ingênuos, mas não tanto
Na série de cartazes populares e figurações rústicas, de que tenho descurado há algum tempo, podem-se encontrar verdadeiros tesouros no site da galeria Jacques Ardies, dedicada à arte “naïf”. Certamente, alguns pintores exageram na dose, forçando a nota idílica e pastoral.
Gosto mais dos que prentendem retratar a realidade urbana, transfigurando-a com olhos e cores de quem conhece as paisagens do interior. É o caso de Cristiano Sidoti, nascido em 1976, aqui em São Paulo mesmo.

Ele pinta a Barra Funda como se tudo fosse uma quermesse de prédios. Não é preciso abstrair bandeirinhas, como Volpi, para ser interiorano (e crítico) ao retratar a modernidade brasileira.
Também paulistana, a pintora Luciana Mariano é ainda mais crítica, e renova com inteligência perversa as tradições da arte “naïf”.
Todo pintor naïf, afinal, procura retratar o “humano” das coisas. Se a arte moderna foi, segundo Ortega y Gasset, “a desumanização da arte”, o “naïf” pode ser entendido como uma busca quase desesperada pelo reconhecível, pelo sentimental, pelo imediato na figuração. Pois bem, Luciana Mariano usa a linguagem do naïf para buscar o “desumano”, o “estranho”, na sua pintura.

Sem dúvida, Magritte apostou no realismo da linguagem para transmitir inquietações no espectador. Luciana Mariano faz um jogo parecido, e talvez, a meu ver, mais inteligente: usa a linguagem do naïf para transmitir uma ausência do sujeito “humano”, sem que lhe seja necessário recorrer aos truques visuais e imaginativos de Magritte.
A “humanidade” volta com tudo nos quadros de Zé Cordeiro, nascido em São Paulo em 1942, que expõe prostitutas de rua numa pintura direta e habilíssima. Em “As Meninas do Sodré” vemos três mulheres retratadas de frente, numa calçada.

É como se o pintor, mostrando-as assim, imitasse o próprio oferecimento delas ao freguês. Acentua o volume dos joelhos e das coxas; não estamos aqui diante de um pintor tão “naïf” a ponto de reduzir tudo a duas dimensões apenas. Mas a explicitude corporal das três figuras se cerca de sutilezas. O olhar de cada uma, por exemplo: só a aparentemente mais velha das três (vemos pelas olheiras) encara o espectador de frente. Enquanto isso, no fundo do quadro, outras coisas acontecem.
(O senso do “acontecimento”, aliás, é típico do “naïf”, a começar de Brueghel). Um homem está fazendo xixi, do lado esquerdo do quadro. O leão de chácara aparece, de pernas abertas, na entrada da boate.
E que ciência de cores vemos no quadro de Zé Cordeiro! Tudo é ao mesmo tempo descombinado e se combina. Na mulher da direita, roxo e verde, azul e branco, o amarelo do cabelo e o vermelho das rosas do estampado, funcionam maravilhosamente, apesar de sua tensão interna, que dirige o olhar do espectador à direita, onde uma figurinha de branco lhe propõe uma espécie de venal alívio. Um pintor como esse é “naïf” (ingênuo) só no nome.
Waldomiro Sant’ Anna, nascido em 1952 em Itápolis, e professor em instituições universitárias, joga um jogo mais arriscado. Possui a técnica dos volumes, das profundidades, das luzes –coisa que muitos artistas na galeria Jacques Ardies ignoram, voluntariamente ou não.
O espetáculo da prostituição de rua, que víamos tão explícito em Zé Cordeiro, adquire veladuras de boate em Waldomiro Sant’ Anna.

Como não admirar a graça da curvatura da figura de costas, na extrema direita do quadro? Repare, ao mesmo tempo, nas mãos da mulher de vermelho: uma espécie de agressiva inabilidade está em pauta nas atitudes do pintor. Inteligente a luz azul no canto superior esquerdo do quadro.
Seria Waldomiro Sant’Anna um pintor “naïf”? Aí intervém a importância dos rótulos. Se ele se apresentasse como um artista sério e informado, seus quadros seriam desprezíveis, talvez. Como “ingênuo”, ele se torna monumental. Sua geometria lembra Boccioni, sua rigidez lembra Baldus. Reparou no cachorrinho escondido debaixo de um canapé? Também o xadrez geral da pintura alude aos mestres holandeses.
Ingênuo, naïf, é a mãe. Esses artistas são de uma inteligência fora do comum.