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Pais e filhos
Crítica do heterossexualismo
A gente se escandaliza ao saber que, há algumas décadas, negros e brancos tinham bebedouros diferentes no sul dos Estados Unidos; que não podiam se misturar em escolas nem nos ônibus.
Em qualquer loja de brinquedos de shopping center, encontro uma segregação parecida entre meninos e meninas. Um corredor está entupido de bonecas, panelinhas, fogõezinhos e fantasias de princesa. Outro corredor oferece monstros, carrinhos, espadas e fuzis.
O quadro não mudou (exceto pelos monstros) nos últimos cem ou duzentos anos, embora seja notória a revolução ocorrida nos papéis sexuais a partir de 1950 mais ou menos.
Com meus filhos pequenos, dois meninos, não fiz diferente do que qualquer pai faz. Encanto-me eu mesmo com carros e trenzinhos (que nunca tive em quantidade satisfatória), atendo a seus pedidos de comprar fantasias de super-herói, e não vi grande mal em que ganhassem espadas, pistolas d’ água, metralhadoras a laser e lançadores de meleca radioativa.
Afinal, pensei, isso faz parte da identidade masculina; todos os pais pensam o mesmo, todos os filhos também, e ai das exceções que surgirem no meio do caminho.
É assim que a tradição, por mais que pensemos estar livres dela, mantém seu domínio. Nada muda tão lentamente quanto as cantigas de roda, as adivinhas, as brincadeiras e o próprio vocabulário da infância: os adultos reproduzem o que conheceram há trinta anos, que por sua vez lhes foi transmitido da mesma forma pela geração anterior.
Seria preciso grande ousadia para fazer um menino brincar de boneca de vez em quando. Não chegarei a tanto. Mas um pensamento me veio de repente, ontem à noite, com certo alarme: enquanto meninos brincarem de espada, e meninas de boneca, continuaremos na idade da pedra.

"Espada do rancor" (1969), ikebana de Yukio Nagawa, de uma exposição de fotos em Nova York
Escrito por Marcelo Coelho às 23h26
Leituras com idade certa?
Não sou dos que acreditam muito nessa coisa de estimular os jovens para a leitura. Claro que é importante pôr livros, o máximo de livros, nas mãos de quem é pequeno. Mas sei, por experiência própria, o que é ser “estimulado” para fazer esportes quando não se quer isso de jeito nenhum. No máximo, eu poderia ter adquirido algum gosto pela natação, coisa que adquiri mais tarde, e que, entetanto, revelou-se um erro: depois de acumular alguns progressos na piscina, desenvolvi não sei que espécie de inflamação num tal de manguito rotatório (primeiro num braço, depois em ambos), demonstrando que a minha natureza não poderia ser contrariada sem exigir um preço doloroso em médicos e fisioterapeutas. Em suma, quem não gosta de ler, não irá ler.
Isso não significa que se deva atrapalhar a vida dos pequenos leitores. E é isso, acho, o que resultará de uma medida aprovada por um grupo de editoras inglesas, que pretendem colocar indicações de idade adequada para os livros infanto-juvenis que produzem.
Alguns autores de histórias infantis já se mobilizam contra a idéia, segundo matéria publicada hoje no The Guardian. Um desses escritores raciocina: o menino que, devido a suas dificuldades, estiver lendo um livro fácil demais poderá sentir-se desestimulado se souber, pela capa, que o indicam para uma faixa etária inferior.
Talvez seja muito exagero da parte desse autor: só falta querer proteger crianças de traumas desse tipo. E é justamente, creio eu, uma cultura de hiperproteção que está por trás da iniciativa.
Os critérios do “adequado” e do “inadequado” logo se transformam numa espécie de camisa de força para autores, pais e crianças. A excessiva moralização, o intuito edificante, a insistente pedagogia moral de muitos livros infantis recentes constitui, a meu ver, um desestímulo a mais na leitura.
Histórias que deveriam não ter outro fim exceto o de divertir –o de compartilhar fantasias—vão colocando agora a moralidade em primeiro plano. As fábulas antigas reservavam a moral da história apenas para a última linha, e mesmo livros terrivelmente edificantes como “Pinóquio” terminavam perdendo-se no próprio delírio antes de atingir o fim exclusivamente “educativo” a que se propunham. Hoje, é comum que moralizações interfiram a todo momento ao longo da trama.
Faz parte da experiência de todo leitor topar com livros “abaixo” ou “acima” do seu nível de compreensão. Ler coisas “adequadas” e “inadequadas” alternativamente não deixa de ser uma forma de exercitar a leitura crítica. Retornar, anos depois, a um livro que se julgou difícil, e surpreender-se com o fato de ter ficado fácil, é uma vivência intelectual de grande importância.
Sugerir faixas etárias me parece, assim, mais emburrecedor do que benéfico. “Ah, você é contra faixas em livros, mas a favor de classificação etária em programas de TV e em filmes...” Sim. Não posso folhear um filme, como folheio um livro, para saber do que se trata.
Claro que já cometi erros. Fui ler um livro, muito ilustradinho e simples, para meu filho menor, no qual o menino pequeno emburrava porque sua mãe saía todo dia de casa para trabalhar. O tema me parecia dos mais adequados para a fase, muito possessiva, que meu filho estava vivendo. Algumas páginas adiante, o livro entrou por um assunto espinhoso. O menino perguntava o paradeiro da mãe de um coleguinha seu. A mãe tinha morrido. “Para onde ela foi?”, perguntava a criança. “Está misturada nas plantas, nas flores, no vento...” Argh. Para que poetizar com antecedência um assunto que, se fosse para ocultá-lo, melhor seria nem abordar ainda? Meu filho não entendeu nada, exceto o meu mal-estar ao longo da leitura. Estavam-lhe sendo oferecidas respostas vagas a uma pergunta que ele nem havia formulado ainda.
Paciência. Não entender faz parte do aprendizado. E nada garante que as editoras não pusessem, num livro a meu ver impróprio, uma indicação de faixa etária correspondente à idade do meu filho. A não ser que os adultos sejam muito broncos para imaginar que tipo de livro devem dar para as crianças, prefiro que as editoras não assumam essa responsabilidade de forma tão explícita. E, se os pais forem broncos, um livro errado não é o pior que pode acontecer a seus filhos.

Detalhe de pintura de Rosso Fiorentino
Escrito por Marcelo Coelho às 20h22
Primeiro casamento
A babá de meus filhos casou-se neste sábado, só no civil, e fomos convidados para o almoço de comemoração. Há vários dias as crianças entregavam-se a muita expectativa e excitação, creio que principalmente devido às roupas especiais –paletozinho, etc.—que queriam exibir na festa.
Dormiram durante o longo trajeto de carro, e comportaram-se de modo mais ou menos normal, eu acho: certo estranhamento diante da quantidade de convidados, muita euforia ao ver a babá vestida de noiva, certo sucesso em roubar, por alguns minutos, o foco geral das atenções. Meu filho de 4 anos não se conformava de que um bolo pudesse ser cortado sem parabéns nem velinhas; quanto ao mais, ele e seu irmão maior (6 anos) comeram, brincaram, conversaram.
Prestei atenção no momento em que foram apresentados ao noivo; conheciam-no apenas de fotografia. Nenhuma emoção especial, nenhuma hostilidade, nenhum ciúme.
Lembro que também tinha seis anos quando minha babá se casou. O noivo, que trabalhava num bar, fizera um cuidadoso trabalho de aproximação comigo: sempre que aparecia em casa trazia uma ou outra guloseima; incumbido de carregar as alianças até o altar no dia do casamento, creio que dei conta do recado. Sabia que estava me separando da minha babá, que ela deixaria de morar comigo, mas bem ou mal eu sabia, também, que deveria conformar-me com o fato; a tristeza que sem dúvida eu estava sentindo foi controlada.
A babá dos meus filhos não deixará de trabalhar conosco, mas seguirá outros horários e agendas. Tudo ia bem, portanto, durante a festa. Mas quando chegou a hora de voltarmos para casa, meu filho maior disse que queria ir junto com a babá e o noivo para a viagem de lua-de-mel ao litoral. Sentei-o no meu colo, expliquei-lhe o que era lua-de-mel, citando até a clássica frase de cinema dos noivos que, ao fechar a porta do quarto, dizem “enfim, sós!”
Um choro manso, ou nem isso, só dois olhos marejados, foram sua resposta. Dali a pouco, estava tudo provisoriamente superado: alguém convidava-o, e ao irmão, para um passeio de moto. A novidade da aventura virou rapidamente aquele capítulo de perdas. Mas todo capítulo de perdas é um capítulo de ganhos também. Vi que meu filho não mais esperneava, mostrava mau-humor, inventava exigências absurdas para compensar sua frustração. É que ele estava às voltas com uma frustração mais funda, das que calam e se interiorizam; passou da idade das “reações emocionais” para aquela em que brotam, com a timidez de olhos úmidos, os sentimentos mais íntimos da gente; não responde mais com os nervos, mas com o coração. Vi nele repetir-se o que aconteceu, há muito tempo, comigo: a primeira página desse longo romance que cada um escreve sem palavras, e de que Flaubert roubou o título para sua “Educação Sentimental”.
Escrito por Marcelo Coelho às 18h11
correrias de assustar
Uff! Até que enfim consigo postar alguma coisa por aqui. Foi uma semana meio impossível para mim. Começou com uma palestra que tive de fazer no sábado passado, sobre o velho tema do texto no jornalismo cultural. Velhas anotações e velhos exemplos eu não tive coragem de ressuscitar. Fiz uma mistura, que depois tento resumir.
Veio depois uma participação (será a última) no programa Entrelinhas, da TV Cultura, cujo texto só na última hora consegui escrever. Já no mês passado eu tinha “fraquejado” um pouco no meu trabalho junto a esse programa, porque pedi para não mais aparecer eu mesmo na gravação. Só a voz em off já basta, porque o pessoal de lá é excelente em achar imagens que ilustrem o comentário que faço. Fazem um grande programa de literatura, e dá pena de sair, mas era o tipo de coisa que, embora feita uma vez por mês apenas, parece que você acabou de preparar uma e já estão te telefonando para fazer a próxima. Falei sobre uma coletânea de depoimentos a respeito de Mário de Andrade; logo mais cito alguma coisa.
Teve também uma resenha do livro “Crônicas Inéditas, vol. 1”, de Manuel Bandeira, a sair na Ilustrada deste sábado.
Troca de carro, troca de máquina de lavar, troca de ferro elétrico. Pega e busca criança, compra presente de festinha.
E por fim, na madrugada de ontem, quatro horas no pronto-socorro com meu filho menor, que acordou às duas da manhã com uma tosse ensurdecedora –parecia um carro de bombeiros. Ele já tinha tido isso aos dez meses. Nunca sei se é laringite ou faringite, e se é estridulosa, estrepitosa ou coisa parecida, mas merece o nome, porque é um barulhão inacreditável. O risco, que fiquei sabendo na primeira vez que isso aconteceu, é haver um fechamento da glote (ou da epiglote?), sufocando a criança. De modo que (vi isso num filme de Atom Egoyan), se o hospital for longe, o pai tem de levar consigo um canivete ou uma caneta Bic para furar a garganta da criança, numa traqueostomia a frio, para permitir sua respiração.
Escrevo tudo com espírito leve, porque o atendimento foi rapidíssimo, meu filho não precisou ser internado, e só permaneceu tanto tempo no hospital porque tinha de ficar sob observação. E principalmente porque, no meio de mais uma fase dificílima de birras e agressões, ele se portou de forma admirável. Houve apenas o choro básico da injeção, a resistência conhecida face ao aparelho de inalar oxigênio, mas o tempo todo uma calma, uma disponibilidade, que atribuo apenas ao fato de se sentir “dono” do pai naquela madrugada, sem ter de compartilhá-lo com ninguém. Devo dizer que correspondi ao desejado, e consegui inventar um brinquedo que recomendo para salas de espera.
Havia ali, como em todo lugar, um filtro de água com copinhos de plástico (melhor usar os pequenos, de café), e uma pia com aquelas toalhas de papel que, dizem, são suficientes para enxugar perfeitamente a sua mão. A idéia foi pegar duas ou três dessas toalhas, enrolando-as numa forma vagamente aparentada a uma pirâmide, e colocar o copinho branco de plástico no cume da pirâmide; estava pronto um fantasma de brinquedo.
Com uma caneta, desenhei dois olhos e uma boca assustadora no copinho. Depois, girando o copinho, desenhei uma cara feliz. A própria caneta, enfiada no interior do “lençol” do fantasma, pode ajudar na movimentação do boneco, e servir também como falsa seringa, aplicando uma injeção capaz de transformar o fantasma feroz num fantasma feliz. A mágica, aparentemente, deu certo.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h01
meninos que detestam esportes
Meu filho maior, que está para completar seis anos, não tem nenhum gosto por esportes. Quem puxa aos seus não degenera... Mesmo assim, ele foi levado a umas aulas de natação, que lhe serviram bastante para se virar em piscinas que não dão pé. Empacou, todavia, quando começaram a lhe impor aquela bateção de pernas e de braços de ponta a ponta da piscina que nós, adultos, conhecemos bem.
Conduzi-o então a uma escolinha de esportes muito reputada, no Caoc: há desde exercícios com bola, jogos leves de corrida e de queimada, até rudimentos de ginástica olímpica. Meu filho assistiu a tudo agarrado no meu braço, ciente de que, por mais que eu dissesse, aquilo não era, obviamente, um programa legal.
Indicaram-me, então, aulas de ai-ki-dô. Estive lá com meu filho nesta segunda-feira.
Para começar pelo fim da história, ele adorou. Entregou-se às atividades de uma forma que eu, depois de ver sua resistência à escolinha de esportes, já não acreditava possível.
Mas tenho de falar mais do que vi lá, antes do que foi visto por meu filho. Uns cinco ou seis meninos, maiores e menores do que ele, estavam treinando quando chegamos. Faziam, em uníssono, de quimonos brancos, uma série de movimentos elementares, e ainda assim complexos. A impressão que tive foi marcante. Como ver tanta decisão, tanta altivez, tanta nobreza de olhar, em crianças assim frágeis, assim pequenas?
Minha vontade era de chorar só com isso, com essa harmonia, com essa imagem de virilidade que fosse ao mesmo tempo pura e graciosa.
Depois vieram as explicações do mestre: foram tantas, que numa só aula creio ter aprendido o bastante para um ano inteiro.
Em primeiro lugar, o lutador de ai-ki-dô deve apresentar-se ao adversário com a perna e o braço esquerdos avante. Sabe por quê? Por que o lado esquerdo é o mais frágil, o mais suave. E, segundo a ideologia do ai-ki-dô, a suavidade tem a primazia sobre a força.
Depois, o mestre (que não era japonês, era um jovem meio careca e quase gordinho, de óculos) explicou a origem do ai-ki-dô. Ao contrário do que se possa pensar, não se trata de uma “arte milenar”. Surgiu nos anos 50, quando o fascismo japonês já havia sido esmagado pelas bombas de Hiroxima. O seu idealizador, cujo nome não lembro, absorveu as lições da derrota na Segunda Guerra.
Aprendeu que é estupidez e morticínio querer destruir o adversário. Ao mesmo tempo, ele gostava de artes marciais. Tratou de inventar uma arte marcial que fosse voltada não para a guerra, mas para a paz. Todos os golpes do ai-ki-dô resultam da suavização de uma técnica que, levada para valer, pode quebrar a coluna vertebral do inimigo em mais de um ponto. “Não é preciso fazer isso”, diz o mestre para um grupo de crianças de oito ou nove anos. “Importa mostrar, apenas, do que somos capazes”.
Dali a pouco, ele ensinava como lidar com um inimigo que te agarra pelo antebraço e quer puxar você. “Se você ficar encanado no ponto em que ele te machuca, ele será vitorioso. Não resista à agressão dele. Aceite a agressão dele. Ela só atinge cinco por cento do seu corpo. Adote uma estratégia diferente. Aceite a força dele para puxá-lo em sua direção”. E, num passe de mágica, a força do agressor foi usada para levá-lo ao chão.
Sem que ninguém se machucasse. Um garoto de quatro anos conseguiu (claro que com ajuda pedagógica) derrubar outro de doze.
Meu filho ficou entusiasmado. Não sei se ele aprendeu tudo o que eu aprendi nesta segunda-feira. Mas, sem dúvida, dispõe de mais tempo do que eu.
Escrito por Marcelo Coelho às 02h33
livros para aprender com os filhos
Um dos prazeres (melhor dizer: uma das alegrias) de ver os filhos crescendo é que isso abre a possibilidade, sempre inesgotável, de mostrar-lhes o mundo. Não resisto a entuchar meus filhos do máximo de informações possíveis, seja de vocabulário, seja de fatos históricos, nomes, lugares. Naturalmente, as crianças são rápidas e ávidas na absorção desse tipo de coisa, que talvez não faça muito sentido para elas (por que haveriam de conhecer palavras como “alternativa”, Constantinopla, glockenspiel?) mas faz sentido para mim, ou melhor, para meu relacionamento com elas.
Resumindo, não vejo vantagem nenhuma em facilitar as coisas. Há sem dúvida o prazer perverso, mas creio que também inocente, de ver como crianças pequenas pronunciam palavras polissilábicas. Mas há também uma sensação que tive quando dava aulas para estudantes de terceiro ano de jornalismo: você pode sempre baixar o nível de suas informações, para chegar ao básico do básico –mas nisso há sobretudo um desrespeito pela vontade de todo ser humano de vencer um desafio, e de se sentir mais sabido do que é. Quanto mais eu tornava difíceis minhas aulas –claro que com algum bom-senso nisso—, mais os alunos pareciam querer dificuldade, informação, cultura. O inteligível, o puramente inteligível, pode emburrecer. Emburrece tanto os alunos quanto o professor.
Alguns livros para crianças, editados recentemente, podem tornar os pais mais inteligentes. Pego, por exemplo, o Meu 1º. Larousse da História, coisa simples, para quem tem 7 ou 8 anos, quase em quadrinhos. Nunca tinha ouvido falar de Solimão, o Magnifíco, que governou um enorme império a partir de Istambul. Ou que o primeiro imperador da China se chamava Qin Shi Huangdi. Influências do multiculturalismo, que pegam desprevenidas as gerações mais velhas.
O livro é bem simples, e as gerações mais velhas haverão de se espantar pela absoluta ausência de menções à revolução russa e aos movimentos anticolonialistas do século 20. Em compensação, o pessoal da Larousse dedica duas páginas à Revolução Francesa sem falar de guilhotina.
Um livro mais detalhado, imagino para quem tenha seus 13 ou 14 anos, ou para quem tenha mais de 40, é Para entender o mundo, da editora SM. Cheio de números e fotos, além de simpáticas ilustrações de Orlando, pode ser lido com proveito por qualquer pessoa que se embatuca um pouco quando lhe perguntam sobre os conflitos da Bósnia ou de Darfur. Se eu tivesse de fazer vestibular neste ano, sem dúvida eu recorreria ao livro. Há desde a história da União Européia e da evolução dos preços do barril de petróleo de 1970 a 2004, até a informação de que existem 15 589 espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção. A criança ou adolescente que tiver lido com atenção um livro desses haverá de saber, sobre o mundo atual, mais do que muitos jornalistas de renome.
Também é difícil acreditar que Arte para compreender o mundo, também uma edição da SM, sirva apenas para leitores em idade escolar. Começa com uma epígrafe de Picasso: “Arte não existe para decorar apartamentos: ela é uma arma ofensiva e defensiva contra o inimigo”.
Depois dizem que a Guerra Fria não existe mais... Mas o livro está longe de ter uma visão militante. Eu diria: procura uma atitude consciente. Esclarece as relações entre a arte e o sagrado, entre arte e expressão de sentimentos, entre arte e documentação, entre arte e política, entre arte e... decoração, com exemplos tirados dos países e épocas mais diversas.
Certamente, esse tipo de livros é feito tanto para os pais quanto para os filhos. Os meus ainda não estão em idade para avançar tanto assim, mas eu trato de ir dando uma olhada enquanto isso.
Seria errado terminar este post sem falar de um livraço, também da editora SM, que por ter um prefácio de minha autoria não pode ser mencionado sem desculpas pelo que possa haver de propaganda em minha atitude. Mas é que o livro é bom mesmo. Trata-se de Imagens que Contam o Mundo, de Eric Godeau. São trezentas fotos da agência Magnum, a mais extraordinária associação de talento fotojornalístico do século passado, contando a história do mundo de 1950 até o presente, com textos e comentários que não apenas contextualizam os fatos retratados, mas também trazem depoimentos dos próprios fotógrafos. De Elvis Presley a Martin Luther King, de Lula à Rainha Elizabeth, não há foto que não surpreenda, que não se inche de sentido. Seria absurdo deixar isso cair apenas nas mãos de alunos de colegial.

Solimão [Suleiman], o magnífico
Escrito por Marcelo Coelho às 01h55
A guerra dos videogames
Não sou xiita em matéria de videogames para crianças. Claro que os jogos de luta são assustadores, com sangue espirrando, impiedade assassina, violência contra (e de) mulheres.
Entendo, todavia, que esses jogos de computador têm duas funções para as crianças, mesmo pequenas, como é o caso do meu filho de cinco anos e meio. Trata-se, em primeiro lugar, de uma das raras oportunidades que ele tem para se sentir forte e poderoso. Imagino a sensação de fragilidade, de desamparo, que o acompanha desde o nascimento, ocupante de um pequeno corpo cercado de adultos que falam alto e, basicamente, passam o tempo todo a transmitir-lhe ordens e proibições.
Em segundo lugar, um bom treino em videogames passou a ser essencial para a própria sociabilidade dos meninos. No meu tempo, bastava ser bom em futebol. Hoje, a habilidade no computador constitui igual fonte de prestígio.
De qualquer modo, não há muito como lutar contra uma característica que é básica nessa nova geração. Para o bem ou para o mal, faz parte do que as crianças hoje são, e do tipo de adultos que serão amanhã. A influência em sentido contrário –livros, natureza, etc.—se dá nas horas vagas, e não deixará de marcar as diferenças individuais contra o pano de fundo comum e cibernético.
Dito isso, começo a ver com mais nitidez os males que o uso do videogame está causando na minha precária paz doméstica. Evidentemente, aquilo vicia. Até aí, nenhuma novidade: fui viciado em histórias em quadrinhos, outros o foram em futebol ou balas de goma.
O problema é conviver com o viciado. Repentinamente, a necessidade de entrar no site de jogos se manifesta a toda hora, e ai de quem quiser regular essa atividade (minha mulher e eu queremos, claro). O comportamento do meu filho passou das manhas da primeira infância para a rebeldia adolescente. Não ouço choradeiras, não presencio esperneios: passei a ser chamado de “panaca” e presenciar cenas de mau humor.
A razão é simples: o videogame evidenciou para meu filho o contraste entre seus poderes virtuais, imaginários, e aqueles que de fato tem. É nisso que reside, afinal, o conflito básico da adolescência, admiravelmente explicado pelo meu colega de Ilustrada, Contardo Calligaris.
Mais do que isso, a vida virtual abre para cada criança um mundo próprio, no qual ela é independente de seus pais. Já não precisa que lhe contem historinhas, ou que a levem ao circo, ao cinema ou ao zoológico. Os adultos se tornam dispensáveis, desde que provenham a senha do speedy; uma banana, portanto, para o que disserem depois.
O resultado, como em toda experiência educacional, acaba sendo mais draconiano do que seria de desejar. Proibições, cortes, restrições estão a caminho. Mais um pouco e prestarei consultoria ao ministro Paulo Bernardo e outras autoridades econômicas do governo federal.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h59
presentes de Papai Noel
Agora que os presentes de Natal foram distribuídos, vejo com tristeza o estrago que a publicidade é capaz de fazer sobre crianças impressionáveis e pais molóides, como costumo ser em assuntos de consumo.
Meu filho de cinco anos e meio começou pedindo a papai Noel um tal de computador do Ben 10. Fui ver: é um computador de verdade, com tantos pentiums e megabytes quanto o meu, e custava quase R$ 2 mil. Fora a cor verde e algumas decorações alusivas ao super-herói, não tinha nada que outro computador não pudesse fazer –e meu filho tem lá os seus acessos limitados ao lap top de casa.
Coube-me explicar a ele que, apesar de todos os notáveis esforços empreendidos ao longo do ano no que diz respeito ao bom comportamento (e de fato ele está próximo do irrepreensível), não ganharia esse computador do Papai Noel. Argumentei que era coisa para crianças mais velhas, que já sabem ler bem e usar o computador... “Mas eu sei!”, disse ele, e era verdade.
Mesmo assim, foi negado o pedido. Meu filho se conformou rápido, e refez sua lista. Queria um boneco do Max Steel, e um jogo, não muito caro, chamado “Guerra dos Monstros”. Aparentemente, é uma novidade no mercado de brinquedos, e não havia como dizer não dessa vez.
Atendido o desejo, que a pura publicidade havia criado, os brinquedos foram praticamente esquecidos assim que meu filho os recebeu. O Max Steel é um boneco desses de super-herói, com um motorzinho que o faz andar em círculos sobre uma espécie de skate. Não há muito o que fazer com ele.
“Guerra dos Monstros” é uma espécie de pin-ball, que pelo acionar de um gatilho derruba uma dezena de monstrinhos de plástico minúsculos, acoplados a uma plataforma transparente. Trata-se de um produto bastante precário, com umas molinhas que vão escapando rapidamente do lugar onde deveriam ficar, e com dispositivos de disparo que travam sem muita explicação.
Em resumo, é como se meu filho não tivesse ganho nenhum presente de Natal. Caiu, caímos, no mesmo logro recentemente. No Dia da Criança, ele queria uma maquineta capaz de lançar teias do Homem-Aranha em todas as direções. O triste é que ele pensava que eram teias reais, que o fizessem escalar muros e pular de prédio em prédio. Bem, ele não pensava exatamente isso, mas era isso o que ele queria pensar.
Ganhou, entretanto, uma espécie de arma de brinquedo que expulsa uma gosma cinzenta com velocidade incrível –o que determina a necessidade quase imediata de se comprar um refil daquelas teias. Garatujas pegajosas de falsa aranha grudaram-se no teto do apartamento, como num lembrete irônico: é desta matéria que são feitos todos os sonhos.
A recomendação prática, se posso dar alguma, é deixar que o presente de Papai Noel seja uma surpresa. E confiar mais em nós mesmos do que no desejo das crianças. Sabemos o que valem os desejos que vêm do próprio sujeito: esgotam-se rapidamente, e foram criados por algum tipo de crença arbitrária e traiçoeira.
Outra recomendação: nunca compre a barraca de montar do Homem-Aranha, ou a do Acampamento da Mônica. A não ser que você seja um Paulo Mendes da Rocha, será incapaz de fazer aquele negócio ficar de pé.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h23
Doutores da Alegria
As crianças riem bastante, e não poucas vezes os adultos também se surpreendem achando graça em alguma palhaçada. Não falta talento aos profissionais do “Doutores da Alegria”, que estão no Sesc Pompéia com os “Poemas Esparadrápicos” de José Paulo Paes. Os textos, curtíssimos, ganham músicas de fácil assimilação, e se consegue dar substância teatral a cada número.
Mas o espetáculo tem problemas sérios de direção. Fui ver no dia 12, e tive a sensação de que cada número se prolongava além da conta, de que havia intervalos “vazios” entre as cenas, e que o próprio início do espetáculo era mal sinalizado –como se tentasse começar várias vezes antes de começar de fato. O resultado é que tudo ficou muito comprido, podendo cansar os menorzinhos no público. Como o horário é 12 horas, recomendo que todos almocem antes.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h24
temporalidade e infância (2)
Há uma passagem célebre do filósofo Henri Bergson, em que ele imagina uma situação muito clara. Não a cito ipsis litteris, mas ele diz mais ou menos assim:
Estou estudando uma lição (podemos imaginar que é um texto que ele tem de decorar, como havia nas escolas antigamente). Leio a passagem uma vez, duas, três, e aos poucos algumas seqüências de palavras vão se cristalizando na memória, vão surgindo automaticamente, eu leio mais vezes, fico capaz de reproduzir o texto inteiro na cabeça, depois de umas dez ou vinte leituras. No dia seguinte, na aula, eu falo o texto em voz alta, eu me lembro dele, eu o sei de cor.
Pois bem, agora eu trato de rememorar como foi a tarde em que decorei esse texto. Lembro-me, por exemplo, que da terceira vez que eu li o texto alguém tocou a campainha; que em determinado trecho eu tive muita dificuldade para decorar; que eu comecei decorando o primeiro parágrafo, que aí começou a chover, que eu tomei um café em seguida... e assim por diante. Eu lembro, portanto, do que se passou naquelas horas; lembro, também, do texto decorado. Mas alguém diria que essas duas memórias são a mesma coisa?
Num caso, houve o treino, o exercício, a repetição, e me dou por satisfeito se chego a reproduzir o texto igual em minha mente. No outro caso, os acontecimentos foram passando, e se fixaram, mais ou menos, na minha memória; posso trazê-los de volta à minha consciência, e tenho consciência de que aqueles fatos se deram num fluxo de tempo. Essa é a memória do vivido, enquanto o texto é, por assim dizer, a memória do aprendido, do hábito mental que conseguimos adquirir para decorá-lo.
Pois bem, agora eu falo da minha experiência de pai, pensando nesses dois conceitos de memória apresentados por Bergson. Imagino que a vida de uma criança pequena se assemelhe um pouco à do estudante que tem de decorar a lição, mas é como se tivesse diante de si uma “lição” enorme, de quinhentas páginas, e que tem de lê-la inteiramente antes de voltar para ler uma segunda vez, e ler quinhentas páginas de novo até ler a terceira vez, etc... Esse livro de quinhentas páginas tem, na verdade, a duração de um dia. Durante esse dia, várias “palavras” se repetem, vários movimentos têm de ser refeitos, várias situações são parecidas, mas em meio a tal quantidade de informações, diferenças, novidades, que a aquisição de qualquer hábito –por exemplo, o da linguagem, ou o de andar, se vestir, etc., se perde e se mistura com a qualidade extremamente intensa de tudo o que está em curso.
A criança, podemos dizer, está mergulhada inteiramente no fluxo do “vivido”, e demora muito para sair desse fluxo: sair desse fluxo é aquilo a que chamamos aprendizado, aquele treino, por tentativa e erro, de andar, de falar, de dizer “obrigado”, de ir ao banheiro... sem dúvida, há qualidades muito diferentes nessas diferentes coisas que uma criança adquire. Mas eu vejo os grandes esforços que os pais têm de ter, a imposição dificílima de uma série de repetições, para que a criança por fim saiba “de cor” a sua lição. Estamos como se tivéssemos um livro de ensinamentos, de regras básicas, que temos de impor a um aluno que está completamente entregue à experiência casual, da campainha que toca, da chuva que começou a cair, etc.,.
Sou levado a imaginar que a criança pequena, entregue a esse fluxo de acontecimentos e sensações que não reconhece inteiramente, que vive essa experiência em que tanto o que acontece com ela mesma quanto o que acontece fora dela constituem, por assim dizer, um espetáculo ininterrupto, está experimentando a vida do mesmo modo que Funes “rememorava” aquela tarde de nuvens [ver o post anterior]: ou seja, a criança estaria sonhando a vida –sonhos bons ou ruins, é claro— e é por isso, justamente, que não nos lembramos dos primeiros anos da infância.
Por sorte, entretanto, os pais conseguem impor algumas regras para as crianças pequenas, e talvez seja interessante contar certas experiências que tive com meus filhos. Acho que os períodos em que meus filhos estavam mais impacientes, birrentos, fazendo escândalo por qualquer coisinha, de cinco em cinco minutos, foram os que antecederam alguma grande conquista, seja na linguagem, seja no controle das necessidades fisiológicas, seja na própria percepção do tempo.
Escrito por Marcelo Coelho às 16h24
temporalidade e infância
Ponho aqui um trecho da palestra que dei no Sedes Sapientiae, sobre minhas experiências como pai, e as relações entre o tempo nosso e o das crianças.
Muitas pessoas que têm filhos mais velhos, adolescentes ou já adultos, costumam me dizer: “aproveite, porque passa tão rápido...” Provavelmente eu também vou achar isso daqui a uns quinze anos. Mas a minha sensação, atualmente, é que não passa tão rápido assim. Tenho a lembrança clara, por exemplo, das dificuldades que é fazer uma criança adormecer. Daqueles longos passeios de carrinho, às vezes dentro do apartamento mesmo, na esperança de que o bebê dormisse, e nada... Das viagens intermináveis para o litoral, com um ou dois meninos agitadíssimos, incapazes de se sentar na cadeirinha com o cinto de segurança, pedindo colo ou se jogando no assoalho do carro.
Sei que nada disso passou rapidamente. Sei, agora, que passou –e isso é o bastante...
Mas é natural que a gente se espante com essa “rapidez” desses tempos de cuidar de criança pequena. Por várias razões, eu acho. A primeira é que o desenvolvimento da criança, ao contrário do nosso, é de fato muito intenso, e a criança aprende muitas coisas em três ou quatro anos. Na nossa vida adulta, quatro anos não costumam trazer mudanças relevantes; os quatro primeiros anos da vida trazem, claro, um acúmulo de desenvolvimento e de aprendizado gigantesco. É a quantidade de coisas concentrada no tempo, quando o vemos de fora, que é muito grande. Mas não a velocidade do tempo quando o vemos de dentro.
Uma segunda razão para acharmos que “tudo passa rápido” é que, depois que tudo passou, o que temos em nossa mente não é mais a experiência concreta, mas a memória de alguns fatos, situações, sensações. E a memória, na verdade, é uma operação mental que se dá no plano do simultâneo, não do tempo vivido; sua linguagem é a de um quadro mental, de uma imagem, mas não de um percurso lento, que transcorre em meio a grandes períodos de “vazio”, de espera, de “não-acontecimento”.
Creio que é esse paradoxo que está por trás do conto muito conhecido de Borges, “Funes o Memorioso”, em que se fala de um personagem incapaz de esquecer qualquer coisa, que tinha a memória de todos os mais insignificantes detalhes da própria vida. Borges diz, por exemplo, que Funes era capaz de se lembrar de todas as minúsculas transformações das nuvens que passam pelo céu numa tarde. E completa: a rememoração dessa tarde ocupou uma tarde inteira de Funes. Certamente, estamos aqui diante de um paradoxo, porque uma mente que fosse capaz de reencenar todas as variações das nuvens na memória teria de fazer, além disso, mais uma coisa: saber que está se lembrando daquelas nuvens, prolongar voluntariamente a sua experiência de rememoração. Haveria um vaivém entre a atenção dada a si mesmo (estou me lembrando, foi exatamente assim, vamos continuar mais um pouquinho...) e a atenção dada à “cena” rememorada. Penso que, a cada mudança de foco no seu pensamento, Funes estaria interrompendo o processo contínuo de sua rememoração. Estaria vendo uma seqüência, muito grande, sem dúvida, de “fotos” daquelas nuvens, mas não estaria vendo um “filme” com a duração exata do processo. Se estivesse vendo imaginariamente o filme daquela tarde, não diríamos que ele está se lembrando daquela tarde: e sim que está sonhando aquela tarde; sem consciência de cada um dos momentos de sua rememoração; para ver a tarde de novo, ele teria de se esquecer de quem é, do ato voluntário de sua memória; e, depois de despertar desse sonho, Funes não teria, justo ele, como se lembrar de que foi ele que sonhou. Uma memória consciente seria, então, necessariamente fragmentada, e não contínua. Recupera o tempo, mas o vê parado, de fora, não o vive de dentro...
Escrito por Marcelo Coelho às 16h19
crescimento e memória
Meus filhos vão crescendo. O mais velho fez cinco anos em maio, passou da idade das birras e entrou na do videogame. Os conflitos com ele, atualmente, concentram-se em torno do tempo que ele gasta no computador; o resto se faz do prazer de conversar, de explicar-lhe o mundo, de ler e aprender com ele. Quis saber, outro dia, o que é “ser vaidoso”, e se isso era um defeito ou não. Perguntou depois se ele próprio era vaidoso; optei pela negativa. Afinal, uma criança, mesmo se for vaidosa, deve ser assim mesmo. Achei honesto, em todo caso, dizer que eu próprio era um pouco vaidoso. Talvez julgasse que é importante ensinar a um filho os princípios da autocrítica. A frase foi comprada, como se diz, pelo valor de face, e meu filho agora afirma aos quatro ventos que sou vaidoso. A babá, ao ouvir isso, comentou: “será que precisava dizer?”
Concluo que ter filhos (para nada dizer das babás) é ter uma espécie de espelho ativo diante de si; claro que ficamos felizes ao ver reproduzidos neles traços de fisionomia e de personalidade que são nossos. Aprendemos a ver também nossos defeitos em estado nascente, ou talvez agravados pela ausência de educação; e também refletido, no julgamento dos filhos, o que de mais frágil tenhamos em nós.
Meu filho menor está com três anos e meio, e passa igualmente por uma fase de progresso considerável e integrado. Aprendeu ao mesmo tempo os elementos de uma sintaxe mais complexa (“quando a gente voltar para casa, eu vou tomar banho”), o sentido do “depois” (“depois de almoçar você pode ver televisão”) e o uso da privada. O fim das manhas e explosões mais intensas tem a ver, naturalmente, com essa percepção do tempo. Tudo é questão de adiamento. Na sintaxe, há o adiamento da nominação verbal pura em favor de uma ordem que exige o antecedente e o conseqüente, a frase subordinada e a principal. Na vida fisiológica, há o abandono da segurança imediata garantida pela fralda.
O que vou guardar desse período tão trabalhoso da minha vida?
Fica para mim uma imagem, que não tem nada a ver com o que eu disse acima. Uma tarde chuvosa, num parquinho de diversões em Peruíbe, levei meu filho maior (ele devia ter menos de quatro anos nessa época) para passear. Havia uma série de brinquedos –roda-gigante, tobogã, carrossel-- contra-indicados para a idade dele.
Meu filho se encantou por uns barquinhos, que giravam lentamente num pobre e raso círculo de água parada. Coloquei-o, pequeno e solitário, num barquinho azul. O funcionário do parque deu a partida no aparelho. Meu filho se manteve, sentado e sério, naquele brinquedo que girava lentamente naquele mar minúsculo, imaginário e pobre.
Vejo-o ainda na memória, experimentando, quem sabe se pela primeira vez, a sensação de estar sozinho no mundo. Certamente, o brinquedo não produzia nenhuma emoção física excepcional. Ele estava calmo, quase indiferente. O barquinho girava, e eu o via passar. Era tão pouco o que ele sentia... e aquilo parecia satisfatório a seu corpo diminuto, impregnado de chuvisco e vazio em volta.
Minha vontade de protegê-lo, e de que ele crescesse, bateu sobre mim como uma intensidade de que, até hoje, não me recupero. Há dor e prazer nisso: do mesmo modo, muitas vezes choramos sem saber se é de tristeza ou de alegria.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h11
Umberto Eco para crianças
Foi uma surpresa para mim saber que Umberto Eco era autor de histórias infantis. Um lindo livro com três contos seus acaba de ser editado pela Berlendis e Vertecchia. Na verdade, procurando pelo google, encontrei edições brasileiras anteriores, pela editora Ática, de pelo menos duas histórias: “Os Três Cosmonautas” e “Os Gnomos de Gnu”.
Na qualidade de semiólogo, Umberto Eco já havia feito muitos comentários interessantes sobre os clichês da literatura infantil. Fez um recenseamento, certa vez, da quantidade de histórias que começam falando de uma família que morava numa casinha da floresta, onde todos eram muito pobres, mas “muito felizes”. Parece existir em todos esses livros, diz Eco, uma relação indissociável entre pobreza e felicidade...
Em todo caso, os contos infantis de Umberto Eco não primam pela imaginação desenfreada, nem fogem dos clichês políticos da época em que foram escritos, o final da década de 80. A “mensagem” das histórias é irritantemente clara: parem com a corrida armamentista, cuidem do meio ambiente, aceitem as diferenças políticas entre os regimes americano, russo e chinês.
O que torna o livro realmente valioso não é o texto de Eco, mas sim as ilustrações, misto de colagem e aquarela, de seu amigo Eugenio Carmi. Os três cosmonautas, por exemplo, são representados por meio de recortes de papel. O americano é feito de pedaços de embalagem de chiclete, o russo de pedaços do Pravda, o chinês de um ideograma amarelo. O “emblemático”, aqui, vira estilização e composição plástica. Se não há grande fantasia, há uma sutileza, uma discrição, que no texto não aparece. Querendo ser simples e conciso, Eco fez histórias um bocado esquemáticas. É uma pena que o fantasma do didatismo não seja mais fácil de exorcizar.

Ilustração de Eugenio Carmi
Justamente, fui ver com meu filho menor (de 3 anos) uma peça no Teatro Bibi Ferreira que, apesar da habitual precariedade de cenários e figurinos, notabiliza-se por não pretender provar nada para ninguém.
Trata-se de “O Menino Maluquinho”, baseada no personagem de Ziraldo. Creio ser um espetáculo ideal para crianças bem pequenas, que não conseguem acompanhar uma história com começo, meio e fim. Pequenos quadros e acontecimentos se sucedem, sempre com bastante música e dança, respeitando as intermitências da atenção infantil.
As brincadeiras e graças que surgem no palco não foram “traduzidas” por uma mente adulta, que depois se encarrega de “retraduzi-las” no que pensa ser a linguagem infantil. Esse, aliás, o defeito maior, talvez, de tudo o que se faz para crianças. Aqui, é como se uma criança, no palco, estivesse divertindo as da platéia, sem intermediação da lógica dos adultos. Não é que os atores sejam especialmente adequados, que as músicas sejam especialmente bonitas, que a movimentação em cena seja cuidada. O que importa é nada se quis impor ao pequeno público; nem mesmo um alto padrão de qualidade. Meu filho, que não gosta de parar quieto, divertiu-se a olhos vistos.
Escrito por Marcelo Coelho às 22h26
matem o lobo
O mundo do politicamente correto tende a não ter limites, como é próprio de toda linguagem totalitária. Levei meus filhos para uma apresentação de "Pedro e Lobo", com simpáticos instrumentistas da Osesp. Já na versão clássica da história, o lobo era poupado. Os caçadores aparecem, e Pedro intervém: "não o matem!Levem-no para o zoológico!"
Na sensibilidade politicamente correta de hoje, nem o zoológico é permitido. No desfecho do espetáculo a que assisti, Pedro grita: "Não o matem! Levem-no ao parque ecológico!"
Francamente. Mais do que pensar na ecologia dos lobos, seria necessário pensar na ecologia emocional da criança. Ela ficou com medo do lobo, identificou-o como o inimigo. Seu sossego psicológico depende de uma coisa muita simples: toda ameaça deve ser destruída. Não há lugar para ecologia e correção política nesse momento. Lobos devem ser mortos, e ponto final. Mais tarde, a criança perceberá que isso é uma crueldade. Mas há tempo para tudo. Aos cinco anos, matar um malvado não é distorção política. É necessidade simbólica.

foto de Richard Billingham.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h21
Riscos e filhos (3)
Essa coisa de preservar os filhos de possíveis acidentes varia, naturalmente, conforme a personalidade de cada um. O romancista inglês Evelyn Waugh, certamente um monstro, estava com um filho recém-nascido durante os bombardeios alemães sobre Londres, na Segunda Guerra Mundial. Decidiu fugir para uma casa de campo, levando todos os seus livros. Mas o bebê ficou em Londres mesmo.
Explicação de Waugh: um bebê pequeno? posso fazer outro rapidamente. Mas meus livros são insubstituíveis. Anos mais tarde, o bebê em questão, o jornalista Auberon Waugh (que também não era flor que se cheirasse), desculpou a atitude do pai:
Para ser justo, quando se é um bebê pequeno, a indiferença entre pai e filho é recíproca, e o bebê teria alegremente preferido ficar com um apito de brinquedo a preservar a vida do pai.
A família Waugh prossegue em seus sorridentes rancores com Alexander Waugh, filho de Auberon e neto de Evelyn, que acaba de publicar Fathers and Sons: The Autobiography of a Family, resenhada na New York Review of Books. O livro já virou documentário na BBC, aliás. Alexander diz de seu pai:
Eu adorava meu pai, mais do que, suponho, ele adorava a mim, ou pelo menos eu pensei mais nele durante a minha vida do que ele em mim (...) Mas esta é a natureza de toda relação entre pai e filho. Um pai pode ter vários filhos para acrescentar a suas muitas preocupações mas um filho tem apenas um pai...

Evelyn, Auberon e Alexander Waugh.
Escrito por Marcelo Coelho às 11h24
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Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.
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