Animado com “Bastardos Inglórios”, peguei para ver em DVD outro filme de Tarantino, a segunda parte de “Kill Bill”. Ainda bem que não o tinha visto até agora –pois se tivesse, não teria me animado a ver os “Bastardos”. Achei a história muitíssimo menos interessante, sem a imaginação para tramas complicadas de outros filmes do autor, e as cenas de violência são absolutamente detestáveis.
Claro, há duas coisas que gostei em “Bastardos” também presentes em “Kill Bill 2”: a capacidade do diretor para filmar diálogos longos e enredados às vésperas de uma cena explosiva, como se o estopim tivesse de queimar até o último milímetro, e, ligado a isso, um senso de humor que beira a irrealidade. Mas o humor é irônico em “Bastardos” e em “Kill Bill 2” descamba mais para a paródia. Basta ver a figura daquele mestre chinês que treina Uma Thurman, com sobrancelhas brancas do tamanho da cauda de um gambá, para sentir que a farsa pesa demais.
Fala-se muito em “espetacularização da violência”. O termo talvez seja vago demais. Poderia aplicar-se a uma luta de box normal ou às inocentes coreografias dos “Power Rangers”. O problema não está aí. Está no que Tarantino fez em “Kill Bill 2”.
Não é espetacularização, é erotização da violência. Uma Thurman não é torturada porque encontra inimigos horrorosos, mas porque é uma mulher altamente desejável. Não estamos diante de um espetáculo marcial, mas de cenas destinadas a provocar alguma espécie de gozo ou anti-gozo (dá no mesmo) no espectador. “Bastardos Inglórios” pega bem mais leve, mesmo quando há brutalidades. Em “Kill Bill 2”, percebe-se que há um jogo menos honesto, da parte do diretor, com as perversões do espectador e as dele mesmo.
No artigo de hoje para a Ilustrada (aqui o link para assinantes), comparei a pintura de Matisse a uma espécie de vida em eterno feriado. A lembrança, que não tive tempo de incluir, é de uma frase famosa de Hegel, para quem a pintura holandesa era “o domingo da humanidade”. Mas conheço a frase só de segunda mão; em todo caso, mais uma vez Vermeer e Matisse estão lado a lado, como aliás no ensaio de David Sylvester, que também citei no artigo.
O trecho final de um bonito ensaio de David Sylvester sobre Matisse talvez responda às dúvidas do post anterior.
Em 1º de junho de 1916, em meio à batalha de Verdun, Matisse escreveu a seu amigo Hans Purrmann, na Alemanha, contando-lhe sobre os trabalhos que estava fazendo, e prosseguia:
“Estas são as coisas importantes da minha vida. Não posso dizer que isso não seja um combate –mas não é o verdadeiro combate, sei muito bem, e é com especial respeito que penso nos recrutas que dizem, depreciativamente, ‘somos forçados a isso’. Essa guerra terá suas recompensas –que importância não dará às vidas, mesmo daqueles que não participaram dela, se puderem compartilhar dos sentimentos do humilde soldado que dá a sua sem saber muito por quê, mas tem uma vaga noção de que sua doação é necessária. Não desperdice comiseração com o discurso ocioso de um homem que não está no front. Pintores, e eu particularmente, não são hábeis em traduzir seus sentimentos com palavras –e, de resto, um homem que não está no front se sente razoavelmente bem por quase nada...”
Talvez tenha sido esse sentimento de culpa que levou Matisse a explorar e representar o combate no qual estava engajado [David Sylvester comentava os quadros em que Matisse se representava diante de uma modelo, pintando os próprios quadros]
...Georges Duthuit escreveu que certa vez viu Matisse deparar-se com tamanha resistência diante da tela que entrou numa espécie de transe, soluçando, ofegando, tremendo. Mas Matisse sempre tentou disfarçar a dor. Em suas palavras: “sempre tentei esconder meus próprios esforços e desejei que minhas obras tivessem a leveza e a alegria de uma primavera que jamais nos deixa fazer ideia do trabalho que aquilo lhe custa”. Ao mesmo tempo, ele de fato costumava se desgostar de que as pessoas não percebessem quão sofrido fora obter aquele efeito de ausência de esforço. Há a história, por exemplo, do retrato de sua esposa pintado em 1913. Quando o crítico norte-americano Walter Pach, seu amigo, viu a obra pela primeira vez, disse admirado que era como se o pintor tivesse precisado levá-la a cabo de um modo preferencialmente fácil. Matisse ficou muito irritado e protestou que o retrato, muito ao contrário, tinha exigido mais de cem sessões de pintura.
[...] Matisse era um dândi entre os pintores, do tipo que se esforça ao máximo para obter uma aparência casual. Ele queria que o público se interessasse não pela face sofrida do artista, mas pela face radiante da obra. Desde que a arte fosse boa, e seria boa por causa de sua beleza, não por causa de algum heroísmo implicado na sua criação. Alguém poderia precisar de heroísmo para criar beleza, mas a qualidade estaria na beleza, não no heroísmo. Mesmo naquela confissão de tempos de guerra sobre o quão exigente é a arte não há qualquer heroísmo na representação do artista, mas uma certa ironia e uma resoluta auto-supressão.
A palavra-chave desse texto de David Sylvester (no livro Sobre Arte Moderna) é, sem dúvida, “beleza”. Talvez o motivo de Matisse ter sido um bocado esnobado antigamente esteja na sua procura, pouco “moderna”, de beleza: daí ter tido a fama de ser muito “decorativo”, se comparado a modernistas mais “durões”. Há um fundo de machismo nessa avaliação, que de resto já passou de moda.
Mas faço o comentário sem ter ainda ido ver a exposição de Matisse na Pinacoteca. Gosto do que conheço de suas pinturas, mas o melhor é tentar perceber o seu impacto real.
Xi, mas existe tanta coisa para ler sobre Matisse! Antonio Gonçalves Filho, no “Estado” deste domingo, comenta uma impressionante coletânea de ensaios a respeito do pintor. Se vier a escrever sobre ele, vai ser na base do puro, hum, impressionismo, porque não vou ter tempo de ler tanta coisa assim.
Na abertura da exposição Matisse, Pinacoteca do Estado. Que moldura desgraçada, hein?
O filme do ano, pelo menos para quem é jornalista, já apareceu em DVD. Trata-se de “Frost-Nixon”,quase um documentário contando como se deu a entrevista dramática entre um apresentador televisivo britânico e o ex-presidente dos Estados Unidos.
A entrevista ficou famosa porque representou, finalmente, a admissão verbal de Nixon das malfeitorias que fez quando estava na Casa Branca.
Como todo filme de Hollywood, é uma história de sucesso.
Mas, como muitos filmes de Hollywood, mostra o quanto esse sucesso custa caro.
Frost é um apresentador de TV, ainda jovem, mas em processo de decadência, que resolve entrevistar Nixon depois de ele ter renunciado à presidência, no furacão de Watergate.
Nas três primeiras sessões de entrevista, Frost leva um baile. Minimizou, sem dúvida, a inteligência de Nixon.
(Abro o parênteses fundamental deste post. Que jornalista brasileiro estaria seguro de não levar um baile de, digamos, Sarney, Collor, Fernando Henrique ou Lula?
O filme nos mostra a saída: trabalho, trabalho e mais trabalho. De repente, Frost resolve se dedicar à entrevista com Nixon como se fosse um caso de vida ou morte.
Só nesse extremo ele vira um verdadeiro jornalista.
Estaremos nós, jornalistas brasileiros, à altura de contestar ponto por ponto os argumentos de um Sarney, de um Renan, de um Lula?)
O filme, entretanto, é mais do que uma história de sucesso. É uma história de fracasso também, e o Nixon de Frank Langella surge como um dos mais marcantes personagens do cinema contemporâneo. Vale muito a pena assistir: tanto quanto uma luta de vida e morte entre jornalista e político, é também uma luta extrema entre dois excelentes atores, Langella (Nixon)e Michael Sheen (no papel de Frost)
Há coisas lindas em “Um Homem de Moral”, documentário sobre o biólogo e sambista Paulo Vanzolini, atualmente em cartaz no Espaço Unibanco. Como filme, é bastante preguiçoso: faz pouco mais do que entrevistar o compositor e gravar o “making of” de um show em homenagem a Vanzolini, que reúne, em simpática democracia, cantores da noite paulistana e grandes nomes da MPB, como Chico Buarque e Martinho da Vila.
O grande acontecimento estético desse documentário, que mostra aliás uma cidade suja, desarranjada, nada fotogênica (e isto é um elogio), está entretanto no final. É quando se registram, nas vozes desafinadas de quase uma dezena de pessoas comuns, os versos famosos de Vanzolini: “levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”.
Vendo a quantidade de pessoas humildes que repetem esses versos, na rapidez da edição cinematográfica, tem-se o efeito de um coro grego, só que sem a choramingação do original: a ideia de dar a volta por cima prevalece. Mas é o próprio Vanzolini quem avisa: mais importante do que “sacudir a poeira e dar a volta por cima”, vale lembrar o verso anterior: “reconhece a queda”.
Também saiu “Um Homem Bom” em DVD. O tema do filme me fascina especialmente: de que modo um sujeito apenas tímido, não querendo desagradar ninguém, adere ao nazismo logo no início do regime, por bastante interesse próprio, mas também pela pressão do meio e por um bocado de vaidade.
Talvez isso fosse compreensível em 1933, se o indivíduo não é dos mais lúcidos politicamente –nem sequer muito informado da coisa toda.
Um dos problemas de “Um Homem Bom” é fazer um corte para 1938, quando o caráter do nazismo já estava bem mais evidente, e mostrar nosso personagem na mesma ingenuidade algo sonsa de antes. Simplesmente não dá para acreditar: ou o regime já o tinha corrompido um bocado, ou o filme é tão avoado quanto seu protagonista.
E tímido, também, como seu protagonista: sente-se isso pela caracterização de alguns atos históricos de grande violência, como a Noite dos Cristais. Entendo que uma opção estética do diretor seria a de não mostrar cenas apavorantes; em “O Pianista”, por exemplo, não é preciso nem chegar à Noite dos Cristais para mostrar três ou quatro eventos capazes de enregelar qualquer um, sem usar de excessos “pornográficos” em matéria de barbárie.
Mas em “Um Homem Bom” a Noite dos Cristais aparece, com grande uso de figurantes e cenários; o diretor quis de fato mostrá-la. E o faz timidamente, sem intensidade nem concisão. O mesmo se pode dizer, talvez, do final do filme –é como se “Um Homem Bom” não chegasse às últimas consequências do seu pressuposto. Entretanto, é justamente esse o tema central que se queria abordar.
Se gostei de “Benjamin Button”, não foi muito. O filme envolve, mas parece uma mistura de “Forrest Gump” (uma geral sobre o século americano) com “Titanic” (uma história de amor rememorada no leito de morte), a partir de um pressuposto bizarro, a do bebê que nasce velhíssimo e vai remoçando quanto mais avança em idade.
Filmar uma história dessas coloca qualquer diretor ou roteirista diante de um problema estético insolúvel, a meu ver. Ou se mostra direitinho, por exemplo, o rosto encarquilhado do bebê –e o efeito é cômico—ou não se mostra, dando a impressão de que se recuou diante da exigência de levar ao pé da letra o pressuposto da história, como se o próprio filme não acreditasse nela. O resultado é que ficamos diante de uma espécie de arquitetura cômica num filme que quer ser sério (o que consegue parcialmente) e quer ser uma história de amor romântica (o que é de fato).
Apesar de haver uma série de peripécias interessantes no filme, tudo acaba tendo menos importância do que os feitos do grande personagem oculto de “Benjamin Button”: o maquiador.
Seria interessante se a história explorasse, por exemplo, o descompasso entre a mentalidade adolescente e o físico idoso do protagonista, e, mais ainda, o espírito velho dentro de um corpo jovem. Mas isso só de vez em quando aparece. No auge da juventude física, Benjamin Button comporta-se mentalmente como um jovem de fato: curte Beatles, motos e maconha. É que, afinal, o físico é tudo nesse filme. E o amor, é claro. De preferência físico também.
Já meio de férias, aproveito para ver alguns DVDs lançados recentemente. Andava perdendo muita coisa que saiu no cinema.
Começo por “Milk”, cinebiografia do primeiro político americano abertamente gay, que deu o Oscar de melhor ator a Sean Penn. É uma atuação muito convincente mesmo: poucos minutos de filme, e nos esquecemos completamente de que ali está um ator. Não só Sean Penn,mas todos os outros parecem pessoas reais; sem desmerecer o talento do ganhador do Oscar, que é evidente, isso também deve ser efeito da direção e da própria estrutura narrativa do filme, que não “ficcionaliza” nada.
“Milk” é bem um filme da era Obama. A ideia de que a esperança (hope) move de fato as coisas, apesar das inúmeras derrotas e assassinatos, é a grande e comovente mensagem do final da história.
Não apenas esperança, mas também coragem. Acontece que coragem não é apenas o fator que torna um líder excepcional, e capaz de mobilizar de fato multidões em torno de uma causa. Vemos também o quanto de violência pode nascer do puro medo, do ressentimento, da sensação de se sentir ameaçado por alguma razão imaginária.
Seja como for, o que mais me chama a atenção em “Milk” é a qualidade da política americana. Não há dúvida de que há defeitos e problemas enormes por lá também. Acontece que há um mínimo de clareza nas coisas. Quem é contra os direitos dos gays, fala isso abertamente. Quem os defende respira fundo e vai em frente. Existe, bem ou mal, um “issue”, uma questão de interesse público, em torno da qual a disputa política se dá.
O que desanima no Brasil é a escassez de “issues” desse tipo. Certamente, a questão das cotas raciais, dos direitos dos quilombolas, o conflito entre ruralistas e ambientalistas existe. Mas quando se pensa no que falam Dilma e Serra, Ciro e Lula, Mercadante e Alckmin, é inevitável perguntar que “issues”, que pontos de vista eles estão de fato defendendo. O vazio é impressionante. De resto, onde está o Harvey Milk da maconha? Gabeira desistiu do papel, ao que tudo indica.
Muito antes de Obama aparecer com o lema “Yes, We Can”, o cantor, ator e showman Sammy Davis Jr. escreveu uma autobiografia intitulada “Yes, I Can”: não a li, mas o sentido da frase era mostrar de que modo um jovem negro, aliás bastante feio, mas dotado de imenso talento conseguiu chegar ao estrelato.
A carreira de Wilson Simonal, contada de modo fascinante no documentário “Ninguém Sabe o Duro que eu Dei”, poderia ser uma versão brasileira desse espírito “yes, I can”.
Não me lembro qual dos entrevistados do filme, aliás excelente na escolha dos depoimentos, assinala o fato de que, nos anos 60, o papel do músico negro no Brasil era o de ser sambista: Simonal surgia como exceção, cantando outros gêneros de música, e, sobretudo, comandando ele próprio um show de televisão.
No meu artigo para a “Ilustrada” de hoje (assinantes do Uol leem aqui), tentei transmitir uma impressão que mistura minhas memórias daquela época com a experiência de ver agora os arquivos de Simonal.
Ele se comportava, de modo quase provocativo, como um negro americano. Lembro-me de um episódio da família Trapo, programa humorístico famoso da época, em que por algum motivo aparecia um “black” naquele caótico lar capitaneado por Otelo Zeloni. Era um negro altíssimo, mascando chiclete, riquíssimo: aos meus olhos de criança, e provavelmente aos de todo brasileiro na época, aquilo parecia um espantoso paradoxo. O americano –dominante—pode ser negro –dominado. Somos inferiores ou superiores a ele? Talvez a resposta fosse encará-lo à luz do ridículo, ou do exotismo.
Esse ridículo, esse exotismo, eram de resto o modo com que americanos, brancos ou não, tendiam (tendem?) a encarar os brasileiros. Vide Carmen Miranda.
Nossa vingança foi nos transformarmos nós mesmos em Carmen Miranda, durante o tropicalismo: Chacrinha era a caricatura de si mesmo, o patetismo de Teixeirinha era cantado a sério, mas com toneladas de ironia, por Caetano Veloso, e Glauber Rocha, com “Terra em Transe”, assumiu o delírio equatorial como um espelho, e o grotesco como depuração da realidade política concreta.
Acho que a mesma mistura de ironia e jogo para valer, entre levar-se a sério na medida mesma em que se assume um papel de caricatura, estava por trás da “pilantragem” de Simonal. Mas ele aplicou esse procedimento não à imagem do brasileiro abananado, mas do showman americano de sucesso.
Os americanos gostam de usar a palavra ídiche “chutzpah”, para se referir a um extremo de autoconfiança, a uma quase temeridade na certeza de que, impondo-se, a pessoa de talento alcançará sucesso. Não há maior exemplo de “chutzpah” no Brasil –onde essa característica tende a ser meio rara, eu acho— do que o show de Simonal com Sarah Vaughan. Ele não sabia falar inglês, mas fala. E não se intimida nem um pouco ao contracenar com a grande diva do jazz. Veja no youtube.
Não seria esse tipo de “chutzpah”, aliado a muita pilantragem, o que levou Simonal ao catastrófico ato de entregar seu contador, de quem suspeitava, nas mãos de torturadores do Dops?
O assunto é muito bem comentado por alguns dos entrevistados. Nelson Motta, o “Boni” da Globo, Miele, consideram que ele não tinha nenhum vínculo real com o sistema de informações da ditadura. Só quando foi chamado à polícia, depois de o contador fazer queixa contra ele por sequestro e sevícia, é que ele resolveu se apresentar como figura relacionada ao sistema repressivo.
Boni diz uma coisa que parece convincente: se ele fosse mesmo um dedo-duro do regime, os poderosos da época não o teriam abandonado à própria sorte. Simonal terminou preso, com efeito. E mesmo o contador não teria tido condições de levar o processo adiante, de prestar queixa na polícia por ter sido torturado no Dops, se Wilson Simonal tivesse de fato costas quentes com o regime. Chico Anysio, muito fluente na argumentação, pergunta: “afinal, até hoje nunca apareceu ninguém dizendo ter sido dedurado por Simonal”.
Claro que, vendo o cantor no auge da felicidade e do sucesso, torcemos para que ele não tenha sido pior, como pessoa, do que o documentário já mostra.
Quanto ao papel da esquerda, Artur da Távola e Ziraldo fazem raciocínios interessantes. Artur da Távola aproveita para criticar a imprensa, sua capacidade de assassinato moral. Ziraldo explica melhor, a meu ver, a atitude do “Pasquim” atacando Simonal. Não era permitido atacar o presidente Médici, o delegado Fleury... Simonal concentrava, como um pára-raios, tudo o que estava entalado em matéria de crítica ao SNI, à delação sistematizada, ao terror de Estado. Ninguém se incomodou muito, na época, em pensar no que o cantor pudesse estar sofrendo com isso.
Será que estava? O tempo todo, desde o começo? Ou só quando “caiu a ficha” de que sua carreira estava acabada? Infelizmente, o documentário não foi feito a tempo de ouvir o próprio Simonal. Ele aparece, já no fim da vida, num programa da Hebe, mostrando um documento da secretaria de Direitos Humanos atestando que “não há registro” de Simonal pertencer aos quadros dos informantes do SNI. Mas não sabemos o que ele tinha a dizer a propósito do seu contador, dos amigos do Dops, e mesmo de sua aposta em se dizer a favor da ditadura, quando o episódio começou a aparecer nos jornais.
Como espectador, fico pensando apenas: “a história não poderia ter acabado de forma diferente?” Tanta gente terminou reconciliada com a opinião pública, apesar de comprometimentos com o regime... Cito o caso mais fulgurante, o de Teotônio Vilela. Não é a mesma coisa, claro. Pois é, isso é que me deixa triste: não é a mesma coisa.
No artigo de hoje para a Ilustrada, comento uma exposição de fotos de Alécio Andrade, em cartaz no Instituto Moreira Salles. Reproduzo o começo do texto.
A maior parte das pessoas vai a um museu de arte para ver, claro, os quadros e as esculturas.
Digo “a maior parte” porque há também os que não têm grande interesse no assunto, e simplesmente acompanham, puxados pelo braço, quem os levou até lá.Digo “ver” os quadros e esculturas, mas isso também é exagero. A gente passa por eles, toma conhecimento de que existem, mas nem sempre é fácil “ver” aquilo que está num museu.
Às vezes o embolo é tamanho, que em pouco tempo nosso único desejo é sair dali, e “ticar” aquele item da nossa congestionada agenda de turista.
O fotógrafo brasileiro Alécio de Andrade (1938-2003) pertencia a uma categoria mais rara de visitantes. Durante 39 anos, frequentou o Museu do Louvre. Não para ver as obras, mas para fotografar quem as via.
É uma fauna e tanto. Uma das poucas vantagens desses lugares de grande aglomeração turística é poder apreciar a variedade de rostos, de tipos, de atitudes e de idades reunidas em torno de um grande quadro –que surge então não apenas pelo que tem de bonito em si, mas pelo que traz de síntese de toda a humanidade.
“O Louvre e Seus Visitantes”, em cartaz até 21 de junho no Instituto Moreira Salles de São Paulo, reúne várias das fotos tiradas por Alécio Andrade nessa espécie de pesquisa antropológica, muitas vezes irônica, e de vez em quando tomada de lirismo.
As duas pequenas imagens das fotos da exposição que tenho para mostrar enfatizam esse lado irônico de Alécio Andrade, mas o que a exposição tem de mais bonito, de mais "contemplativo na contemplação", só indo no IMS para ver, ou comprando o catálogo...
Rubens Matuck é um artista plástico muito comprometido com a causa ecológica; não tenho confirmação, mas me contaram que um belo dia, incomodado com o mato que invadia uma praça da Vila Madalena, resolveu plantar árvores raras lá, por sua própria conta.
Não sei como andam essas árvores hoje em dia, mas aqui vão algumas outras, pintadas por ele, e que podem ser vistas até dia 10 de julho no Espaço Cultural Citi (Av. Paulista, 1111), de segunda a sexta-feira, das 9 às 19 horas; e aos sábados, domingos e feriados, das 10 às 17 horas. Acesso a portadores de deficiência física pela Alameda Santos, 1146. A entrada é gratuita.
Fez enorme sucesso no Rio, e ao que tudo indica haverá de repeti-lo em São Paulo, na sala Eva Herz da Livraria Cultura, o monólogo “A Alma Imoral”, com a atriz Clarice Niskier interpretando trechos do livro homônimo do rabino Nilton Bonder.
Clarice Niskier estabelece de imediato um clima de cumplicidade, apresentando seu monólogo para o público enquanto as luzes ainda não se fecharam sobre o cenário.
O texto de Nilton Bonder é inteligente, na medida em que poderia ser apenas autoajuda e, ao contrário, faz pensar, contestando ideias preconcebidas.
Explora, por exemplo, a tese de que não há “fidelidade” no casamento. O homem que se mantém à mulher, apenas porque deve ser fiel, está traindo a própria alma. O homem que trai a mulher, apenas porque se entrega a um desejo ocasional, é um traidor de sua alma também. O homem que se apaixona por outra, abandonando sua mulher de sempre, talvez seja também um traidor: trai a alma em função dos imperativos, sempre verdadeiros, da biologia. Todos traem, portanto.
E há, segundo Nilton Bonder, um sentido na traição, na transgressão, assim como há sentido na obediência, na tradição. O ser humano que quiser sempre obedecer à Lei está, no fundo, negando sua humanidade.
Adão e Eva no Paraíso, diz o monólogo numa síntese espantosa, “não eram mais do que macacos”. O pecado de comer do fruto da sabedoria foi o ato pelo qual se constituíram em seres humanos.
Muito bonito, tudo isso, e de resto sempre foi aquilo em que eu próprio acreditei.
Ao mesmo tempo, esse elogio da “alma imoral”, encenado com sucesso agora, parece corresponder a um contexto dos mais ambíguos.
Em primeiro lugar, a polêmica de Nilton Bonder tem um objetivo mais circunscrito do que se pode crer à primeira vista. Trata-se das opiniões de um rabino moderno contra o rigor dos judeus ortodoxos, para os quais a obediência à lei se faz rigidamente, mais numa atenção ao que é “correto” do que ao que é “bom”.
Em segundo lugar, fora das polêmicas internas do judaísmo, os ensinamentos de Nilton Bonder podem ter tanto um sentido liberador, do ponto de vista individual, quanto um sentido de frouxidão, pensando-se no tipo de público, bem situado socialmente, que acorre à peça. Minha impressão é que a maioria dos que assistem ao monólogo sai dali mais satisfeito do que angustiado diante do modo com que leva a vida.
Talvez, no que se refere ao desejo sexual, à paixão, muitos reconsiderem sua vida conjugal. Quanto ao que diz respeito à vida em sociedade, aos impulsos de consumo, à busca de bens materiais, toda aquela reflexão religiosa carece, a meu ver, de um pouco mais de ênfase crítica.
Seja como for, é um monólogo que faz pensar, e que não recua diante das dificuldades que alguns paradoxos e piadas (excelentes, de resto, mas não posso contá-las) podem impor a uma plateia desatenta.
Dito isso, o que basta para recomendar a peça, é preciso também dizer que não se trata de uma peça.
Funciona mais como uma palestra, estimulante e densa, proferida por Clarice Niskier em torno de um texto de Nilton Bonder que pode ser lido com proveito. A atriz conquista empatia com o público, mas não “atua”, não “representa”, a rigor, nenhum papel.
Encarrega-se de tirar e retirar um véu negro que cobre e descobre sua nudez, arriscando-se em coreografias e rodopios conforme a inspiração que lhe tragam os parágrafos que enuncia em cena. Teatralmente, o espetáculo está sempre a um passo da cafonice. Salva-se a inteligência dos raciocínios--- que só atingem sua força máxima, entretanto, para quem não conhece direito o pensamento de Freud, capaz de superar as heterodoxias de Nilton Bonder antes mesmo que comecem. Mesmo quem conhece Freud, entretanto, pode agradecer ao impulso libertário e prático da peça; com bonitas interpretações do texto bíblico, Nilton Bonder nos lembra que ser religioso não é necessariamente ser obediente e fariseu.
Realismo é o que não falta a “Entre os Muros da Escola”, filme de Laurent Cantet que comentei no artigo de hoje para a Ilustrada (assinantes do UOL podem ler aqui ).
Assistimos ao filme como se fosse um documentário, tal a ausência de dispositivos ficcionais, de digressões narrativas, de flashbacks, de “subjetivações” na narrativa.
Surpreendi-me ao saber das opiniões de um professor brasileiro, com décadas de prática no ensino médio, a respeito do comportamento do protagonista da história. “Certo, o professor daquela escola francesa é humano, erra muito... mas no geral ele agiu corretamente!” Pois, dizia o professor brasileiro, ele não era paternalista, forçava seus alunos a agirem como sujeitos independentes.
Mas um adolescente de catorze anos, conforme o caso, precisaria de muito mais ajuda do que o professor do filme estava disposto a oferecer.
Quase o tempo todo,ele é de uma prepotência enorme, embora disfarçada. Basta dizer que ele nem sequer se apresenta aos alunos no primeiro dia de aula. Quer que todos os alunos ponham um papelzinho na frente da carteira, com o próprio nome escrito, para poder memorizar melhor. Mas não se lembra de dizer como ele mesmo se chama.
Uma aluna levanta a mão e diz que ele deve fazer isso. O professor cede, e escreve seu nome na lousa. Mas o fato de ceder não desarma os espíritos. Ao contrário, desde o primeiro dia de aula está em jogo uma situação em que todos nada mais fazem além de inscrever pontos a favor e contra num placar imaginário: professores contra alunos, e cada aluno individualmente contra os seus colegas.
Reconheço que o professor se preocupa com o futuro de seus alunos, e até mesmo torce para que eles se saiam bem nas tarefas que devem desempenhar. Mas naquela escola francesa sente-se a falta de um psicólogo, e de um antropólogo também, capaz de orientar professores a lidar com alunos de culturas muito diferentes.
Mais do que isso, sente-se a frieza, a indiferença, dominar a própria relação entre os professores. Um deles, desesperado, entra na sala dos professores quase chorando, depois de uma aula difícil. Durante penosos minutos, ninguém se solidariza com ele, ninguém tem a iniciativa de abraçá-lo.
Imagine-se então a disposição de um professor para acolher um aluno em dificuldades. Dificuldades sobretudo emocionais. Um ato de grandeza, um pedido de desculpas, partindo de um professor que evidentemente exagerou na dose repressiva contra um aluno não de todo “perdido”, teria sem dúvida modificado a vida de todos os personagens, e também o desfecho do filme.
Mas aí se nota a diferença entre um filme americano e um filme francês. O cinema americano tradicional parece sempre estar mostrando, digamos, uma larva que enfrenta dificuldades, quase é atingida pela tempestade, etc, até que no final, magicamente, a larva se transforma em borboleta.
No filme francês vemos a larva, as tempestades, etc., e no fim uma mão invisível retira a larva de cena, sem mais nenhuma explicação.
Os dados do problema estão aí, parece dizer o diretor Laurent Cantet. Qualquer desfecho redentor seria irrealista. A vantagem de “Entre os Muros da Escola” é que tudo é filmado de modo tão convincente, tão tenso, tão interessante pelos erros e acertos que se cometem a cada minuto, que mesmo sem um final triunfante o filme não decepciona ninguém.
Não tenho ido muito a cinema ultimamente. Quando vi “Quem quer ser um milionário?”, Oscar de melhor filme este ano, pensei em escrever um post, mas desisti. É um daqueles casos em que seria preciso contar um bocado da história para fundamentar a crítica. Agora, em todo caso, quando muita gente já viu o filme e talvez até já tenha se esquecido um pouco, dá pelo menos para desabafar.
O filme de Danny Boyle tem traços de extremo realismo, quase insuportáveis de ver, dentro de uma trama absolutamente implausível, e por cima disso vem uma calda de caramelo capaz de envergonhar qualquer novela mexicana. Implausível todo o interrogatório a que é submetido o personagem principal, por exemplo, na véspera de sua aparição decisiva num programa de perguntas e respostas da TV. Se quisessem tirar-lhe o prêmio, haveria maneiras mais fáceis do que tentar extrair dele uma confissão sob tortura numa delegacia de Bombaim.
Mais bizarro é o epílogo triunfal do filme, que imagino obedecer a alguma convenção de Bollywood: mocinho e mocinha, numa estação de trem, dançando uma espécie de “disco music” no estilo John Travolta; como conciliar isso com as realidades miseráveis, dramáticas, seríssimas, apresentadas no início? Será que, como nos programas de auditório, no fundo nada é para valer?
A implausibilidade de tudo tem, quem sabe, até um fundo religioso. Os mais inacreditáveis lances de sorte e de azar do filme no fim terminam explicados, no canto da tela, pela reprodução de uma frase várias vezes repetida pelo personagem: “era esse o meu destino”; algo como “estava escrito”, “maktub”. Ora bolas. Estava escrito, sim, mas por um roteirista de terceira categoria.
São pinturas derivadas de fotografias tiradas no Porto de Vitória, onde navios cargueiros esperam para embarcar matérias-primas de Minas Gerais. A galeria fica na rua Clodomiro Amazonas, 528, Itaim Bibi. Ficou legal o choque do azul depois da ferrugem das duas primeiras imagens.
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