Pais e filhos
criança e consumo Falei no artigo desta quarta-feira (aqui para assinantes do uol) sobre os brinquedos do Dia das Crianças, e de uma organização beneficente que, de certa maneira, em casos especiais, dá toda razão aos caprichos e desejos infantis. O “make a wish” (realize um desejo) atende pedidos de crianças com doenças graves. Mesmo se forem extravagantes, merecem ser cumpridos. O tema do consumismo nas crianças é vasto, mas ficam aqui duas dicas. Um livro, intitulado “Eu era assim”, reúne crônicas e reportagens recentes de Flávio Paiva, publicadas em sua maioria no “Diário do Nordeste”, de Fortaleza, e no Portal Cultura Infância, de São Paulo. Há muita informação sobre iniciativas a respeito dos efeitos da publicidade e televisão no público infantil. Nesta quinta feira, às 23h10, passa na TV Cultura o documentário “Criança, a alma do negócio”, de Estela Renner, mostrando o poder das marcas e da propaganda sobre as crianças brasileiras. 
desenho de David Hockney
Escrito por Marcelo Coelho às 18h52
a arte de esperar
Chegou enfim o Dia da Criança, data que vinha sendo aguardada há uns dois meses pelos meus filhos (7 e 5 anos). Havia a promessa de um presente bastante caro, o jogo de Wii chamado Mariokart. Naturalmente, o mínimo de bom senso pedagógico indica que não se deve encher as crianças de brinquedos, e que fazê-las esperar por uma data certa é tão importante quanto surpreendê-las, às vezes, com pequenos presentes inesperados. Mas foi difícil agüentar a pressão para só dar o bendito Mariokart neste 12 de outubro. Claro, por medo de que faltasse nas lojas, tinha comprado o brinquedo há mais de 15 dias. E meu filho maior perguntava o tempo todo se ia ganhar, quando ia ganhar, se eu já tinha comprado etc. Como a data marcada foi antecedida de um sábado e domingo, parecia-me racional dar o presente logo no sábado, para que meus filhos aproveitassem o fim de semana, em vez de só dar na segunda. Resisti, entretanto. E aprendi que muitas vezes não é só por causa da pressão dos filhos que cedemos. O fato é que eu mesmo estava louco para dar o presente antes da data. O prazer, no fim, teria sido menor para todos os envolvidos. E ensinar a esperar é uma coisa que temos a obrigação de fazer com nossos filhos, acima de tudo por uma razão bem egoísta. Somos nós, os adultos, que não agüentamos esperar por nada. Vejo a minha irritação no trânsito, no banco, ou diante do computador. É porque sofremos de impaciência que educamos mal nossos filhos, querendo resultados imediatos... E é fácil, da parte deles, aprender com nossa impaciência, e com tudo o que há de resposta imediata, de pressa, de instantaneísmo, na vida contemporânea. Vejo que vou ficando muito edificante. Paro por aqui. De resto, foi só as crianças começarem a jogar o tal Mariokart que surgiram brigas e choros, a cada derrota que o joguinho impunha. Minha paciência foi assim testada novamente... Até que deu certo, pelo menos até a hora em que os meninos foram conduzidos, não sem algumas ameaças, para o merecido descanso.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h31
Geronimo Stilton, o ratinho jornalista
Uma amiga que mora fora do Brasil mandou para meus filhos (7 e 5 anos), já faz algum tempo, um livro da coleção do ratinho Geronimo Stilton, em inglês. Fui traduzindo para o mais velho enquanto lia, meio aos trancos e barrancos, mas o sucesso foi imediato. Geronimo Stilton é um ratinho intelectual, dono do maior jornal de sua cidade. Quer mesmo é ficar em casa, tomando seu chá com biscoitinhos de queijo, mas acaba se envolvendo nas mais diversas aventuras (múmias num museu, ossos de dinossauro num deserto, gatos-piratas). Vive morrendo de medo, mas conta com bons e animados companheiros: seu sobrinho Benjamin, uma amiga deste, belas ratinhas capazes de resolver qualquer encrenca... Os livros são muito bem ilustrados, o que significa um traço de história em quadrinhos não muito esquemático, cores ótimas e a atenção ao detalhe que toda criança requer. Há sempre um mapa da ilha dos ratos, um mapa da cidade em que Geronimo mora, e mesmo um corte longitudinal do edifício-sede da “Gazeta Roedora”. Este pai, de resto, identifica-se completamente com a personalidade do protagonista, e isso não passa despercebido à pequena audiência doméstica. A boa notícia é que os livros de Geronimo Stilton começam a ser traduzidos no Brasil. Infelizmente, o primeiro que chegou às minhas mãos (“O Manuscrito de Nostrarratus”) tem um começo um pouco desinteressante para crianças menores. O herói está às voltas com a contabilidade do jornal, até ser interrompido pela inconveniente secretária, que o convence a visitar a Feira de Livros de Ratofurt. Nada muito palpitante para quem espera grandes aventuras. As coisas vão ficando mais interessantes quando a secretária inclui um tio, totalmente desprovido de superego, na viagem, e impõe a Geronimo divertimentos radicais e gastos miliardários num hotel de luxo (que deveria se chamar “Ratz”, mas é “Ratritz” ou coisa parecida). Há algo de sádico nos sofrimentos impostos a Geronimo –outros volumes não exageravam tanto a dose. Mesmo assim, vale a pena dar uma olhada nessa estreia do ratinho no Brasil. 
Escrito por Marcelo Coelho às 01h35
Blog das aventuras
Em matéria de pai interagindo com filhos, este blog dá de dez a zero e é um exemplo (para quem conseguir imitar): http://www.cyberaventuras.blogspot.com/
Escrito por Marcelo Coelho às 10h00
museu do futebol Não tenho maior interesse por jogos, times, técnicos e craques. Mesmo assim, o Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, foi emocionante para mim. Logo no começo, há uma exposição temporária que vale qualquer obra de artes plásticas nas bienais da moda. Numa parede curva, estão dispostas as camisas dos mais variados times do mundo, obedecendo a uma clara gradação de cor. Depois, há painéis com milhares de peças de futebol de botão. O efeito é muito maior do que qualquer fanático de futebol pode prever; estamos diante de uma instalação belíssima, muito mais bonita do que a média das instalações. O museu todo é um espanto cenográfico. Uma sala se dedica apenas à derrota da seleção brasileira em 1950. Filmes de época, mostrando Getúlio Vargas e a campanha do petróleo, dão o contexto da tragédia. Sobe-se um andar, e de novo a escuridão: só se ouve o grande rumor das torcidas, até que nas telas imensas da parede se percebe que a sala é inteira dedicada ao torcedor –movimentos na arquibancada, gritarias, gestos coletivos, aparecem projetados na parede. Um módulo exclusivo para filmes de drible. Outro em que você pode sintonizar a voz dos grandes locutores de futebol, de Ary Barroso e Fiori Gigliotti a Osmar Santos e não sei mais quem. De repente, na escuridão das salas, você tem acesso a um banho de luz: é o campo do Pacaembu, ele próprio, que você vê de uma passarela em pleno dia. Levei meus filhos para o passeio. Como sempre, eles estavam mais interessados na parte interativa (alguns joguinhos virtuais, uma cobrança simulada de pênaltis) do que na beleza da coisa toda. Não sei com que idade se tornarão frequentadores de museu. Mesmo sendo um museu tão diferente, tão sem cara de museu, como esse do futebol. Vá, mesmo que não goste de futebol. Mas não leve os filhos, mesmo que eles gostem...
Escrito por Marcelo Coelho às 22h44
Por que ter filhos?
Entendo perfeitamente os pais que querem ter um único filho. Já não basta? Ei-lo, bebê que cresce, unificando pouco a pouco o que há de particular em mim, e na sua mãe. O trabalho que dá é suficiente para desistirmos de outro. No meu caso, acabei cedendo às pressões da mãe e concordei com a ideia de um segundo filho. Vale a pena. É maravilhoso contemplar as diferenças entre o Primeiro e o Segundo. Como se fossem dois pólos daquilo que é a união entre um homem e uma mulher. Que alternativa, que outra coisa, existe num segundo filho! Não tenho disposição para um terceiro: mas a variedade de que nosso DNA é capaz, eis um milagre espantoso. Porém, os filhos não são apenas uma junção de DNAs distintos. São sujeitos livres, que durante boa parte do tempo nos ignoram, ainda quando pequenos, e muito mais quando chegarem à idade adulta. Criar um foco de liberdade; dar nascimento a um entezinho autônomo; saber que da máxima dependência virá a máxima independência --há algo nisso que não se resume ao mero sentimentalismo da paternidade, nem ao simples e velho amor. Corresponde, talvez, a uma despedida de nosso próprio jeito de estar no mundo, tão limitado. Despedida que não surge como perda, mas como acréscimo imaginário: eis o tipo de homem, o tipo de mulher, que fui capaz de fazer, e que vai além daquilo que eu próprio fui.
Escrito por Marcelo Coelho às 15h06
Penguin Club
Tempos atrás, elogiei a nova geração dos videogames, os do tipo Wii. Meu filho, bastante frágil diante dos apelos da eletrônica, interessou-se pelo Wii, e achei um progresso. Em vez de neurotizar-se com as teclas de flechinhas à direita e à esquerda, que respondem pelos movimentos de um Batman impotente escalando prédios e barris de pólvora, o garoto de 7 anos trata de simular, no Wii, os movimentos de um jogador de boliche ou de tênis. O dispositivo eletrônico, acoplado ao braço como uma pulseira, oferece entretenimento mais parecido com esporte do que com joguinhos de computador. Doce ilusão. Entrou em casa, logo em seguida, a gripe do “Penguin Club”. Trata-se, pelo que consegui perceber, de uma cidade virtual, ou de “second life”, em que a criança adquire a identidade de um pinguinzinho. Logo se abrem para ela incontáveis possibilidades de consumo: móveis para seu iglu, animais de estimação que será preciso alimentar, roupas de inverno etc. Para “comprar” esses complementos (eis o lado educativo do jogo), o pinguinzinho terá de trabalhar duro. Há empregos numa pizzaria, por exemplo, em que conforme a quantidade de pizzas feitas o nosso pequeno herói ganha as moedas que irá gastar logo em seguida. Até aí, tudo bem. O problema é que o “Penguin Club” se torna mais viciante do que qualquer outro jogo de computador. Pois o videogame normal acaba quando se desliga o laptop. Aqui, não. O pai pode desligar o computador, mas a criança continua endividada ou workaholic em seu mundo virtual. Alimentar os animais de estimação se torna, por exemplo, um dever moral, contra o qual a proibição paterna de acessar o jogo não dispõe de legitimidade. Mesmo assim, em casa foi possível regular a apenas dois dias por semana o acesso ao “Penguin Club”. Enquanto isso, meu filho sofre para aprender a andar de bicicleta sem rodinhas. Lembro-me sem saudade de minhas lutas nessa área. Convencido de que seu pai nunca aprendeu a andar de bicicleta (se aprendi durante alguns anos, desaprendi nas décadas seguintes), meu filho se desespera e desanima. Conseguiu avançar alguns metros em linha reta, durante as férias que passamos num hotel-fazenda. De regresso a São Paulo, foi levado ao Parque do Ibirapuera para aprimorar a nova habilidade. Não houve jeito. Não quis saber de bicicleta. Chorou diante da dita cuja, alugada com tanta esperança pelos pais. “Não sei, não ando, vou cair”. Apelos, ameaças, argumentos, nada adiantava. Seria um crime desperdiçar todos os esforços dispendidos no hotel-fazenda: se lá meu filho estava perto de saber andar de bicicleta, uma desistência agora significaria jogar no lixo todas as conquistas feitas alguns dias atrás. Foi então que o “Penguin Club” mostrou sua utilidade. “Se você tentar andar de bicicleta de novo”, disse a ele, “você terá uma hora a mais de ‘Penguin Club’ quando a gente voltar para casa”. Ele subiu na bicicleta sem rodinhas. Treinou, caiu, levantou-se, pedalou, foi em frente, deu a volta por cima. De choroso e humilhado, de deprimido e envergonhado, de medroso e sem auto-estima que estava, ganhou neste dia a certeza de que sabe andar de bicicleta. Entregou-se depois ao videogame. O “Penguin Club” é vício, não há dúvida. Mas com um pouco de barganha sempre se pode transformar um vício em virtude.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h46
o freguês da barbearia
Vou ao banco, tirar dinheiro do caixa eletrônico, e passo pela barbearia da esquina. São cerca de três da tarde. A barbearia, toda envidraçada, é daquelas bem antigas, com profissionais de cabelos brancos, uma espécie de loção cor-de-rosa sem marca que pulverizam com uma bombinha como aquelas de tirar pressão. Como a rua é em declive, os fregueses que se sentam mais próximos da esquina parecem um bocado elevados a quem passa pela rua. Vejo um menino pequeno, cabelos encharcados, metido num aventalão branco como se fosse um antigo freguês do estabelecimento. Só percebo depois de uma fração de segundo: é o meu filho menor! A babá o levara para cortar o cabelo. Meu impulso inicial foi entrar na barbearia e ficar com ele. Verdade que tinha outras coisas a fazer. Não fui. Em geral, tendo a achar que o primeiro impulso, com os filhos, é o mais certo. Mas tive um prazer novo ao vê-lo um pouco mais de longe, entregue à própria vida, sem precisar de mim; ainda mais quando entregue a uma fração de existência tipicamente adulta. Com oitenta anos ou cinco, o freguês da barbearia será sempre o freguês da barbearia. A não ser, é claro, que fique completamente calvo na meia-idade, futuro que não desejo ao meu filho.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h29
noites de campeonato
Não sou corinthiano, mas parabenizo o time por mais uma conquista; não sou corinthiano, mas quase fiquei, por ocasião dos primeiros gols de Ronaldo, em quem já não se acreditava. Agora, para quem tem crianças pequenas em casa, cada uma dessas finais de campeonato se transforma num verdadeiro inferno. Tudo bem, moro perto de um estádio, mas o jogo nem foi aqui em São Paulo, e os rojões vão no mínimo até meia noite e meia. Pior, o foguetório é acompanhado cada vez mais de um tipo de vociferação gutural, a que falta até mesmo a nota canora da alegria: ouço urros de animal ferido, lamentos cavernosos, uivos de assombração. Não importa o time, meus filhos acordam apavorados. Bebês naturalmente sofrem mais. É o tipo da coisa que vai compondo uma vida de cidade grande que se torna a cada dia menos urbana, menos policiada, menos civil. Contribui para isso o fato de os jogos serem tão tarde. Rabugices da meia-idade, ou de “envelhecente”, como diz, se não me engano, Mário Prata. Paciência: um dia vou terminar surdo, ou, quem sabe, fanático por futebol.
Escrito por Marcelo Coelho às 00h38
crianças em viagem Minha ausência deste blog no feriado se deve a uma viagem ao Rio de Janeiro, que fiz com a família. Achei que, aos 7 e 5 anos, meus dois filhos poderiam aproveitar um pouco da cidade. Não deu muito certo; foi cedo demais. O tempo não ajudou nos primeiros dias, mas de qualquer modo crianças dessa idade desconsideram bastante as belezas naturais de uma cidade. Os pais propagandeiam ao máximo o passeio no bondinho no Pão de Açúcar. Claro que as crianças aderem ao programa; insistem em realizá-lo mesmo quando uma tempestade assustadora se aproxima. Eis que o tempo aclara. Vamos ao bondinho. É uma vitória. Da qual, todavia, os meninos logo se desinteressam. Há a sensação de ser transportado num teleférico; algum medo da altura, e só. Logo eles querem sair daquele lugar coalhado de turistas e de ilhas, de filas e de horizontes. Meu filho maior queria brincar com os videogames do celular da mãe; o menor exigia uma gigantesca torta de chocolate meia hora antes do almoço. Não vou condená-los por isso, claro. Lembro-me de ter entrado, criança, no velho bondinho do Pão de Açúcar; não sei se tinha cinco ou sete anos –fui duas vezes ao Rio nessa época. Guardo da experiência um monte de pernas de adultos e de nuvens. O significado da paisagem, a grandeza do panorama, é coisa inacessível às crianças. De minha estada em Copacabana, em 1967 ou coisa parecida, só me lembro de algum divertimento na praia, do cheiro ruim que havia no elevador de serviço, do fato de que a TV carioca transmitia antiquíssimos seriados do Super-Homem e do Mandrake que não passavam em São Paulo. Imagino que meus pais talvez se irritassem, como me irritei agora. “Estamos vendo vistas maravilhosas, e o menino está grudado na televisão!” Uma tia passava horas na sacada do apartamento, vendo os movimentos do mar e da avenida Atlântica, naquele tempo anterior ao calçadão. Intrigava-me seu olhar absorto (ela era surda, além do mais). Muito mais tarde, explicaram-me seu fascínio. Senhora católica e solteira, o que ela acompanhava da sacada era a movimentação das prostitutas na calçada. Talvez não; recuso-me a interpretações tão perversas. Estava ali, simplesmente, vendo tudo, as montanhas e o vício, a praia e o pecado. Que importa? O chato de ser criança é que a gente não vê coisa nenhuma. Vemos apenas a televisão, o chocolate, a revistinha. Nossa visão é curta, recurva, minuciosa, pouco ereta. Não há paisagem possível. Há sensações corporais, e minúcias gravadas na retina. Toda criança é um microscópio. Anos atrás, levei meu filho mais velho ao zoológico. Mesmo fenômeno: ele não conseguia se fixar nos tigres sonolentos e longínquos que abanavam a cauda perto de uma pedra sem graça. Queria sorvete, queria ver formigas e gravetos. Não leve suas crianças para “passeios”. Elas só entendem “atividades” e “brinquedos”. Precisam de “assuntos”, não de “horizontes”. Sem compreender isso, irritei-me a valer neste feriado. Sinto que preciso de um descanso. No Rio de Janeiro, quem sabe. 
foto de Hermano Taruma
Escrito por Marcelo Coelho às 15h46
o vício do videogame
Durante o último ano, um dos maiores focos de tensão doméstica na minha vida teve nome e sobrenome: videogame, playstation 2. Meu filho de seis anos entrou de cabeça nesse mundo infernal de fases, vidas, créditos e combates. Saía do playstation para o computador: mais joguinhos, num frenesi de cliques e teclas de flechinhas, absorveram assustadoramente a sua atenção. Grandes lutas se travaram no momento de tirá-lo do computador. Como um dependente químico em último grau, meu filho esperneava diante das regras e horários que, com um mínimo de bom senso, os pais devem impor a esse exercício de obsessão computadorizada. É especialmente doloroso, para os pais, ver uma criança viciada. Ela se torna o espelho de nossas próprias dependências. Quem não corre, chegando em casa, até o computador para ver os últimos e-mails que recebeu? Ou recusa os apelos dos filhos (“vem brincar comigo!”) para conferir os recados na secretária eletrônica? Nunca achei muito sério, por exemplo, o pecado da gula. Mas quando o vejo numa criança –roubando as jujubas que estavam reservadas ao irmão ou ao amiguinho--, percebo o quanto sou capaz da atitude, e do quanto nela existe de imoral. Meu egoísmo surge em cores renovadas quando o percebo num filho que se parece, na mágica exatidão do DNA, comigo mesmo. Felizmente, vejo também algumas qualidades minhas refletidas ingenuamente na descendência que gerei. O amor de um pai é mais forte do que qualquer outro, porque se alimenta de narcisismo também. Mas voltando ao vício dos videogames. O problema desapareceu por completo. A solução mágica se chama Wii. É um outro tipo de videogame –e que, até por isso mesmo, hesitei muito em comprar para os meus filhos. Acontece que o Wii é diferente de qualquer videogame. Simula, na tela, esportes como tênis, baseball, boliche e box. A criança (ou o adulto) acopla ao pulso um comando, uma espécie de “supermouse”, que transmite os movimentos do braço ao personagem projetado na tela da TV. Passamos, assim, do mundo enclausurado dos botões e minúcias gestuais do videogame para o campo aberto, para o “ar livre”, se cabe a expressão, dos movimentos largos de braço impostos a quem simula um jogo de boliche. De resto, um esporte como o tênis ou o box não tem a estrutura doentia das múltiplas fases de um videogame. Suas dificuldades são as mesmas; não crescem a cada vitória. Cansam mais, também. Posso imaginar alguém gastando horas e horas diante de um desafio no computador. Não é tão frequente alguém viciar-se num jogo de golfe. Pelo menos, foi isso o que aconteceu em casa. O Wii, que tinha tudo para ser a intensificação diabólica do videogame, mostrou-se um antídoto saudável para o problema vivido nos últimos tempos. Longa vida a seu inventor.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h01
moral e moralismo Já com 7 anos, meu filho mais velho toma aos poucos distância de mim, e do círculo familiar propriamente dito. Vejo-o sozinho às voltas com a lição; recolhe-se em silêncios enquanto o irmão menor trata de ocupar o espaço que lhe foi aberto. Começo a saber das atitudes do meu filho maior pelos relatos que me chegam de outras pessoas. Fico feliz com suas preocupações. Ele saiu outro dia com a cozinheira; foram à padaria. Perguntou a ela: “você é pobre?” Eis uma questão que começa a surgir na cabeça dele, e não sei se existem contos infantis sobre esse assunto –o da desigualdade de renda no Brasil. A cozinheira respondeu que sim. Meu filho insistiu: “Mas você não tem dinheiro?” Ela disse que não tinha. “Nada?” Ela tranquilizou-o um pouco. “Olha, agora não, mas logo chega o fim do mês, e seu pai vai me dar o salário”. De volta para casa, meu filho foi até o cofrinho e tirou 80 centavos. A soma tem algo de simbólico para ele, porque em outra ida à padaria ele contribuiu com a mesma quantia nas despesas do lanche. Deu as moedas para a cozinheira. “É para você”. Claro que ele não sabia o quanto de sacrifício, o quanto de bagatela, havia nas moedas que tirou de seu tesouro pessoal. Gostei, evidentemente, de sua preocupação com as finanças da cozinheira. Gostei também de outro episódio, que vai em sentido contrário. Ele ganhou recentemente um joguinho de batalha naval. Não é como os do meu tempo, que se resumiam a folhas de papel impresso nas quais desenhávamos a geometria caprichosa dos destróieres e encouraçados. Hoje tudo é de plástico, com pininhos para marcar os tiros dados e recebidos. O jogo se estendia para além da hora de dormir. Meu filho disse que estava com vontade de ir ao banheiro. Passou lentamente atrás dos meus ombros. Percebi que ele queria localizar os meus navios. Ele não se importou demais em disfarçar a própria astúcia. Foi e voltou, enrolou um pouco, até guardar na memória a localização do meu destróier. Dei risada, evidenciando perceber a artimanha. Ele riu também, e foi adiante, ganhando o jogo. Melhor assim. Sei como teria me comportado aos sete anos: por mais que desse importância à vitória, nunca teria tido essa malícia. Para mim, o certo era o certo, o errado era o errado. Roubar no jogo? Nunca. É levar as coisas com seriedade demais. Perdi amizades por causa disso. A ingenuidade de dar 80 centavos à cozinheira se combinou com a malícia de roubar na batalha naval. Eis a diferença, para mim difícil de graduar, entre moral e moralismo. Pelo que vejo, por enquanto, meu filho me ensina mais do que tenho a ensinar-lhe.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h57
Espaço Catavento
Escrevi há algum tempo sobre o estado de abandono em que encontrei o “Estação Ciência”, na Lapa. Fui com meus filhos conhecer o Catavento , outro e maior museu científico, estalando de novo no Palácio das Indústrias, antiga sede da prefeitura paulistana, em pleno Parque dom Pedro. A maior sensação que o museu produz é de novidade: tudo limpo, tudo organizado, tudo funcionando. A própria descoberta daquele palácio, perdido no meio de um nó de viadutos (vá de táxi: impossível chegar de carro lá), tem algo de espantoso, como se tomássemos consciência de ter recebido uma herança milionária de um tio distante na Arábia Saudita. Meus filhos (7 e 5 anos) adoraram. Justiça seja feita, também não desgostaram do Estação Ciência. Mas algumas experiências apresentadas pelo Catavento foram especiais. Por exemplo, um dispositivo capaz de produzir bolhas de sabão gigantes. A criança, introduzida num aro de líquido ao rés do chão, puxa uma cordinha, que aciona uma roldana, que suspende um bambolê úmido ao redor de seu corpo, do qual se desgruda aos poucos uma película de bolha de sabão. Meu filho menor adorou a brincadeira. Fiquei pensando, entretanto, qual a verdade científica que se queria demonstrar com esse negócio. Fiquei pensando também, um pouco mais tristemente, que se alguém viesse me explicar o interesse científico da coisa... eu não me interessaria nem um pouco. O mesmo acontece com o caso fotogênico de uma esfera de cobre, que quando tocada faz os seus cabelos se levantarem. Divertido. Dizem que isso tem a ver com eletricidade estática. Ninguém, essa a verdade, ficará mais ligado no problema da eletricidade estática depois de brincar com o aparelho. Rabugices minhas. Uma grande qualidade do Catavento é justamente a de apresentar explicações sobre tudo, em pequenos cartazes ao lado de cada item exposto, e de acrescentar, num outro cartaz, informações suplementares para quem quiser se aprofundar no assunto. O terrível, por outro lado, é que as crianças de hoje estão lá menos para ver, experimentar e sentir, e sim para procurar coisas que se assemelhem minimamente a um videogame. Boas explicações sobre Darwin e sobre a classificação dos vertebrados adotam essa forma de jogo de computador. São um sucesso de público. Que assim seja. Também, o que eu queria? Que um museu tirasse todo o meu trabalho de entender as coisas, e ao mesmo tempo estimulasse minha curiosidade? Seria pedir demais a um preguiçoso em matéria de ciência, como eu. Penso, entretanto, que o Catavento ganhará muito se criar exposições temáticas –o Pólo Norte, o rio Tietê, os morcegos— que possam fortalecer um sentido de interdisciplinaridade e de conexão com o real, bem diferentes da divisão clássica (ótica, eletricidade, magnetismo etc.) que ainda orienta o espaço da exposição.
Escrito por Marcelo Coelho às 23h29
Vírus e filhos Comento rapidamente, no artigo da próxima quarta-feira, o livro do médico Stefan da Cunha Ujvari, A História da Humanidade Contada pelos Vírus (ed. Contexto). Vai transcrito aqui um trecho perturbador. Versa sobre a utilidade de vírus anteriormente letais. Após ocorrer a fecundação (...) a futura célula que formará o feto inicia sua migração para a cavidade uterina. No mesmo instante em que as divisões celulares caminham a passos largos, já no útero algumas células iniciam a formação da placenta. Ela formará nutrientes e oxigênio para o crescimento do futuro feto. Algumas células se proliferam e se infiltram no interior da parede uterina. (...) Aqui entram em ação alguns genes pertencentes aos retrovírus endógenos. No passado esses genes eram responsáveis pela produção de proteínas responsáveis pela fusão do vírus à célula invadida. Esses genes auxiliavam o ataque viral e introdução do seu material genético na célula. Hoje, esses antigos e agressivos vírus estão incorporados em nosso DNA. Seus genes comandam a produção de proteínas liberadas nas células enraizadas na parede uterina. É como se nenhuma vida nova fosse independente de um princípio de morte. Como se cada gravidez fosse, em última análise, um câncer. Vivemos para criar novos seres como nós, e morremos nesse processo.
Escrito por Marcelo Coelho às 01h34
taxistas e contos de fada
Fui ver com meus filhos a exposição inspirada em contos de fadas no Centro Cultural Banco do Brasil. “Era uma Vez... Arte Conta Histórias do Mundo” é um belo trabalho de curadoria de Kátia Canton, reunindo ilustrações muito originais para “Chapeuzinho Vermelho”, “A Roupa Nova do Rei” e “O Patinho Feio”, por exemplo, ao lado de gravações, disponíveis em fones de ouvido, de histórias africanas ou italianas. Para as crianças, ou pelo menos para as minhas, de 7 e 5 anos, a exposição entretanto não deu certo. Meu filho maior, aliás, tem um certo trauma de exposições, desde que viu há algum tempo na Pinacoteca um vídeo que focalizava uma boca enorme, pronunciando palavras que ele não compreendia. Ficou com um medo enorme dessa boca, e não pode ouvir falar de novas visitas à Pinacoteca. O menor é muito agitado, aproveitando qualquer espaço de museu para correr como um adoidado. De qualquer modo, uma coisa ajudaria o sucesso da exposição no CCBB entre as crianças. Seria preciso colocar os quadros a uma altura um pouco mais compatível com a estatura dos pequenos visitantes. Crianças menores têm dificuldade em ver o que está pendurado na parede. Mais instalações e menos quadros, quem sabe, funcionariam melhor. Uma instalação de Luiz Hermano, no subsolo do prédio (onde ficava o cofre do Banco, como se pode ver pelas pesadas portas de ferro que se preservaram), traz alguma sensação de aventura para as crianças. Os adultos, entretanto, não estarão enganados se a considerarem meio feia, desajeitada, incapaz de criar o clima que pretende. De todo modo, o passeio valeu a pena. Meus filhos puderam conhecer o centro da cidade, totalmente vazio no feriado, com seus prédios cerrados apontando para o céu. Reencontrei, no meu filho menor, uma experiência de infância: a de olhar para o alto, enquanto nuvens corriam rápidas num dia de vento, e ter a impressão de que os edifícios se moviam. Um capítulo à parte merecem os motoristas de táxi a que recorri no passeio, incapaz que sou de chegar na rua Álvares Penteado de moto próprio. Na ida, o chofer do ponto perto de casa contou uma tentativa de assalto de que foi vítima nesta semana. O assaltante tinha 74 anos! Entrou no carro, com o braço esquerdo na tipoia, enquanto a mão direita empunhava uma faca. “Esse aí eu encaro”, raciocinou o taxista, travando o braço do passageiro com uma mão, abrindo a porta do carro com a outra, e jogando com os pés o assaltante para a humilhação do meio-fio. O bandido septuagenário foi arrojado à calçada no exato momento em que uma senhora saía de sua residência. Ela interpelou o taxista: como o senhor faz isso com um homem de idade? O taxista invocou sua condição de vítima. A mulher exultou: envolveu-se numa perseguição ao pobre velho (demente, talvez?) até que ele desaparecesse de vista. Na volta, peguei um táxi cujo motorista rememorava seus feitos de antigo praticante de artes marciais. Participaria de um campeonato paulista de caratê, mas seu peso estava abaixo do prescrito para a categoria em que se inscrevera. “Nenhum problema”, foi o seu raciocínio na época. “Entro num bar, tomo três litros de água, e na pesagem fico com o peso certo.” Urinaria depois, e participaria do desafio. Pelo que entendi, um dos organizadores do campeonato se opôs ao plano. Sucedeu-se uma exaltada discussão. Os dois, sem entrar em nenhum tatame, passaram às vias de fato. O motorista de táxi sorria para mim. “Adivinha quem ganhou a luta?” Fiz a cara de quem sabia que tinha sido ele. Meus filhos, com outros dois amiguinhos, se engalfinhavam no banco de trás. Voltei para casa pensando que cada adulto, em especial se for homem, e mais ainda se for motorista de táxi, está imerso em seu próprio conto de fadas.
Escrito por Marcelo Coelho às 03h22
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