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Em cartaz
Cadela de vison
Sempre dá para dizer que é tudo ficção, que é tudo teatro. Mas quem assiste “Cadela de Vison”, peça de Renato Borghi com ele mesmo no papel principal, não perde nunca a impressão de que é tudo autobiográfico.
Autobiográfico é uma palavra meio chata. Renato Borghi se expõe ao público, como raras vezes um ator terá feito na vida. Ao completar cinquenta anos de carreira, é homenageado com uma exposição de fotos e críticas de jornal no saguão de entrada do teatro Sesc Santana.
No palco, há mais fotos dele, muito jovem, com um ar de sedutor latino mais ou menos característico dos retratos de artistas daquele tempo. Nenhum narcisismo, entretanto: as fotos estão dispostas em bancos semicirculares, que lembram o antigo Teatro de Arena. Mas, no meio da escuridão, esses bancos pretos também estão cobertos de flores, como num velório.
Surge o fantasma de uma antiga cantora do rádio, por quem o jovem Renato Borghi teria ficado apaixonado antes de se tornar ator de teatro. Foi essa mulher quem o levou a procurar a carreira artística. Mas quem é ela? Aos poucos, numa auto-análise de impressionante coragem, Borghi sugere que essa mulher é ele mesmo; os bancos concêntricos do cenário parecem então evocar um verdadeiro labirinto, onde o amor de um homem por uma mulher pode tornar-se o amor de alguém que, castrando-se, quer ser mulher para ter um relacionamento lésbico com outra, que na verdade não passa de ele mesmo...
O aspecto mais cerebral dessa inquirição sobre a própria sexualidade é disfarçado pelo desbocamento total dos personagens, que leva o público a rir com certo espanto. Não se trata daquela exploração da baixaria humorística tão comum no teatro comercial: a fala “escandalosa” é um exorcismo, e mesmo uma recuperação, na linguagem, da masculinidade que o protagonista quer abandonar.
Falei em autobiografia, mas um aspecto tira tudo o que a peça tenha de confessional. Quanto mais se expõe, Borghi mais se “descola”, digamos, de si mesmo. Seu modo de andar no palco é muito característico: as pernas, um tanto curtas, sempre lampeiras, se movem como se ele tivesse acabado de fazer alguma travessura. A violência, por vezes, com que se dilacera parece ser sobretudo um ato de liberdade, uma brincadeira; a recuperação impossível do passado, a saudade da juventude, é sem dúvida o foco sentimental mais dolorido da peça; mas Renato Borghi vive aquilo tudo com a alegria de uma criança. Com a pureza também.

Renato e Luciana Borghi
Escrito por Marcelo Coelho às 01h20
espanhóis no Masp
Nada como um dia depois do outro. Choveram críticas ao Masp, inclusive por parte deste blogueiro, quando aconteceu o roubo de duas telas do museu. É certo que o declínio do Masp não começara com aquele acontecimento, mas em todo caso o roubo acentuou a percepção geral a respeito do museu.
Agora, foram quatro os quadros roubados da Estação Pinacoteca --uma instituição muito mais dinâmica e, no cenário cultural de hoje na cidade, também mais importante do que o Masp. Verdade que o roubo foi a mão armada, e que no Masp o sistema de vigilância noturna deixou tudo muito mais fácil.
Em todo caso, o Masp começa a apresentar algumas exposições novas, como a de desenhistas espanhóis que abre nesta sexta e fica em cartaz até 27 de julho. Soma-se a outra mostra de dois artistas espanhóis, Luis Gordillo e Manolo Tejido, que fica no museu até 13 de julho. Dois exemplos das obras em cartaz.

Corrida de toros (1937), pastel de Celso Lagar

sem título, 27 (cine), 1998, de Manolo Quejido
Escrito por Marcelo Coelho às 21h50
Cleópatra, de Júlio Bressane
A atriz Alessandra Negrini seria passável no papel de uma normalista do Méier, mas imaginá-la como Cleópatra, como fez Júlio Bressane em seu mais recente filme, é no mínimo uma ousadia, e provavelmente um ato transgressivo. Só não é mais ousado e transgressivo do que colocar Miguel Falabella no papel de Júlio César.
Mas quando, entre os dois ou três senadores humilhados pelo conquistador da Gália, o espectador distingue um velho conhecido dos programas de Chico Anísio e Jô Soares –trata-se do excelente comediante Lúcio Mauro, coberto de toga, rímel e batom— está mais do que dado o sinal de que o filme “Cleópatra” repete o velho slogan da ditadura militar: ame-o ou deixe-o.
Não o amei, nem deixei de vê-lo. Sem dúvida, tudo no filme traz a aparência da paródia mais selvagem. Os palácios de Alexandria têm banheiras claramente inspiradas nos motéis da Barra da Tijuca. Alguns mármores sugerem a decoração do Palácio do Catete, e as palmeiras do Egito não gorjeiam como as de cá. Armam-se tendas e divãs entre as pedras da avenida Niemeyer, e tronos, piras, coxins, sofás e tapetes vieram com certeza de um saldão de móveis –só faltava aos cenógrafos terem levado o Brasilino de presente.
Dito assim, tudo poderia ser uma paródia das produções épicas de Cecil B. de Mille. Mas acontece que, se a aparência é paródica, o filme de Bressane não se apresenta como tal. Não há nenhum momento em que “pisque o olho” para o espectador, instando-o a não levar nada daquilo a sério. Tudo se desenrola com máxima seriedade.
Que concluir desse mistério? Vale a pena prestar atenção nos diálogos, soleníssimos, do filme, onde se misturam citações de Drummond, João Cabral, e não sei quantos poetas parnasianos.
Cleópatra foi acusada de “enfeitiçar” Marco Antônio (sei disso assistindo a série “Roma”), e sua história encena uma espécie de choque cultural. O conquistador romano é seduzido pelos prazeres e delírios de uma corte estranha, animalesca, refinada, irracional.
Não seria um caso de “antropofagia”, ou, se quisermos, de absorção do colonizador pelo colonizado? E, se se trata disso na interpretação que Bressane dá aos fatos da história romana, o seu filme dá um passo a mais nesse processo: toda a pretensão hollywoodiana de criar um Egito e uma Roma “reais” eram, no fundo, absurdos. E o absurdo de Miguel Falabella como César não é menor que o de Richard Burton no mesmo papel. Fazendo saltar aos olhos a brasileirice desses romanos e egípcios, Bressane não nos ridiculariza; ridiculariza, com solenidade ritual e egípcia, a nova Roma de George Bush.
Tudo isso não basta para recomendar o filme aos desavisados. Mas bastou para que eu não saísse uivando da sala nos primeiros minutos de projeção.
Um bom complemento para “Cleópatra” seria “Roma” , de Fellini, que finalmente saiu em DVD. Mas é assunto para depois.

Cleópatra: ame-o ou deixe-o
Escrito por Marcelo Coelho às 02h54
A magia do Japão
Numa região de fronteira, num país distante, um funcionário de alfândega intrigava-se com as idas e vindas de um comerciante montado num camelo. Todos os dias, o comerciante transportava um grande baú para o país vizinho. O funcionário da alfândega, todos os dias, examinava o baú. Nunca encontrava nada; o baú estava sempre vazio.
Os anos se passaram, e o funcionário finalmente se aposentou. Mudou-se para longe. Um dia, encontrou o velho comerciante. “Agora, que já não trabalho mais, e não posso prendê-lo, peço que me conte o que você fazia. Sei que era contrabandista. Mas seu baú estava sempre vazio. Qual o seu truque?” A resposta do comerciante: “eu contrabandeava camelos”.
A história é contada por Célio Amito, mágico profissional e bacharel em Física, para explicar o significado dos truques de magia.
Ele está com um show no teatro Alfa Real, que funciona tanto para adultos como para crianças com um pouco mais de cinco anos. “Show” não é a palavra certa, porque corresponderia apenas a uma seqüência de números de magia. Célio Amito faz mais do que isso, intercalando os números com belos comentários sobre a filosofia budista.
Claro, dizer que a mágica é um mistério, mas que o maior mistério é a vida, pode soar uma banalidade. Outra coisa é confrontar os dois mistérios em cena, fazendo o espectador ver a mágica onde não está, e ver na inexistência de um truque um momento de surpresa e encantamento.
Além de mágica e budismo, Célio Amito junta outros dois componentes opostos: a seriedade oriental e uma malícia brasileiríssima no improviso. Ri-se muito do espetáculo, a começar pelo modo extrema respeitoso, quase de monge budista, com que ele interage com os espectadores convidados a subir no palco.
“Há duas espécies de espectadores”, diz ele com pausas de mestre zen. “Os que querem ajudar o mágico, e os que querem atrapalhá-lo”.
A famosa “impenetrabilidade” do rosto oriental pode ser um estereótipo do Ocidente a respeito de japoneses ou chineses. Mas combina bem com a atividade de um mágico, e se mistura deliciosamente com a “cara de pau” de outro estereótipo, o da malandragem brasileira.
Neste link para uma curta reportagem da Globo, você pode ver alguns truques, mas não o perfeito humor e o “timing” desse espetáculo, que tem além disso a beleza teatral de “amarrar as pontas” entre seus truques. Isto é, um número apresentado no começo “reaparece”, “desaparece” e volta triunfalmente nos momentos finais, como se uma carta de baralho fosse, ela própria, uma personagem em cena. É teatro; a mágica do teatro.
Escrito por Marcelo Coelho às 09h39
O tempo e o lugar
Participei nesta terça-feira de um debate com Eduardo Escorel, diretor do documentário O Tempo e o Lugar, que já comentei num artigo para a Ilustrada, e que estréia sexta-feira em São Paulo.
O filme tem como personagem principal um pequeno agricultor alagoano, Genivaldo da Silva, que durante muito tempo militou na Pastoral da Terra e no MST. Liderou saques e ocupações. A certa altura, desencantou-se do movimento. O Tempo e o Lugar mostra um Genivaldo fortemente crítico das táticas do MST, relatando um treinamento que teve com “guerrilheiros do Sendero Luminoso” e contando de uma aventura de luta armada em que um líder do MST praticamente coagiu-o a arriscar a vida pela causa.
Bem, pode-se concordar ou não com as opiniões de Genivaldo. Pode-se criticar o filme de Eduardo Escorel em diversos aspectos. Acho, por exemplo, que o documentário ficaria mais completo se fosse procurado o líder do MST a quem Genivaldo se refere.
Eduardo Escorel considera que um documentário não precisa necessariamente seguir as regras do jornalismo, no sentido de “ouvir o outro lado”. Seu objetivo era focar-se na figura de Genivaldo, que tem uma trajetória interessante e conta coisas que não estamos habituados a ouvir por aí.
Por certo, seu documentário, de modo geral, dá crédito aos testemunhos de Genivaldo –que estão cheios de críticas ao MST.
Foi o bastante para que muita gente da platéia protestasse. “Joga água na moinho da direita”; “presta um desserviço às lutas populares”, coisa desse gênero. Outras pessoas concluíram com mais facilidade ainda que Genivaldo era um mentiroso, um fabulador.
Acho, como já disse, que o filme seria melhor se tentasse checar o que Genivaldo disse. Brinquei até com Eduardo Escorel, depois de encerrado o debate: se entrevistassem no filme o líder do MST a quem Genivaldo acusa de fanático, aí sim o desserviço à causa talvez corresse o risco de ser completo...
Mas é irritante a capacidade de algumas pessoas de esquerda de simplesmente se recusarem a admitir qualquer hipótese de crítica; pior que isso: julgar que qualquer crítica é necessariamente um desserviço. Ao contrário, abrir-se a críticas é o único modo de evitar que os mesmos erros sejam cometidos; depois perguntam todos porque o socialismo soçobrou no autoritarismo e no terror stalinista.
O fato é que muita gente defende o MST simplesmente porque atacá-lo seria fazer o jogo da direita. Do mesmo modo, muita gente defendia Stálin porque atacá-lo era fazer o jogo da direita. Se o defendessem menos, quem sabe a esquerda pudesse ter-se livrado dos fracassos em que se enredou.
Se Genivaldo mentiu ou não, não posso saber com certeza. Tendo a acreditar no que ele conta, e sem dúvida ele é melhor juiz dos seus próprios interesses como camponês do que eu. Tendo também a achar que ele (e o documentário) silenciam demais sobre suas ligações políticas posteriores à defecção do MST, e sobre “o tipo de gente com que ele se meteu” depois de ter-se metido com “o tipo de gente” do MST. Mas sem essas informações só posso, como o velho Montaigne, suspender meu julgamento.
O filme interessa pelas perguntas que deixa no ar; é também um pouco insatisfatório por essa mesma razão. Agora, sair atirando contra ele não é coisa de quem está na esquerda por ter uma alma generosa ou porque tem uma mentalidade crítica; é coisa de quem gosta de ser policial.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h49
Como Você Quer
Sempre tive um bocado de prevenção contra Pirandello. A surpresa de uma peça como “Seis Personagens em Busca de um Autor” parece que se esgota, a meu ver, numa época saturada de metalinguagem, de filmes que falam de filmes, de romances que são como cobras engolindo o próprio rabo, e até nos quadrinhos de “Mônica” surge, de vez em quando, o desenhista em crise de inspiração ou interagindo com os personagens que criou.
A idéia de que tudo é representação, e que atrás de uma máscara não se encontra nada além de outra máscara, pode ter sido importante para discutir a chamada “crise intelectual do século 20”, mas afinal pode ser também um mero truque sofístico.
Tive uma ótima surpresa ontem, assistindo a “Como Você Me Quer”, uma peça de Pirandello bem mais profunda do que esse jogo a que me referi. Nesse drama, está em funcionamento, mais uma vez, toda aquela história de que cada indivíduo é apenas uma personagem criada pelos outros, ou por si mesma, e de que não há uma “verdade interior”, nem mesmo uma “verdade factual” capaz de dizer quem e o quê, de fato, cada um é.
Acontece que esse labirinto de identidades está, no caso dessa peça, a serviço de uma situação dramática real, em que uma personagem de carne e osso de fato tem de “enganar” as pessoas à sua volta –sem que o espectador saiba em momento nenhum se se trata de um embuste mesmo ou se a personagem apenas finge estar enganando os outros para descobrir quais suas verdadeiras intenções.
A atenção intelectual do espectador se mantém desperta o tempo todo, sem que o texto perca em clareza na montagem –que teve a excelente idéia de fazer com que vários atores assumissem, alternativamente, o papel dessa personagem. Acentua-se, assim, a presença das múltiplas “personalidades” que a protagonista assume quando engana ou quando diz a verdade aos outros; e, ao mesmo tempo, evita-se que o peso de um papel dificílimo recaia apenas sobre uma das atrizes da companhia.
Todos –atores e atrizes— estão numa sinuca, pois têm de representar bem e, ao mesmo tempo, têm de representar mal. Uma pessoa tentando fingir que é outra pessoa nunca é perfeita em seu fingimento; acontecem exageros, momentos inconvincentes, etc. Como um ator pode fazer isso sem dar a impressão de que representa mal também?
Ziza Brisola (grávida), empenha-se com sucesso e no fio da navalha do dramalhão nessa tarefa. Fernanda Moura, que é quem começa assumindo o papel da protagonista na peça, é uma sofisticada presença no palco, ao estilo das divas italianas de outros tempos, mas se ressente do fato de que a complexidade da situação ainda não foi exposta plenamente para o espectador naqueles momentos iniciais; um pouco mais de estilo “cinema mudo”, e menos drama, talvez a beneficiasse.
A encenação de Mauricio Paroni de Castro não cai no erro comum de acrescentar novos elementos e maluquices a um texto que já é suficientemente complexo em si mesmo. Ou melhor, acrescenta uma de que não gosto: um longo balé de travestis, quando os atores masculinos passam a representar, também, o papel da protagonista.
Entretanto, a idéia de deixar uma cadeira de rodas vazia, num momento crucial da peça, que não posso descrever em detalhes, é um bom “acréscimo”, acho. Tira, na verdade, uma coisa que imagino existir numa encenação tradicional, e ao mesmo tempo a idéia geral do espetáculo se fortalece.
“Como Você Me Quer” está sendo encenada toda quarta-feira, às 21h, no Teatro João Caetano, com direção de Maurício Paroni de Castro –que, à frente da Companhia Manufactura Suspeita e da Companhia Linhas Aéreas, teve o gesto amigo de encenar as histórias de Voltaire de Souza nos Satyros, ano passado. Às quintas, no mesmo horário e teatro, eles encenam outra peça de Pirandello, “Cada um a seu Modo”.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h55
é tudo verdade (3)
“Me deixem morrer em paz. Selvagens. Não quero isso”. O homem, no último grau da magreza e da velhice, está cercado de enfermeiras que tentam a todo custo enfiar-lhe uma sonda de alimento pelo nariz. “Qual o seu nome?”, perguntam-lhe. Ele não responde. “Onde o senhor mora?” “Não interessa”. Enfiam-lhe finalmente a sonda. Dói. “Que violência, meu Deus”. “O senhor quer estar aqui neste hospital?” “Não. Me joguei fora. Joguei fora o meu nome. Eu não teria coragem de me sucidar. Não serviria para japonês.” Acabam descobrindo quem ele é.
“Solitário Anônimo”, o documentário de Débora Diniz que faz parte da competição nacional de curtas-metragens do “É tudo verdade”, não revela a identidade de seu protagonista. Traz, em quinze minutos, muitas entrevistas com esse homem, a quem foi negado o direito de morrer.
As transformações pelas quais ele passa, entretanto, não permitem uma conclusão unívoca sobre o quanto há de errado, e o quanto há de certo, na violência da engrenagem hospitalar. Ninguém sabe, na prática. É um filme impactante, de imagens a princípio muito duras, mas de grande sobriedade.
Terça, dia 1, às 15h, e quarta, dia 2, às 19h30, no Cine Olido.
“Beijo na Boca Maldita”, de Yanko del Pino, não tem o mesmo valor cinematográfico, no sentido em que há pouco o que ver nesse curta-metragem, mas seu interesse humano é inegável, pelo retrato que faz, a partir de muitos (muitos, muitos) depoimentos, de uma bizarra personagem curitibana. Trata-se de “Gilda”, mendigo que circulava pela “Boca Maldita”, no centro da cidade, dando beijos em homens, vestindo-se (mais ou menos) de mulher. Não chegava a ser travesti, e usou barba durante certo tempo. O bonito do filme é a simpatia que grande parte da população lhe dedicava, apesar da perseguição de uma autoridade local. Seria uma boa reportagem na revista “Piauí”, mais do que propriamente um filme, mas não dá para falar mal do que foi feito.
Sábado, dia 29, às 15h30 na Cinemateca, e terça, dia 1, às 17h, no Olido.
A arte de compor música para cinema é valorizada com bastante carinho por Bernardo Uzeda, no curta-metragem dedicado a Remo Usai, um nome pioneiro nesse campo, responsável pela trilha musical de mais de 100 filmes brasileiros. Sua música para “Assalto ao Trem Pagador” é comentada em detalhe pelo próprio Usai, que rememora seus anos de aprendizado em Hollywood, logo depois da Segunda Guerra, com o célebre Miklos Rózsa. Aprende-se bastante com “Remo Usai –Um Músico para o Cinema”, mas infelizmente parece ter faltado tempo, dinheiro e filme para contar mais sobre o personagem. As circunstâncias econômicas e históricas que determinaram seu ocaso profissional são objeto de referência muito vaga, sem balizas cronológicas ou explicações sobre o que teria tornado seu estilo de composição fora de moda. É uma pena. Mas os exemplos de música analisados no documentário –do próprio Usai e também de um filme de Hitchcock, “Spellbound”, onde Miklos Rózsa dá mostras de sua competência no ofício, não decepcionam o espectador. O curta será exibido nas mesmas sessões de “Beijo na Boca Maldita”, comentado acima.

O solitário anônimo de Débora Diniz.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h25
é tudo verdade
Começa nesta quarta-feira em São Paulo o 13º. Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, com pilhas de coisas interessantes para ver. Na medida do possível, vou comentando alguns filmes por aqui.
Uma das atrações é “Sem fim à vista”, um longa-metragem de Charles Ferguson sobre a intervenção americana no Iraque, um dos cinco indicados para o Oscar de documentário deste ano.
Digo “intervenção”, e não “invasão”, porque há poucas cenas de guerra, e a maior parte do filme se concentra no período posterior à derrubada de Saddam Hussein. Poderia até ser visto como um documentário que não contesta, a rigor, o ataque norte-americano.
Pelo menos, tem-se a impressão de que, uma vez consumado o objetivo de derrubar Saddam, tudo poderia ter dado certo, não fosse a incompetência do governo Bush. Os maiores erros, pelo que mostra o documentário, vieram depois da invasão. O espectador fica com vontade de torcer o pescoço de Donald Rumsfeld, secretário de Defesa, e de Paul Bremer, nomeado administrador do Iraque um mês depois do desembarque americano.
O grande mérito de “Sem fim à vista” é justamente o de dar voz a personalidades da própria administração americana, como diplomatas e especialistas da CIA, que tentavam alertar Rumsfeld e seu grupo ultra-restrito a respeito da necessidade de impor alguma lei e ordem ao território ocupado.
O filme informa que, em plena 2ª Guerra, os americanos planejaram com dois anos de antecedência o que fariam quando ocupassem a Alemanha. No caso do Iraque, não houve planejamento nenhum. Eles simplesmente derrubaram Saddam e se abstiveram (talvez num intuito de manter as “mãos limpas”) de qualquer outra medida.
A teoria de Rumsfeld, sem dúvida, era fazer uma guerra curta e com o mínimo de envolvimento de tropas em terra. Parece até boa idéia. Mas com isso os americanos deixaram de impedir, por exemplo, a onda de saques que se iniciou logo depois de Bagdá ter se tornado uma cidade sem polícia, sem exército, sem lei.
As coisas pioraram muitíssimo um mês depois, quando Paul Bremer decidiu desmobilizar o exército de Saddam. Centenas de milhares de soldados, que sabiam exatamente onde estavam as armas, foram despedidos do emprego... No caos que se seguiu, uma das poucas instituições sólidas eram as organizações religiosas muçulmanas, entre as quais as dos xiitas mais radicais. Além disso, Bremer decidiu a “des-baathificação” da administração iraquiana, tirando de seus postos qualquer funcionário que tivesse sido filiado ao partido de Saddam. Ora, dizem os próprios membros da inteligência americana, muita gente era filiada apenas por conveniência; havia desde saddamistas perigosos até bibliotecárias de escolinha infantil.
Assiste-se o filme com as mãos na cabeça, tão evidente parece ser a sucessão de erros, de improvisação e de arrogância. Pode-se mesmo ter a conclusão de que a guerra, em mãos mais competentes, teria sido um sucesso... Mas o filme, de qualquer modo, é uma das grandes atrações deste festival.
Será exibido no Cinesesc, em São Paulo, no dia 3 de abril (quinta-feira) às 23h, e no Rio, na sessão de abertura do Festival, dia 28, às 14h, no Unibanco Arteplex. Mais informações no link.

cena de "No End in Sight": no início da invasão, entusiasmo popular.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h32
yukiza, teatro de bonecos
Recebo de Hermano Taruma uma linda série de fotos do "yukiza", teatro de marionetes japonês. A tradição vem do século 17, e está sendo realizada uma turnê de espetáculos aqui no Brasil. Veja as informações no link. Haverá apresentações em São Paulo, no Sesc Vila Nova, nos dias 27 (21h) e 28 de fevereiro (17h e 21h).



Escrito por Marcelo Coelho às 21h54
Demônios no convento
Freiras endemoninhadas: faz muito tempo que li, sobre o assunto, o ensaio histórico (hoje chamaríamos de livro-reportagem) de Aldous Huxley, Os Demônios de Loudun. Trata-se de um caso real, ocorrido na França do século 17, que Huxley desmonta com seu velho e bom racionalismo –o único instrumento que possuímos, afinal, contra os demônios.
O livro mais tarde foi transformado em ópera por Penderecki –ouvi isso há muito tempo, também, numa transmissão da rádio Cultura FM; a orquestra imitava sons de instrumentos de tortura, terror total.
Agora saiu em DVD, pelo selo Lume, um filme de outro polonês, Jerzy Kawalerowicz, com o mesmo tema. Chama-se Madre Joana dos Anjos, e ganhou o prêmio do júri do Festival de Cannes em 1961. Com perdão da ignorância, nunca tinha ouvido falar nem do filme nem do diretor.
Recomendo vivamente. Em especial a primeira metade do filme, quando o padre exorcista primeiro se aproxima do convento, começa a ouvir os boatos e comentários das pessoas da estalagem, vai ficando com medo, e enfim se encaminha, para encontrar a madre superiora... Sem pressa, mas sem um minuto que não acrescente um pouco de tensão, o diretor nos prepara para o pior. Não há torturas. Ou melhor, o verdadeiro torturado, do ponto de vista psicológico, é o exorcista, um sacerdote que sem ser jovem não tem nenhuma experiência do mundo exterior; viveu ele próprio desde criança num mosteiro.
A madre superiora o espera, humilde, imaculada, de cabeça baixa. É uma atriz excelente, e bem bonita (Lucyna Winnicka). Um dos truques do diretor, repetido várias vezes, mas que não cansa, é filmá-la de costas; ela então se volta, e nunca sabemos como será a expressão do seu rosto. Provocação, malevolência, inteligência, endemoninhamento, doçura, tudo pode ser lido simultaneamente nos olhos dessa atriz.
O jogo entre muitas tonalidades de branco e cinza-claro (a planície que circunda o convento, algumas extensões de neve, o hábito das freiras) dá lugar a outras longas passagens em negro (o hábito do exorcista, o interior de uma estalagem). O diretor faz o que quer com as expectativas de quem vê o filme.
Há seqüências (não que eu seja especialista nesse tipo de coisa) que parecem ter sido planejadas magistralmente: de um close de rosto a câmera se afasta, faz um longo percurso mostrando objetos e pessoas a meia-distância, para encontrar depois um personagem que não sabíamos estar presente na cena... Apesar de um final meio bruto em termos narrativos, “Madre Joana dos Anjos” é grande cinema.
Interessante, também, como exercício de circunlóquio político. Um compositor como Penderecki escreveu muitas missas e oratórios: a cultura polonesa, não é preciso dizer, está profundamente marcada pelo catolicismo. Num país comunista, alguma negociação precisava ser feita, imagino, para tantas obras religiosas. Na ópera de Penderecki, como aqui neste filme de Kawalerowicz, talvez esteja em jogo um estratagema. Denuncia-se os horrores, a inumanidade, do sistema de crenças católico. Mas, na medida em que mostram inquisições, torturas, exorcismos e ortodoxias, o subtexto dessas obras parece ser a crítica ao sistema de crenças estalinista.
Nada mais parecido com o exorcismo sucessivo a que Madre Joana é submetida do que um processo contra os dissidentes do regime. Assim como Bukharin e outros, nos anos trinta, tiveram de confessar não apenas sua oposição a Stálin, mas uma série de outros crimes, Madre Joana está possuída por sete demônios diferentes, e eles têm de ser expulsos um a um. O tribunal de padres que acompanha o processo nunca está contente, é claro.
Outra aproximação curiosa é do ponto de vista visual. Madre Joana está num pátio interno do convento, e irá entrar em mais um breve e profundo diálogo com o exorcista. Entre os dois, uma série de varais onde estão pendurados os hábitos branquíssimos das freiras. Ela brinca levemente com o varais, que oscilam de leve, num vaivém. No “Encouraçado Potemkin”, de Eisenstein, as redes dos marinheiros, as peças de carne penduradas na cozinha, conhecem o mesmo tipo de oscilação, ameçadora e inocente. É a hora de soltar os demônios da insurreição.

Lucynna Winnicka, indecifrável no meio do varal.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h01
Elizabeth, a Era de Ouro
Há belas cenas de batalha naval em Elizabeth, a Era de Ouro, que vale assistir em algum cinema bem grande; vi no Bristol. A Invencível Armada de Felipe 2º., tentando invadir a Inglaterra, produz belos efeitos de pintura, com seus galeões incendiados.
O filme de Shekhar Kapur (trailer aqui)seria perfeito aí por volta de 1940, quando os ingleses sofriam o ataque cerrado de Hitler. Como os nazistas, ou os fundamentalistas islâmicos de hoje, os espanhóis de Elizabeth são fanáticos medonhos, e não passariam de uma caricatura cinematográfica não fossem alguns bons diálogos dos seus embaixadores na corte britânica, e uma astúcia de espionagem que não posso revelar.
Como se estivéssemos em 1940, Elizabeth trata de celebrar as virtudes da Grã-Bretanha ameaçada pelo invasor: a liberdade religiosa inglesa, a equitação inglesa, a sensaboria da mulher inglesa.
Cate Blanchett, no papel da Rainha Virgem, é uma ótima voz e uma ótima rainha, mas uma mulher muito chata e pouquíssimo sedutora. Situação agravada pela maquiagem que esconde suas sobrancelhas, e pela terrível seqüência de penteados e perucas que ela experimenta ao longo do filme (perto dos quais os terríveis chapéus de Elizabeth 2ª. até que são engraçadinhos).
Ainda assim, as conversas de Elizabeth com aquele que poderia ser o amor de sua vida, sir Walter Raleigh (Clive Owen, num pastiche de Errol Flynn), são muito bem escritas; o pirata, fundador da colônia americana de Virgínia (nome com que homenageou a rainha), é um conquistador e tanto, ideal para donzelas românticas inglesas.
Além de guerra (numa grande banheira) e amor (a seco), há também a política, entregue nas mãos de um sonolento Geoffrey Rush, no papel de primeiro-ministro da rainha. A mensagem é clara. Trata-se de defender a tolerância religiosa protestante contra o fanatismo católico e a Inquisição, mesmo que para isso todo suspeito de conspiração tenha de ser torturado a valer nas masmorras da liberdade anglo-saxã. Geoffrey Rush acompanha de perto as cenas de tortura, e depois parece desinteressar-se do filme, ou o filme dele, tanto faz. Em todo caso, ao contrário de Rush, assisti o filme até o fim.

Nada sexy, mas as roupas dão ao filme força fashion
Escrito por Marcelo Coelho às 20h22
Desejo e reparação
Não li o romance de Ian Mc Ewan em que se baseia Desejo e Reparação, filme de Joe Wright atualmente em cartaz em São Paulo, e que acaba de ser indicado para o Oscar.
Mas o que conheço de Mc Ewan me convence de que ele deve ter imaginado um enredo infinitamente mais complexo, ambíguo e carregado de terror moral do que o drama romântico a que assisti no Espaço Unibanco.
A personagem realmente interessante da história é a pequena escritora de uma família aristocrática inglesa que, em 1935, acusa injustamente o filho da governanta da casa de um crime de abuso sexual. Passam-se os anos e ela carrega a culpa de ter destruído, com essa calúnia, a vida do rapaz e a de sua própria irmã, que estava apaixonada por ele.
O que o filme fez foi concentrar o foco no caso de amor entre o rapaz e a mocinha, deixando a pequena linguaruda no papel puramente funcional de estragar o comovente caso de amor interclassista.
O resultado, a meu ver, termina sendo um dramalhão, cheio de pequenos malabarismos de montagem (mas nesse quesito um filme como As Horas, que também não é bom, se mostra superior), cheio de exageros na trilha sonora, e cheio de coincidências novelísticas. Cheio também, de clichês que mal seriam suportáveis num filme de 50 anos atrás.
Alguns exemplos: 1) o fiel e medíocre companheiro de armas do mocinho, que desempenha um papel mais ou menos cômico a certa altura do filme, mas que no momento mais fatal e lacrimoso se revela um bom e corajoso amigo. 2) A mãe do rapaz injustiçado, que extravasa uma vida inteira de servidão à classe dominante tentando agredir com golpes de guarda-chuva o carro de polícia que leva embora o filho para a prisão. 3) O repulsivo vilão de bigodinho, milionário engomado que sairá incólume de suas malignas investidas contra crianças inocentes 4) A famosa cena do casamento, onde o padre pergunta se há na platéia alguém que possa testemunhar contra a pureza dos noivos –“que fale agora ou cale-se para sempre”.
Sem contar o visual “branco” das toaletes de Keira Knightley, que parecem reciclados de O Grande Gatsby, e a presença de Vanessa Redgrave no papel de uma intelectual experiente no final do filme; só esse “casting” já é de uma previsibilidade exasperante.
Talvez Desejo e Reparação funcionasse melhor nas mãos de Joseph Losey, que com O Mensageiro tratou de situação semelhante com muito mais sutileza; ou mesmo nas mãos de Robert Altman, cujo Gosford Park, amplamente esquecível, tem pelo menos a qualidade de não se levar tanto a sério, e conseguir algum humor com isso.
Em todo caso, esse filme teve mais de 80% de críticas favoráveis na imprensa de língua inglesa, segundo o site rottentomatoes. Você pode dar uma olhada aqui. E pode ver também uma bela foto de Keira Knightley, sem precisar de link:

Escrito por Marcelo Coelho às 23h27
A vida dos outros (2)
Terei sido, em meu artigo sobre o filme "A Vida dos Outros" (ver post abaixo), preconceituoso com os alemães? É a opinião de um leitor, cuja carta transcrevo aqui.
A ausência também se revela
A Folha de S. Paulo publicou no dia 12 de dezembro um belo artigo de Marcelo Coelho. Com o título de “A vida dos outros” (E a nossa também), o artigo comenta o filme do mesmo nome agora em exibição de São Paulo. Sob a direção de Florian von Donnersmarck centraliza-se no personagem Capitão Wiesler, funcionário da sinistra Stasi.
A barbárie deve ser denunciada, mas dentro de um contexto que não oculte a história, que não dirija o olhar para o secundário às custas do ocultamento das causas, dos agentes e das torturas e opressões. Caso contrário, a denúncia reforça justamente o que queria condenar.
O totalitarismo é um câncer multifacetado, mas não se prende a nacionalidades ou etnias e sim a um caráter nazifascista. Atacar nacionalidades e etnias é exatamente o ato do nazifascismo.
O autor em apenas uma frase se refere ao autoritarismo nazifascista, mas caracteriza o erro, a barbárie ao povo alemão. As frases do artigo constroem um outro discurso, um discurso nazifascista. Vejamos que além do que se oculta, instila-se um outro pensamento, o pensamento que monopoliza a barbárie nos alemães., como bem demonstram várias observações: “Sua abordagem é profissional, burocrática, germânica”
“É uma situação bem germânica, de burocracia estatal impecável, nazista ou comunista”. “...o capitão Wiesler, com os fones de ouvido bem acoplados à cabeça ereta de prussiano”;
Felizmente Marcelo Coelho é um jornalista e escritor dotado de lucidez e, com certeza, sabe que a barbárie se estende a todos os povos e não se prende a uma nacionalidade e sim a uma ideologia com tentáculos externos e internos.Tanto é verdade que nesse artigo chega a se referir a situações nossas quando cita a prisioneira deixada aos instintos de presidiários e ao Capitão Nascimento. Mas... que o ocultamento da ideologia sugeriu fortemente um sentimento preconceituoso contra os alemães...fica também muito claro.
Espero não ter passado nenhuma imagem de preconceito. Ao contrário, creio que há características culturais ( e não genéticas) nos alemães da Prússia que foram capazes de levá-los, tanto à obediência cega diante das ordens superiores, no caso do nazismo, quanto a situações de extrema independência moral, em função de uma mesma e neutra virtude pessoal: a da disciplina. É por ser culturalmente prussiano que o capitão Wiesler desobedece às regras, quando estas infringem seu código moral profissional. É por ser culturalmente prussiano que o capitão Wiesler se tornou um funcionário da Stasi. Mais detalhes no excelente (mas um bocado raivoso) livro de Norbert Elias, Os alemães.

soldado prussiano em crise de consciência
Escrito por Marcelo Coelho às 03h58
A vida dos outros
Por falar em Alemanha, meu artigo de ontem na Ilustrada (assinantes podem ler aqui) tratou de “A Vida dos Outros”,
filme sobre um dilema moral um tanto implausível vivido por um funcionário da Stasi, a polícia política da DDR. Procurei traçar uma comparação entre o capitão Wiesler, seríssimo funcionário germânico, e o nosso capitão Nascimento, de “Tropa de Elite”.
A comparação, por exigência de espaço e simetria vocabular, talvez tenha ficado um pouco simplista. Achei importante, em todo caso, aproximar as duas realidades para não ficar apenas demonstrando um justificado horror diante do totalitarismo dos antigos regimes do Leste europeu, sem ver o que existe, num país democrático como o Brasil, de prática institucionalizada da tortura e assassinato oficial.
Também seria interessante lembrar de “O Bom Pastor”, filme que já saiu em DVD, contando os bastidores da CIA. Tortura para valer, ao contrário do que aparece em “A Vida dos Outros”, é mostrada ali. O comprometimento da espionagem com o Mal –numa forma próxima do absoluto—aparece nesse filme americano: obra de trama mais complexa, e ao mesmo tempo menos psicológica, que o filme de Florian von Donnersmarck.
Mas afinal, se o horror da CIA, e o horror do Bope, são tão grandes, o que torna diferente o horror da Stasi? Embora eu não ache irrelevante lembrar as torturas da polícia brasileira e da espionagem americana, há uma diferença importante com relação ao que ocorria nos países comunistas.
Uma vida regulada inteiramente pelo Estado policial é, apesar de tudo, pior do que a vida sob a violência oculta da repressão capitalista. O domínio sobre a vida privada, exercido pela Stasi, estendia-se a um número muito maior de cidadãos do que o terror da CIA, por exemplo.
Na DDR, pelo que conta o filme, você poderia ter de escolher entre abandonar a carreira de atriz ou passar a ser informante da polícia, denunciando seu namorado. À medida que um sistema político toma posse de toda a atividade econômica, intelectual, artística, etc., desaparece o espaço para a vida privada, para a neutralidade pessoal.
Por maiores que sejam os horrores e chantagens da CIA, do DOPS, do Bope, a pessoa pode simplesmente refugiar-se, na maioria dos casos, numa neutralidade apolítica. Desiste de combater o regime, mas não é obrigada a se tornar serviçal do regime. Num país totalitário, isso é impossível.
Volto à fórmula de Roland Barthes: o fascismo não é o regime que obriga você a ficar quieto, mas sim o regime que obriga você a falar.
Nesse sentido, há uma diferença fundamental entre autoritarismo e totalitarismo, e lamento que uma filósofa como Marilena Chauí, no último número da revista Lua Nova, tenha chamado de “direitista” um dos teóricos dessa distinção, o cientista político Juan Linz, como se ele quisesse defender a ditadura militar brasileira chamando-a, apenas, de autoritária, e não totalitária.
Totalitário é quem não admite o espaço da neutralidade. Espero que Marilena Chauí o admita.

Ulrich Mühe, protagonista de "A Vida dos Outros", morreu em julho de 2007
Escrito por Marcelo Coelho às 03h28
Jogo de cena
Fim de férias, e volto a escrever na Ilustrada, comentando “Jogo de Cena”, filme de Eduardo Coutinho. Talvez seja o melhor filme do diretor, para o meu gosto, junto com “Edifício Master”. Saí do cinema entusiasmado, mas o artigo saiu bem mais contido do que eu planejava. Acho que, depois de um tempo só blogando, exagerei na formalidade que associo ao jornal impresso.
Meu plano, aliás, era começar descrevendo o estilo meio de padre de Eduardo Coutinho para depois, no final, arriscar uma outra comparação. Pensei na maneira com que ele filma as suas entrevistadas, saindo de um corredor escuro para chegar até o palco onde ele as recebe: aquelas imagens me lembraram as de um nascimento, e nesse sentido Coutinho seria não exatamente um padre, mas um parteiro. Ainda mais porque o assunto filhos/gravidez predomina nos depoimentos.
A imagem mais poética do filme, entretanto, não encontra uma tradução visual. Refiro-me ao que conta uma das entrevistadas, que depois de uma tragédia abandonou a casa onde morava, deixando não sei que legumes ou verduras na geladeira. Volta um mês depois, abre a geladeira e vê brotos nascendo lá dentro... Um artista dificilmente poderia inventar uma mistura tão concisa de surrealismo e cotidiano, um símbolo tão inusitado de tragédia e ressurreição. Curiosamente, este é um dos raros pontos em que a atriz, reproduzindo o depoimento da personagem real, acrescenta sentido e profundidade à fala em que se baseou. No original, o detalhe passa meio despercebido, mas na interpretação da atriz ganha toda a sua paradoxal e insólita beleza.
E que coragem dessas atrizes, aceitando o desafio proposto por Eduardo Coutinho! A dignidade de Andréa Beltrão, a experiência de Marilia Pêra, o talento de Fernanda Torres só se valorizam nesse jogo onde, certamente, elas sabiam que entravam para perder. Vale por um livro inteiro a respeito de técnica teatral –seus limites, seus recursos, sua grandeza.
Talvez daí tenha vindo a minha relativa frieza no artigo para a Folha: vi-me, depois das férias, como um ator entrando no palco, e privilegiei a técnica, digamos, da interpretação, mais do que as emoções que o filme (a realidade do filme) tinham me despertado.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h53
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PERFIL
Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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