Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

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lançamentos em inglês

 
 

lançamentos em inglês

Aproveitei o feriado para pôr em dia minhas leituras do “Times Literary Supplement” e da “New York Review of Books”, que se acumulavam sobre a mesa, e estão cheios de notícias sobre lançamentos de livros em inglês que parecem ser muito interessantes. Faço uma pequena seleção.

 

 

John Laughland escreve uma “História dos Julgamentos Políticos”, de Carlos I a Saddam Hussein, criticando a correção jurídica das condenações em tribunais internacionais; até que ponto as acusações a célebres criminosos políticos, como Pinochet e Milosevic, sustentam-se a partir de uma ótica legal rigorosa? O livro naturalmente suscitará protestos, mas uma coisa é protestar, outra é contra-argumentar no campo argumentativo que o autor propõe.

 

Na direção oposta, parece ser dos mais impactantes o livro de Philippe Sands  sobre os argumentos que embasaram a legalização da tortura sob o governo Bush, e as autoridades que os formularam. A vantagem de Sands, diz o resenhista da NYRB, é que sendo britânico, “e não identificável com nenhum dos lados da polêmica dentro do cenário americano”, parece ter contado com especial boa vontade por parte daqueles a quem entrevistou –do comandante de Guantánamo aos conselheiros legais que, sim, admitem seu total pragmatismo, sua desconsideração de princípios básicos (e mesmo de raciocínios quanto à eficiência dos métodos utilizados) na “guerra contra o Terror”.

 

David Runciman, professor de Teoria Política em Cambridge, escreve um pequeno tratado sobre “A Hipocrisia Política”, distinguindo, por exemplo, os casos em que o político “não diz toda a verdade” apenas para enganar os outros, e aqueles em que o próprio político termina plenamente convencido, ele próprio, do que conta para os outros. Runciman já tinha publicado, há alguns anos, uma acerba análise teórica dos argumentos de Tony Blair a respeito de seu engajamento na Guerra do Iraque (“The Politics of Good Intentions”). 

Romantismo depois de Auschwitz”  é o título de um estudo de Sara Guyer, no qual alguns clássicos testemunhos sobre a sobrevivência nos campos de concentração, como os livros de Primo Levi, são relacionados com o famoso poema de Coleridge, “The Ryme of the Ancient Mariner”, e com as teorias de Shelley a respeito da diferença que existe entre “ir vivendo”, puro prolongar-se pelos dias,  e a “apreensão da vida” em sua totalidade.

 

Histeria masculina? Parece ser uma constante nos consultórios de analistas (ouvi isso também aqui no Brasil), e o livro de Mark S. Micale, com 366 páginas, dedica-se a estudar o fenômeno. Pelo que diz o autor, Freud e Fliess chegaram a tecer considerações sobre o tema em sua correspondência, mas posteriormente Freud teria suprimido suas observações na formalização de sua teoria; achaques nervosos ficaram a cargo apenas das mulheres.

 

Os interessados na literatura sobre futebol gostarão de saber que algumas crônicas de Nelson Rodrigues, traduzidas para o inglês, fazem parte de “The Global Game”,   antologia multi-étnica de escritos sobre o esporte, editada em Nebraska.

 

O filósofo Mark Rowlands resolveu adotar um filhote de lobo como mascote, e de suas experiências com o bicho tirou conclusões estranhas neste livro . O lobinho, diz ele, tem uma “inteligência mecânica”, vivendo num mundo mecânico, no qual os problemas se resolvem, digamos, fisicamente. Um cachorro, por seu lado, teria uma “inteligência mágica”: se quer abrir uma porta, olha para ela longamente, esperando que seu dono a abra. Como filósofo, diz a resenha do TLS, Rowlands se preocupa com o tema das conexões entre pensamento e mundo exterior; de que maneira uma relação não-verbal com o mundo pode situar-se num plano tão “verdadeiro” quanto a dos humanos? Especulações desse tipo se mesclam a trechos autobiográficos, em que Rowlands fala de seus fracassos como ser humano... “Talvez se torne um clássico cult da filosofia”, especula o autor da resenha,  Mark Vernon.

 

Outras curiosidades, que vou aprendendo em resenhas esparsas, merecem registro. A origem da palavra “ciao”, o nosso “tchau”, localiza-se em Veneza; segundo “A Linguistic History of Venice”, de Ronnie Ferguson, trata-se de uma corruptela de “vostro schiavo”. Marzipã, quarentena, gueto, gazeta, também são termos que vêm antes do veneziano do que do italiano florentino.

 

Tive também um choque ao saber que a histórias de Ali Babá, de Aladim e de Sinbá nunca pertenceram ao original das “Mil e Uma Noites”. Claro que “original”, aqui, é modo de dizer, porque a primeira versão de uma série de histórias contadas por Xerazade surgiu por volta do século 10, mas não foi preservada. O fato é que foi o primeiro tradutor francês, Antoine Galland, no século 18, quem inseriu no texto os personagens acima citados; não há nenhum texto em árabe anterior a Galland que cite Ali Babá ou Aladim. É o que diz Geert van Gelder, professor de árabe em Oxford, na resenha que li no TLS a respeito de nova tradução do clássico.

 

Na mesma linha curiosa, vale noticiar o livro de Susie Boylt, filha do pintor Lucian Freud, aliás neto daquele citado acima. A moça escreve quase trezentas páginas a respeito de sua fixação por Judy Garland. A célebre cantora-adolescente de “O Mágico de Oz” terminou sendo um símbolo de amargura e sofrimento pessoal, despertando identificações e idolatrias como as de que Susie Boylt dá testemunho.

Deve-se convir que Judy Garland tinha insights realmente profundos a propósito de sua própria arte, de sua própria magia: “tenho uma voz que fere as pessoas”, dizia, “exatamente no lugar que elas pensam que querem ser feridas”.

Escrito por Marcelo Coelho às 03h37

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O demônio da estatística

 
 

O demônio da estatística

É natural comparar a presente crise financeira com a de 1929. Talvez seja animador, contudo, notar algumas diferenças. No livro “Uma Senhora Toma Chá...”, de David Salsburg, que já comentei algumas vezes neste blog, lemos o seguinte:

 

[O começo da década de 1930] era uma época instigante para participar do governo: a nação jazia em queda, e o novo governo em Washington procurava ideias para retomar o vigor. [que tradução!] Primeiro, era preciso saber quão mal andavam as coisas por todo o país. Começou-se a fazer levantamentos de emprego e atividade econômica. Pela primeira vez na história da nação tentava-se determinar exatamente o que estava acontecendo no país—uma oportunidade para levantamentos por amostragem.

 

... entusiasmados jovens profissionais tiveram de vencer, inicialmente, as objeções daqueles que não entendiam de matemática. Quando uma das primeiras estatísticas do Departamento do Trabalho indicou que 10% da população detinha quase 40% da renda, ela foi denunciada pela Câmara do Comércio dos Estados Unidos. Como isso podia ser verdade? A pesquisa entrara em contato com menos de 0,5% da população, e essas pessoas eram escolhidas por métodos aleatórios! A Câmara de Comércio tinha suas próprias pesquisas, tiradas das opiniões de seus próprios integrantes, sobre o que estava acontecendo. A nova pesquisa foi rejeitada pela Câmara, por ser inexata, pois era apenas uma coleta aleatória de dados.

 

Vê-se que, naqueles tempos, estatística era coisa de comunistas... Não admira que a cegueira ideológica da direita sempre esteja a cavar sua própria sepultura; o “estatista” Roosevelt, odiado pelos ultraliberais, terminou salvando o capitalismo.

 

Eis uma ironia que Marx ignorou. Ao contrário do que parece, confiou mais na ideologia, no sistema de pensamento de seus adversários, do que no pragmatismo e no bom-senso de quem tinha de tocar os negócios no dia-a-dia. Se fosse pelos seus ideólogos, o capitalismo já teria ido para a cucuia, como previa Marx. Acontece que os governantes acusados de “estatismo” e de “esquerdismo” são, na verdade, mais eficientes para “o sistema” (que muda e se aprimora) do que os puros e duros sonhados pela direita.

 

A confiança absoluta no mercado levaria, no limite, a recusar qualquer dado estatístico. Estatística já seria equivalente a estatismo, na medida em que se confia na intuição de cada agente individual do mercado, mais rápida, sem dúvida, do que o lento, sempre atrasado, processo de levantamento e sistematização de dados empreendido pelas agências estatais.

 

É como se uma defesa absoluta da liberdade individual terminasse numa defesa da cegueira e da ignorância: eis o ponto em que liberalismo e conservadorismo convergem. Pois, quanto mais ignorante o agente social, mais livre ele será.

Liberdade e esclarecimento já fizeram parte do mesmo time. Basta ver uma Sarah Palin, ou qualquer radical republicano, para perceber o grau da divisão em curso.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h52

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Uma senhora toma chá... (2)

 
 

Uma senhora toma chá... (2)

Eis uma passagem maravilhosa do livro que andei resenhando, “Uma senhora toma chá...”, de David Salsburg (editora Zahar). Ele fala de uma grande gênia (por que não se usa o feminino nesse termo?) da estatística, Florence David.

 

Em 1939, ela trabalhava no ministério de Segurança Interna da Inglaterra, fazendo estudos estatísticos sobre os prováveis ataques de bombas alemãs sobre Londres. Estimava o número de vítimas, a possibilidade de bombas atingirem centrais elétricas, etc., ajudando a orientar as medidas preventivas do governo. Em 1962, pediram-lhe que resolvesse outro problema. Florence David é quem conta.

 

Eu tive aulas de grego quando jovem... Fiquei interessada em arqueologia quando um colega arqueólogo estava explorando um dos desertos [?] , eu acho. De todo modo, ele se aproximou e disse: “caminhei pelo deserto e mapeei onde estavam esses fragmentos. Diga-me onde cavar para encontrar os artefatos de cozinha”. Os arqueólogos não se preocupam com ouro e prata, só querem saber de potes e panelas. Assim que peguei seu mapa, analisei-o e pensei que era exatamente como o problema das bombas V. Aqui você tem Londres, e aqui estão as bombas caindo, e você quer saber de onde elas vêm para que possa presumir uma superfície normal bivariada e prever os principais eixos. Foi isso o que fiz com o mapa dos fragmentos. É curioso haver uma espécie de unidade entre os problemas, você não acha? Existe apenas meia dúzia deles que são realmente diferentes.

 

 

Ainda bem, fico pensando, porque em caso contrário a própria matemática talvez fosse inútil. Mas não desprezo o significado metafísico dessa “unidade dos problemas”. Podemos pensar, por exemplo, que tudo se resume a uma aplicação da velha “navalha de Occam”: a natureza economiza seus recursos, de modo que entre duas explicações prováveis, o mais provável é que a mais simples seja a mais verdadeira.

 

Como adivinhar, entretanto, os casos daquela “meia dúzia”, que são realmente diferentes? Um outro capítulo fascinante do livro de Salsburg se dedica à discussão do que seria um “espaço probabilístico”. Todos sabemos que jogar dados seguidamente tem algo a ver com o cálculo de probabilidades. Mas como aplicar esse modelo –o acaso repetido em condições praticamente idênticas—ao mundo real? Há gênios e gênios, nesse livro, discutindo esse problema.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h06

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Trens e vagalumes

 
 

Trens e vagalumes

Contam-me que o artista plástico Antonio Lizárraga, tendo sofrido um derrame que o paralisou, recorreu ao expediente de “ditar” para auxiliares o formato e a disposição que ocupa cada figura em seus trabalhos, que jogam com imagens abstratas e geométricas.

 

Lizárraga acaba de lançar, pela Ateliê Editorial, um livro de poemas, “Comunicados Lacônicos”. Não há nada de abstrato nas suas imagens, fortíssimas e concisas. Creio que muitos de seus versos se relacionam com o acidente que o acometeu.

 

Veja-se, por exemplo, o primeiro poema do livro.

 

dentro da chuva aprisiono palavras

que uso para alimentar janelas

 

Há uma imagem implícita aqui –a da chuva criando como que grades de água diante da vista—que se inverte na ideia de que as palavras podem permitir ao poeta alçar voo, como um pássaro, para além de sua condição de imobilidade.

 

A mesma experiência de imobilidade se traduz em versos de abrangência maior, logo a seguir:

 

quando criança usava o tempo desenhando galáxias

amontoava universos numa lata de bolinhas de gude

 

 

 

sabia de cor a cor das locomotivas

 

Quem nunca comparou, quando criança, aquelas antigas bolinhas de gude a planetas de bolso? Havia os Saturnos circundados de anéis brancos como leite; havia Netunos e Uranos nas suas escuridões verdes e azuis, salpicadas, de quando em quando, de bolhas como colônias de ar.

 

Também a sensação de prisão e de infinito, simultânea na infância de qualquer pessoa, é simbolizada magistralmente aqui:

 

(...)

meu pai costumava ficar horas esperando o trem cargueiro

quando este passava acendia um cigarro e ficava silencioso

ouvindo o traquejar das rodas esticando distâncias

eu me divertia equilibrando-me sobre os trilhos

aprendendo a partir

 

Cinco versos, apenas, que concentram um mundo imenso de sentimentos. Como é bonito e generoso, por exemplo, atribuir a si mesmo uma iminência de partida, que qualquer outra pessoa jogaria sobre as costas do destino do próprio pai! Mais fácil pensar no pai que parte do que em nossa própria tendência para abandoná-lo.

 

Nem tudo funciona nos “Comunicados Lacônicos” de Lizárraga. Não consigo acompanhar a impressão de que

 

mulheres com sabor de caramelo

defumam a tarde do elevador principiante

 

Defumam? Algo a ver com incenso? O verbo sugere mais haddock e peito de frango do que sabor de caramelo; seria melhor falar “depuram”? Fico na incerteza.

Nada mais claro e poeticamente eficaz, entretanto, do que isto:

 

à minha frente fica a terra de ninguém

 

Eis um poema, feito de um só verso, que se Lizárraga não tivesse escrito alguém teria de ter inventado.

 

Talvez o que há de grande nesse livro seja o fato de que tudo poderia ser apenas uma “trouvaille”, um feito engenhoso de linguagem, um poema-piada, um trocadilho. O que Lizárraga consegue em poucas linhas, entretanto, é bem mais que isso. Não é a inspiração súbita de uma frasezinha genial, que em tese poderia ocorrer a qualquer um. É o resultado, a cristalização, de uma vida inteira, que se reduz a um mínimo de memória, a um concentrado, “nem alegre nem triste”, de experiência.

 

Seria injusto, por exemplo, classificar como “trouvaille”, como fácil jogo de palavras, como poema leminskiano e pop um verso como este:

 

o vaga-lume pulou de pára-quedas

 

Há algo de mais estranho e permanente nessa imagem do que faz crer a mera paranomásia. Há algo de mágico, como merecem os vagalumes, sem hífen ou com hífen, tanto-faz.

 

 

obra, sem dúvida "concisa", de Antonio Lizárraga

Escrito por Marcelo Coelho às 04h50

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Fumar "causa" câncer?

 
 

Fumar "causa" câncer?

Na resenha de “Uma Senhora Toma Chá...”, livro sobre a história da estatística que resenhei para a Ilustrada, há uma frase meio injusta. Disse no texto que os maiores gênios não estão isentos de falhas de lógica e de caráter, o que evidentemente é verdade, mas talvez não se aplique às críticas do grande matemático Ronald Fisher à ideia de que o fumo causa câncer –esse o exemplo de “falhas” que citei.

 

Na verdade, Fisher reagia a concepções excessivamente simplistas de causalidade. Para uma mente treinada em estatística, “causalidade” já é um termo duvidoso em si mesmo. Cito um trecho do livro.

 

Suponhamos, refletiu [Fisher] que houvesse alguma determinação genética que levasse algumas pessoas a fumar, e outras não. Suponhamos, além disso, que essa mesma disposição genética envolvesse a ocorrência de câncer de pulmão. Era bem conhecido o fato de que muitos cânceres tinham componente familiar. Suponhamos, propôs então, que essa relação entre fumo e câncer se devesse ao mesmo evento, à mesmo evento, à mesma disposição genética. Para provar seu caso, ele reuniu dados de gêmeos idênticos e mostrou que havia forte tendência familiar para que ambos os gêmeos se tornassem fumantes ou não-fumantes. E desafiou os outros a mostrar que o câncer de pulmão não era também geneticamente influenciado.

 

Não se trata, certamente, de falha de lógica nem de caráter. Mas de sensatez, acho eu. Afinal, se as estatísticas servem para alguma coisa, é para mostrar que a incidência de câncer entre fumantes é esmagadoramente maior do que entre não-fumantes. Não sabemos se esse dado se deve a uma causa exterior (predisposições genéticas coincidentes, na argumentação de Fisher) ou intrínsecas (o hábito de fumar). Na dúvida, quem seria louco a ponto de não agir, ou pelo menos de não tentar agir, sobre a variável controlável do problema (fumar ou não), em vez de confiar na hipótese de que agir não adianta nada?

 

Talvez nisso se esconda o desejo de onipotência do estatístico. Ele está tão feliz de saber mais do que o conjunto dos cidadãos, tão feliz de notar invariâncias naquilo que todo ser humano considera pertencer à sua esfera pessoal de liberdade, que reage negativamente quando atitudes individuais (deixar de fumar, por exemplo), ameaçam suas conclusões.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Coelho às 03h38

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prêmios literários

 
 

prêmios literários

 

Houve um tempo em que conceder prêmios oficiais a produções artísticas era uma espécie de sacrilégio –ou, no mínimo, algo tão antiquado como dar medalhinhas de ouro, prata e bronze aos melhores alunos da classe.

 

De resto, os júris que concediam prêmios desse tipo eram acusados, não sem razão, de academicismo; grandes artistas, por definição, eram iconoclastas e todo prêmio só podia negar-lhes essa condição.

 

Felizmente, esse tempo vai passando, e começa-se a entender que um prêmio vale o que vale, isto é, celebridade momentânea e dinheiro para quem ganhar, sem nada dizer de concreto sobre o que pensarão as gerações futuras. Por isso mesmo, é sempre um estímulo para que novos artistas apareçam, e sobrevivam.

 

O “sistema das artes” , na verdade, é tudo o que uma política pública (ou privada) pode incentivar; quanto aos gênios, surgirão de modo independente e inesperado –desde que o sistema esteja de fato funcionando.

 

Acho ótimo que prêmios literários como o Portugal Telecom ou o Jabuti existam, apesar de possíveis distorções e erros na escolha dos vencedores. Pelo menos o Portugal Telecom adotou critérios de seleção os mais amplos possíveis, enviando, na sua primeira fase, listas de votação pela internet para milhares de jornalistas, escritores e críticos.

 

Recebo release de mais um prêmio para mobilizar os interessados. Eis aqui:

 

Secretaria de Estado da Cultura lança o

Prêmio São Paulo de Literatura 2009

O Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, lança nesta sexta, 13 de fevereiro, o concurso Prêmio São Paulo de Literatura 2009, o prêmio literário mais bem pago do Brasil. Serão R$ 400 mil para o Melhor Livro do Ano e Melhor Livro do Ano ? Autor Estreante publicados em 2008, sendo R$ 200 mil para cada um.

As inscrições podem ser feitas até o dia 30 de março e os interessados poderão acessar o regulamento no portal www.cultura.sp.gov.br. Podem concorrer livros de ficção no gênero romance lançados no ano de 2008. A entrega dos documentos deverá ser efetuada por Via Postal ou no Núcleo de Protocolo e Expedição da Secretaria de Estado da Cultura (na Rua Mauá nº 51, Bairro Luz, São Paulo - SP, CEP 01028-900)

 

Escrito por Marcelo Coelho às 23h35

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Uma senhora toma chá...

 
 

Uma senhora toma chá...

Acabo de fazer, para a “Ilustrada” de sábado, a resenha de um livro bem interessante. É “Uma Senhora Toma Chá... –como a estatística revolucionou a ciência do século XX”, de David Salsburg.

 

Algumas coisas do livro são difíceis de entender, muitas são fascinantes, mas me restrinjo aqui no blog a este caso, o do “Paradoxo da Loteria”, formulado por Seymour Kyberg, da Universidade Wesleyana do Connecticut.

 

Suponhamos que aceitemos as ideias de testes de hipótese ou de significância. Concordamos que podemos decidir rejeitar uma hipótese sobre a realidade se a probabilidade associada a essa hipótese for muita pequena. Para sermos específicos, estabeleçamos 0, 00001 como probabilidade muito pequena. Organizemos agora uma rifa com 10 mil bilhetes numerados. Consideremos a hipótese de que o número 1 ganhará a loteria. A probabilidade disso é 0, 00001.

Rejeitamos essa hipótese. Consideremos que o bilhete número 2 ganhará a loteria. Também podemos rejeitar essa hipótese. Podemos rejeitar hipóteses similares para qualquer bilhete numerado específico. Pelas leis da lógica, se A não é verdadeiro, e B não é verdadeiro, e C não é verdadeiro, então (A ou B ou C) não é verdadeiro. Isto é, pelas leis da lógica, se cada bilhete não específico não deverá ganhar a loteria, então nenhum bilhete o fará.

 

Não deixa de ser inquietante que matemáticos e estatísticos tenham de se debater com pressupostos básicos de sua atividade.

 

A mim, que sou leigo, parece claro que uma hipótese científica é muito diferente de um palpite lotérico. Se alguém aplica a uma hipótese científica os testes de um palpite lotérico, só crescem as garantias de que a hipótese científica estava certa. Pois a hipótese científica se baseia em observações mais completas do que as disponíveis para um comprador de bilhete de loteria.

 

Além disso, rejeitar uma hipótese não é o equivalente a declarar que a hipótese não é verdadeira. Rejeito a “hipótese” de que o número 0001 será ganhador na loteria: há pouca chance de isso acontecer. Mas não direi, se o número 0001 ganhar na loteria, que houve uma fraude, uma mágica na apuração.

 

Termino sem saber se esses matemáticos altamente especializados não estariam simplesmente brincando, para com isso apontar a exigência de melhor definição dos termos correntes em suas especialidades. Ou se não é o livro de David Salsburg que simplifica indevidamente os termos da discussão.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h04

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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