento dos pais nesse aspecto.

Certa vez, dei-lhe um tapa na mão para que parasse com essa história.

Ele chorou.

Mas o castigo não adiantou nada.  

Escrito por Marcelo Coelho às 12h59

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Bárbaros na Paulista: é a PM

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Na noite de ontem, o que mais me aterrorizou enquanto era espancado por um PM não identificado na Avenida Paulista não foi a violência dos golpes cada vez mais fortes em minha mão e barriga. “Cuzão!”, “Seu merda!”, “Filho da puta!”, “Quer ser espancado de verdade?” eram as palavras que acompanhavam as pancadas que eu ia recebendo sem ter como me defender. Mas também não foram as ameaças ou as ofensas que mais me aterrorizaram ontem. O que mais me assombrou foi perceber, enquanto era espancado, o sorriso e o olhar do policial que mostravam um prazer maior a cada bofetada. A cada pancada meu medo aumentava. E foi com espanto que vi o prazer e ódio que cresciam nos rostos dos policiais à medida que investiam contra qualquer pessoa que, naquele momento, estivesse com uma camiseta do Corinthians comemorando na calçada, pacificamente, a vitória do campeonato. Indignado, sem saber por que apanhava, perguntei o nome de meu agressor. Mais ofensas e ameaças seguiram-se enquanto ele erguia novamente sua arma contra mim. Afastando-me, perguntei por que me batia. Ele, então, respondeu: “As pessoas da Paulista precisam dormir”. 
            Essa talvez fosse a fala de um “camisa negra”, grupo fascista que, na Itália, perseguia os operários que faziam greve. Ou talvez a fala de um policial da ditadura que investisse contra estudantes que lutavam pela democracia. Mas estranhei muito que o motivo da violência com que acabaram com a “festa da vitória” que um grupo de pessoas fazia por volta das 23hs na calçada da Paulista fosse o sono dos edifícios de bancos e empresas. Ainda sendo coagido pelos policiais, fui conversar com o sargento que liderava o grupo. Comuniquei a ele que havia sido espancado por um de seus policiais e que queria saber a razão disso e o nome de meu agressor. Ele pediu que eu apontasse o oficial. Identifiquei-o. O 3 Sgt LUIZ disse que não conhecia o policial que continuava a espancar e a coagir as pessoas.
Memorizei a identificação do sargento Luiz e fui a uma delegacia próxima à minha casa. Quando contei ao delegado minha intenção de fazer um boletim de ocorrência, B.O., por ter sido espancado por um PM, ele alterou seu tom de voz. Falando alto e gesticulando fortemente, afirmou que um policial “não batia por nada” e perguntava repetidamente o que eu tinha feito. “Nada, não fiz nada! Estava voltando para casa. Saí do metro Trianon-Masp, após assistir ao jogo com meus amigos, parei durante 5 minutos para ver a festa que o grupo fazia na calçada. Estava um pouco longe do grupo. Um cordão de policiais formou-se atrás de mim sem que eu percebesse. Quando virei meu corpo, já recebi os primeiros golpes. Não fiz nada”. Vítima, machucado e apavorado, tive que perguntar ao delegado se esse era o modo de tratar as vítimas em sua delegacia. Afirmei que iria a outra D.P. fazer minha ocorrência, já que naquela não me sentia seguro. Somente, então, o delegado começou a tratar-me como vítima. Registrei a queixa, fiz exame de corpo de delito e aguardo que consigam identificar o sargento e meu agressor. Por sugestão do delegado, irei à corregedoria da polícia militar para fazer uma queixa.  
            Antropólogo, pesquisador da USP, venho acompanhando a violência, o prazer e a liberdade com que policiais, soldados e autoridades “competentes” restabelecem a “ordem” na Universidade, na avenida Paulista ou na Amazônia, onde realizo meu trabalho com um povo indígena. Espancar, ofender, perseguir, rir, ameaçar parecem ser modos cada vez mais rotineiros das autoridades que aplicam a coerção física do Estado em estudantes, torcedores, índios, professores, trabalhadores etc. O prazer que vi no rosto de meu agressor me aterrorizou. A dificuldade de identificar meu agressor — causada pela falta de distintivo, pela atitude do sargento que disse não conhecer seus soldados, pelo comportamento do delegado que insistiu que eu devia ter provocado ou pela dificuldade de saber de qual batalhão eram os PMs que atuavam na Paulista àquela hora — me assombra. O riso e o prazer de meu agressor iniciam-se no motivo banal da “Paulista que precisa dormir” e terminam na saciação do sadismo com que golpeava meu corpo que, naquele momento, por acaso — apenas por acaso —, era o corpo de um torcedor corintiano.

 

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Escrito por Marcelo Coelho às 11h01

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fotos na Panamericana

A Escola Panamericana de Arte está com uma exposição, até dia 10 de dezembro, de trabalhos feitos por 60 de seus alunos. Entre os fotógrafos, vale destacar César Kobayashi:

e Daniela Petrucci:

 

 

Nada mais contrastante do que a dura, expressiva imagem em preto e branco de Kobayashi e o delirante colorido consumista de Petrucci. Nas duas fotos, contudo, pode-se intuir a presença da dor humana. 

A exposição de fotos está na unidade de Higienópolis (avenida Angélica,1900) da Panamericana, enquanto na unidade do Jardim Paulista (rua Groenlândia, 77) estão as obras de artes plásticas.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h05

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Guiomar Novaes do Brasil

 
 

Guiomar Novaes do Brasil

Luciana Medeiros e João Luiz Sampaio lançaram, domingo passado, um belo livro sobre a maior pianista brasileira. “Guiomar Novaes do Brasil” é o resultado de extensa pesquisa em arquivos americanos, mostrando o entusiasmo com que a crítica recebia seus concertos. A quantidade de fotos, programas de concerto,  reproduções de anúncios e artigos de jornal faz do livro uma preciosidade.

 

A carreira de Guiomar Novaes começou em grande estilo, em 1909, quando a jovem de 15 anos encantou Debussy, Fauré e Moszkowski ao prestar seu exame de ingresso no Conservatório de Paris.

 

Muitas fotos funcionam como um documento da “Belle Époque”. Vemos Guiomar Novaes bem meninota e gorducha, ao lado de uma mãe vestida de preto, com um incrível chapéu ornamentado com uma espécie de pena, flecha ou foguete transversal. Outra foto mostra as alunas de Luigi Chiafarelli, a quem Guiomar Novaes deve a essência sua formação, todas de branco; é quase assustadora em sua antiguidade.

 

Guiomar Novaes não era bonita –o queixo parece excessivamente volumoso e redondo--, mas seus olhos são muito cativantes, negros, doces. Algumas fotos dela mocinha são encantadoras –especialmente as de perfil. Não sabia que seu nariz era tão arrebitado; os autores contam que foi ela o modelo para Monteiro Lobato criar sua Narizinho.

 

A imagem de Guiomar Novaes confirma a ideia que se tem de seu modo de tocar, sempre cantante, redondo, nunca percussivo.

 

Mas a grande atração desse livro está nos dois CDs que o acompanham. Recuperam-se gravações de concertos seus pelo rádio, com a Filarmônica de Nova York.

 

Ela toca Chopin, com Leonard Bernstein regendo, e os concertos de Schumann e Beethoven, com George Szell. Há vários extras para piano solo.

 

O som nem sempre é bom, por vezes o piano submerge na música da orquestra, mas, entre as inúmeras qualidades desses CDs, é possível ver de que modo é falsa a imagem de “suavidade” associada à pianista. Ela pode ser violenta, viril, selvagem e moderna (carregando nas dissonâncias em alguns momentos de “Papillons” de Schumann, por exemplo). E, nas Bachianas Brasileiras no. 4 de Villa-Lobos, é maravilhoso como ela evita o tom solene com que a peça tantas vezes é tocada; tudo é naturalíssimo, sem pompa (o que não exclui um sentido adequado de ênfase quando isso é necessário).

 

O livro foi produzido com auxílio do BNDES, o texto tem versão em inglês, e é sem dúvida um lançamento de interesse mundial na área de música clássica.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h13

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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