Marcelo Coelho - Cultura e Crítica
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Livros

Mais Machado de Assis

Mais Machado de Assis

Outro lançamento em que estou metido. É que o Instituto Moreira Salles fez uma edição dupla de seus Cadernos de Literatura Brasileira, dedicada a Machado de Assis. O número vai ser lançado na Flip. Há textos de Antonio Candido, Carlos Heitor Cony, Alfredo Bosi, Cristóvão Tezza e Hélio Guimarães, entre outros.

Meu artigo analisa três fotos “clássicas” de Machado de Assis, e questiona um pouco os clichês em torno do “bruxo do Cosme Velho”. Mais fotos aparecem num ensaio fotográfico de Edu Simões, que vê no Rio de Janeiro contemporâneo os traços do Rio machadiano.

O Instituto Moreira Salles fará também uma exposição sobre a cidade de Machado de Assis. Primeiro abre no Rio, depois deve vir para São Paulo.

Para o segundo semestre, o IMS promete o mais completo volume iconográfico sobre o escritor, organizado por Hélio Guimarães e Vladimir Sachetta.

Escrito por Marcelo Coelho às 19h04

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capitalismo do desastre

capitalismo do desastre

Começo a ler um livro-sensação para quem é de esquerda, A Doutrina do Choque: A ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein. Estou ainda na introdução, mas começo a desconfiar. Será “capitalismo de desastre” um novo rótulo, do tipo “capitalismo tardio”, “pós-modernidade” etc.? Parece ser esta a intenção da autora.

 

Ela enfoca a mal-disfarçada euforia de investidores e teóricos do liberalismo depois do furacão Katrina ter destruído Nova Orleans. Cita Milton Friedman, que aos 93 anos tinha energia para escrever no Wall Street Journal:

 

A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas, assim como os lares das crianças que estudavam ali. As crianças agora estão espalhadas por todo o país. Isso é uma tragédia. Mas é também uma oportunidade para reformar radicalmente todo o sistema educacional.

 

Logo privatizaram todo o sistema educacional da cidade. Naomi Klein argumenta que esse tipo de “oportunismo” não é exceção. No Iraque, depois da operação militar do “Choque e Pavor”, veio o choque econômico do liberalismo radical.

 

Muito bem. Aí Naomi Klein passa a reconhecer essa “coincidência” numa série de acontecimentos dos últimos 35 anos, de modo a caracterizar um padrão que denomina de “capitalismo de desastre”.

 

Na China, em 1989, foram o choque do massacre da Praça Tiananmen e as prisões subseqüentes de milhares de manifestantes que facilitaram ao Partido Comunista a conversão de amplas partes do país em uma grande zona de exportação, suprida com uma força de trabalho excessivamente aterrorizada para reivindicar os seus direitos.

 

Não será exagero? Se os manifestantes da Praça Tiananmen tivessem vencido a batalha, é bem provável que a liberalização econômica total viesse ainda com mais rapidez.

 

Na Rússia, em 1993, foi a decisão de Boris Yeltsin de enviar os tanques para bombardear o Parlamento e prender os líderes da oposição que abriu o caminho para a escalada de privatizações e criou os notórios oligarcas do país.

 

Sempre pensei que o que tinha iniciado a desestatização russa foram a glasnost e a perestroika... Mas parece que Naomi Klein tem sempre de atribuir uma coisa de que ela não gosta –o liberalismo econômico—a outra coisa de que ela não gosta –algum massacre ou tornado. De novo, falta dialética nessa criticice toda.

 

O ataque da OTAN a Belgrado em 1999 criou as condições para as privatizações na antiga Iugoslávia –um objetivo que antecedeu a guerra.

 

O que criou toda a onda de privatizações do Leste Europeu, me parece, foi outra coisa: o colapso do socialismo soviético.

 

Psicanaliticamente, eu diria que Naomi Klein está apontando para uma série de desastres e bombardeios para não reconhecer que a privatização nasceu de outro desastre, que ela não pode admitir como tal. O desastre, para ela, foi a Queda do Muro...

 

Mas vamos ver como o livro prossegue.

Escrito por Marcelo Coelho às 02h09

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artes do Japão

artes do Japão

Em tese, é um livro para crianças mais velhas ou pré-adolescentes, bastante simples. Mas me ajudou a conhecer um pouco a respeito de artes tradicionais japonesas. Chama-se “Papel e Tinta”, foi escrito por Nereide Schilaro Santa Rosa, com apoio da Aliança Cultural Brasil-Japão.

 

Num bom formato e com muitas ilustrações, o livro fala de várias modalidades de trabalhos com papel e tecido que vão muito além do tradicional origami. Só conhecer o vocabulário desses gêneros artísticos já é um avanço, neste centenário da imigração japonesa. Aqui vão alguns dos capítulos principais. As obras apresentadas no livro são, em sua maioria, de artistas japoneses radicados no Brasil.

 

O Sumi-ê é aquela pintura em preto e branco, que cumpre executar rapidamente, jogando apenas com tons claros, escuros e médios, para criar a ilusão de bambus (símbolo do verão), ameixeiras (outono), crisântemos (inverno), e orquídeas (primavera):

 

 

 

 

O Chigiri-ê é uma colagem de papéis coloridos, finíssimos, superpostos e desfiados, que acabam criando um efeito semelhante ao de aquarela:

 

trabalho de Mary Lou Miller 

 

trabalho de Joan M. Matsui

 

Interessante ver que alguns pintores nipo-brasileiros, como Tadashi Kaminagai, parecem imitar o chigiri-ê no uso da tinta a óleo:

 

"Dia de outono", em exposição no Palácio dos Bandeirantes

 

O Kiri-ê é feito com papel recortado, e às vezes fica parecendo uma xilogravura.

 

trabalho de Allan Avidano: papel recortado.

 

Takô é a arte de fazer papagaios.

 

centopéia, do site de pipamodelismo do engenheiro Ken Yamazato

Escrito por Marcelo Coelho às 19h44

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A poesia em 1950

A poesia em 1950

Com direção geral de Edla van Steen, a editora Global lançou uma coleção muito bem-cuidada de antologias da poesia brasileira. Cada volume corresponde a um período da nossa história literária (arcadismo, romantismo, parnasianismo etc.).

 

A novidade está nos volumes que sucedem ao modernismo: optou-se por dividi-los em décadas, o que ajuda o leitor a ver as coisas mais de perto, e tira dos organizadores a camisa-de-força das escolhas inevitáveis, “antológicas”.

 

Assim, os anos 30 ficaram a cargo de Ivan Junqueira, os anos 40 com Luciano Rosa, os anos 50 com André Seffrin, e isso até os anos 2000, com poetas escolhidos por Marco Lucchesi.

 

Peguei para ler a antologia dos anos 50. Alguns nomes de peso, como Ferreira Gullar, Hilda Hilst e Mário Faustino acabam sendo, na verdade, raríssimas exceções. Na linha de uns posts mais antigos, a que chamei de “anti-antologia” poética, seleciono alguns traços comuns a vários autores presentes na seleção de André Seffrin, e que podem ilustrar os clichês de uma época. Talvez com isso fiquemos mais conscientes dos nossos.

 

Opala – Os poetas que começaram a publicar nos anos 50 estavam querendo recuperar o prestígio de um vocabulário “poético” que caíra em desuso a partir de 22. Sinal inequívoco de que estamos em 1950 e poucos é o surgimento de uma palavra como “opala”.

 

Uma visão da terra além da opala,

cambiando nesses olhos consumidos.

Em tristeza lunar adormecidos

tantos clarões da aurora de tua fala.

 

(“Cassandra”, de Maria Lúcia Alvim)

 

A labareda ávida a consumir-lhe

estava ali   Em lâmina e opala

a ferrugem e o eco retorcidos

 

(Ao rubro pendão do açoite

erguia-se um búfalo)

 

(“A labareda ávida”, de Max Martins)

 

 

Que amargura turba a tua luz?

Que perigo assedia teu perfume?

Que lâmina de aço ameaça teu espaço

de pétalas e sépalas de rubi e opala?

 

(“Meditação sobre uma rosa”, de Fernando Mendes Vianna)

 

 

O pássaro – Não há presença mais insistente, nestes poemas, que a do pássaro, ou melhor, o Pássaro, com P maiúsculo, que já aparecera num poema de Drummond, mais ou menos da mesma época, em que ele dizia não ter amado bastante o seu semelhante, salvo, talvez, “aquele pássaro –vinha azul e doido—que se esfacelou nas asas do avião.”   Não, o pássaro continuou incólume.

 

Um pássaro pousa no pasto.

Meu relincho o levanta.

 

(“Cantares”, in O centauro e a lua, de José Santiago Naud)

 

Pássaro! A expressão alada inventa o vôo

e sugere a intranqüila imagem: pássaro.

 

(“A forma e o vazio”, de Celina Ferreira)

 

Distingue-se do vento por ter asas

e cores impossíveis para o vento:

Voando pelo ar, vem livre e lento

unir-se à solidão de nossas casas.

 

Mas vento é,como disfarce e vôo,

o bojo de canções arremessado

em plumas pelo céu, equilibrado,

que a vida de ser leve transformou-o.

 

(“O Pássaro”, de Audálio Alves)

  

Paira no abismo o pássaro da crença

e o céu é tão ali que ouso tocá-lo.

Que notícia de aurora se condensa

toda, no canto estrídulo de um galo?

 

(“Canto 4”, de José Chagas)

 

O vôo do pássaro

é seu risco de angústia

no espaço

 

(“Pássaro do sono”, de Sanderson Negreiros)

 

No deserto da noite

modula-se a canção.

Um pássaro que foge

de sombria prisão.

 

(“Soneto em lá menor”, de Cláudio Murilo Leal)

 

Em outro registro, mais experimental, vem Haroldo de Campos:

 

(...) silêncio e som

dispássaros   pássaros  dispersos

                                      onde

 

se traça a bico

de pena esta

canora    partitura

 

(“Birdsong: alba”)

 

A idéia, naturalmente, é identificar a poesia com o canto; ou melhor, o Canto.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h32

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ofertas do México

ofertas do México

Quem estudava ciências humanas há coisa de vinte anos ou mais simplesmente não podia passar sem as traduções do Fundo de Cultura Econômica, editora mexicana que trazia “Economia e Sociedade”, de Max Weber, “Fenomenologia do Espírito”, de Hegel, “Paideia”, de Werner Jaeger, em traduções para o espanhol, muito antes de alguém se dispor a passar tais livros para o português.

 

O título da editora sempre foi inadequado –havia menos economia do que filosofia, história da arte e sociologia nas suas publicações. Contaram-me, uma vez, a razão do mistério. O nome da editora era para ser “Fundo de Cultura Ecumênica”, mas um erro de impressão nos primeiros livros da casa determinou a confusão já no batismo. Se é verdade, não sei.

 

Ponho este post para avisar que nos dias 20 e 21 de junho, na Livraria Azteca, da rua Bartira, ao lado da PUC, vai haver uma feira de ofertas dos livros do FCE, com ofertas até mesmo de R$ 2. Confira no site.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h33

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O destino do jornal (2)

O destino do jornal (2)

Um dado bem preocupante é o que aparece em outro livro sobre o futuro do jornalismo, Os Jornais Podem Desaparecer?, de Philip Meyer (editora Contexto). É uma estatística sobre as faixas etárias de quem lê jornal.

 

Entre os que nasceram antes de 1928, cerca de 75% eram leitores diários de jornal.

 

Dos que nasceram entre 1928 e 1945, a média ficou por volta de 70%.

 

Dos nascidos entre 1946 e 1964, menos de 50% lêem jornal todos os dias.

 

Os que nasceram depois de 1964 ficam abaixo de 30% nesse quesito.

 

Note-se que a pesquisa vem sendo feita desde 1985. E não adianta o sujeito envelhecer para que se torne mais interessado em ler jornal.

 

Em 1985, a faixa dos nascidos depois de 1964 tinha só uns 25% de leitores de jornal. Em 2002, a porcentagem é a mesma. Trata-se, segundo o autor, de um hábito geracional: majoritário entre os nascidos antes da guerra, minoritário depois.

 

Um blog interessante sobre o tema, o Greeleys Ghost, pode ser acessado aqui.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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O destino do jornal

O destino do jornal

Faço uma resenha, para sair sábado na Ilustrada, do livro O destino do jornal, de Lourival Sant’Anna (editora Record). Há dados e análises interessantes sobre a situação do jornalismo impresso no Brasil, embora seja cedo para arriscar muitas previsões a respeito de seu futuro.

 

Eis um raciocínio interessante, que nem sempre é a primeira coisa que vem à mente quando se pensa na lucratividade dos jornais:

 

Quanto mais longe o leitor morar, e quanto menos leitores houver na área onde ele mora, mais caro é levar o jornal até ele. Simplificando: levar um caminhão cheio de jornais para uma determinada região do interior de São Paulo pode valer a pena. Mas, se houver mais leitores potenciais na mesma região, que não encham um segundo caminhão, pode não ser lucrativo atendê-los. Os jornais consumidos em locais mais distantes têm um preço de venda avulsa e de assinatura mais alto do que na cidade –sede do jornal. Mas essa diferença não cobre o custo do aumento do transporte. Até porque, como assinalado anteriormente, o preço de venda do jornal –somando avulsa e assinatura—representa apenas cerca de 25% da receita do jornal. [outros 50% vêm de grandes anunciantes, e 25% de classificados]. ... Se o custo de levar o jornal para um ponto mais distante não trouxer um retorno publicitário condizente com o que a empresa considerar compensador, então a tendência será não atender à demanda do mercado naquele lugar.

 

Há, entretanto, que levar em conta o prestígio de ser um jornal de circulação nacional; o cálculo dos lucros e prejuízos na distribuição tem de ser ponderado com outro valor, de mais difícil aferição, que é o da importância e da credibilidade da marca. O que, naturalmente, atrai leitores mais qualificados (e anunciantes também). Mas, se os anunciantes mais qualificados passam a investir mais nesse jornal, o círculo vicioso se acentua: novamente as receitas publicitárias, sendo maiores, tornam ainda menos lucrativo o aumento da circulação em lugares distantes...

 

Outro círculo vicioso interessante é o das estatísticas sobre o tempo consumido na leitura dos jornais. Em 2001, segundo Sant’Anna, um leitor gastava 64 minutos diários para ler jornal. O dado deve ser um pouco exagerado, porque já em 2002 a média caiu para 51 minutos. Em 2006, a leitura nos dias de semana consome apenas 45,7 minutos.

 

Todos concluem, a partir daí, que o leitor tem menos tempo para ler jornal. O que não é incorreto, mas seria necessário saber no que ele gasta o tempo que deixa de dedicar à leitura. Pois também é um fato que, baseados na “falta de tempo” do leitor, os jornais procuraram tornar-se mais enxutos, fáceis de ler, cheios de gráficos e fotos. De modo que o problema inicial –cada vez se tem menos tempo—pode na verdade ser efeito da solução –faz-se um jornal que se lê em menos tempo...

 

O grande desafio, acho, não é fazer um jornal que se consiga ler em dez minutos, mas um jornal que não seja chato, que não nos dê vontade de largá-lo depois de dez minutos.

 

banco extensível do designer Charles Kaisin: "duro como madeira", diz.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h21

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Oito vezes fotografia

Oito vezes fotografia

Esta fotografia de Walker Evans foi tirada em 1936, durante sua viagem ao Sul dos Estados Unidos.

 

Notam-se desde logo algumas ironias nessa imagem. A notícia, não singularmente importante, de que o general Lafayette fez um discurso naquele lugar no ano de 1824 tem sua pretensão histórica contrastada com o prosaísmo dos serviços oferecidos mais de um século depois. Note-se que o anúncio de um estenógrafo público, quase na mesma altura e com dimensões semelhantes à placa comemorativa do discurso, acrescenta-lhe ainda um outro comentário: logo pensamos que não havia ninguém para estenografar o discurso de Lafayette em 1824... como se o avanço técnico tivesse chegado, no caso, tarde demais, com as palavras do famoso general definitivamente perdidas. Da esquerda para a direita, de qualquer modo, os dois cartazes fazem o percurso do passado histórico para um presente “técnico”, marcado pela pressa, em que pronunciamentos supostamente menos relevantes que os de Lafayette devam, ainda assim, ser registrados com exatidão.

 

No eixo vertical, de baixo para cima, a foto se divide em três níveis. O inferior é ocupado pelos dois cartazes de gêneros alimentícios; o nível intermediário, a que correspondem as placas “passado/presente”, do discurso e do estenógrafo, representaria o mundo da política, do trabalho, dos negócios, das atividades comerciais; no terceiro plano, o mais elevado, e abrindo-se de ponta a ponta da varanda, aparece o cartaz da escola de arte, simplesmente pairando acima tanto das necessidades materiais quanto dos afazeres públicos e privados da cidade. Certamente uma pretensão que o caráter modesto do conjunto novamente relativiza: sem contar que, em mais uma ironia, a representação das uvas, do abacaxi ou do repolho na placa FRUTAS-VERDURAS não depõe muito em benefício da escola de arte que –será?—instruiu o autor do cartaz.

 

Este é um trecho do artigo que escrevi sobre a foto de Walker Evans (e mais a questão dos cartazes populares), para um livro que acaba de sair pela Companhia das Letras, Oito vezes fotografia, que reúne ensaios de Alberto Tassinari, Antonio Cicero, Rodrigo Naves, Eugênio Bucci, Sylvia Caiuby Novaes, José de Souza Martins e Cristiano Mascaro. Cartier-Bresson, André Kertész e Sebastião Salgado são alguns dos fotógrafos analisados. 

Escrito por Marcelo Coelho às 22h19

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Junho de 1968 (2)

Junho de 1968 (2)

A maior parte do livro de Evandro Teixeira é dedicada ao grupo de cem pessoas que, identificadas na foto da Passeata dos Cem Mil, foram novamente fotografadas em 2008 e escrevem depoimentos geralmente curtos sobre sua participação naquele momento da luta contra a ditadura.

 

Em cada página, aparece a foto da pessoa em 1968 e a sua foto atual. Muitos homens engordaram, estão de terno e gravata, ficaram carecas; são, entretanto, plenamente reconhecíveis em sua maioria, apesar da falta de nitidez do antigo retrato, fortemente ampliado. Algumas mulheres mudaram totalmente; outras continuam quase iguais.

 

Há pessoas bem conhecidas no meio político, artístico e intelectual (Clóvis Brigagão, Eduardo Escorel, Carlos Zílio, Augusto Nunes, Moreira Franco, Gilberto Velho, Miguel Rio Branco, Heloísa Buarque de Hollanda, Alfredo Sirkis), e muita gente que, na administração pública ou em empresas estatais, manteve-se na militância de esquerda.

 

Embora muita gente se diga menos idealista, menos socialista, certamente menos revolucionária do que era em 1968, predomina em todos os personagens apresentados no livro um sentido de continuidade. Talvez os que realmente “mudaram de lado” não tenham sido encontrados, nem procurados, ou não tenham querido se manifestar.

 

A idéia geral que o livro transmite é que, apesar de tudo, ninguém se arrepende de ter estado ali, e que, por mais que se fale nas “ilusões” da juventude, estas não se perdem completamente. Constituem também o que seremos depois.

 

Uma consideração importante sobre 1968 vem da cientista política Nanci Valadares:

 

... foi o ano de 1968 que criou uma ponte entre o que fui e o que sou, ou melhor, entre o mundo que se insinuava e o que hoje existe. A geração 68 representa um fenômeno que acontece uma só vez no século, quando um grupo de jovens inicia sua vida política num mundo que se apresenta completamente diverso do que aquele vivido pelas muitas gerações que nos antecederam. Isso porque os acontecimentos culturais e políticos eram vividos, até então, dentro do campo nacional, enquanto, a partir de 1968, surge um vislumbre do global (...) Mas, enquanto agora se luta pela democratização do Planeta, a consciência da época se limitava ao conflito direto às convenções. Sem que se deslocassem os valores tradicionais dentro da estrutura familiar, educacional e política, o mindo que hoje queremos construir não teria uma linguagem comum em favor da igualdade de oportunidades, do respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente.

 

Sem dúvida, pouca gente de esquerda naquela época colocaria esses termos –igualdade de oportunidades, respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente—na lista básica de suas prioridades. A ideologia de esquerda era bem mais convencionalmente bolchevique do que o legado prático e existencial que ficou daqueles tempos. A teoria estava bem mais atrasada do que o tipo de organização e de experiência social que surgia naquelas manifestações; sem querer, a esfera política e cultural rumavam para a mesma direção, cada vez mais convergentes, sem que fosse possível conciliá-las teoricamente naquele momento. Os homens e mulheres entrevistados no livro parecem menos desencantados do que “decantados”; leva tempo para todo mundo encontrar seu próprio eixo. São, aliás, os sobreviventes de um período; houve quem tivesse perdido o eixo –e a vida—rapidamente.     

Escrito por Marcelo Coelho às 01h20

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Junho de 68

Junho de 68

Em 1968, Evandro Teixeira era fotógrafo do “Jornal do Brasil” (continua lá até hoje) e no dia 26 de junho recebeu a incumbência de acompanhar durante todo o dia o líder estudantil Vladimir Palmeira. “Havia boatos de que ele seria preso”, conta o fotógrafo.

“Estava certo de que enfrentaríamos mais um dia de violência no centro do Rio, mas esse acabou sendo um dos episódios mais tranqüilos na cobertura do movimento estudantil”.

 

Os conflitos entre estudantes e polícia em 1968 no Rio de Janeiro são narrados com rapidez e objetividade pelo jornalista Fritz Uzeri. No dia 28 de março, 25 soldados do Batalhão de Choque da PM invadiram o restaurante estudantil Calabouço, onde alguns alunos assistiam aula, outros jantavam e outros preparavam uma passeata de protesto contra as más condições do restaurante.

 

Os policiais entraram agredindo; os estudantes passaram a revidar com pedradas. “Foi nesse momento”, diz reportagem do JB, “que o tenente-comandante do pelotão sacou o revólver e atingiu Édson Luiz de Lima Souto, que, em companhia de Benedito Frasão Dias, assistia à aula.”

 

Os estudantes, continua Fritz Uzeri, saíram do restaurante carregando o corpo de Édson Luiz de Lima Souto e foram direto para a Assembléia Legislativa, onde o colocaram sobre uma mesa. O governo estava em polvorosa (Negrão de Lima era o governador), e o superintendente da Polícia Executiva, general Osvaldo Niemeyer (demitido no dia seguinte por Negrão) declarara que, ao invadir o Calabouço, a PM “viu-se inferiorizada em poder de fogo”.

 

O enterro de Edson Luiz, no dia seguinte, teve 20 mil pessoas, sem incidentes. Na segunda-feira, 1º de abril, os estudantes convocaram passeata de protesto contra a ditadura. O JB saiu com manchete condenatória: “Estudantes fazem o caos e anunciam nova passeata”. Houve depredações de lojas e bancos, carros oficiais foram virados. Fritz Uzeri comenta que os policiais eram deixados nas ruas desde de manhã, sem comida nem bebida, e à medida que o tempo passava, iam se enchendo de fome, ódio e frustração. O JB conta que, naquele dia, “O momento de maior violência (...) ocorreu quando o comandante de todo o dispositivo militar, coronel Célio Costa de Carvalho, retirou-se para o quartel, cerca de 19h30, e disse a seus comandados: Estou cansado, vou jantar. Agora vocês podem se divertir. Cerca de 400 policiais em estado de grande excitação passaram imediatamente a agir. Em grupos de dez ou 20 avançavam em quem estivesse à sua frente.”

 

Na missa de 7º. dia, a polícia atacou com golpes de cassetete e sabre os que assistiam à cerimônia. O comandante de uma tropa de cavalaria ordenou a seus soldados que desembainhassem as espadas para dispersar a multidão que, com uma fileira de 16 padres à frente, saía da igreja.

 

Mais uma passeata com violência no dia 19 de junho. No dia 21, a ‘sexta-feira sangrenta” houve 23 pessoas baleadas e 4 mortes, inclusive, conta Uzeri, o soldado da PM Nélson de Barros, atingido por um tijolo jogado de um prédio.

 

No sábado, 22, intelectuais, políticos, artistas e mães divulgaram um documento de protesto contra “o clima de terror militar existente na Guanabara”.

 

Foi nesse clima que o governador Negrão de Lima resolveu antecipar sua volta das férias de meio de ano e terminou autorizando, pela TV, depois de reunir-se com o comandante do I Exército, a manifestação que passaria a ter o nome de “Passeata dos Cem Mil”.

 

Foi no dia 26 de junho. Evandro Teixeira acompanhava Vladimir Palmeira, e tirou muitas fotos. Uma delas, tirada às onze horas, mostrava a vista que o líder estudantil tinha da multidão à sua frente. Não foi publicada no jornal. Em 1983, organizando um livro de fotojornalismo, Teixeira selecionou-a. Um casal amigo reconheceu-se na foto, lembrando a circunstância de nem sequer se conhecerem na época. Em outras ocasiões, mais e mais pessoas se reconheciam.

 

Daí veio a idéia de fazer o livro que acaba de ser publicado pela editora Textual, com apoio da Petrobrás.

 

Há fotos incrivelmente nítidas e movimentadas daquele dia. E, uma a uma, vão sendo identificadas cem pessoas que estavam naquela fotografia das onze horas: todas escrevem um depoimento, posando também para as lentes de Evandro Teixeira quarenta anos depois.

 

Quem eram, o que pensavam, o que dizem agora? Fica para o próximo post.

 

Foto de Evandro Teixeira, no livro 1968 Destinos 2008

Escrito por Marcelo Coelho às 00h55

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Cartões de Guignard

Cartões de Guignard

Hoje, no MAM (Parque do Ibirapuera), às 20h, será lançado um livro com fac-símiles dos 111 cartões que Alberto da Veiga Guignard mandou para suas duas irmãs, nascidas em Campinas, e sua musa, Amalita Fontenelle. O crítico Olívio Tavares de Araújo fará uma apresentação. Em outro volume, há uma série de estudos críticos sobre esse lado mais íntimo da obra do grande pintor. Guignard, como se sabe, tinha lábio leporino e sua vida sentimental não era nada invejável. Abaixo, três exemplos de suas comoventes expansões de afeto.

 

 

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 14h47

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Sonhos e azares de um arquiteto

Sonhos e azares de um arquiteto

O artigo desta quarta é sobre uma peça de Rui Tavares, historiador português que escreveu um ensaio premiado sobre o grande terremoto de Lisboa de 1755. Esta peça chama-se “O Arquiteto” e também fala de destruição.

 

De duas destruições, aliás, que conferem certamente ao arquiteto Minoru Yamasaki o lugar de grande azarado arquitetônico do século 20, como eu escrevi no artigo. Ele construiu o conjunto habitacional Pruitt-Ingoe, suposta obra-prima modernista que teve de ser implodida em 1972, e outra obra que também não resistiu aos ataques do entorno: o World Trade Center.

 

A “descoberta” de Rui Tavares, por assim dizer, está no fato de que Yamasaki tinha grande admiração pela arquitetura árabe, e havia sido autor de importantes obras na Arábia Saudita. A peça refere-se a um texto em que Yamasaki imagina o WTC como a “Meca do Capitalismo” e vai adiante, atribuindo ao arquiteto uma direta inspiração na fé muçulmana. O senso da ironia histórica é o mais forte nesse texto, que tem pouco de teatral a meu ver. Mas vale ler os trechos em que Yamasaki explica seu projeto:

 

MINORU YAMASAKI- (...) já há muito que sou um beduíno da arquitetura nas areias da casa de Saud. No fim dos anos 1950, fiz o aeroporto de Dahran. Eles gostaram tanto, que estamparam o edifício no dinheiro deles, nas notas propriamente ditas. Depois disso, a casa real me convidou para tudo o que era projeto, mas recusei quase tudo. Só aceitei três obras, criteriosamente escolhidas. O Banco Central em Riad, por exemplo: recusei o projeto há três anos. Disse-lhes: “até terminar o World Trade Center não aceito mais nada.” E não é que eles esperaram por mim? Abençoados sauditas!

 

(...) sabe por que eles gostaram das minhas obras lá? Por serem edifícios tão árabes (...) decidi que o aeroporto de Dahran iria ser inspirado nas tendas dos nômades: leves, fluidas, frescas. Comecei a estudar a arquitetura islâmica (...)

 

O próprio conceito de mesquita, de qualquer mesquita, é uma influência grande em um dos meus edifícios. Conseguem adivinhar qual?(...) Quais são,meus senhores, os princípios fundamentais de uma mesquita? (...) O perímetro, normalmente retangular, em torno de um pátio interior. E num dos cantos a torre, ou minarete (...) Ora, se olharmos para o norte, o que temos aqui? Temos a nossa plaza, delimitada por um quadrado de edifícios (...) E temos o nosso minarete, que na verdade são dois, ou melhor, duas torres, que, acumulando gente, ajudam a liberar espaço para o nosso pátio interior, onde podemos ter sombra, fontes de água e uma escultura central. Isso não os faz lembrar de nada?

 

(...) Esta será a Meca do capitalismo. Gente de todo mundo virá aqui para fazer negócio,para conversar. E esta praça será a praça do entendimento, da paz, da boa vontade.

 

FAZLUR RAHMAN KHAN

 

E a escultura no centro é a kaaba. A pedra sagrada dos muçulmanos. Acertei?

 

Resposta irresistível: é, acertaram em cheio.

Sobre o assunto, vale ler um texto da revista Slate neste link., de onde tirei a foto da praça central do WTC:

praça central do WTC

 

Aeroporto projetado por Yamasaki em Dahrein

 

cédula saudita em homenagem à obra

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h43

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W. G. Sebald, Pasternak, estações de trem

W. G. Sebald, Pasternak, estações de trem

Leio em vários lugares os maiores elogios ao escritor UOL Busca W. G. Sebald (1944-2001), de quem a Companhia das Letras publica Austerlitz, não sei se bem romance ou escrito autobiográfico, que começo a ler agora. Já disseram que, com Sebald, a literatura mais recente pode por fim encontrar uma grandeza semelhante à de autores como Proust, Joyce e Thomas Mann.

 

É uma expectativa e tanto para quem abre as páginas de um livro. A prosa do autor é surpreendentemente simples e direta, encadeando reminiscências e conversas sobre as quais pesa, como uma sombra, a barbárie imensa da história européia. O mais fascinante, do ponto de vista literário, é o tom indefinível de tristeza que o estilo de Sebald transmite desde o início. Tristeza? A palavra é subjetiva demais: as coisas vão sendo contadas e discutidas sem nenhuma paixão, sem nenhum colorido, sem sequer a estranheza em “branco e preto” da prosa kafkiana.

 

Não se trata, obviamente, de literatura fantástica, mas tampouco de literatura realista: é “literatura objetiva”, se dá para dizer assim, em torno da qual parece pairar não sei que aura de inverdade. Para isso contribuem as fotos e ilustrações que acompanham o livro, como se o autor necessitasse provar que tudo aquilo a que se refere existe de verdade.

 

Sebald (ou seu amigo Jacques Austerlitz, cujas conversas rememora) faz diversos comentários sobre a arquitetura metropolitana européia de finais do século 19, a começar pela monumental estação ferroviária de Antuérpia. Algumas páginas adiante, são as gares de Paris que entram em discussão. Austerlitz

 

costumava visitar quase diariamente uma das grandes estações, em geral a Gare du Nord e a Gare de l’ Est, sobretudo de manhã ou à noite, para observar as locomotivas a vapor que ingressavam no pátio de vidro negro de fuligem ou o suave deslizar dos misteriosos vagões-leitos, esplendidamente iluminados, que rumavam noite adentro como navios na imensidão do mar. Não raro ele ficara à mercê das mais perigosas e para ele totalmente incompreensíveis correntes de emoção nas estações parisienses, que ele, como dizia, considerava lugares a um só tempo de felicidade e infelicidade.

 

Este trecho me lembrou um poema de UOL Busca Boris Pasternak, que ponho aqui a partir da tradução francesa de Alexandre Schick (editora Pierre Seghers):

 

A ESTAÇÃO DE TREM

 

A estação de trem –o cofre-forte

Das minhas despedidas, dos reencontros, e das despedidas,

Amiga fiel e conselheira,

Quantos serviços me prestou!

 

Antigamente –toda minha vida se prendia a um cachecol,

Desde que eu pudesse pegar o trem,

E como harpias amordaçadas

As nuvens de vapor enevoavam os meus olhos.

 

Antigamente –desde que me sentava ao lado dela—

Psiu! –eu me inclinava para ela e me erguia:

Adeus, está na hora, vida minha!

Certo, estou descendo, bilheteiro!

 

Antigamente –eram as tempestades e os trilhos

Que me entreabriam o espaço,

E os flocos de neve me riscando a pele

Impediam que as juntas dos vagões me pegassem.

 

O apito se repete e se perde.

Ouvimos de longe como um eco, um outro ainda—

E o trem já é um turbilhão, os vagões

Passam como uma monção curvada e surda.

 

O crepúsculo se impacienta,

Engolindo a fumaça de perto,

O campo e o vento a seguem.

Ah, como eu gostaria de estar com eles!

 

Foto tirada durante a grande inundação de Paris de 1910.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h44

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A cabeça dos italianos (2)

A cabeça dos italianos (2)

 

Muita coisa tipicamente italiana talvez não seja tão típica quanto Beppe Severgnini parece acreditar, em seu A cabeça do italiano (ver post anterior). Mas com certeza não é em qualquer shopping center do mundo que se pode ouvir uma mulher, no alto do terceiro andar, chamar pelo marido no térreo: “Maaaariooooooo...” O autor diz que isso acontece por lá.

 

Há nisso, certamente, um misto de domesticidade e ópera, que só se pode chamar de italiano. Uma informação interessante, que consta do livro, pode ter algo a ver com isso. É que, ao contrário do que acontece em muitos países, oito entre dez famílias italianas moram em casa própria.

 

Lembro de “A Família”, filme de Ettore Scola, em que várias gerações se sucediam no mesmo apartamento. Quem sabe essa sensação de “estar em casa”, de ser dono dos próprios domínios, e de encarar o pátio interno e a rua como extensões da própria moradia, ajude a explicar a sem-cerimônia italiana em lugares públicos.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h40

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A cabeça dos italianos

A cabeça dos italianos

Pode ser efeito da globalização. Mas o interesse pelas características nacionais parece ser mais intenso ultimamente. Não chega a ser contraditório. Todos os povos vão ficando mais parecidos do ponto de vista cultural, e justamente por isso as pequenas diferenças se tornam mais visíveis, mais conhecidas, mais intrigantes.

 

Estou acabando de ler A cabeça do italiano, do jornalista UOL Busca Beppe Severgnini (ed. Record). O texto é agradável, sorridente, tolerante, sem a paixão ou o desespero que teria um livro do mesmo gênero escrito por argentinos ou mexicanos.

 

Tudo tem um tom de crônica, levando-nos a uma viagem imaginária de dez dias pela Itália, de Milão até a Sardenha.

 

Quer dizer que vocês pretendem ficar dez dias? Vamos combinar o seguinte: a cada dia de viagem, examinamos três lugares. Há os clássicos, aqueles de que todos falam muito, talvez porque são pouco conhecidos. [será que a tradução está correta?]

Comecemos pelo aeroporto, já que estamos aqui.

 

Seguem-se anotações bem-humoradas sobre a mania dos italianos de gritarem no celular, o alívio que sentem ao passar ilesos pela alfândega, a teatralidade das desavenças conjugais em público.

 

OK, mas como sempre nesse gênero de textos sobre o “caráter nacional” desta ou daquela população, há muito impressionismo e falta de dados concretos. Seriam só os italianos que se sentem aliviados quando não são pegos pela polícia aduaneira? Ou será que o autor, italiano, sabe ler melhor as expressões faciais de seus compatriotas? Ou, ao contrário, quanto do que ele vê está sendo imaginado, servindo apenas para reforçar as próprias idéias preconcebidas que possui a respeito dos italianos?

 

Naturalmente, há coisas comuns na Itália (Severgnini fala especificamente de Nápoles) que valem para o Brasil do mesmo jeito: a fila dupla, o desrespeito às faixas de pedestres. E há coisas que Severgnini insiste em fazer parecer tipicamente italianas, mas são absolutamente comuns a qualquer parte do mundo: o silêncio contrangido entre vizinhos quando se encontram num elevador, ou a compra de bobagens de última hora, por impulso, quando estamos numa fila de supermercado.

 

O livro melhora quando surgem (raramente) algumas estatísticas significativas, que dão particularidade à Itália em relação a outros países europeus. Na Itália (mas também na Espanha) metade dos pais vive com filhos adultos. A proporção é incrivelmente menor entre os países, chegando a apenas 19% na Noruega. Daí a expressão “mammoni”, para os marmanjos que ainda moram com as mães.

 

Outra coisa curiosa: os italianos bebem, mas não caem de porre nas ruas como seus vizinhos mais ao Norte. Segundo o autor, os cartões de crédito não fazem o mesmo sucesso na Itália do que em outros países.

 

E há o caso Berlusconi. Um célebre aspecto de sua presença no poder é o fato de ele ser ao mesmo tempo dono de emissoras de televisão, e legislar como bem entende sobre o assunto. Não haveria aí uma incompatibilidade ética, ou um “conflito de interesses”, como diz Severgnini? Ele diz que isso passa batido os italianos, por vários motivos.

 

a incômoda posição de Berlusconi não será enfrentada enquanto os italianos não a considerarem um problema. É claro, os italianos não a considerarão um problema se a televisão não lhes disser que é, e aí está precisamente o xis da questão do conflito de interesses.

 

De resto, a sociedade italiana está permeada de situações desse tipo.

 

Os bancos oferecem aos poupadores seus próprios produtos financeiros. Jornalistas administram agências de mídia [assessorias de imprensa?] Arquitetos se elegem para comitês de planejamento urbano. Professores dão aulas particulares para seus próprios alunos em escolas públicas.

 

Como assim? Bancos deveriam ser impedidos de oferecer aos poupadores seus próprios produtos financeiros? Essa é nova para mim. Mas o autor, que colaborou para a The Economist por vários anos, deve saber do que está falando.   

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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PERFIL

Marcelo Coelho Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

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