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Mais Canetti
Em outro post falei sobre “Festa sob as bombas”, livro de Elias Canetti que acabou de ser lançado no Brasil, pela editora Estação Liberdade. Estão saindo outros livros do autor, prêmio Nobel de 1981. A Estação Liberdade publica “Sobre a morte”, com pensamentos diversos, e para falar francamente, de qualidade irregular. Veja-se a frase que inaugura o livro: Não está ao alcance de Deus salvar da morte uma única pessoa. Esta é a coerência e a exclusividade de Deus. A não ser para uma pessoa muito religiosa, não sei se a frase é uma grande revelação. Melhor, pela violência e ao mesmo tempo pela serenidade, esta reflexão escrita em 1942: Basta que se prometa a eternidade para fundar uma religião. Basta que se dê a ordem de matar para que abatam três quartos da humanidade. O que as pessoas querem? Viver ou morrer? Elas querem viver e matar, e enquanto elas querem isso, terão de se contentar com as várias promessas de vida eterna. Já a editora José Olympio, dentro de uma coleção de bolso muito simpática chamada “Sabor Literário”, reuniu pensamentos de Canetti sobre romancistas e filósofos. O livro se chama “Sobre os escritores”. E Canetti, que já tinha desancado muito o poeta T. S. Eliot em “Festa sob as bombas”, ataca outras figuras. Flaubert, por exemplo: “um hipopótamo que geme”. Canetti (e concordo muito com ele) prefere Stendhal. Acho que não existe ninguém a quem eu ame tanto quanto a Stendhal. Ele é o único que invejo (...) Sua ingenuidade: ele não se envergonha de nenhum de seus sentimentos. Gostamos dele porque ele diz tudo. Não harmoniza tudo e todos com sua vaidade. Está cheio de lembranças, mas não definha com elas. Sua memória tem a rara qualidade de jamais se fechar. Como ama muitas coisas, sempre encontramos nele algo novo. Não importa qual o motivo de sua felicidade, jamais se sente culpado (...) A falta de religião permite a sua leveza. Stendhal nunca foi a minha bíblia, mas entre os autores foi o meu salvador. Já não concordo tanto quanto Canetti prefere Dickens a Flaubert. Dickens, diz ele, “faz parte dos poetas desordenados; parece que, entre os grandes, esses são os maiores. A ordem no romance começa com Flaubert, ali não existe nada que não tenha sido peneirado”. Por outro lado, faz bem ler Canetti falando mal de Nietzsche. Detesta tudo o que Nietzsche diz a favor dos fortes, dos sadios, do que é “grande”. O interesse de Canetti vai na direção contrária: quero falar dos que são “pequenos”. E o livro termina com uma bonita mensagem sobre a missão dos escritores. Eles devem manter abertos os canais entre as pessoas; e por isso deveriam ser capazes de se transformar em qualquer pessoa, mesmo a menor, a mais ingênua, a mais impotente. Escrever, diz Canetti, é uma paixão em si: a paixão da transformação.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h54
um conselho de T.S. Eliot Ainda sobre T.S. Eliot, uma historinha curta contada pelo crítico e poeta William Empson. Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer... é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência. A consideração se torna ainda mais pertinente quando se pensa nos blogs. A citação está na biografia de Empson, escrita por John Haffenden. 
Louis McNeice, Ted Hughes, Eliot, Auden, Spender: poetas
Escrito por Marcelo Coelho às 01h13
Ovos e economia
Falei no artigo desta quarta-feira para a Ilustrada (link para assinantes aqui) do livro “O Naturalista da Economia”, de Robert H. Frank. Trata-se de aplicar o raciocínio econômico a uma série de circunstâncias do cotidiano, em forma de perguntas e respostas. Uma das questões a que me referi no artigo diz respeito aos ovos de galinha. Os avermelhados custam mais caro que os brancos, embora tenham gosto e valor nutritivo iguais. Recebi alguns e-mails explicando a preferência do público pelos ovos avermelhados. É que se assemelham aos ovos caipiras –estes sim mais saborosos. Eis o que diz uma leitora: Quando criança somente conhecia ovos de cor vermelha,(minha mãe criava galinhas caipiras), e somente quando veio o plano Real, além de "danoninho" passei a comer ovos brancos, que minha mãe dizia ser mais baratos pois eram de galinhas brancas, que comiam ração, e não eram tão fortes e saudáveis como as caipiras que comiam somente milho, e mastruz para não ficarem doentes. Eis um trecho do livro de Robert Frank: É tentador dizer que os ovos vermelhos são mais caros porque os consumidores os consideram mais atraentes e estão dispostos a pagar mais por eles. Entretanto, esta explicação não é satisfatória, porque parece sugerir que os comerciantes que vendem ovos brancos estão deixando de ganhar dinheiro. Se eles podem ter lucros maiores vendendo ovos vermelhos, por que continuam a vender ovos brancos? Uma resposta plausível é que produzir ovos vermelhos é mais caro do que produzir ovos brancos. A cor do ovo depende da raça de galinha que o põe. Por exemplo, as galinhas Leghorn brancas põem ovos brancos, enquanto as galinhas Rhode Island Red põem ovos vermelhos. As galinhas marrons tendem a ser maiores que as brancas; como a necessidade diária de calorias de uma galinha depende do tamanho da ave, produzir ovos vermelhos custa mais. No entanto, para explicar por que eles são vendidos, embora mais caros, uma condição importante deve estar presente do lado da demanda. Se alguns consumidores não preferissem a aparência dos ovos vermelhos, estando dispostos a pagar mais, eles não seriam colocados à venda. Ah. Se isso não explica tudo, pelo menos nos assegura que está tudo certo em nosso mundo. Naturalmente, é de esperar que com o tempo se consiga diminuir o custo da produção dos ovos vermelhos, ou manipular geneticamente as galinhas brancas. Os ovos brancos estão com os dias contados, se as leis de Darwin e as da oferta e da demanda funcionarem neste caso. São bem parecidas, aliás. Em vez de aplicarmos a razão científica na produção de ovos vermelhos mais baratos, talvez fosse melhor (isto é, mais barato) investir diretamente na razão humana, esclarecendo as pessoas sobre o fato de que o gosto e o valor nutricional dos ovos não depende da cor. Os recursos gastos “racionalmente” para atender a essa irracionalidade básica a favor do vermelho poderiam ser utilizados para coisas mais úteis. Todavia, este seria um outro mundo –um pouco diferente daquele, tão ajustado, em que se validam as explicações de Robert Frank.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h09
aprendendo a pensar
O poeta Ted Hughes fez uma série de conferências pelo rádio, dedicadas a alunos do ensino básico, para estimulá-los a escrever poesia. Algumas dessas conferências estão reunidas num livro curto, chamado Poetry in the Making. Traduzo o trecho de um capítulo, intitulado “Aprendendo a pensar”. Assim como existem pessoas que ficam correndo de um lado para outro, cuidando das coisas, enquanto outras simplesmente ficam sentadas –o mesmo acontece com a mente das pessoas. Alguns cérebros ficam se agitando e trabalhando e lembrando e questionando coisas o tempo inteiro, e outros cérebros ficam só deitados cochilando e mudando de lado às vezes. Ted Hughes diz pertencer ao segundo grupo de pessoas. Na escola, eu ficava atormentado com a ideia de que eu tinha pensamentos na verdade muito superiores ao que eu poderia por em palavras. Não é que eu não conseguisse achar as palavras, ou que os pensamentos fossem profundos e complicados demais para por em palavras. Simplesmente, quando eu tentava falar ou colocar no papel os pensamentos, eles tinham sumido. [...] Por alguma razão, eu fiquei muito interessado nesses pensamentos que eu nunca conseguia pegar. Às vezes nem dava para chamá-los de pensamentos; eram uma espécie de sentimento obscuro a respeito de alguma coisa. Não se inseriam em nenhum tema particular –história, aritmética ou coisa parecida [...] Acho que você pode ver o que estava acontecendo. Eu estava pensando direito, e mesmo tendo pensamentos que pareciam interessantes para mim, mas eu não conseguia segurar esses pensamentos dentro de mim, ou pescá-los quando os queria. [Acho que] a maioria das pessoas tem esse mesmo problema. Os pensamentos que as pessoas têm são flutuantes –só um lampejo, e depois desaparecem—ou, ainda que elas saibam que sabem alguma coisa, ou têm idéias sobre alguma coisa, não conseguem cavocar até chegar a elas quando querem. As mentes delas, na verdade, estão fora do alcance. É uma coisa curiosa dizer isso, mas é absolutamente verdadeiro. Existe a vida interior, que é o mundo da realidade básica, o mundo da memória, da emoção, da imaginação, da inteligência, do bom senso, e que funciona o tempo todo, conscientemente ou não, como o bater do coração. Existe também o processo do pensamento, pelo qual entramos nessa vida interior e capturamos as respostas e as evidências que nos dão base para tratar das questões que vêm de fora. Esse processo de vasculhamento, de persuasão, de emboscada, de caçada, ou de rendição, é o tipo de pensamento que precisamos aprender, e se não o aprendemos, nossas mentes ficam dentro de nós como os peixes no lago de uma pessoa que não sabe pescar.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h33
Um poema de Murilo Mendes
História do Brasil, de Murilo Mendes, é um livro publicado em 1932. Lêem-se os seus sessenta poemas, antes de tudo, como uma negação do que possa haver de heróico na história brasileira. O leitmotiv do livro é a desmistificação da “história oficial”. Já o primeiro poema, “Prefácio de Pinzón”, confronta o leitor com várias negações. Quem descobriu a fazenda, Por San Tiago, fomos nós. Não pensem que sou garganta. Se quiserem calo a boca, Mando o Amazonas falar. Mas como sempre acontece, Nós tomamos na cabeça, Pois não tínhamos jornal. A colônia portuguesa Mandou para o jornalista Um saquinho de cruzados. Ele botou no jornal Que o arquimedes da terra Foi um grande português. O livro de Murilo Mendes não começa, assim, com uma cena de descobrimento; o nome “Brasil” não aparece, e tampouco os de Cabral ou de Pero Vaz; é Pinzón quem protesta. Está sozinho em cena, embora adote, em nome dos espanhóis, a primeira pessoa do plural. Seu protesto se tempera, quase se arrepende, quando para provar que não é “garganta”, ou seja, que não mente, Pinzón se prontifica a “calar a boca”. Todavia, se calar a boca, é aí que sua arrogância –e a irrealidade do seu pleito—haverão de confirmar-se. Pinzón terá como porta-voz o rio Amazonas, como se fosse um subordinado seu: “mando o Amazonas falar”. O tom, de todo modo, parece “cair em si” logo em seguida, com a coloquialidade (um pouco excessiva) de “tomamos na cabeça”, “botou no jornal”. , “não pensem que sou garganta”: um registro que justamente nega o que poderia ser uma “fala amazônica”. Pinzon conta com o Amazonas, mas reconhece: “não tínhamos jornal”, e o óbvio humor do anacronismo não deixa de ser mais uma forma de negar a história, assim como a coloquialidade era uma forma de negar a fala do personagem histórico Pinzón, que por sua vez ameaça negar-se pela fala do Amazonas, que é negada, para dar lugar ao ato de negar Cabral, ato que foi negado pela intervenção anacrônica do jornalista, que é assim o único “herói” (corrupto) da história. Dois testemunhos –o do Amazonas(real, mas hipotético) e o do jornalista (falso, mas efetivo)—são postos em contraste, e obedecem a duas lógicas diferentes: a do mando, no primeiro caso, e a do dinheiro, o “saquinho de cruzados”, no segundo. Entre as duas, naturalmente, interfere o poder conquistado por meio da palavra impressa, o jornal. O termo “fazenda”, entretanto, sugere um outro tipo de documento em papel, o título de propriedade de uma gleba, que precisa ser passado em cartório; é como se, entre Pinzón e Cabral, estivesse reproduzida a situação que opõe o ocupante tradicional de um terreno, de uma fazenda, e o recém-chegado que pode ostentar, graças a um “saquinho de cruzados”, o título formal de sua propriedade. Intitulando-se “Prefácio de Pinzón” o poema se coloca, ademais, em certa medida “fora” da narrativa que virá a seguir; nesta, a importância da palavra escrita –o poder do papel impresso—haverá de prevalecer sobre os protestos (meramente verbais) da personagem, excluída da história oficial, da história real, e da história que será contada nas páginas de Murilo Mendes. Pinzón reconhece que pode ser chamado de “garganta”, mas isso –falar-- é todo o poder que tem (e a virtualidade imaginária de um Amazonas falante) contra o que um jornalista pode escrever.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h10
Profecias para o Brasil
Algumas coisas singulares que tornam o Rio tão colorido e pitoresco já estão ameaçadas. Sobretudo as favelas, as zonas pobres no meio da cidade: será que ainda as veremos daqui a alguns anos? Os brasileiros não gostam de falar delas, do ponto de vista higiênico certamente apresentam um atraso em meio a uma cidade que brilha de limpeza e onde, graças a um serviço sanitário exemplar, a febre amarela antes endêmica foi erradicada ao longo de duas décadas. Mas as favelas dão um colorido especial a esse caleidoscópio, e pelo menos uma dessas estrelas no mosaico deveria ser conservada por representar um pedaço de natureza humana em meio à civilização. Este é o primeiro parágrafo de um capítulo intitulado “Algumas coisas que amanhã já poderão ter desaparecido”, que tiro do livro Brasil, Um País do Futuro, escrito por Stefan Zweig, e publicado em 1941. Tem mais. Ele prevê (com acerto) o fim da notória Zona do Mangue. Eis, entretanto, um trecho de suas impressões sobre a clássica região do meretrício. ...o mais surpreendente, a característica mais tipicamente brasileira nesse mercado é a calma, a tranqüilidade, a disciplina serena; enquanto nesse tipode ruelas de Marselha ou de Toulon ecoam risos, gritos, berros e gramofones enlouquecidos, enquanto os fregueses bêbados gritam, aqui todos são calmos e moderados. Supreendente, de fato.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h55
"As vozes do sótão"
Resenhei na semana passada, para a Ilustrada (aqui o link para assinantes), “As vozes do sótão”, de Paulo Rodrigues. Trata-se do autor de “À margem da linha”, breve romance que elogiei no seu lançamento, há alguns anos. Nos dois livros, a quantidade de clichês incomoda um bocado, mas me parece que o autor os utiliza voluntariamente. Em “À margem da linha”, tínhamos a história de dois irmãos que fogem de casa, seguindo a linha do trem. O narrador conta a aventura da perspectiva de quem já perdeu as perspectivas e encantamentos da infância –de modo que a rigidez fraseológica seria quase que uma conseqüência do seu envelhecimento. Em “As vozes do sótão” o narrador é um sujeito convencional, do ponto de vista das convicções e sentimentos: estamos na década de 50, ele é um alfaiate, perturbado pelo adultério da mulher. É também um sujeito nada convencional do ponto de vista do equilíbrio psicológico: ouve vozes, e mais tarde no livro o narrador se desdobra, se espelha, em outros dois. Há um certo jogo “pós-moderno” nisso, que mais tira do que acrescenta persuasão ao livro todo. De modo que, por vários motivos, o uso do clichê se justificaria também. Mas vai ficando difícil ler página depois de página cheias de trechos como este: ...Aos poucos, porém, a voz foi ocupando espaço, tornando-se inevitável, a ponto de eu não dar mais um passo sem antes ouvi-la. Foi ela que me desviou para o caminho do ódio, trilha por mim desconhecida e que só palmilhei após um violento conflito interior. Difícil juntar tantas palavras desnecessárias em texto tão curto. A voz “tornou-se inevitável”: dizer que ele “não podia dar mais um passo sem antes ouvi-la” acrescenta pouco. “O caminho” se repete em “trilha”, o “conflito interior” bem que poderia ganhar outro adjetivo que não “violento”, e “palmilhar”, pode ser implicância minha, mas é uma palavra que deveria ser banida do dicionário. O narrador logo depois informa que alimentou a voz “com desvelo e carinho verdadeiramente paternais”. Desvelo e carinho? E estamos só na primeira página do romance...
Escrito por Marcelo Coelho às 23h23
livros em banca de jornal
Tenho bastante antipatia por livros caros e de capa dura. Nos Estados Unidos, é quase uma regra: o lançamento vem em capa dura, e só mais tarde surgem as edições em “paperback” e em formato de bolso. No Brasil, a moda vai pegando. O livro, que era um artigo caro, vai-se transformando por vezes em puro artigo de luxo –coisa para se dar de presente, mais do que para comprar e ler. Fiquei feliz, assim, de topar numa banca de jornais com uma nova série de livros de bolso, editada pela Hedra –com alguns títulos que nunca tinha visto por aqui. Exemplos: uma antologia de poesia catalã, outra de poesia galega, outra de poesia basca... “Cultura Estética e Liberdade”, de Schiller (uma coleção de cartas entre Schiller e um príncipe dinamarquês, que constituem uma primeira versão das “Cartas sobre a Educação Estética do Homem”, segundo informa a extensa introdução de Ricardo Barbosa). Há também clássicos anarquistas e uma narrativa de Heine, “O Rabino de Bacherach”, com introdução de Marcos Mazzari. Cada volume sai entre 15 e 19 reais.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h02
O sexo vegetal Já escrevi sobre o poeta Sérgio Medeiros na “Folha" (leia aqui), a respeito de seu livro “Alongamento”, publicado em 2005. Leio agora seu último lançamento, “O Sexo Vegetal”. É mais um livro misterioso, como um céu coberto de nuvens muito escuras e mutáveis, que se ilumina por momentos e depois se cobre novamente. A comparação meteorológica vem ao caso num autor que é magnífico em registrar as mínimas nuances do tempo no decorrer de um dia. Em “Alongamento” havia coisas como a luz da manhã tropeça no morro e incha ou quando o vento sopra no morro a luz se levanta como um véu de areia e não assenta mais “Alongamento” descreve muitas cenas vistas de um apartamento à beira-mar. Em “O Sexo Vegetal” a paisagem é outra, de jardim, parque urbano ou de reserva florestal: --silêncio... palmas... --apenas sombras de galhos no escorregador: descem e sobem espontaneamente, como crianças Ou --a névoa enraíza tentáculos torcidos nos morros e cresce como grande arbusto, sedento de terra. Há também --em meio a folhas coloridas, uma palma seca boia na piscina depois da chuva, como um guarda-chuva fechado, soltando fios Os trechos citados adotam, como muitos outros do mesmo tipo, um título comum: “Décor”. Esses pequenos “cenários” se alternam, ao longo do livro, com curtas narrativas que ilustrariam casos daquilo que o autor chama de “sexo vegetal”; geralmente, as relações epidérmicas entre um ser humano e plantas de qualquer tipo. Assim, uma jovem que descansa na grama estaria praticando esse tipo de sexo: Uma moça nem magra nem gorda. Pedalava tenazmente numa estrada de chão nos arredores de Terenos quando viu um bosque junto a um portão fácil de abrir. Abriu o portão. Entrou no bosque caminhando. Nenhum cão ladrava: nem perto nem longe. O que era decerto raro naquela região. Sentou-se no capim. Logo se pôs de pé. Pedalou tranquilamente de volta para casa. Em casa (quando despia a calça) constatou que tinha as coxas cobertas de areia. Areia morena com alguns fiapos de grama. Como se tivesse livremente rolado no chão. Não se lembrava. Eis um tipo de obscuridade poética que não requer explicação. Os trechos denominados “décor” empregam a metáfora; nesta curta narrativa, a metáfora não é “escrita” pelo poeta; acontece de fato, na troca de semelhanças entre a moça e o chão: “areia morena com alguns fiapos de grama” é no que parte dela se transformou, e o poeta simplesmente registra o “fato” acontecido. 
Apolo e Dafne
Escrito por Marcelo Coelho às 15h33
Thomas Bernhard Alguns textos muito inquietantes de Thomas Bernhard, em seu livro “O imitador de vozes” , que comento no artigo da próxima quarta-feira. Hotel Waldhaus Não demos sorte com o clima e, à nossa mesa, sentaram-se convidados repugnantes em todos os aspectos. Até nosso gosto por Nietzsche conseguiram estragar. Mesmo depois do acidente automobilístico fatal, quando seus corpos jaziam na igreja de Sils, nosso ódio por eles ainda persistia. Credo! É uma espécie de Milan Kundera do Mal. Curioso, entretanto, que o texto faça presumir uma visita compungida ao velório. Receita Na semana passada, morreram cento e oitenta pessoas na cidade de Linz, todas elas acometidas da gripe que nesse momento grassa na cidade, mas não morreram da tal gripe, e sim em consequência de uma receita mal-compreendida por um farmacêutico recém-contratado. É provável que o farmacêutico tenha de responder à justiça por homicídio culposo, possivelmente, como o jornal noticia, ainda antes do Natal. Qual o efeito de um conto microscópico como este? Talvez o de uma piada que não provoca riso, mas sim espanto e dor. Estranho e cruel escritor, esse Thomas Bernhard. Sinto que poderia passar bem sem ele, e não diria o mesmo de Kafka, por exemplo. Mas talvez eu esteja errado.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h41
Poesia e solidão
Eis o desespero masculino transformado em poesia. Ela sempre passa por aqui, e me olha. Sabe que eu não deveria estar deitado neste capacho, que tudo isso é uma tolice enorme, que um homem não se faz com estas fraquezas, com estas pernas trêmulas, com esta boca seca e dolorida. Ela apenas se contenta em passar a mão na minha cabeça, como se eu fosse o seu menino, aquele que ela perdeu na barriga. É um poema de Heitor Ferraz, no livro Um a menos.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h18
dica de livraria
Para comprar livros nacionais na internet, costumo usar o site da Livraria Cultura, que tem aliás um link simpático: trata-se do programa “adote uma biblioteca”. Depois de feita a sua encomenda, eles sugerem uma série de livros que podem ser doados a bibliotecas perdidas nos cafundós do país. É uma boa forma de gastar dinheiro. Sem esse lado filantrópico, há uma livraria virtual que os interessados em psicanálise e ciências humanas podem visitar com proveito. Trata-se da Livraria Resposta, que toda semana manda por e-mail lançamentos nessa área, que nem sempre são noticiados na, hum, grande imprensa. Peguei boas indicações de livros nesse site.
Escrito por Marcelo Coelho às 14h30
Não te incomodar
Por falar nisso, eis um poema de Leonard Nathan, intitulado "não te incomodar": Não te incomodar com o amor, quero dizer, esses sonhos adolescentes de um grande, de um maior ainda, de um amor maior que todos, sem falar do tipo quebradiço e pessoal de amor –comparado, por exemplo, com o bem público ou com pensamentos muito mais duros sobre a morte, obliterando os pensamentos sobre o amor, ou meditações posteriores sobre o amor que se desenvolveu demais ou se desfez; e não ser irônico tampouco, não esquecer que chegamos sozinhos a este mundo e que o deixamos também sozinhos; e não exigir mais do que você pode dar, inseguro como sou daquilo que reivindico: alguma coisa como o amor, imagino: qualquer coisa daquelas cuja falta temos sentido tão longamente, tão fielmente, e com tanta ternura.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h34
Seleção Natural
Otavio Frias Filho está lançando uma coletânea de ensaios, com esse título, para a qual eu quis escrever o posfácio. Aqui vai o começo do meu texto. “Sua produção escrita”, diz Otavio Frias Filho a respeito dos textos de Victor Cunha Rêgo, publicista português de quem traça o perfil num dos ensaios deste livro, “sofreu as vicissitudes do texto jornalístico, que se comprime entre a véspera e o dia seguinte, demasiado preso a sua contingência”. Não há novidade nesse tipo de comentário: desde um clássico epigrama de Marcial (40?-102), tornou-se lugar-comum a ideia de que muita gente escreve em papel que vai embrulhar peixe no dia seguinte. Os artigos reunidos neste volume desmentem, e de certo modo reafirmam, em tom crispado, aquilo que o autor identifica nos artigos de Cunha Rêgo. Tudo seria bastante banal se enfocássemos o fato de que cada um desses textos, como diz Otavio Frias, “está demasiado preso a sua contingência”. Não está, nem era esse o espírito com que foi escrito. Desconfio, aliás, que nenhum jornalista abandona a ideia de estar escrevendo alguma coisa que irá durar mais do que o breve espaço de um dia. Todo jornalista sabe que, uma vez impresso, seu texto será testemunho de uma época para os anos que virão. Não seria jornalista se não desejasse isso. Aceitemos, entretanto, a “contingência” a que se refere o autor. O cerne de suas preocupações vai em outra direção, que a mesma frase sobre Cunha Rêgo indica com clareza. O texto de um jornalista, diz Otavio, “se comprime entre a véspera e o dia seguinte”. Essa ideia de “compressão” corresponde a uma experiência psicológica bem mais rica do que a da simples fugacidade. Passam-se os eventos, outros se sucedem, não haveria muito a se preocupar com tudo isso, se a atitude do autor fosse a mera indiferença diante do rápido girar do mundo. Mas a sensação de estar “comprimido” entre o dia de ontem e o dia de amanhã, entre o passado e o futuro, traz consequências muito mais alarmantes e dramáticas, e a meu ver esta coletânea de ensaios incorpora, na forma e no conteúdo, o que de desesperador e de estimulante existe em tal modo de relacionar-se com a História, com o cotidiano, com o tempo vivo dos homens. Se tivéssemos de apontar um único fenômeno, um tema básico, que seja capaz de mobilizar os interesses de Otavio Frias Filho (servindo como ponto de partida comum à maioria dos ensaios deste livro), não erraríamos ao dizer que é a possibilidade, por ele várias vezes entrevista, de uma “compressão máxima”, de uma colisão mesmo, entre “o dia de ontem e o dia de amanhã”. Nada mais rotineiro, com efeito, do que a sucessão dos dias, o prosaísmo de de toda segunda-feira depois de todo domingo. Causa e efeito, antecedente e consequente, marcha lenta do progresso histórico, sucessão dos acontecimentos: nada poderia trazer mais desencanto e tédio para este jornalista-escritor, sem embargo do seu estilo de pensamento, sempre lógico, claro, avesso a elipses e precipitações. O que fascina Otavio Frias Filho é o que pode haver de magicamente significativo, de premonitório e de sintético numa cena de filme, num outdoor publicitário, num acontecimento histórico específico. Para o autor, alguns momentos, alguns fenômenos, podem realizar a proeza de trazer em si mesmos seu próprio passado e seu futuro. Do mesmo modo que o célebre “aleph” de Borges, ponto no espaço capaz de concentrar em si mesmo todos os demais pontos do espaço, Otavio procura, em cada ensaio, o instante prodigioso em que passado e futuro, o dia de ontem e o de amanhã, sobrepõem-se numa espécie de cifra simultânea, capaz de cristalizar em si mesma, imobilizando-o numa cintilação estética, o transcurso arrastado e penoso do tempo. Alguns leitores deste blog às vezes me recriminam de prestar serviços "ao meu patrão". Otavio Frias Filho não é meu patrão. É quem me ensinou, mais do que tantos outros amigos, o valor que existe em ser amigo de alguém.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h40
Paisagem, de Horacio Costa “Grandeza” é uma qualidade que não se aplica habitualmente aos versos de um poeta moderno: a modéstia, a ironia, tendem a assumir o primeiro plano. Recebi pelo correio, entretanto, um livrinho de Horácio Costa, que é na verdade um poema longo e majestoso, escrito quando o autor estava na sala de espera do Hospital da Beneficência Portuguesa. Eis um pouco de sua solenidade, de sua grandeza, de sua poesia: ... as encostas lá embaixo, sulcadas entre bairros de espigões, talvez possam sugerir semi-aconcáguas aos do montanhismo entusiastas, que por aqui transitem e aos médicos, o vislumbre da distante cúpula da Catedral, cujos bronzes estão cobertos por cinábrio, o bimbalar mouco de sinos em toque fúnebre, que lhes imprima o significado da vida de cada um de seus pacientes: velhos imigrantes portugueses, mães nordestinas deixadas por seus machos, e o significado de minha vida em particular (...) O rigor da versificação se mistura com a espontaneidade da voz. Eis um grande poema. "Paisagem II" foi editado artesanalmente pelo Selo Demônio Negro, e o e-mail para contato com o editor, Vanderley Mendonça, está no colofão: vanderleymeister@gmail.com
Escrito por Marcelo Coelho às 14h37
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