Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Livros

Dois poemas de W. Szymborska

 
 

Dois poemas de W. Szymborska

 

 

Copio aqui versos de Wislawa Szymborska, na tradução de Regina Przybycien, que comentei um pouco no artigo de quarta-feira.

 

A mulher de Lot

 

 

Dizem que olhei para trás curiosa.

Mas quem sabe eu também tinha outras razões.

Olhei para trás de pena pela tigela de prata.

Por distração –amarrando a tira da sandália.

Para não olhar mais para a nuca virtuosa

do meu marido Lot.

Pela súbita certeza de que se eu morresse

ele nem diminuiria o passo.

Pela desobediência dos mansos.

Alerta à perseguição.

Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.

Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.

Senti em mim a velhice. O afastamento.

A futilidade da errância. Sonolência.

Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.

Olhei para trás por receio de onde pisar.

No meu caminho surgiram serpentes,

aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.

Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia

serpenteava ou pulava em pânico consorte.

Olhei para trás de solidão.

De vergonha de fugir às escondidas.

De vontade de gritar, de voltar.

Ou foi só quando um vento me bateu,

despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.

Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma

e caíam na risada, uma vez, outra vez.

Olhei para trás de raiva.

Para me saciar de sua enorme ruína.

Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.

Olhei para trás sem querer.

Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.

Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.

Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.

E foi então que ambos olhamos para trás.

Não, não. Eu continuava correndo,

me arrastava e levantava,

enquanto a escuridão não caiu do céu

e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.

Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.

Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.

É concebível que meus olhos estivessem abertos.

É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.

 

 

Paisagem com grão de areia

 

 

Nós o chamamos de grão de areia.

Mas ele mesmo não se chama de grão, nem de areia.

Dispensa um nome

geral, particular,

passageiro, permanente,

errado ou apropriado.

 

De nada lhe serve nosso olhar, nosso toque.

Não se sente olhado nem tocado.

E ter caído no parapeito da janela

é uma aventura nossa, não dele.

Para ele é o mesmo que cair em qualquer coisa

sem a certeza de já ter caído,

ou de estar ainda caindo.

 

Da janela há uma bela vista para o lago,

mas a vista não vê a si mesma.

Existe neste mundo

sem cor e sem forma,

sem som, sem cheiro, sem dor.

 

Sem fundo o fundo do lago

e sem margem as suas margens.

Nem molhada nem seca a sua água.

Nem singular nem plural a onda

Que murmureja surda ao seu próprio murmúrio

ao redor de pedras nem grandes nem pequenas.

 

E tudo isso sob um céu por natureza inceleste,

no qual o sol se põe na verdade não se pondo

e se oculta não se ocultando atrás de uma nuvem insciente.

 

O vento a varre sem outra razão

que a de ventar.

 

Passa um segundo.

Dois segundos.

Três segundos.

Mas são três segundos somente nossos.

 

O tempo correu como um mensageiro com notícias urgentes.

mas isso é apenas um símile nosso.

Uma personagem inventada, a sua pressa imposta

e a notícia inumana. 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h17

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Em busca do sentido

 
 

Em busca do sentido

Continuo lendo “Em busca de sentido”, livro de Viktor Frankl sobre sua experiência nos campos de concentração nazistas.

 

"A maioria [dos prisioneiros] preocupava-se com a questão: “Será que vamos sobreviver ao campo de concentração? Pois, caso contrário, todo esse sofrimento não tem sentido.” Em contraste, a pergunta que me afligia era outra: “Será que tem sentido todo esse sofrimento, toda essa morte ao nosso redor? Pois, caso contrário, afinal de contas, não faz sentido sobreviver ao campo de concentração.”

 

 

Ele desenvolve essa questão num raciocínio que não deixa de ter forte conotação religiosa.

 

Não há sentido apenas no gozo da vida, que permite à pessoa realizar valores na experiência do que é belo, na experiência da arte ou da natureza. Também há sentido na vida que –como no campo de concentração—dificilmente oferece uma chance de se realizar criativamente e em termos de experiência (...)

Faz muito que o recluso está privado de realizar valores criativos. Mas não se encontra sentido apenas na realização de valores de criação e experiência. Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá."

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 20h56

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Audácia

 
 

Audácia

"É preciso muita audácia para publicar o primeiro romance lésbico rural das letras brasileiras: Shangrilá, de Marina Porteclis. Ou o primeiro romance a mostrar uma cigana lésbica: Os caminhos de Lumia, de Lara Orlow."

Leio estas informações num release da editora Brejeira Malagueta, especializada em livros de temática homossexual feminina.

Mas esse gênero de prioridade corre o risco de não ter fim. Será que já foi escrito o primeiro romance sobre trapezistas lésbicas? Aeromoças lésbicas, talvez? Freiras lésbicas, certamente. Garçonetes. Fisioterapeutas? 

Há muito futuro pela frente.

Escrito por Marcelo Coelho às 18h09

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Infelicidade gasosa

 
 

Infelicidade gasosa

Em sentido figurado, se poderia dizer que o sofrimento do ser humano é como algo em estado gasoso. Assim como determinada quantidade de gás preenche um espaço oco de modo uniforme e integral, não importando as dimensões desse espaço, o sofrimento, seja grande ou pequeno, ocupa toda a alma da pessoa humana, o consciente humano.

         Daí resulta que o “tamanho” do sofrimento humano é algo bem relativo; resulta, ainda, que algo quase que insignificante pode causar a maior das alegrias, como foi, por exemplo, na ocasião em que viajávamos de Auschwitz para um dos campos filiais em Dachau, na Baviera.

         Nossa ansiedade crescia à medida que o trem se aproximava daquela ponte sobre o Danúbio pela qual, segundo diziam companheiros com anos de experiência em campos de concentração, ele teria que passar assim que se desviasse da linha principal, caso se dirigisse a Mauthausen.

         Quem ainda não passou por algo semelhante só acreditaria se pudesse ver os prisioneiros dançando de alegria ao perceber que o transporte se dirigia “apenas” para Dachau.

 

Este é um trecho de Em busca de sentido, livro do psiquiatra (e sobrevivente do nazismo) Victor Frankl, que já tem mais de vinte edições no Brasil. Estou lendo para preparar um texto sobre o DVD de Shoah, documentário de Claude Lanzmann sobre o extermínio, para a “Ilustríssima”.

 

Frankl desenvolveu uma teoria terapêutica, em tese uma superação da psicanálise, a partir de suas experiências no campo. Vou aos poucos citando os trechos que me parecem mais significativos e comentando quando der.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h59

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Títulos infames

 
 

Títulos infames

O ano ainda não acabou, e portanto ainda há tempo para vencer o concurso de pior/melhor título de livro de 2011.

Eis um forte concorrente, na categoria de melhor título péssimo:

Dedos não brocham, de Alessandra Safra.

“coleção de textos que são armadilhas lascivas cheias de questões universais”, segundo o release.

Sugestões para o concurso são bem vindas.

Escrito por Marcelo Coelho às 13h21

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Memórias de Hitchens

 
 

Memórias de Hitchens

Acabo de ler “Hitch-22”, autobiografia do polemista inglês Christopher Hitchens. Qualquer artigo ou livro dele é divertimento na certa, mesmo que o assunto sejam os conflitos na Bósnia ou a guerra do Iraque. E mesmo que, como no caso destas memórias, muitas de suas farpas e alusões a personagens da vida política inglesa se percam para o leitor brasileiro.

 

Ele é uma espécie de Paulo Francis muito melhorado, com um grau de sofisticação e densidade informativa incomparáveis. Assim como Francis, começou de esquerda e foi ficando de direita com o tempo. Mas Hitchens não cai na estupidez de fazer piadas racistas e se orgulhar de preconceitos cretinos, como fazia Paulo Francis.

 

Hitchens começou trotskista, como Francis, se não me engano. E fico pensando por que razão tantos trotskistas terminam de direita. Os velhos comunistas do partidão, embora até gostem de ficar de direita, costumam manter certa “linha de conduta”.

 

Há várias respostas para isso. Acho que os trotskistas têm, por exemplo, especial interesse pela política internacional –e com o tempo o “mundo real” termina por fasciná-los mais do que valores igualitários que se possam aplicar no interior de cada nação.

 

Também podemos dizer que os comunistas “já” eram de direita há muito tempo, desde jovens acostumados a obedecer, a transigir, a aliar-se com o demônio. O trotskista, mantendo sua independência crítica, logo se cansa de ver não apenas os comunistas, mas a esquerda em geral, fazendo um jogo conciliatório –e, por horror à conciliação, acaba aderindo de vez.

 

Hitchens argumenta com grande contundência a favor da intervenção americana no Iraque e da derrubada de Saddam. Mas será que são necessárias tantas páginas, em suas memórias, para nos convencer de que Paul Wolfowitz é um cara legal?

 

Um defeito do livro, aliás, é a quantidade de vezes em que Hitchens cita o nome de algum figurão, antecedendo-o com as palavras “meu amigo”. Há um bocado de “name-dropping” no livro –embora ele tenha, de fato, a religião da amizade. As páginas que escreve sobre seus amigos Martin Amis e James Fenton são memoráveis, e repletas de boas anedotas.

 

Outro problema do polemista/jornalista é que, no fundo, as memórias não são um gênero adequado para esse tipo de mentalidade. Hitchens começa bem o livro, descrevendo sua família, e o supreendente suicídio da mãe. Mas não demora muito para ele se engajar menos nas recordações e mais nos assuntos objetivos que o mobilizaram a cada momento da vida –de sua viagem a Cuba na juventude ao regime de Saddam. Logo sentimos que estamos lendo mais um artigo sobre o Iraque do que as memórias do autor.

 

Seria modéstia, não fosse outra coisa: falta reflexão, experiência e autocrítica no livro. Hitchens raramente para, toma fôlego e tenta analisar por que ele era de um jeito e ficou de outro, em que tudo é igual, em que tudo é diferente. O espírito da época, o que foi casar, ter filhos etc., nada disso merece grande consideração. Ele está no presente sempre, mesmo quando fala do passado.

 

Mas o talento para a graça, para a provocação, para a cacetada “en passant” nunca desaparece. E “Hitch-22” é uma lição para todo jornalista sobre a difícil arte de nunca ser chato.

 

A fumaça do cigarro, prolongando-se à mecha do cabelo, faz da foto uma bela escolha para a capa do livro. Hitchens passa por um tratamento para o câncer. 

Escrito por Marcelo Coelho às 16h42

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Apoiando Hitler

 
 

Apoiando Hitler

         Saiu em 2001 na Inglaterra, mas só agora aparece a tradução pela editora Record. Apoiando Hitler, de Robert Gellately, tem como subtítulo “Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista”, e busca entender por que, afinal, tantos alemães apoiaram o regime de Hitler.

         A pergunta é essencial, mas depende de como é interpretada. Acho interessante investigar, por exemplo, se todos (ou quantos) alemães estavam “fanatizados”; quantos ficaram com medo de expressar alguma oposição; quantos concordavam com algumas coisas do nazismo mas não com todas; em suma, a uniformidade e a intensidade do apoio dado a Hitler. Variava de época para época? De região para região? Do que sabiam? Do que não sabiam

         Claro, o que está em jogo é a culpa dos alemães, ou, se não gostarmos da palavra, sua responsabilidade pelo que aconteceu. Não tanto para acusá-los agora, mas também para saber, afinal, com o que uma “pessoa comum” é capaz de consentir, em determinadas circunstâncias. E o que eu ou você teríamos feito em circunstâncias parecidas.

         Só que estou na página 185 do livro (que tem 500) e, até agora, nada vai por aí. A metodologia de Gellately desmente o título, na maior parte do tempo. Em vez de tentar saber o que pensavam os alemães, Gellately concentra-se em documentos oficiais –e em artigos de imprensa, totalmente censurada e manipulada pelo governo.

         Gasta dezenas e dezenas de páginas mostrando como a polícia se encarregou de prender criminosos, matá-los sem qualquer julgamento, exterminar mendigos e comunistas. Claro que os fatos impressionam –decidiu-se que a polícia (a Gestapo e a Kripo) poderiam rever, para pior, as sentenças de qualquer tribunal. Advogados, nem pensar. Era um esquadrão da morte permanente.

         Gellately conta tudo isso a partir de um pressuposto, o de que a população queria menos crimes e menos mendigos nas ruas.

         Então, esse tipo de terror era apoiado pela população, pelos “cidadãos de bem”.

         Não fica tudo de cabeça para baixo? A questão é saber se, como, e em que momento, “cidadãos de bem” apoiaram entusiasticamente a monstruosidade mais explícita. Não que a monstruosidade era compatível com os hábitos e desejos de cidadãos de bem.

         Uma abordagem mais clássica do problema investigaria, ao contrário, o quanto havia de monstros sob a capa do “cidadão de bem”. E a que instintos mais primitivos e bárbaros, em vez do desejo de lei, ordem e civilização, Hitler estava apelando.

         Essa hipótese parece ser descartada de início por Gellately, em proveito de uma espécie de “nazismo de resultados” e de uma abordagem puramente administrativa, se é que isso é possível, dos procedimentos policiais do nazismo.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h41

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Cenas de um casamento

 
 

Cenas de um casamento

No dia 7 de setembro de 1841, o poeta Heinrich Heine (ver post anterior) travou um duelo com o comerciante Salomon Strauss, cuja condição de marido traído havia satirizado no ano anterior.

Heine “saiu-se com um tiro de raspão na coxa direita e casado com Augustine Crescence Mitrat, a bela e jovem grisette que ele havia na Passage des Panoramas (Paris) em 1834. Vivia com ela, desde então, num relacionamento ardente e conturbado que ele resolveu oficializar, uma semana antes do duelo, para assegurá-la financeiramente, na eventualidade de sua morte”.

Continuo a citação do posfácio a Heine-Hein?, notável antologia dos textos do poeta alemão.

 

Filha de uma camponesa mãe-solteira que a enviou adolescente à capital para trabalhar na sapataria de uma tia, Crescence era uma mulher simplória, temperamental, gastadeira e sem a menor vocação doméstica –um “Vesúvio do lar”, segundo Heine (...) Ela não desconfiava da ascendência judaica do companheiro e nem tinha noção exata de sua fama literária, o que era motivo de riso para os amigos de Heine, mas muito o enternecia: “Ela me ama da forma mais pessoal, e a crítica não tem nada a ver com isso!” Seu inseparável bichinho de estimação, o papagaio Cocotte, era alvo constante do ciúme e irritação de Heine, que, sofrendo de hipersensibilidade auditiva, chegou a atentar contra a vida do pássaro, para em seguida lhe comprar outro. Mathilde sobreviveria ao marido 27 anos, vindo a falecer, sem nunca ter se casado novamente, em 1883, no dia da morte do marido, e cercada por 60 papagaios.

 

Sessenta papagaios por um poeta; a conta é alta. Não sei se Mathilde deixou de casar-se novamente por fidelidade ao marido, ou se a quantidade de papagaios assustou os possíveis pretendentes. Mas não duvido de sua fidelidade aos papagaios.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h37

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uma cantada de Sartre

 
 

uma cantada de Sartre

Estou terminando de ler “A Lebre da Patagônia”, autobiografia de Claude Lanzmann, que já citei em post anterior.

Lanzmann foi amigo de Jean-Paul Sartre e viveu praticamente casado com Simone de Beauvoir durante sete ou oito anos, num tipo de relacionamento que não excluiu a convivência, já não mais sexual, entre Sartre e Simone.

Para “boucler la boucle”, como dizem os franceses, Sartre se interessou pela irmã de Lanzmann, a atriz Évelyne Rey.

Eis como Lanzmann descreve o primeiro encontro entre os dois, após a representação de uma peça de Sartre da qual Évelyne era uma das principais atrizes. (Lanzmann e Simone se cutucavam durante a representação, adivinhando o que se passaria no jantar depois da peça).

 

Sartre tinha tudo o que era preciso para seduzir Évelyne, ele a elogiava por razões articuladas, encaixadas, aferrolhadas umas às outras. Ver em ação essa formidável máquina de pensar, aquelas bielas e pistões lubrificados aumentando de potência até o regime máximo, deixava o interlocutor pasmo de admiração, ainda mais se o objetivo dessa lógica irrefutável e apaixonada era elogiar o interlocutor. Os inimigos de Sartre caçoaram de sua feiura, do seu estrabismo, caricaturaram-no como um sapo, gnomo, criatura imunda e maléfica, sei lá que mais... Eu via nele uma beleza, um encanto poderoso, gostava da energia extrema de sua atitude, da sua coragem física e, acima de tudo, daquela voz de aço temperado, encarnação de uma inteligência sem réplica. Portanto não me espantei quando minhas previsões se verificaram e minha irmã começou a amá-lo. Ele, por sua vez, amou-a loucamente.

 

Sem dúvida, Lanzmann amou Sartre do mesmo modo, pelas mesmas razões que ele atribui ao amor que sua irmã teve pelo filósofo. Sem sexo, evidentemente –o que é prova que o aspecto físico do amor é em última análise secundário.

 

Sartre e Evelyne Rey

Escrito por Marcelo Coelho às 01h37

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testemunhos de guerra

 
 

testemunhos de guerra

Num artigo sobre a literatura inspirada pela guerra de 1914-1918, publicado domingo na “Ilustríssima”, mencionei um livro recém-lançado no Brasil. Trata-se de “Vozes Esquecidas da Primeira Guerra Mundial”, de Max Arthur. Reúne depoimentos de soldados e oficiais que testemunharam, para o Arquivo de Som do Museu Imperial da Guerra, suas experiências no front.

 

Alguns trechos.

 

Os ratos costumavam roer nossa ração à noite. Furavam qualquer coisa em que a acondicionássemos, a menos que fosse em um recipiente de metal. Mas os ataques de gás acabaram com eles. Certa vez, vimos dúzias e dúzias se arrastando de barriga pelo chão. Enfiávamos a ponta do pé embaixo deles e os jogávamos para dentro da vala. Apesar do gás, dois cisnes viviam na vala e subiram no parapeito sem aparentar nenhuma seqüela.

 

(artilheiro Leonard Ounsworth, 124ª. Bateria de Campanha Pesada)

 

 

Os franceses tiravam as camisetas à noite e passavam a bainha perto da chama da vela que tínhamos nos abrigos, o que produzia uma série de estalidos. Matavam os piolhos assim e os tiravam da camisa. Achamos muito divertido vê-los fazer isso; estávamos livres de pragas a essa altura e não sabíamos o que eram piolhos. Na manhã seguinte, porém, estávamos cheios deles. Ficamos infestados de piolhos e passamos a ter a mesma distração dos franceses em seu problema com essa praga.

 

(soldado Murray, da 2ª. Divisão americana)

 

[Um poema descrevendo a matança de piolhos à luz de candeias, de Isaac Rosenberg, é talvez uma das imagens mais poderosas de toda a guerra.]

 

Estávamos recebendo novos recrutas de Londres, e certo dia nos enviaram dois jovens, entre 16 e 17 anos. Fazia apenas duas semanas que estavam conosco quando, de repente, tivemos de fazer um ataque.

 

Os dois jovens, quando souberam que faríamos esse ataque, caíram literalmente em choro convulsivo. (...) Quando nos lançamos ao ataque, nós os perdemos de vista, mas o fato é que eles já haviam debandado e foram pegos pela polícia militar a cerca de 4 ou 5 quilômetros de onde os combates estavam sendo travados.

 

Os dois jovens foram trazidos e postos bem no fim da formação, perto do oficial. Seus quepes foram tirados, e todas as insígnias do regimento foram arrancadas. (...)

 

Como os dois jovens haviam sido do meu pelotão, decidimos fazer um sorteio. Aqueles que fossem sorteados –quatro deles—sabiam o que teriam de fazer às 8h da manhã seguinte.

 

Na manhã seguinte, os dois jovens foram levados para um pátio vendados. Cada um dos quatro homens do meu pelotão que iriam fuzilá-los recebeu suas balas. Divididos em dois pares, disseram-lhes que que cada qual deveria atirar em um dos rapazes. Um teria de atirar na cabeça, outro no coração. Portanto, tudo indicava que seriam mortos instantaneamente, como de fato foram.

 

(soldado William Holmes, 12º. Batalhão, Regimento de Londres)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 02h28

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arte dos capistas

 
 

arte dos capistas

Para quem aprecia boas capas de livro, há um blog dedicado ao tema, o sobrecapas. Foi de lá que tirei a ilustração do post anterior.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h53

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Incômodos da classe média

 
 

Incômodos da classe média

O espanhol Manuel Chávez Nogales (1897-1944) é considerado um dos maiores jornalistas do século 20 em seu país.

Exilado em Paris, por conta da Guerra Civil, ele presenciou a derrocada dos franceses diante dos exércitos de Hitler.

La agonía de Francia” é um misto de análise e reportagem que ele escreveu nessa época. O livro foi publicado em Montevidéu, em 1941, e só no ano passado foi reeditado na Espanha.

A atitude de conformismo, de inação, de fatalismo dos franceses diante da ameaça alemã é descrita em tons de amargura, mas a que não falta certo sentido de humor nos detalhes.

 

 

Diante do teste da guerra, a burguesia francesa média e a pequena burguesia não valeram mais do que a alta burguesia capitalista e os intelectuais.

A guerra não foi para elas mais do que um desconforto. Não lhes era pedido heroísmo nem espírito de sacrifício. Pediam-lhes apenas que suportassem com resignação e de bom grado alguns incômodos secundários.

Na França a gente burguesa clamava pela paz a qualquer preço simplesmente porque era desagradável andar pelas ruas no escuro, porque tinha sido reduzido o serviço de ônibus, porque haviam sido suprimidos os aperitivos três dias por semana, porque estavam proibidos os chocolates de luxo, porque não podiam jogar nas corridas de cachorros, porque não se podia dançar nos cabarés e porque no cinema tinham de agüentar os noticiários de guerra e as marchas militares.

 

A massa popular francesa dos últimos tempos estava formada unicamente pela soma de todos esses egoísmos individuais levada ao paroxismo, ao absurdo, pelo qual seria mais fácil e menos perigoso arrancar do povo suas liberdades seculares ou sua dignidade de cidadãos do que tirar-lhe uma linha de ônibus.

 

O automobilista que se vê obrigado a permanecer quinze minutos imobilizado entre quatro filas de carros num engarrafamento adquire imediatamente a convicção de que o Estado que o governa fracassou em sua missão essencial, e que nesse momento não lhe importa a mínima sua significação ideológica ou seu destino histórico; o que quer, nervosamente, angustiosamente, é que as rodas do seu carro possam seguir rodando.

 

Cito esse exemplo do motorista porque nas últimas horas da França essa foi a imagem mais forte e impressionante que me ficou de toda a catástrofe.

Enquanto na estrada de Paris a Tours cem mil carros embolados andavam lentamente, desviando, empurrando-se, e continuando atolados nos acostamentos com a morosidade e a confusão terrível dos grandes êxodos, os primeiros destacamentos alemães que entravam em Paris estavam formados por guardas de trânsito que se puseram tranquilamente a regular a circulação. Paris foi conquistado pelo apito e pelo cassetete.

O último automóvel fugitivo que saía de Paris teve que desviar sua rota na porta de Saint Cloud porque um guarda de trânsito hitlerista manobrando os sinais luminosos do tráfego havia acendido a luz vermelha para dar passagem aos carros de assalto da primeira divisão motorizada alemã que entrava para invadir Paris.  

França, 1940, no momento que foi chamado "o êxodo".

Escrito por Marcelo Coelho às 18h09

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Palanque e sangue frio

 
 

Palanque e sangue frio

Não sei nada a respeito do presidente americano Theodore Roosevelt (1858-1919), exceto que é um dos quatro rostos perpetuados em pedra no Monte Rushmore, e que esteve nas selvas brasileiras, já doente, numa expedição cheia de perigos,narrada em O Rio da Dúvida, de Candice Millard

        

Leio agora uma passagem que tira qualquer dúvida quanto à intrepidez do personagem. Roosevelt ia fazer um discurso eleitoral em Milwaukee; o ano era 1912. Como é comum nos Estados Unidos, um sujeito armado tentou assassiná-lo. Acertou perto do peito. Roosevelt, entretanto, parece não ter sentido nada. Subiu ao palanque e pediu silêncio.

 

         Esperando o público se aquietar, ele enfiou a mão no bolso do casaco para pegar o texto do discuro. O manuscrito de cinquenta páginas estava dobrado. Ele só notou que havia um furo nos papéis quando começou a ler. Por alguma razão, ver a dupla perfuração nos papéis chocou-o mais, aparentemente, do que o sangue em seus dedos. Ele hesitou, sem palavras por um momento, e depois tentou tirar um riso da plateia num tom de falsete humorístico: “Como vocês podem ver, eu ia fazer um discurso bem comprido”.

        

 

Só depois de terminá-lo consentiu em ir ao hospital, tirar a bala que se tinha alojado na costela. O tiro não foi fatal porque o discurso, além de uma caixa de óculos de metal no bolso do casaco grosso, receberam o primeiro impacto da bala.

 

Não é o único caso de pessoa salva pelo que trazia no bolso. Aí por volta de 1840, num duelo, certo fidalgo francês escapou de morrer porque tinha uma bolada de dinheiro no bolso da sobrecasaca. O poeta Heinrich Heine, exilado em Paris naquela época, fez o trocadilho célebre: "voilà de l'argent bien placé!" Algo como "um investimento bem posicionado!"

 

O trecho é do livro Colonel Roosevelt, de Edmund Morris, resenhado na New York Review of Books de 12 de maio.

 

Washington, Jefferson, Roosevelt e Lincoln no Monte Rushmore 

Escrito por Marcelo Coelho às 01h35

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Os blogs de antigamente

 
 

Os blogs de antigamente

Antes dos blogs, é claro, existiam os diários --que, como gênero literário, funcionam de modo melhor e diferente. Embora a forma seja semelhante, um é praticamente o oposto do outro. Um é escrito e lido imediatamente, enquanto o diário só se lê quando o conjunto já se formou, e o autor já não está mais atento às reações do público (embora, com certeza, muitas vezes já seja escrito com vistas a virar livro).

Em todo caso, era de prever que o interesse pelos diários do passado aumente com a voga dos blogs, e uma exposição em Nova York traz curiosidades valiosas sobre o tema. Pode-se acessar online (neste link) fac-similes de páginas dos diários de autores variadíssimos. Desde Charlotte Bronte, com sua caligrafia quase fenícia, aos caprichados arabescos do pirata Bartholomew Sharpe, passando por John Ruskin e Tennessee Williams. A transcrição aparece ao lado de cada trecho. Nada que, novamente, substitua a emoção do livro real em mãos, mas que é bonito, é.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h00

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Kindle, sim e não

 
 

Kindle, sim e não

Minhas reações não foram nem de entusiasmo nem de repúdio. O brinquedo serve para algumas situações, como viagens. É leve e cabe bem na mão. Como tem o dicionário incluído, qualquer palavra (quase qualquer palavra: as com hífen não aparecem) desconhecida em inglês tem sua definição ao alcance de alguns toques do cursor. Quem se dá mal com letrinhas pequenas pode aumentá-las até as dimensões de outdoor.

O Kindle ajuda jornalistas e apressados em geral, quando precisam ler algum livro da noite para o dia, sem esperar pelo correio.

Dito isto, ainda não é todo livro que tem sua versão para o Kindle. Coisas mais acadêmicas não adianta muito procurar: o melhor é encomendar pelas vias tradicionais. Livros razoavelmente comuns (no meu caso foi um romance de Hemingway) saem por um preço a meu ver injusto, quase 11 dólares.

Preferi pedir pelo correio; em sites de livros usados o preço é de menos de um dólar, e o frete é razoável.

O livro impresso ainda tem vantagens consideráveis. O Kindle apresenta todo livro com o mesmo tipo de letra, com o mesmo desenho de página, o que torna a leitura habitual uma coisa bem mais monótona.

Alguns livros que eu li no Kindle me parecem muito mal editados. Estou atrás de poemas sobre a Primeira Guerra Mundial. Um dos principais poetas dessa época, Wilfred Owen, tem uma edição eletrônica com grande número de poemas, mas sem notas, sem índice, e se nesses livros do Kindle existe qualquer menção ao número de páginas eu ainda não sei como conseguir. Mais do que isso, há erros tipográficos, algumas pontuações que faltam, e mesmo letras que escaparam do processo de digitalização.

Comprei também uma edição de uma peça de Shakespeare, cheia de notas, explicações, longos posfácios críticos e biográficos –mas no Kindle tudo acaba quase se transformando numa maçaroca, porque você não consegue pular as páginas que não vêm ao caso e chegar ao ponto que está procurando. Tive de ficar virando as páginas uma por uma até ler um posfácio que me interessava.

Desse modo, minha preferência pelo livro em papel não tem muito a ver com as nostalgias táteis e olfativas que sempre se invocam em detrimento do livro eletrônico.

Talvez o Ipad seja melhor do que o Kindle nos aspectos que mencionei. Dizem que a luz da tela cansa mais a vista. É mais caro. É maiorzão. Amigos têm os dois, o Kindle e o Ipad. Mas não estou com essa pressa toda.

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h23

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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