Marcelo Coelho

Cultura e crítica

 

Pais e filhos

crianças na selva

 
 

crianças na selva

Um trecho do artigo publicado nesta quarta-feira, na Ilustrada.


Animaizinhos simpáticos voltam à selva. Resumindo assim, o esquema de “Madagascar” e “Alvin e os Esquilos 3” representa algo que adultos e crianças conhecem bem.

         Simboliza-se, no fundo, o processo da educação de uma criança. O selvagenzinho de dois ou três anos tem de evoluir até o menino mais ou menos ajuizado de oito.

         Não é por acaso que a grande maioria das histórias para criança tem bichos como protagonistas. A criança, pelo menos a criança até certa idade, é o animal do homem.

         Mas “Alvin e os Esquilos” e “Madagascar” trazem uma diferença em relação às histórias tradicionais. O herói, leão ou esquilo, não é apenas um bicho falante. É também uma celebridade –uma figurinha acostumada a holofotes e paparicos.

         Trata-se da “criança-artista”, dotada dos maiores talentos, incapaz de conformar-se com um minuto de nossa desatenção.

         Escondido debaixo de tantas gracinhas de butique, vibra o animal carente de liberdade, desejoso do ar das selvas e da sujeira das fazendas.

Houve quem reclamasse do tema, mais uma animação daquelas que a gente tem de levar os filhos mas já sabe do que se trata. Pois é, férias em São Paulo têm dessas coisas. Fui num dia de chuva e frio, havia pouco a fazer dentro de casa. O principal está sendo manter razoáveis os horários de uso do videogame.

Percebi que há dois tipos de jogos de computador, os mais viciantes e os menos viciantes. Os menos são aqueles em que há fases e tarefas básicas para cumprir, como por exemplo matar passarinhos e detonar orfanatos. Os mais viciantes são aqueles do gênero "club penguin", e um novo, já meio adolescente, acho que se chama bahoo ou coisa parecida. Nestes, a sua vida continua, esteja você jogando ou não. O iglu que você está decorando, os animaizinhos que você alimenta, os amigos que você fez online continuam a existir, e esperam sua atenção cada vez que você liga o computador. Com essa solicitação "externa", que nada mais é do que a vida, as crianças têm dificuldades de lidar. Estão sempre querendo ver o que aconteceu ou precisa acontecer. Torna-se muito difícil afastá-las do computador, a não ser por um decreto simples --esses jogos estão proibidos.

Claro que é responsabilidade dos pais inventar outras coisas para as crianças fazerem. Mas os pais também têm coisas a fazer e não podem dedicar-se em tempo integral à fabricação de pipas e a jogos de mímica.

Com a volta do sol, levei meus filhos ao Wet n Wild, parque aquático perto de Jundiaí. Eles se divertiram muitíssimo. O lugar estava cheio mas não insuportavelmente cheio nesta quarta-feira. O pior é a questão da alimentação.

Nunca fiquei tanto tempo na fila para pegar um sanduíche ou um dos famosos espetinhos Jundiaí. Tiveram sucesso junto a meu filho menor, em geral difícil para comer. Mas se você é adulto, ouça o conselho --esses espetinhos devem ser mais prejudiciais ao colesterol do que qualquer Big Mac. O de frango tinha uma estranha consistência semigelatinosa, e pingava gordura cor de laranja.

É o preço de não ficar em casa.

Escrito por Marcelo Coelho às 12h33

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A palmada e suas razões

 
 

A palmada e suas razões

Uma pessoa é contra, a outra imediatamente se mostra a favor. É a Lei da Palmada, como atesta o Painel do Leitor de hoje. Todos tem opinião sobre o assunto, e a divisão parece equilibrada entre os dois lados.

O que não vi, até agora, é alguma pesquisa científica sobre o assunto.

Não falo, é claro, dos que foram espancados sistematicamente na infância, casos que de todo modo já poderiam ser coibidos sem a nova lei.

Penso na tal “palmada pedagógica”, a “palmadinha” que, segundo muitos, não faz mal, e segundo outros tantos, deve ser abolida.

Uma pergunta a fazer ao entrevistado: o senhor acha que teve algum trauma por ter levado palmadas na infância?

Qual o histórico pessoal dos que são contra e dos que são a favor?

Outra pesquisa: você acha que dar uma “palmadinha” teve algum efeito sobre o comportamento dos seus filhos?

Discutem-se, principalmente, os valores, a moral, a ética desse gênero de castigo. Gostaria de saber qual a sua eficácia, afinal defendida pelos que consideram que ela “não tem nada de mais”. Se funciona, não traumatiza, é rara, etc., não vejo por que transformar isso numa questão de Estado.

Meu filho mais velho, quando tinha seus 3 anos, estava dando tapas na mãe com relativa frequência, e não estava imitando o comportamento dos pais nesse aspecto.

Certa vez, dei-lhe um tapa na mão para que parasse com essa história.

Ele chorou.

Mas o castigo não adiantou nada.  

Escrito por Marcelo Coelho às 12h59

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cães e filhos

 
 

cães e filhos

Como qualquer pessoa de bom senso, ainda mais vivendo num apartamento, resisti o quanto pude a comprar um cachorro.

Me disseram, com razão, que os cães da raça shitzu não latem e não perturbam.

Por vários motivos, não relacionados com a pressão dos meus filhos pequenos, terminei comprando um.

Os efeitos foram milagrosos.

Meu filho menor, de 7 anos, tornou-se subitamente mais maduro. Deixou de espernear, de dar os sinais de intolerância que eram sua marca registrada.

Tornou-se mais doce e carinhoso, menos agressivo e injusto.

Imagino que toda a sua infância tenha sido marcada pelo fato de ele ser “o errado”, “o injustiçado”: como meu filho mais velho, de 9 anos, é disciplinado, culpado e carinhoso, seu irmão assume o papel do revoltado, do “punk”, do “radical”. Até nos seu gosto musical isso se reflete.

A aquisição do cachorro não mudou sua personalidade, mas controlou-a um pouco.

Pela primeira vez, meu filho menor está diante de um animal mais selvagem do que ele. Mais deseducado, ininteligente e rebelde.

Em suma, meu filho menor se humaniza.

É tudo uma questão de hierarquia.

Escrito por Marcelo Coelho às 00h31

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Museus de ciência, museus de ignorância

 
 

Museus de ciência, museus de ignorância

Deve ser a quinta ou a sexta vez que visito o Catavento, museu de ciência localizado no antigo Palácio das Indústrias, em São Paulo. Meu filho de sete anos adora o lugar, e não está sozinho: neste domingo, havia gente de todos os lados.

A seção preferida do meu filho é a relativa à Física, onde não faltam maquinetas e maquinolas para os visitantes mexerem à vontade.

Você gira uma manivela, e a energia que você gerou acende uma lampadazinha.

Você pedala uma bicicleta, e a energia que você gerou acende outra lampadazinha.

Você gira outra manivela, e não acontece nada.

Você gira mais uma manivela, e acontece algo que você não entendeu direito.

Não importa: com toda evidência, o prazer está em girar manivelas.

Meu filho, pelo menos, vai de uma manivela a outra, sem se interessar minimamente pelo resultado da experiência.

Há uma série de outras experiências do mesmo gênero.

Envolvem, por exemplo, você apertar botões que acendem luzes numa casa em miniatura.

Ou girar cápsulas de vidro com líquido dentro.

Ou levantar pesos e deixá-los cair.

Ou mexer com ímãs numa espécie de pebolim de limalha de ferro.

Ou encostar a mão num globo de metal (este é sem dúvida o preferido do público) e deixar o seu cabelo espetar-se por força da eletricidade.

Tudo muito divertido, mas será que tem alguma coisa a ver com ciência?

Como já visitei várias vezes o lugar, procurei ler um pouco mais os textos explicativos ao lado de cada experimento, enquanto com o outro olho acompanhava as correrias do meu filho entre uma manivela e outra.

Há coisas terríveis ali. Fala-se, por exemplo, das equações de Maxwell, “as mais belas de toda a Física”, que são expostas ali com aquele “S” comprido que imagino ser o símbolo de alguma integral ou diferencial... Imagino o entusiasmo de quem fez o cartaz, mas lamento o fato de que para 99, 999% (mais a integral dessa porcentagem) aquilo tudo é apenas uma manivela.

E que prazer das pessoas em girarem manivelas! Não consigo imaginar parque de diversões menos colorido, mais decepcionante, do que aquela seção do Catavento.

Ao mesmo tempo, os visitantes experimentam ali alguma espécie de catarse.

Não há como entender, do ponto de vista científico, a maior parte das coisas expostas ali.

A catarse não é intelectual; talvez não seja propriamente física, porque numa academia de ginástica há bastantes roldanas e polias para gastar a energia dos interessados.

Acho que a catarse se relaciona com uma nostalgia muito específica: a do trabalho manual.

A sensação de ligar esforço físico a produtividade desapareceu da vida contemporânea, mesmo no cotidiano da classe C. O trabalho se faz no telefone, no computador, na caixa registradora.

O trabalho “industrial”, nos moldes de Chaplin em “Tempos Modernos”, talvez esteja se transformando numa relíquia.

Não é absurdo, assim, que em nome da ciência e do esclarecimento de conceitos como a da conservação da energia ou do eletromagnetismo, o Palácio das Indústrias atraia visitantes interessados apenas em mexer com manivelas.

Talvez fosse interessante, do ponto de vista de um museu da ciência, fazer também uma seção dedicada à tecnologia industrial.

Como se faz um tecido? Um copo de vidro? Uma capota de automóvel?

Um museu da tecnologia, ao lado de um museu da ciência (melhor explicado) seria bem interessante.

Meu filho de sete anos, passando pelas fumaças de Cubatão, interessou-se em saber o que se produzia ali.

Não soube responder direito.

É estranho que um ser humano, em São Paulo, em 2011, aos 52 anos, nunca tenha entrado numa fábrica. Falta de cultura geral, falta de uma cultura que não é apenas científica.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h17

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diálogo em outra fase

 
 

diálogo em outra fase

 

 

Tenho escrito pouco sobre as aventuras educacionais com os meus dois filhos. Como estão, agora, com 8 e 6 anos, passei a considerar invasivos os comentários que fazia sobre o comportamento deles; o que derivava da pura técnica behaviourística, e que era generalizável no estilo “supernanny” quando eles tinham, vá lá, 5 e 3 anos, perde importância agora. Não estaria mais falando de “crianças” ou “bebês”, mas de pessoas.

 

É uma fase em que começa a fazer mais sentido o velho clichê do “diálogo”. Claro, toda a pedagogia moderna se baseia no “diálogo” com as crianças, mas que “diálogo” pode existir com um interlocutor de 2 anos de idade? Crianças pequenas não reconhecem com facilidade a existência de outro ponto de vista; quando o fazem, isso não significa que possam mudar o seu comportamento.

 

Há um lado “Skinner”, ou seja, de “amestramento” se quisermos que uma criança passe a usar direito a privada ou a escovar os dentes. Aos oito anos, os problemas são de outra natureza. Tudo melhora, aliás, nessa fase.

Escrito por Marcelo Coelho às 17h38

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"Meu malvado favorito"

 
 

"Meu malvado favorito"

Não sabia, até abrir a internet hoje, que “Meu Malvado Favorito” estava arrasando nas bilheterias. O filme infantil era só uma estreia de animação como as outras, que fui ver dentro da programação dominical do Dia dos Pais; o fato é que ganha mais dinheiro do que “A Origem” (mas a matéria lembra que os ingressos de “Meu Malvado Favorito custam mais).

Bem, não importa. A animação vale mesmo a pena. O foco principal da história, desta vez, é um vilão, que enfrenta um jovem rival nerd (um pouco no estilo Bill Gates) no seu objetivo de cometer o crime do século: roubar a lua. Para isso, tem de contar com a ajuda de três meninas órfãs, que ficarão expostas à sua mentalidade, digamos, sinistra.

Sem contar mais nada, só posso garantir que o filme assegura uma retumbante vitória do bem contra o mal. Vitória que se faz, entretanto, não com os habituais recursos atômicos e destrutivos do clichê cinematográfico.

Uma equipe de ajudantes eletrônicos, misto de bananinhas e bactérias, está a serviço do vilão, e contamina o filme todo com uma graça irresistível. A exemplo dos pingüins de “Madagascar” e do esquilo ansioso da “Era do Gelo”, certamente essa turma vai reaparecer em outras produções.

De alguma forma, é como se aqueles robozinhos fossem o inconsciente anárquico e infantil do vilão –cujas atitudes, de forma sem dúvida perversa, não se distinguem muito das de qualquer pai às voltas com a bagunça das crianças dentro de casa.

Conquistar a lua, no caso do vilão, equivale à luta real de toda criança para conquistar a atenção de pais e mães distantes. O recurso à disposição dos personagens do filme é um raio miniaturizador, capaz de fazer a lua caber no bolso de quem a quisesse roubar. Aplicado aos pais, esse raio de miniaturização, ou processo de “re-infantilização” psicológica, é então o que garantiria às crianças reais o domínio sobre os sentimentos dos mais velhos; aproxima-os delas, à medida que os faça capazes de brincar, e de esquecer seus objetivos de ganho, de sucesso, de trabalho. Para um Dia dos Pais, serve de lição. Não que eu me considere muito ausente ou desatento quanto às demandas dos meus filhos. Mas eles, naturalmente, são de outra opinião.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h11

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cortando rente

 
 

cortando rente

Infelizmente, vou percebendo que a necessidade de “impor limites”, como se diz com tanta freqüência hoje em dia, é mais radical do que eu mesmo, que nunca fui banana com meus filhos (7 e 5 anos agora), sempre acreditei.

 

Embora eu tenha agido com bons resultados, na grande maioria das vezes em que as crianças andaram abusando da birra e da falta de educação, as coisas nos últimos tempos andaram meio sem controle.

 

Não que tenha havido grandes cenas de desobediência e agressão (pelo menos, não quando eu estava por perto). Mas o cotidianozinho das relações entre os irmãos andou chatíssimo nos últimos meses. Provocações sem sentido e disputas a troco de nada, de cinco em cinco minutos, podem muito bem ser classificadas de “normais”. Mas são um teste para a paciência de qualquer um.

 

E, de qualquer modo, não acho nada normal que irmãos com tão pouca diferença de idade sejam incapazes de brincar, por um tempo curto que seja, ou mesmo de conversar amigavelmente um com o outro.

 

Cheguei do escritório outro dia, e encontrei os adultos da casa com os nervos em pandarecos –tal a quantidade de briguinhas e chateações entre os dois irmãos. Falta de generosidade, implicância mútua, esforços de reconciliação desprezados por um dos envolvidos... Ora essa.

 

Ouvi sem surpresa o “relatório” da manhã. Certamente, já havia repreendido comportamentos desse tipo inúmeras vezes. Mas, como eu estava meio de mau humor, não esperei demais para fazer meu número repressivo.

 

Uma frasezinha nada grave de um menino contra o outro –“eu sei assobiar, você não consegue”—deu o pretexto para minha reação. Disse com fria seriedade que “isso não interessa. Não interessa a ninguém.”

 

Ou seja, dei o chamado “limite” antes mesmo que a gravidade da situação justificasse a bronca (nível 6 numa escala de zero a dez). Continuei no mesmo tom: “não quero um milímetro de provocação por aqui”. Nem sei se eles sabem o que é milímetro.

 

Funcionou –o estouro preventivo foi ameaçado mais vezes durante o dia, a propósito de minúsculas ameaças de chatice.

 

E, pela primeira vez em anos, os dois irmãos se trataram direito. Um se propôs a ajudar o outro a se enxugar depois do banho. Não discutiram sobre qual música deveria ser ouvida no CD do carro. Um fez questão de escolher a música que o outro desejaria. Estávamos no Palácio de Buckingham.

 

“Vamos ser amigos para sempre?”, um perguntou, e o outro respondeu que sim.

 

Claro que não serão. Não o tempo todo. Fiquei esperando que tudo “voltasse ao normal”, depois de passado o susto com a bronca. Mas as coisas continuaram bem. No dia seguinte, vi os dois sozinhos na sacada do apartamento, conversando sobre um assunto qualquer.

 

Perguntei-lhes se não achavam que a vida deles mesmos não ficava mais fácil dessa maneira. Disseram que sim; veremos.

 

O importante do caso, entretanto, foi que mais uma vez percebo o acerto de “cortar rente”. O limite, ou seja lá que nome tenha, deve ser imposto antes que todos estejam intoxicados de chatice –pois nesse momento uma bronca pode ser apenas o pretexto para novas reações de agressividade e de pirraça.

Numa palavra: quando se pensa em "dar limite", é que o limite já foi ultrapassado.

Escrito por Marcelo Coelho às 22h55

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criança e consumo

 
 

criança e consumo

Falei no artigo desta quarta-feira (aqui  para assinantes do uol) sobre os brinquedos do Dia das Crianças, e de uma organização beneficente que, de certa maneira, em casos especiais, dá toda razão aos caprichos e desejos infantis. O “make a wish” (realize um desejo) atende pedidos de crianças com doenças graves. Mesmo se forem extravagantes, merecem ser cumpridos.

O tema do consumismo nas crianças é vasto, mas ficam aqui duas dicas. Um livro, intitulado “Eu era assim”,  reúne crônicas e reportagens recentes de Flávio Paiva, publicadas em sua maioria no “Diário do Nordeste”, de Fortaleza, e no Portal Cultura Infância, de São Paulo. Há muita informação sobre iniciativas a respeito dos efeitos da publicidade e televisão no público infantil.

Nesta quinta feira, às 23h10, passa na TV Cultura o documentário “Criança, a alma do negócio”, de Estela Renner, mostrando o poder das marcas e da propaganda sobre as crianças brasileiras.

desenho de David Hockney

 

Escrito por Marcelo Coelho às 18h52

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a arte de esperar

 
 

a arte de esperar

Chegou enfim o Dia da Criança, data que vinha sendo aguardada há uns dois meses pelos meus filhos (7 e 5 anos). Havia a promessa de um presente bastante caro, o jogo de Wii chamado Mariokart.

Naturalmente, o mínimo de bom senso pedagógico indica que não se deve encher as crianças de brinquedos, e que fazê-las esperar por uma data certa é tão importante quanto surpreendê-las, às vezes, com pequenos presentes inesperados.

Mas foi difícil agüentar a pressão para só dar o bendito Mariokart neste 12 de outubro. Claro, por medo de que faltasse nas lojas, tinha comprado o brinquedo há mais de 15 dias.  E meu filho maior perguntava o tempo todo se ia ganhar, quando ia ganhar, se eu já tinha comprado etc.

Como a data marcada foi antecedida de um sábado e domingo, parecia-me racional dar o presente logo no sábado, para que meus filhos aproveitassem o fim de semana, em vez de só dar na segunda.

Resisti, entretanto. E aprendi que muitas vezes não é só por causa da pressão dos filhos que cedemos. O fato é que eu mesmo estava louco para dar o presente antes da data.  O prazer, no fim, teria sido menor para todos os envolvidos.  E ensinar a esperar é uma coisa que temos a obrigação de fazer com nossos filhos, acima de tudo por uma razão bem egoísta. Somos nós, os adultos, que não agüentamos esperar por nada. Vejo a minha irritação no trânsito, no banco, ou diante do computador.  É porque sofremos de impaciência que educamos mal nossos filhos, querendo resultados imediatos... E é fácil, da parte deles, aprender com nossa impaciência, e com tudo o que há de resposta imediata, de pressa, de instantaneísmo, na vida contemporânea.

Vejo que vou ficando muito edificante. Paro por aqui. De resto, foi só as crianças começarem a jogar o tal Mariokart que surgiram brigas e choros, a cada derrota que o joguinho impunha.  Minha paciência foi assim testada novamente... Até que deu certo, pelo menos até a hora em que os meninos foram conduzidos, não sem algumas ameaças, para o merecido descanso.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h31

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Geronimo Stilton, o ratinho jornalista

 
 

Geronimo Stilton, o ratinho jornalista

Uma amiga que mora fora do Brasil mandou para meus filhos (7 e 5 anos), já faz algum tempo, um livro da coleção do ratinho Geronimo Stilton, em inglês. Fui traduzindo para o mais velho enquanto lia, meio aos trancos e barrancos, mas o sucesso foi  imediato.

Geronimo Stilton é um ratinho intelectual, dono do maior jornal de sua cidade. Quer mesmo é ficar em casa, tomando seu chá com biscoitinhos de queijo, mas acaba se envolvendo nas mais diversas aventuras (múmias num museu,  ossos de dinossauro num deserto, gatos-piratas).  Vive morrendo de medo, mas conta com bons e animados companheiros: seu sobrinho Benjamin,  uma amiga deste, belas ratinhas capazes de resolver qualquer encrenca...

Os livros são muito bem ilustrados,  o que significa um traço de história em quadrinhos não muito esquemático, cores ótimas e a atenção ao detalhe que toda criança requer. Há sempre um mapa da ilha dos ratos, um mapa da cidade em que Geronimo mora, e mesmo um corte longitudinal do edifício-sede da “Gazeta  Roedora”.

Este pai, de resto, identifica-se completamente  com a personalidade do protagonista, e isso não passa despercebido à pequena audiência doméstica.

A boa notícia é que os livros de Geronimo Stilton começam a ser traduzidos no Brasil. Infelizmente, o primeiro que chegou às minhas mãos (“O Manuscrito de Nostrarratus”) tem um começo um pouco desinteressante para crianças menores. O herói está às voltas com a contabilidade do jornal, até ser interrompido pela inconveniente secretária, que o convence a visitar a Feira de Livros de Ratofurt.  Nada muito palpitante para quem espera grandes aventuras.  As coisas vão ficando mais interessantes quando a secretária inclui um tio, totalmente desprovido de superego, na viagem, e impõe a Geronimo divertimentos radicais e gastos miliardários num hotel de luxo (que deveria se chamar “Ratz”, mas é “Ratritz” ou coisa parecida).  Há algo de sádico nos sofrimentos impostos a Geronimo –outros volumes não exageravam tanto a dose.  Mesmo assim, vale a pena dar uma olhada nessa estreia do ratinho no Brasil.

Escrito por Marcelo Coelho às 01h35

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Blog das aventuras

 
 

Blog das aventuras

Em matéria de pai interagindo com filhos, este blog dá de dez a zero e é um exemplo (para quem conseguir imitar): http://www.cyberaventuras.blogspot.com/

Escrito por Marcelo Coelho às 10h00

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museu do futebol

 
 

museu do futebol

         Não tenho maior interesse por jogos, times, técnicos e craques. Mesmo assim, o Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, foi emocionante para mim.

         Logo no começo, há uma exposição temporária que vale qualquer obra de artes plásticas nas bienais da moda. Numa parede curva, estão dispostas as camisas dos mais variados times do mundo, obedecendo a uma clara gradação de cor. Depois, há painéis com milhares de peças de futebol de botão. O efeito é muito maior do que qualquer fanático de futebol pode prever; estamos diante de uma instalação belíssima, muito mais bonita do que a média das instalações.

         O museu todo é um espanto cenográfico.

         Uma sala se dedica apenas à derrota da seleção brasileira em 1950. Filmes de época, mostrando Getúlio Vargas e a campanha do petróleo, dão o contexto da tragédia.

         Sobe-se um andar, e de novo a escuridão: só se ouve o grande rumor das torcidas, até que nas telas imensas da parede se percebe que a sala é inteira dedicada ao torcedor –movimentos na arquibancada, gritarias, gestos coletivos, aparecem projetados na parede.

         Um módulo exclusivo para filmes de drible. Outro em que você pode sintonizar a voz dos grandes locutores de futebol, de Ary Barroso e Fiori Gigliotti a Osmar Santos e não sei mais quem.

         De repente, na escuridão das salas, você tem acesso a um banho de luz: é o campo do Pacaembu, ele próprio, que você vê de uma passarela em pleno dia.

         Levei meus filhos para o passeio.

         Como sempre, eles estavam mais interessados na parte interativa (alguns joguinhos virtuais, uma cobrança simulada de pênaltis) do que na beleza da coisa toda.

         Não sei com que idade se tornarão frequentadores de museu.

         Mesmo sendo um museu tão diferente, tão sem cara de museu, como esse do futebol.

         Vá, mesmo que não goste de futebol. Mas não leve os filhos, mesmo que eles gostem...

Escrito por Marcelo Coelho às 22h44

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Por que ter filhos?

 
 

Por que ter filhos?

Entendo perfeitamente os pais que querem ter um único filho. Já não basta? Ei-lo, bebê que cresce, unificando pouco a pouco o que há de particular em mim, e na sua mãe.

O trabalho que dá é suficiente para desistirmos de outro. No meu caso, acabei cedendo às pressões da mãe e concordei com a ideia de um segundo

filho.

Vale a pena. É maravilhoso contemplar as diferenças entre o Primeiro e o Segundo. Como se fossem dois pólos daquilo que é a união entre um homem e uma mulher.

Que alternativa, que outra coisa, existe num segundo filho! Não tenho disposição para um terceiro: mas a variedade de que nosso DNA é capaz, eis um milagre espantoso.

Porém, os filhos não são apenas uma junção de DNAs distintos. São sujeitos livres, que durante boa parte do tempo nos ignoram, ainda quando pequenos, e muito mais quando chegarem à idade adulta.

Criar um foco de liberdade; dar nascimento a um entezinho autônomo; saber que da máxima dependência virá a máxima independência  --há algo nisso que não se resume ao mero sentimentalismo da paternidade, nem ao simples e velho amor. Corresponde, talvez, a uma despedida de nosso próprio jeito de estar no mundo, tão limitado. Despedida que não surge como perda, mas como acréscimo imaginário: eis o tipo de homem, o tipo de mulher, que fui capaz de fazer, e que vai além daquilo que eu próprio fui.

Escrito por Marcelo Coelho às 15h06

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Penguin Club

 
 

Penguin Club

         Tempos atrás, elogiei a nova geração dos videogames, os do tipo Wii. Meu filho, bastante frágil diante dos apelos da eletrônica, interessou-se pelo Wii, e achei um progresso. Em vez de neurotizar-se com as teclas de flechinhas à direita e à esquerda, que respondem pelos movimentos de um Batman impotente escalando prédios e barris de pólvora, o garoto de 7 anos trata de simular, no Wii, os movimentos de um jogador de boliche ou de tênis. O dispositivo eletrônico, acoplado ao braço como uma pulseira, oferece entretenimento mais parecido com esporte do que com joguinhos de computador.

         Doce ilusão. Entrou em casa, logo em seguida, a gripe do “Penguin Club”. Trata-se, pelo que consegui perceber, de uma cidade virtual, ou de “second life”, em que a criança adquire a identidade de um pinguinzinho. Logo se abrem para ela incontáveis possibilidades de consumo: móveis para seu iglu, animais de estimação que será preciso alimentar, roupas de inverno etc.

         Para “comprar” esses complementos (eis o lado educativo do jogo), o pinguinzinho terá de trabalhar duro. Há empregos numa pizzaria, por exemplo, em que conforme a quantidade de pizzas feitas o nosso pequeno herói ganha as moedas que irá gastar logo em seguida.

         Até aí, tudo bem. O problema é que o “Penguin Club” se torna mais viciante do que qualquer outro jogo de computador. Pois o videogame normal acaba quando se desliga o laptop. Aqui, não. O pai pode desligar o computador, mas a criança continua endividada ou workaholic em seu mundo virtual. Alimentar os animais de estimação se torna, por exemplo, um dever moral, contra o qual a proibição paterna de acessar o jogo não dispõe de legitimidade.

         Mesmo assim, em casa foi possível regular a apenas dois dias por semana o acesso ao “Penguin Club”.

         Enquanto isso, meu filho sofre para aprender a andar de bicicleta sem rodinhas.

         Lembro-me sem saudade de minhas lutas nessa área.

         Convencido de que seu pai nunca aprendeu a andar de bicicleta (se aprendi durante alguns anos, desaprendi nas décadas seguintes), meu filho se desespera e desanima.

         Conseguiu avançar alguns metros em linha reta, durante as férias que passamos num hotel-fazenda.

         De regresso a São Paulo, foi levado ao Parque do Ibirapuera para aprimorar a nova habilidade.

         Não houve jeito. Não quis saber de bicicleta. Chorou diante da dita cuja, alugada com tanta esperança pelos pais.

         “Não sei, não ando, vou cair”.

         Apelos, ameaças, argumentos, nada adiantava.

         Seria um crime desperdiçar todos os esforços dispendidos no hotel-fazenda: se lá meu filho estava perto de saber andar de bicicleta, uma desistência agora significaria jogar no lixo todas as conquistas feitas alguns dias atrás.

         Foi então que o “Penguin Club” mostrou sua utilidade.

         “Se você tentar andar de bicicleta de novo”, disse a ele, “você terá uma hora a mais de ‘Penguin Club’ quando a gente voltar para casa”.

         Ele subiu na bicicleta sem rodinhas. Treinou, caiu, levantou-se, pedalou, foi em frente, deu a volta por cima.

         De choroso e humilhado, de deprimido e envergonhado, de medroso e sem auto-estima que estava, ganhou neste dia a certeza de que sabe andar de bicicleta.

         Entregou-se depois ao videogame.

         O “Penguin Club” é vício, não há dúvida. Mas com um pouco de barganha sempre se pode transformar um vício em virtude.

        

Escrito por Marcelo Coelho às 23h46

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o freguês da barbearia

 
 

o freguês da barbearia

         Vou ao banco, tirar dinheiro do caixa eletrônico, e passo pela barbearia da esquina. São cerca de três da tarde. A barbearia, toda envidraçada, é daquelas bem antigas, com profissionais de cabelos brancos, uma espécie de loção cor-de-rosa sem marca que pulverizam com uma bombinha como aquelas de tirar pressão. Como a rua é em declive, os fregueses que se sentam mais próximos da esquina parecem um bocado elevados a quem passa pela rua. Vejo um menino pequeno, cabelos encharcados, metido num aventalão branco como se fosse um antigo freguês do estabelecimento.

         Só percebo depois de uma fração de segundo: é o meu filho menor! A babá o levara para cortar o cabelo. Meu impulso inicial foi entrar na barbearia e ficar com ele. Verdade que tinha outras coisas a fazer. Não fui. Em geral, tendo a achar que o primeiro impulso, com os filhos, é o mais certo. Mas tive um prazer novo ao vê-lo um pouco mais de longe, entregue à própria vida, sem precisar de mim; ainda mais quando entregue a uma fração de existência tipicamente adulta. Com oitenta anos ou cinco, o freguês da barbearia será sempre o freguês da barbearia. A não ser, é claro, que fique completamente calvo na meia-idade, futuro que não desejo ao meu filho.

Escrito por Marcelo Coelho às 23h29

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Marcelo Coelho Marcelo Coelho é membro do Conselho Editorial da Folha e escreve semanalmente no caderno "Ilustrada" desde 1990.

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