Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Em cartaz

Outdoor, céu azul

 
 

Outdoor, céu azul

 

"Outdoor", exposição de fotos de André Paoliello, fica em cartaz só até dia 28 na Fauna Galeria, al. Gabriel Monteiro da Silva, 470.

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 11h09

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Peça para rir

 
 

Peça para rir

Quem quiser um espetáculo de puro humor no teatro, sem apelação e com talento, pode experimentar “Eu era tudo para ela e ela me deixou”, em cartaz no Teatro Faap.

Naquele esquema de um ator cômico fazendo várias personagens, Marcelo Médici encarna uma prostituta gaúcha, um ou dois psicopatas assassinos, um paulistano do tipo “amigão do escritório”, uma dona de pensão argentina, etc., interligadas numa trama meio surrealista.

Um maridão babaca (Ricardo Rathsam) é expulso de casa pela mulher (o próprio Médici) e inicia uma viagem pela solidão urbana e pelas loucuras de cada um dos personagens com quem topa em sua busca de abrigo onde passar a noite. O que pode haver de melancólico nessa ideia se anula pelo poder demoníaco de Marcelo Médici para imitar sotaques, inserir tiradas de improviso, reproduzir com perfeição certos ridículos do cotidiano.

É sempre um prazer, em que pese toda nossa cultura modernista, ver a realidade reproduzida com precisão fotográfica. Pois a reprodução da realidade, muitas vezes, é a melhor maneira que possuímos para ver a própria realidade. O que está diante de nossos olhos só ganha relevo de fato quando alguém sabe reproduzi-la bem.

Claro que com muitas referências a sexo e a programas de TV, mesmo assim a peça não tem baixarias monumentais, daquelas que fazem a gente se sentir exilado da plateia quando esta cai na gargalhada. Uma ou duas boas surpresas em cena garantem uma teatralidade no espetáculo, para além da mera sucessão de esquetes e imitações cômicas.

A revelação final se ressente um pouco de um ritmo muito abrupto, passando do que surpreendente para o desconcertante, quase mal explicado.

Também contribui para o enfraquecimento do efeito final a caracterização, a meu ver plana demais, do personagem vivido por Ricardo Rathsam. Suas falas, no texto de Emílio Boechat, tendem ao repetitivo, e não há muita razão para ele ter um figurino quase clownesco, carregando uma tuba, por exemplo, num papel que exigiria um toque maior de trivialidade cotidiana, uma aparência de “marido comum”, na maior parte do tempo. Fora isso, Rathsam segura bem a função de dar oportunidade para Médici desenfrear seu grande talento para a comédia.  

Escrito por Marcelo Coelho às 00h02

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Cavalo de Guerra

 
 

Cavalo de Guerra

Falei muito mal de “Cavalo de Guerra”, filme de Spielberg, na minha coluna para a Ilustrada.

Mas não se pode dizer, claro, que seja “mal filmado”. Em especial há uma cena marcante, do cavalo-herói desembestando dentro das trincheiras, e depois arremetendo na “terra de ninguém” entre as linhas inglesas e alemãs.

Lembro-me de uma imagem absolutamente surpreendente de um documentário de Buñuel, “Tierra sin Pán”, mostrando a miséria de camponeses espanhóis. A câmera mostra um vilarejo comum, estaciona diante da portinhola de uma casa, e dela sai, repentinamente, um enorme touro negro.

Essa liberdade do animal em meio a construções humanas é filmada maravilhosamente em “Cavalo de Guerra”.

Há também o uso de “símbolos visuais” bastante felizes: os sulcos da terra arada, sob a chuva, no começo do filme, prefiguram as trincheiras encharcadas que o protagonista encontrará depois.

Pena que um diálogo entre os soldados “entrega” essa metáfora. De qualquer modo, minha prevenção contra o filme já era tão grande, àquela altura, que eu não a teria percebido se eles não dissessem. 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h08

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Espiões impenetráveis

 
 

Espiões impenetráveis

 

 

         “O Espião que Sabia Demais”, filme de Tomas Alfredson baseado no clássico de espionagem de John Le Carré, é uma daquelas histórias que quanto mais a gente pensa que está entendendo menos entende alguma coisa, e com isso achei melhor relaxar enquanto assistia.

         Na verdade, acho que o enredo importa pouco. O espião George Smiley (Gary Oldman) tem de descobrir qual o traidor entre seus quatro colegas na cúpula do serviço secreto britânico.

         Ao contrário dos filmes (ou melhor, romances) policiais clássicos, os suspeitos não têm, cada qual, suas características próprias, seus cacoetes capazes de fazer com que o público incline suas simpatias ora para um, ora para outro.

         Quando o mistério de quem entregava segredos para a URSS afinal é resolvido, ficamos com a sensação que poderia ter sido qualquer um dos outros suspeitos.

         E que, se o filme tivesse mais dez ou quinze minutos, nova rodada de engodos e máscaras atrás de máscaras seria realizada.

         Como todos estão enganando todos ao mesmo tempo, pode-se sempre dizer que o espião A entrega segredos da Inglaterra para a URSS, só que estes segredos são falsos, de modo a enganar a URSS, que sabe disso e finge acreditar, para encobrir as ações do espião B, que é o verdadeiro traidor, só que os segredos que este entrega, pensando ser verdadeiros, são na verdade falsos também, porque o espião C, desconfiando de B, resolve enganá-lo, mas isso não adianta, porque o espião C, na verdade, servia apenas para encobrir as ações de A, cujos segredos falsos na verdade eram verdadeiros...

          A ciranda gira sem parar, e todos os espiões acabam (como mostra, em parte, o próprio filme) vitimados por um mecanismo em que a informação falsa e a verdadeira trocam o tempo todo de lugar. O equilíbrio das potências exige que um espião desacredite o adversário diante dos superiores, e nunca se sabe se é possível acreditar no desacreditamento.

         O que mais me pareceu interessante no filme não é esse pega-pega, mas o charme dos atores, todos confinados a um jogo onde não podem “atuar”, porque são espiões que não podem revelar suas próprias reações.

         Sobra apenas o carisma de cada um (Colin Firth, John Hurt, Mark Strong, Tom Hardy), numa espécie de sinfonia, ou música de câmara, feita de falas enigmáticas e rostos masculinos em plena elegância britânica.

 

 

Gary Oldman

 

Mark Strong

 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h05

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Paisagens de Hopper

 
 

Paisagens de Hopper

A pintura realista do americano Edward Hopper é lembrada, em geral, pelas cenas de desolação urbana –gatos pingados de madrugada numa lanchonete de esquina, a entrada soturna de um cinema poeira— ou pelas igualmente solitárias figuras de mulheres tomando sol na varanda de algum bangalô nada acolhedor.

Algumas paisagens de Hopper vão mais longe, entretanto, e eliminam a figura humana de uma vez. “O Maine de Edward Hopper” é o título de uma exposição que vai de meados de julho até outubro no Bowdoin College Museum of Art, em Brunswick, cidade daquele Estado no extremo norte dos EUA. O catálogo da exposição pode ser encomendado aqui http://store.bowdoin.edu/collections/art-museum/products/edward-hoppers-maine, e contém imagens como estas:

 

 

 

“Casa do Capitão Upton” (1927), que não parece menos mal-assombrada por ser de dia. Gosto da impressão de vento que há nas nuvens –a única coisa que parece quebrar a imobilidade da visão.

 

 

 

 

“Estrada no Maine” (1914), elege a mais desinteressante vista que se poderia imaginar para que o jogo entre sombra e luz do sol se exponha na crueza da realidade mais banal –e, ao mesmo tempo, a escuridão da rocha à direita surge quase como um estudo psicológico; a paisagem, aqui, parece “pensar”, sem ninguém por perto.

 

 

“The Dories, Ogunquit” (1914) é sem dúvida mais alegre e pitoresca, com seus barquinhos brancos sobre um azul maravilhoso. Mas lá está de novo, agora à esquerda, uma pedra visivelmente mal intencionada –e a parte mais rasa do mar se turva num roxo de algas, de lama e de granito.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h57

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Meia-noite em Paris

 
 

Meia-noite em Paris

O novo filme de Woody Allen é uma grande pedida para o feriado. Veja o trailer. Escrevi sobre o filme na "Ilustrada" desta quarta-feira (assinantes podem ler aqui). Vai um trecho:

         Gil Pender é um boboca de Pasadena, Califórnia, prestes a casar com uma patricinha autoritária. Os dois estão em Paris. A patricinha faz compras. Ele passeia pelas ruas da cidade; adora Paris quando chove, e sonha com a época de ouro da cidade.

         A saber, os anos 20, quando escritores e artistas como Hemingway, Scott Fitzgerald, Picasso e Dalí se entregavam ao jazz, ao inconsciente, à bebida e às trepidações da modernidade.

         Gil Pender escreve roteiros para Hollywood, ganha um bom dinheiro, mas sua fantasia é ser romancista. Ou melhor, ter sido romancista, em Paris, por volta de 1925.

         Magicamente, numa noite de bebedeira, seu desejo se realiza. Uma limusine amarela aparece, e o tímido Gil, um verdadeiro prodígio de falta de assunto, é convidado a entrar. Zelda e Scott Fitzgerald estão no carro. Ele está nos anos 20.

         Esse é o ponto de partida do último filme de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”, que entrou em cartaz na semana passada.

         (...) Convidado a participar de uma daquelas festas dos “anos loucos”, Gil encontra Luís Buñuel –e resolve meter sua colher na obra futura do cineasta. Diz ter uma excelente ideia para um filme: imagine-se que um grupo de pessoas, numa reunião elegante, repentinamente se torna incapaz de sair da sala. E passará vários dias nessa prisão imaginária e inexplicável.

         Quarenta anos antes de filmar “O Anjo Exterminador”, Buñuel vai demorar para entender o que há de interessante nessa ideia.

         “Meia Noite em Paris” parece brincar com um tema parecido. Não estamos incapacitados de sair de uma sala por nenhum feitiço. Mas, se o espaço não nos aprisiona, estamos contudo presos ao nosso próprio tempo. Na plenitude da velhice, Woody Allen nos diz que temos só uma vida para viver –a nossa. “Meia Noite em Paris” ajuda a melhorá-la um pouco.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h29

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

King fu Panda 2

 
 

King fu Panda 2

Por falta de tempo, acabo escrevendo sobre os filmes infantis que vejo com meus filhos. "Kung fu Panda 2", que seria menos chato se não seguisse estritamente a lógica de um videogame em muitas cenas de luta e perseguição, foi o tema do meu artigo de quarta-feira. O texto saiu meio ideológico-político demais, mas acho que o assunto justificava. Eis um trecho.

         Salvar o mundo, na maioria dos filmes de ficção científica, era sinônimo de evitar a destruição de Nova York e, digamos, Kansas City.

         O problema é outro em “King Fu Panda 2”, animação da DreamWorks que tenta (sem sucesso) reproduzir a simpática fórmula do filme original.

         “É preciso salvar a China”: a frase, com variantes, é frequentemente pronunciada pelo herói atrapalhado e comilão, um panda que passara de ajudante de cozinha a mestre supremo das artes marciais na animação anterior.

         Mas salvar a China do quê? Logo no início do filme, suaves e caprichadas silhuetas de papel recortado e colorido dão lugar a uma paisagem de perigo.

Fundições de metal, onde trabalham lobos de couraça, cobrem de fumaça negra o ambiente. É como se estivéssemos na Inglaterra vitoriana, com mais de um toque totalitário: o pesadelo fabril do capitalismo selvagem se adiciona à opressão política.

         É que um pavão malvado descobriu um uso militar para a pólvora, antes empregada apenas na confecção de fogos de artifício. Prepara canhões monstruosos, contra os quais os poderes tradicionais do kung fu são de pouca ajuda.

O artigo completo pode ser lido pelos assinantes do UOL neste link.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h45

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

De "Dumbo" à ararinha-azul

 
 

De "Dumbo" à ararinha-azul

No artigo de hoje para a "Ilustrada", escrevo sobre "Rio", a animação de Carlos Saldanha. Aqui vai um trecho:

A maior novidade de “Rio”, comparado aos clássicos da Disney, não deve ser menosprezada. Muitos desenhos animados (“Bambi”, “Mogli”, por exemplo) simbolizavam, acima de tudo, o desafio do crescimento e, com este, a ameaça que mais assombra toda criança: a morte dos pais.

         Voar, para Dumbo, era crescer. Para o protagonista de “Rio”, que reencontra a natureza brasileira depois de anos nas mãos de uma jovem livreira de Minnesota, aprender a voar é a metáfora, não muito disfarçada, da capacidade de se acasalar.

         Defender a sobrevivência de uma espécie ameaçada, como toda criança sabe, exige atividade sexual. No filme, o casal de ararinhas passa boa parte do tempo unido pelas patas com uma correntinha de metal.

         Só desamarrados poderão se amar de fato. O fantasma do incesto, da endogamia, tem de ser esconjurado para que os dois possam de fato namorar. Os humanos do filme, um ornitólogo brasileiro e a livreira americana, também têm um futuro de miscigenação pela frente.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 15h53

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Paula Rego

 
 

Paula Rego

A pintora portuguesa Paula Rego tem sua primeira retrospectiva no Brasil. Fica na Pinacoteca do Estado até meados de junho. A artista vive na Inglaterra há cerca de 50 anos, virou "dame" (o equivalente a "sir") do Império Britânico. Seu estilo é próximo do realismo de Lucian Freud, e pode-se notar sua influência sobre artistas mais recentes, como Jake e Dinos Chapman (bonecos hermafroditas, crianças xifópagas nuas penduradas de cabeça para baixo). Paula Rego ilustrou rimas e contos infantis, mas seus quadros e gravuras (uma série sobre aborto, cenas de asilo, de guerra, de violência sexual doméstica) tendem a ser para maiores de 18 anos. Escrevo sobre ela no artigo desta quarta-feira, dia 30. Duas das pinturas (pastéis de grande formato, na verdade) de que mais gostei na exposição. Uma é a "mulher-cachorro", outra é Branca de Neve depois de ter comido a maçã envenenada.

 

do site http://library.thinkquest.org/17016/frames.htm

Escrito por Marcelo Coelho às 00h52

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

fotografia espanhola

 
 

fotografia espanhola

Maider López ("Praia de Itzurun 4") está entre os 28 artistas que participam da mostra "Dez Anos de Fotografia Espanhola", no Instituto Cervantes.

A exposição vai de 4 de março a 9 de abril. 

O endereço é av. Paulista, 2439 - Metrô Consolação

Tel. 11 3897-9609

Horário de Funcionamento do Instituto Cervantes:

segunda-feira, das 14h às 20h,

terça-feira a sexta-feira, das 8h às 20h,

sábados, das 9h às 15h.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h28

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

dois irmãos

 
 

dois irmãos

A velhice, ou, se preferirmos, a madurez, está se tornando especialidade do cinema argentino, o que não é um fenômeno criticável por si mesmo. Dá ocasião a filmes sensíveis, algo melancólicos mas afinal de contas conciliadores, hábeis ao tratar de emoções em meio tom.

Dois Irmãos”, de Daniel Burman, tem bem esse espírito, pelo menos no encaminhamento geral do roteiro. Mas o espírito ameno contrasta com a caracterização das personagens principais. Antonio Gasalla e Graciela Borges vivem o par, nada fraternal, do título. Ela é uma arrivista trambiqueira, que oprime e explora o irmão, sujeito tímido e passivo, que com seus sessenta anos se dedica a cuidar da mãe doente.

Tem-se a impressão de que o filme tenta transpor, sem muitos desastres, alguma peça de teatro que terá servido como veículo para o talento inegável dos dois atores principais. No palco, a presença de Graciela Borges, com seus figurinos impagáveis e mesquinharias espantosas, serviria àquela função, tão necessária ao público, da personagem que se gostaria de esganar ao vivo.

Espera-se o tempo todo a reação, o grande momento explosivo pelo qual Antonio Gasalla haverá de dizer à irmã “um monte de verdades”. O teatro pode viver dessa tensão –como é, vai ter briga ou não vai ter?—sem que as personagens precisem se transformar muito ao longo da peça.

No cinema, isso funciona menos: as tiradas repetidas, as cenas mais ou menos equivalentes que se sucedem, não contam com aquele espaço vazio, aquele oco, aquele intervalo de ar que existe entre o público e os atores. A película “adere” mais ao rosto dos atores, o cenário é mais fluido, há menos máscara e mais interiorização. O talento de Gasalla e Graciela Borges não deixa margem a dúvidas; mas não constitui um triunfo, e o filme inspira mais carinho do que admiração.  

Escrito por Marcelo Coelho às 15h02

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

"Com Quem Fica o Coração"

 
 

"Com Quem Fica o Coração"

Assisto à montagem de “Com Quem Fica o Coração”, espetáculo de grand-guignol dirigido por Maurício Paroni de Castro. Declaro meu interesse novamente: trata-se de grande amigo meu, que pôs em cena alguns contos de Voltaire de Souza no espetáculo “Aqui Ninguém é Inocente”, da sua companhia, a Manufactura Suspeita.

         Entra-se no teatro Ruth Escobar, e os atores já estão em cena, no que parece ser uma sala de cirurgia clandestina. O médico (Carlos Meceni) realiza uma autópsia, atrás de uma bancada; o cadáver não se vê. A morta, sim: Janine Corrêa está de pé, vestida com a bata branca dos pacientes, e comenta um pouco sua própria condição. O ajudante do médico (Josué Torres) aparecerá mais tarde. Um rádio toca música e pregação evangélica.

         Em primeiro lugar, o que chama atenção é a absoluta naturalidade na voz, na dicção de Carlos Meceni. É um operador entediado, falando barbaridades enquanto opera outras no corpo em morte cerebral. Seu cientificismo cínico irá contrastar, assim como seu vocabulário e sotaque, com o credo religioso, a linguagem e a mentalidade para lá de classe C do seu ajudante.

         Aos poucos se estabelece, com precisão extrema de detalhes, a diferença social e psicológica entre os dois personagens. Escrever isso é escrever pouco: o ajudante evangélico simplesmente não pensa segundo as mesmas regras do médico; as objeções e comentários que este lhe faz são ignoradas, num fluxo de ideias, convicções e narrativas que funciona sozinho. O ajudante é detalhista em suas memórias do passado: cita marcas e modelos de caminhão, raças de porco e de zebu, atropela-se citando personagens e mais personagens de algum episódio que viveu, sem se dar conta das ironias e das críticas do médico. Este, por sua vez, despreza o interlocutor, aborrece-se, reclama dos próprios problemas, atende a um sinistro celular. Sua familiaridade com a morte e com o mal é levada como um papo de boteco, enquanto a credulidade do antagonista tem o aspecto delirante que não é apenas o de uma religião fundamentalista, mas o de uma mentalidade quase que mutilada pela experiência da pobreza e da deseducação.

         Os detalhes chocantes da trama não podem ser contados, mas deve-se registrar a abundância de sangue espirrado e humor negro ao longo da peça. O entrecho, que poderia ser mais esclarecido num ponto ou outro –esta é uma das críticas que sempre endereço a Maurício Paroni—interessa menos, contudo, do que o conflito em cena. De um lado, o racionalismo pragmático do médico, com o qual nos identificamos (até notar o abismo de perversão a que conduz). De outro, a irracionalidade pura do evangélico, que parece mais inocente, e com a qual é impossível identificação imediata, e menos ainda depois de se notar o extremo de brutalidade de que é capaz. Racionalismo e irracionalidade se espelham de modo aterrador no texto –tornando a presença da morta, esta é outra crítica, um pouco sem função durante boa parte do espetáculo.

         “Com Quem Fica o Coração” está em cartaz no Ruth Escobar, somente às quintas-feiras, às 21h30.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h01

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

"Policarpo Quaresma", de Antunes Filho

 
 

"Policarpo Quaresma", de Antunes Filho

Há tempos eu não assistia nenhuma peça dirigida por Antunes Filho. Reencontro em “Policarpo Quaresma” (Sesc Vila Nova) a mesma habilidade em encher os olhos do espectador com grandes cenas de grupo, numa movimentação de massas “corais” por vezes inesperadas (é o caso de uma multidão de loucos de camisola, quando nos apercebemos que Policarpo acaba de ser internado num hospício).

Para quem vê um espetáculo de Antunes Filho pela primeira vez, tudo deve parecer próximo de genial. De minha parte, menos do que uma característica apenas do estilo do diretor, sobressai um ar de truque.

Correrias desabaladas atravessam o palco sempre que o diálogo se arrisca a ficar um pouco chato. Cenas que poderiam ficar um pouco mais solenes ou dramáticas são estilizadas, com os atores andando de perfil em câmera lenta.

A estilização, de fato, parece ser mais importante do que o estilo: resume-se, com efeito, a uma série de procedimentos reconhecíveis (pétalas ou confettis jogadas para o alto, objetos cênicos com rodinhas empurrados a toda velocidade, um certo empenho em esfalfar os atores ao máximo...)

Quando se tratava de encenar Nelson Rodrigues, tenho impressão de que esse jeito estilizado, a maquiagem como máscara, a gesticulação como uma espécie de dança sem música, fazia sentido. O realismo cru seria uma ameaça estética no teatro de Nelson Rodrigues, e a fala dos atores, seu modo de se moverem, de rir e de se agruparem em cena tinham o mesmo efeito daqueles nomes próprios dos personagens rodriguianos, ao mesmo tempo reais, plausíveis, e vagamente fora de foco, como numa antiga foto em preto e branco: Herculano, por exemplo.

Mas “irrealizar” a história de Policarpo Quaresma, que não tinha o espírito de exacerbação suburbana das tragédias de Nelson Rodrigues, é uma opção a meu ver muito errada de Antunes Filho. O espetáculo fica parecendo uma opereta sem música suficiente, ou então um daqueles “resumões” teatrais dos clássicos da literatura brasileira exigidos pelo vestibular.

Policarpo é, como sabemos, um maluco que luta pela adoção do tupi-guarani como língua oficial do Brasil. Uma opção do diretor seria mostrá-lo assim, como uma espécie de Quixote, em conflito com a banalidade, a desonestidade e a estreiteza de seu ambiente real. Outra opção seria mostrá-lo como o único tipo sensato, num ambiente dominado pela loucura coletiva. Antunes Filho escolheu as duas coisas: é um maluco no meio de um ambiente totalmente tomado pela maluquice; Policarpo é tão caricato quanto os demais personagens. Ou melhor, a caricatura é feita do mesmo modo, tanto no Policarpo que aparece como um Visconde de Sabugosa, quanto nos outros personagens: soldadinhos de chumbo num brinquedo infantil, uma negra velha que lembra algum personagem de Chico Anísio, parlamentares de bigodão falso...De modo que a história toda se apresenta como farsa.

Mas, se não há nada sério em jogo, se por exemplo a Revolta da Armada e as atitudes de Floriano Peixoto, que são foco de denúncia amarga nas páginas de Lima Barreto, aqui aparecem como uma espécie de piada sem sentido, fica um pouco difícil saber por que, afinal, escolheu-se encenar aquela história. Se nos dias atuais todos soubéssemos o que foi a Revolta da Armada, se atualmente todos conhecêssemos e prezássemos a historiografia oficial republicana, a peça serviria para desmistificá-la. Mas quando se diz que determinado episódio histórico, que desconhecemos, e que não tem nenhuma ressonância na política atual, “na verdade” foi uma farsa, entra-se na tarefa inglória de desmistificar algo que ninguém estava mistificando. É como se eu publicasse um artigo dizendo que a nova versão proposta pela teologia muçulmana para organizar a coreografia dos dervixes rodopiantes não deve ser levada literalmente a sério.

Tropas de brinquedo aparecem agitando a bandeira nacional em “Policarpo Quaresma”, como para mostrar a tolice que há em agitar a bandeira nacional para saudar o governo Floriano Peixoto.

Mas ninguém está saudando o governo Floriano Peixoto hoje em dia. Qual a “tradução” disto nos dias atuais? Que é tolo entusiasmar-se com o crescimento do PIB no governo Lula? Ou que ser anti-lulista é como ser um Policarpo Quaresma? Que Policarpo Quaresma hoje seria João Pedro Stédile? Marina Silva? Norberto Odebrecht? Que estamos tão corruptos, autoritários e atrasados como nos primeiros tempos da República?

Impossível saber; a “crítica”, que faz todos os personagens parecerem absurdos na montagem não tem adversário definido; é “crítica” abstrata, contra quem diz A e contra quem diz não-A.

Talvez se possa dizer, pensando nas últimas palavras de Policarpo, que se trata de uma autocrítica da geração de Antunes: acreditamos em ideais que não eram possíveis de realizar. Mas isso faria de Policarpo um personagem mais humano, mais sincero. E o que a peça mostra é sobretudo um boneco, um visconde de Sabugosa, uma caricatura, que não podemos tomar como real. A estilização, aqui, se torna puro irrealismo –não há nada de real com que pretendesse se contrastar; irrealismo geral, irrestrito, e no fim das contas irrelevante, como uma opereta.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h47

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

as fotos de Paulo Jares

 
 

as fotos de Paulo Jares

Ganha um prêmio quem adivinhar qual o tema desta foto, uma das que o paraense Paulo Jares expõe, a partir de 10 de junho, na Galeria Virgílio. A exposição se chama "Luz", e reúne dez fotos em grande formato.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

... são pingos de chuva em Copacabana.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h00

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

o segredo dos seus olhos

 
 

o segredo dos seus olhos

Para quem gostou do filme de Juan José Campanella, um brinde que me foi enviado por um amigo argentino. A atriz do filme, Soledad Villamil, é também cantora, e tem alguns números no youtube.

 

Meu artigo sobre "O Segredo dos Seus Olhos" está na Ilustrada de hoje, e assinantes do uol podem lê-lo aqui.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 12h26

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

BUSCA NO BLOG


RSS

ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.

free stats